De longe já dava para vê-lo sentado ao poço. Preferia que não estivesse lá, como nos outros dias. Venho aprendendo a escolher lugares e horas que me ajudem a ficar só. Aquele poço e sua distância de tudo e todos, aquela hora e seu sol a pino traziam menos desgaste que esbarrar naqueles, quaisquer que fossem, cujos olhares espelhassem o pior de mim.

A aproximação acrescentou um dissabor, não bastasse alguém atrapalhar minha solidão, agora ficava evidente que o homem perto do poço era um judeu. Os babados da sua roupa de bom judeu anunciavam um daqueles que se crêem puros a despeito de nossa impureza. Nada é mais opressor que se enxergar tão estranha e detestável nos olhos de quem quer que seja.

Ao poço, o inusitado mostrou a face. Antes que pudesse deixar nítida minha pressa e indiferença, pediu-me água. Eu sei que a cortesia mínima não rejeita água sequer ao inimigo, mas não soube disfarçar minha amargura. Neguei-lhe e lembrei-lhe o óbvio, era homem e eu, mulher; era judeu e eu, samaritana. Fronteiras fortes o suficiente para que nem a mais sofrida angústia licenciasse o encontro. Nenhum preconceito é tão cruel que não possa servir a uma doentia e útil comodidade.

Ainda assim não me livrei do peregrino. Insistiu, apesar da cara de fadiga e dos lábios ressecados, e advertiu-me de estar desperdiçando uma grande chance. Falou-me da água de um jeito estranho. Não tive certeza se tentava me propor um enigma, como fazem os mestres e profetas, ou se de fato conhecia alguma água com poderes mágicos. Mas ofereceu uma água viva que resolveria a sede de uma vez por todas. Fiquei confusa. Não estou acostumada a esses devaneios, coisas de poetas e profetas, ou insanos. Sempre ali, icei baldes de água que, além de mal saciar minha sede, traziam o enfado de um serviço que nunca finda. Aos meus olhos, balde é balde, água é água, e gente nunca faz muito mais que trazer transtornos.

E mesmo depois de interromper o palavrório mostrando o absurdo de oferecer qualquer que fosse a água sem ter ao menos um balde, continuou a falar de tudo como se nada pudesse ser apenas o que sempre foi. Parecia falar de nada que já antes ouvi, como se tudo pudesse ter outra versão.

E falava como se fosse maior que aquele que cavara o poço, Jacó, nosso pai.

Falava como se palavras cavassem poços e baldeassem saciedade.

Talvez um poeta deslumbrado.

Sendo assim, aceitei a proposta da água viva e entrei na brincadeira. Dei ainda um certo tom de seriedade: ‘apenas para não ter mais o trabalho de ir ao poço’. Um silêncio e de novo aquele olhar insano de quem vê através das coisas e engendra o surpreendente. Eu, que queria não voltar ao poço de água, fui convidada por ele a voltar à origem da minha sede. Mandou-me buscar o marido, esse tipo de gente que primeiro abandona a imaginação, para depois abandonar a esperança e o amor.

A brincadeira perdeu a graça. A guinada da água para o coração causou-me vertigens. Lacônica, disse-lhe não ter marido. E não é que sequer esboçou surpresa? Nem um tom escrupuloso. Sabia de todos os maridos que tive e daquele que me toca, mas não me abraça. Senti meu rosto como um livro que se desenrola diante de um leitor. Seria eu tão evidente? Ou ele, um leitor habilidoso de gestos e olhares? Quem?

Poeta, sim. Louco? Com certeza e daqueles que a gente, atordoada, chama de profeta.

Alguém com versões tão diferentes do que a vida toda ouvi. Que fala estranhamente de tudo, mas com tanta graça. Que transfigura o óbvio e enxerga o avesso do que sempre me enfadou. E, sem pá, explora profundidades e, sem balde, baldeia com as palavras novos sentidos e embebe a vida de significados vários. Alguém assim pode me falar de Deus também com surpresa. Salvou-me da culpa de não ser amada, quem sabe salvará o divino do meu tédio?

Fala de Deus, poeta. Baldeia também o divino de outro poço, profeta. Porque tal como esta água, o que de Deus eu sei me angustia mais que sacia. Os samaritanos falam de um que é mais Deus em nosso templo que naquele de Jerusalém. Deus é só isso? Dos judeus ou dos samaritanos? De Jerusalém ou de Gerisim? Do templo que não me quer, ou que não me cabe? Dos homens e suas vaidades másculas e truculentas? Reiventa, poeta. Redescreve, profeta.

Bem naquela hora, uma brisa boa refrescou nossos rostos e a conversa, já tão tensa e grave. Ele, por um instante, pareceu esperar pelo sopro como um cantor aguarda o acorde da harpa. Como um poeta espera a metáfora que libertará a imaginação. Chamou o divino de vento. Desse que sopra selvagem e solto no deserto; desejado, mas indômito. Para além de qualquer estrutura, imprevisível, tão livre que apenas os que também anseiam pela liberdade podem encontrá-lo. Disse que Deus é vento e procura por quem, ao adorá-lo, também vai além dos edifícios e suas rígidas estruturas, tal qual o indomável e inventivo vento, e só assim o encontra de verdade.

Porque a verdade nunca é o que já se disse, mas o que está por dizer.

A verdade nunca é o que a brisa já deixou desenhado na areia, mas o vento que sempre está por soprar e redesenhar o chão de nossa existência.

Então? Vocês não querem vir e ouvi-lo? Ele (re)contou tudo o que tenho feito. Acho que é o Messias. Certamente não o que esperávamos. Mas o Messias. E eu, nossa! Esqueci meu cântaro lá, de tão lembrada que estou de tudo o que ainda posso ser.

Elienai Cabral Junior

Filha,

nem direi mais que daria tudo para assisti-la desfilando seus sonhos, despedidas e expectativas nas passarelas de logo mais. Esses graúdos olhos enxergam a vida com gula. Gosto de observá-la engulindo o mundo com sua fome de viver, de fazer amigos, de mexer na história ao seu modo. Lembre aos teus admiradores que não desgrudem os olhos dos teus olhos, eles serão o palco mais lustroso dessa noite de gala. O paraninfo mais eloquente não será o professor mais querido, mas teu olhar reluzente. Peça à mamãe que fotografe teus olhos, preciso deles para insistir nos meus horizontes. Teu olhar me faz ver o divino.

Formar-se é uma tentativa de chamar um evento que tenta congelar o tempo. Pense comigo, que vivo forma-se por fim, senão na morte? Esta noite é apenas um retrato. Devia chamar-se ‘retratatura’. Porque é apenas a captura desesperada de uma cena. Graças a Deus ninguém nunca se forma enquanto vivo. A vida é uma linda informatura.

Ao desfilar na direção da mesa de professores, todos te olharão famintos de sua fome. Porque o sumo da vida é a fome, esta ânsia de experimentar o inédito, o inaudito, o imprevisível. Tome o ‘canudo’, erga-o, engula o auditório com teus olhos. Se vierem as lágrimas, lembre-se que vêem para embaçar sua visão imediata das coisas, o que lhe capacitará a enxergar pela imaginação todos os mundos por conquistar, todas as vidas por degustar, todos os abraços e amores, todo o prazer de existir em um mundo da informatura. Se quiser, enxugue as lágrimas, mas não pare de imaginar seu mundo no mundo que está aí. Traga o canudo ao peito, aperte-o e como uma sacerdotiza em um ritual, lembre-se dessas palavras: viverei para amar e ser feliz. Muitas formaturas virão. Mas as informaturas é que importam. As informaturas falam do que na vida não termina jamais. Meu amor por você é a informatura que hoje lhe dedico, ninguém diploma o que sinto, Clarinha, nem eu.

Quando der certo, qualquer coisa, você terá meus abraços e alegria. E quando não der, terá meu colo e companhia. O curso do meu amor não terá jamais formatura.Pode ir, linda e gulosa de viver, colecione diplomas, porque você já é amada de antemão e para sempre. Meu beijo nesta noite de (in)formatura.

Papai

Não sei se você é mais meu amigo. Hoje, dia de lembrar que não dá pra esquecê-lo, duvidei de você, ou do que tenho te chamado. Amigo. De repente já não aceito mais sua amizade. Já chamei gente demais de amiga. Gente por quem passei. Falo com dor. Passei por tanta gente boa que não posso deixar de chamá-los de amigos. Passei por suas lembranças, doces e queridas, mas muitas já quase apagadas. Retratos de uma passagem, flagrantes do que não é mais. Imagens doces, mas imprecisas. Que pena! São meus amigos aqueles que o tempo borrou suas imagens. Desenho de uma saudade que não mais tenho.

O que importa agora é que você deixou de ser meu amigo. Não sei quando e é isto que me cura. Chamo de amigas as pessoas de quem sinto uma estranha saudade por não mais sentir falta, apenas saudade. Mas estas, basta bater a poeira das parcas memórias, sei exatamente quando se tornaram minhas amigas. Foi no dia em que nos despedimos e eu, de novo, passei por elas. Meu desconforto neste dia que não deveria existir no seu caso, já que estas datas são coisas de amigos, gente que precisa se lembrar do que se importar, é de que sei exatamente quando e onde fui impedido de chamá-lo de amigo. Curioso! Também em uma despedida. Ali eu já duvidava do que só hoje descobri, jamais seríamos amigos.

Não quero nunca mais chamá-lo de amigo. Também o proíbo, já que não o é, de que assim me chame. Não gosto do que penso quando a alguém chamo de amigo. Melhor, quando chamá-lo não lhe darei nomes. Apenas direi seu nome e calarei. Faça o mesmo. Beberemos e comeremos juntos. Falaremos de nossos amores e de quantos amores nos deram. Jogaremos ping-pong e sinuca. Correremos. Oraremos nossas poesias. Cantaremos nossas prosas. Depois, quando tivermos que nos chamar de alguma coisa, ficaremos em silêncio e eu reverenciarei aquele por quem não passei. Graças a Deus! Já tava na hora! Despedi-me à toa de alguém. Não há flagrantes embaçados. Nem de fotos precisamos. São insuficientes as imagens e os nomes. Tenho você na alma. Os amigos, tenho nas fotos. Ah! Também não tirarei mais fotos suas.

Parabéns pelo dia que não preciso para lembrar de você.

Elienai

Por grande parte dos últimos 4.000 anos Deus tem estado criticamente enfermo. Os informes que temos a respeito de sua natureza e função indicam que seus padrões de relacionalidade, afeto e conceitualização tem estado fora do intervalo normal. Para ser específico, Deus tem aparentemente sofrido de esquizofrenia paranóide crônica, ou um severo transtorno de personalidade limítrofe, com episódios erráticos, isto é, não provocados, de psicose. A cadeia de informes dominante indica que ele opera sob a noção psicótica de que está envolvido numa batalha cósmica com outro deus que ameaça frustar, corromper e arruinar a sua obra. Esta é uma síndrome psicótica clássica a partir da qual, segundo os informes, ele forma uma ideação global que molda toda a sua visão de mundo, sendo que não existem dados empíricos, heurísticos ou fenomenológicos que indiquem que esse conflito cósmico ou realidade maligna de fato existam. Sua noção de realidade não tem uma realidade que corresponda a ela. Além disso, esse modelo de ideação é especificamente paranóide, visto que indica que ele acredita que há forças exteriores trabalhando contra ele, quando não há evidência de que essas forças existam. Se os relatos a respeito de Deus são acurados, essas noções são produtos da sua própria imaginação doentia. Deus é um lunático. O Deus da antiga religião israelita, que produziu o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, é facilmente diagnosticável sob as rubricas do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado periodicamente pela Associação Psiquiátrica Norte-Americana.

Deuses doentes geram gente doentia. Ou, para colocar de modo ligeiramente diverso, Deuses doentes fazem com que as pessoas fiquem doentes. Do mesmo modo que filhos e discípulos tomam como modelo seus pais e mentores, indivíduos e comunidades humanas criam a si mesmas na imagem de seus Deuses. Deuses doentes provem modelos doentios que produzem gente doentia e comunidades doentias. Para se garantir bem-estar pessoal e comunitário, é necessário que Deus esteja bem – ou pelo menos o inverso é verdadeiro. Quem tem um Deus doente não tem como alcançar o bem-estar, seja individual ou comunitário.

Talvez você sinta que estou sendo de algum modo severo demais em meu diagnóstico. Permita-me então elencar um arsenal mais palpável de sintomas que, de acordo com os informes dominantes, constituem a síndrome da desordem clínica divina. Relata-se que ele sofre de uma necessidade perfeccionista de ter o seu mundo, bem como todos que acontecem de vagar por ele, cuidadosamente conformado a uma série prescrita de comportamentos e formas de pensar. Isso soa um tanto obsessivo-compulsivo, para dizer o mínimo; particularmente quando se considera que o mundo criado por ele não é uma indústria ou um campo de trabalhos forçados, mas foi projetado por Deus para ser mais como uma estufa, na qual o modo e o objetivo primários são crescimento e desenvolvimento, que requerem por definição um processo constante de mudança e imprevisibilidade. Talvez você não tenha levado os relatos da demanda dele por conformidade sério o bastante para ter sido sensivelmente afetado por esse sintoma patológico, mas que dizer dos relatos de que Deus tem tantos melindres com relação ao comportamento e à natureza dos homens, à exploração e à experimentação humanas, que simplesmente não consegue voltar a colocar a cabeça no lugar até que tenha literalmente matado alguém?

Tomemos por exemplo a comunidade de Noé; ou Onã e seu irmão; ou o exército egípcio no mar Vermelho. Ou pense no ameaçado genocídio dos israelitas no monte Sinai; no genocídio dos cananitas por ocasião da invasão israelita da sua terra; no extermínio do reino do Norte; no exílio do reino do Sul; na morte súbita do homem que tentou proteger a Arca da Aliança; na incineração de Sodoma e Gomorra. Agora se isso não lhe parece um padrão de consumado narcisismo, comportamento cronicamente inapropriado à situação, espírito vingativo sádico, impulsividade e transtorno obsessivo-compulsivo, ira depressiva e irracional, reações sem contato com a realidade e inteiramente desproporcionais aos verdadeiros eventos problemáticos em questão em cada caso – você não tem estado prestando atenção. Ou pelo menos não tem lido a Bíblia regularmente. A síndrome comportamental que acabo de descrever é flagrante psicose. Além disso, que dizer do fato de que o ódio dele a você e a mim, inocentes como somos, ter sido tão intenso que ele concluiu que tinha ou de nos exterminar ou de massacrar seu único filho, Jesus de Nazaré? Se esses relatos são verdadeiros, Deus é um pervertido, e é perigoso. Ele resolve todos os seus impasses decisivos com decisiva violência. Você concorda que é doentio? Qualquer Deus incapaz de agir pelo menos como um ser humano mediano gostaria de agir é um monstro. Deuses monstro geram gente monstro.

Falei de nós como inocentes; você talvez discorde. Reconheço que o único mal que existe no nosso mundo é o mal que fazemos uns aos outros. Porém quando alego inocência quero chamar a atenção para o fato de que nós humanos não pedimos para nascer. Não pedimos para ser limitados. Não pedimos para ser falhos. Não pedimos para existirmos em modo de desenvolvimento e permanecermos portanto inerentemente e inevitavelmente incompletos, em fase de crescimento e de mudança, avançando por tentativa e erro, experimentando e alcançando por vezes becos sem saída morais, relacionais, psicológicos e espirituais. Não pedimos para sermos largados no oceano do espaço-tempo com uma base de dados inadequada, capacidade imatura de juízo e emoções que são com frequência movidas pela nossa ansiedade a respeito de tudo isso. Não pedimos para sermos incumbidos da tarefa divina de decifrar e encontrar significado neste mundo, ao mesmo tempo em que somos compelidos a operar com recursos meramente humanos.

O pior é que as metáforas religiosas que nos foram oferecidas no relato dominante a respeito da natureza e do comportamento de Deus produzem arquétipos inconscientes nos seres humanos, arquétipos que são inconscientemente traduzidos em comportamentos justificados por essas metáforas. Se Deus resolve todos os seus problemas decisivos pelo recurso rápido da violência decisiva, como se pode esperar que nós, seres humanos, ajamos de modo significativamente diferente? Deuses doentes geram gente doentia. Se Deus nos convence da sua noção psicótica de que está envolvido num conflito cósmico cujo o campo de batalha é a história humana e o coração humano, é naturalmente inevitável que iremos desejar, de modo inconsciente ou consciente, ajudá-lo nessa empreitada; estar do lado dele na guerra; empenharmo-nos na causa de Deus contra o infiel, enfrentar os bandidos e exterminar nossos inimigos, da mesma forma que aparentemente Deus faz com os dele.

Esta é a bandeira debaixo da qual foram pelejadas as batalhas do Israel antigo contra os cananitas, e quem sabe também as batalhas do Israel dos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual as campanhas cristãs das cruzadas foram pelejadas, e quem sabe também as cruzadas dos cristãos fundamentalistas nos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual o Islã conquistou o mundo mediterrâneo nos séculos VII e VIII, e não deve haver dúvida quanto às ambições do al Qaeda nos nossos dias. Um Deus doente gera gente doentia. Como chegaremos a alcançar o bem-estar se Deus está doente? Não chegaremos a alcançá-lo, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Houve, naturalmente, outro informe a respeito da saúde mental de Deus, embora tenha sido grandemente desacreditado ao longo da história, com frequência ao ponto de uma desdenhosa incredulidade. Trata-se da alegação de que o relato dominante, que tem estado desde sempre em circulação em todo lugar, não tem na verdade nada a ver com Deus, sendo ao invés disso a doentia projeção de uma série de imaginações humanas muito desautorizadas, autoria de gente inteiramente aterrorizada diante daquilo que é desconhecido e imprevisível na vida: uma projeção de seus próprios terrores sobre a imagem mental idealizada do que achavam fosse Deus. Esse segundo informe sobre a saúde mental de Deus encontra grande dificuldade em competir com o relato dominante, muito embora toda a evidência permaneça, em todo lugar, confirmando a versão alternativa. Essa tem encontrado resistência porque parece humanamente inacreditável: porque alega que Deus é um Deus de graça incondicional para toda a humanidade.

Carl Rogers não considerava inerentemente inacreditável que os seres humanos fossem capazes de exercitar um incondicional apreço positivo uns para com os outros, mesmo se essa postura parece por vezes muito rara e de certa forma não-natural. Porém mesmo ele hesitava grandemente em crer que isso fosse verdadeiro com relação a Deus. Rogers afirmou que abandonou suas raízes evangélicas fundamentalistas porque, como ele via, o informe dominante de Deus como lunático era endêmica a qualquer pensamento religioso. Ele portanto sentia-se capaz de pregar graça humana incondicional, mas não conseguia conceber graça incondicional em Deus. Ele simplesmente não conseguia abraçar Gênesis 12 e 17 e a revolucionária percepção de Abraão daquilo que Deus estava tentando passar para a raça humana: “Estou anunciando que serei Deus para você e para os seus filhos depois de você, por todas as suas gerações como aliança eterna, sem restrições e sem custo embutido. Vocês serão o meu povo e eu serei o seu Deus, e é só isso”.

Carl Rogers não foi capaz de reprimir o clamor do informe dominante em seus ouvidos, a despeito do fato de que era um informe falso, de modo a tornar-se capaz de ouvir a melodia do refrão da graça tocando ao longo de todo o Antigo e do Novo Testamento, declarando como fez o profeta Miquéias (7:18-20): “Qual Deus é como nosso Deus? Ele perdoa a iniquidade. Esquece a transgressão. Não retém a sua ira para sempre. Tem prazer na constância do amor. Tem compaixão de nós. É fiel a nós quando somos infiéis a ele. Ele pisoteia as nossas iniquidades e atira nossos pecados no mar de seu eterno esquecimento. Não só isso, mas também garante que somos perdoados antes de nascermos e antes de sermos capazes de imaginar como nos tornarmos pecadores eficazes”.

Infelizmente, Carl Rogers tem a companhia de grande parte da raça humana ao longo da história, que é incapaz de conceber que Deus não seja insano. Que não consegue conceber que São Paulo sabia de algo essencial a respeito da natureza e do comportamento de Deus quando declarou doxologicamente, “Estou convicto de que nada em toda a criação de Deus pode nos separar do amor de Deus”(Romanos 8:28). Ora, honestamente, esse é um Deus saudável. Deus, o guerreiro, o juiz vingativo, o assassino impulsivo, o maníaco genocida, é um monstro e ninguém deveria honrá-lo. Esse Deus me repugna e deveria nos repugnar a todos. O Deus provedor de graça age de modo apropriado em cada situação, o que é um gradiente chave de uma boa saúde mental. Somos humanos: não pedimos para sermos humanos, não pedimos para nascer, para sermos limitados em nossa base de dados, para sermos criaturas de crescimento e mudança, para sermos pessoas em desenvolvimento que carecem inerentemente explorar e experimentar e imaginar por tentativa e erro. Não pedimos nossa tarefa transcendental e nossos recursos mundanos. Qualquer Deus que não olha pra isso e responde com apreço positivo incondicional é um monstro profundamente doentio. É por isso que João afirma que o Deus verdadeiro é fiel e justo para nos perdoar os pecados (1 João 1:9). Você ouviu? É uma questão de justiça que para gente como nós, imersa em nossa limitada humanidade, a única atitude correta seja a misericórdia. “Como um pai se compadece dos filhos Deus se compadece dos que o temem” (Salmo 103:13). Esse é um Deus saudável.

Bem-estar: graça de Deus e saúde humana

Estamos reunidos aqui esta noite porque estamos todos interessados no bem-estar do ser humano; de fato, no bem-estar do universo como um todo. Tenho argumentado até agora que nosso bem-estar depende do bem-estar de Deus. Quer dizer, estamos abordando o problema da saúde de Deus e da saúde humana, que traduzi como a questão da graça de Deus e da saúde humana. O que podemos fazer para garantir que o informe sobre a natureza e o comportamento de Deus nos conte a história de uma saúde robusta e de sua inerente boa vontade com relação a nós – assegurando dessa forma que nossa base de operações e nossos pressupostos intensificarão o bem-estar humano, em vez da mentira de que ele é um monstro?

Para colocar essa questão de uma forma mais operacionalmente clínica e científica, de que modo podemos trazer boa teologia e psicologia responsável para gerarem aquela estirpe de interação autêntica em que ambas se iluminam mutuamente de modo a elucidar nossa interpretação da natureza humana, aquilo que Gerkin chamou de o Documento Humano Vivo, de modo a indicarem aquilo que poderá produzir genuíno bem-estar em nosso corpo, mente e alma – ou seja, em termos materiais e econômicos, acadêmicos e intelectuais, estéticos e espirituais? Estou inteiramente convicto de que psicologia e espiritualidade são dois nomes para o mesmo domínio. Cada um tem seu universo de discurso e, portanto, seu próprio modus operandi, mas os domínios da psicologia e o da espiritualidade são o mesmo: o complexo arsenal de aspectos críticos que moldam a irreprimível busca humana por significado mundano e transcendental.

Qualquer psicólogo que não leve a sério a luz que a espiritualidade humana pode trazer para a disciplina científica da psicologia simplesmente não está levando verdadeiramente a sério a sua profissão ou a sua psicologia. Qualquer teólogo que não leve a sério a luz que a psicologia pode trazer para a disciplina científica da teologia simplesmente não está levando verdadeiramente a sério a sua profissão e a sua espiritualidade.

As ciências da psicologia e da teologia, praticadas de modo próprio e responsável, interagem inevitavelmente em quatro níveis científicos: desenvolvimento teórico, modelos de pesquisa, gerenciamento de dados e aplicação clínica. Em cada um desses níveis está sendo formado e operando o modelo antropológico no qual psicologia e teologia interagem. Cada uma traz uma luz distintiva para uma verdadeira e abrangente elucidação do Documento Humano Vivo, que é o objeto da obra científica de ambas. Além disso, dentro do modelo antropológico no qual interatuam psicologia e espiritualidade (ou seu instrumento científico, a teologia), é a teoria da personalidade sendo formada e operada que é o foco central da iluminação mútua que as duas ciências oferecem.

Uma ilustração do que isso implica e do modo como funciona pode ser desenvolvida com base na antiga narrativa bíblica que em sua interpretação história parece indicar que Deus é doente, estabelecendo uma metáfora religiosa que tem produzidos arquétipos humanos e seres humanos verdadeiramente doentios ao longo de 3.000 anos. Trate-se da história, em Gênesis 3, da queda de Adão e Eva, de sua expulsão do idílico mundo do Éden e de sua maldição por Deus.

Há outro modo de se ler essa história. Como está, trata-se da recontagem em terminologia hebraica de um mito mesopotâmico de fertilidade muito mais antigo. Ali estão a árvore frutífera, a virgem que seduz e é seduzida, o símbolo fálico da cobra e a tripla sedução: a cobra e Eva seduzindo uma à outra e Eva que seduz Adão. Lida literalmente, em termos de longas tradições teológicas, trata-se de um relato relativamente superficial de que nossos primeiros antepassados desobedeceram uma ordem divina ao mesmo tempo específica e arbitrária, Deus ficou indignado, expulsou-os do Paraíso e os amaldiçoou. Esse é o Deus monstro.

Se alguém quiser saber porque os antigos hebreus gostaram dessa história e porque adotaram-na, a reposta deve ser óbvia: eles tinham um Deus monstro. Experimentavam o mundo como profundamente conflitante e em conflito, e tinham a opção de acusar Deus de tê-lo criado daquele modo (como fizeram na narrativa mais antiga de Gênesis 6) ou de tirar Deus da reta acusando a si mesmos. A única verdade que conheciam nisso tudo era de qualquer um que lesse a história reconheceria imediatamente que ela descreve a nossa experiência de vida. A vida é cheia de conflitos, sentimo-nos inadequados e envergonhados diante disso, ansiamos por amor e por significado, sentimo-nos profundamente inquietos com relação a nossa sexualidade e nossa espiritualidade, sentimo-nos expulsos ou alienados de nosso verdadeiro destino e ansiamos por nosso pai mas somos incapazes de agarrar a sua mão. Eles intuíram que a história de algum modo produzia ressonância genuína com algumas de nossas piores perplexidades: somos almas perdidas e vivemos em perplexidade. O que eles não sabiam é que havia outro modo de se lê-la.

Eles tomavam como certa que a narrativa dominante de um Deus ameaçador representava o modelo da realidade. No entanto, se relacionamos o outro informe com esta narrativa e a iluminamos com uma perspectiva psicológica judiciosa, fica evidente de imediato que está é uma história sobre a inevitável adolescência da raça humana. É uma história sobre deixar o útero e o berçário, sobre explorar as possibilidades de nossa própria individualidade, descobrir o conhecimento de nosso potencial para o bem e para o mal e desvelar para nós mesmos o significado da sexualidade, da espiritualidade e da individuação. Com a iluminação mútua de uma psicologia abalizada e de uma boa teologia, essa narrativa torna-se a poética sugestão de que Adão e Eva careciam afirmar a sua individualidade contra as restrições da autoridade parental, até mesmo divina, a fim de encontrarem seus verdadeiros eus. O enigma da narrativa de Gênesis 3 está na percepção de que a queda foi um ato necessário de crescimento, e levanta a questão de se o processo de adolescência em pessoas e comunidades é melhor realizado através de evolução ou de revolução.

Adão e Eva escolheram a revolução. A narrativa, quando propriamente iluminada por boa teologia e boa psicologia, não é a história de Deus amaldiçoando-os por causa disso. É uma narrativa sobre viver com as inevitáveis consequências das escolhas necessárias e inevitáveis que o crescimento requer; escolhas que devem ser feitas sem um conhecimento adequado do futuro, sem uma compreensão adequada de nossas opções e alternativas e sem conhecimento suficiente sobre a ambiguidade da responsabilidade adulta. As observações de Deus diante da fuga deles da infância não é uma maldição prescrita mas um destino prescrito: a saber, a vida adulta não é moleza.

Uma apropriada iluminação mútua de nossas metáforas psico-espirituais e dos arquétipos que ela produz pode nos proporcionar um Deus saudável que proporciona gente saudável. Digo isso não como uma litania litúrgica. Digo como fato clínico operacional. O bem-estar humano depende de boa teologia e de sólida psicologia para a produção de uma espiritualidade integral – e aqui falo de espiritualidade não como mero mito transcendental. Falo dela como função da pessoa interior em sua busca para que aquele Documento Humano Vivo seja inscrito por completo com as cadências de poesia e de música de significado que produzam genuína completude. Falo de uma estirpe de bem-estar que é aquela plenitude de individualidade e de comunidade, que deriva de um abrangente e gratificante senso de significado de vida, individualmente e relacionalmente.

Isso é possível para nós todos e para toda a humanidade; é possível para você e para mim, para o George Bush, para o al Qaeda, para os democratas – até para os franceses. É claro que os 15% da humanidade que sofrem de uma severa psicose limítrofe herdada não podem ser abraçados por essa perspectiva, exceto sob medicação adequada. O desenvolvimento de uma estratégia psico-espiritual, acompanhada de um programa psico-social concomitante que reflita uma profunda perspectiva graciosa de apreço positivo e incondicional mútuo, contra o pano de fundo da convicção de que essa postura de graça incondicional é a verdadeira história a respeito de Deus, tem chance de moldar nossos pressupostos sobre teoria da personalidade e antropologia de modo a formar um novo modelo global de relacionalidade construtiva. Isso é essencial para o bem-estar humano e sem ele prosseguiremos na trajetória descendente de processos que acentuem cada vez mais a cartada da violência. Isso deve estar fundamentado num modelo psico-espiritual saudável. Os fundamentalistas islâmicos fizeram-nos finalmente um grande favor, a saber, acenaram diante de nós com um sinal claro de que o que molda o significado humano é a questão de se Deus está doente ou saudável.

O modo honesto de se ler a história de Deus na perspectiva psico-espiritual reconhece que o problema da ausência de bem-estar na experiência humana, da disfunção humana, não é problema do pecado, na construção moderna e moralista do conceito, mas o problema da enfermidade, da inadequação e da incompletude humanas diante das responsabilidades da vida e dos desafios da devoção.

Um modelo operacional desse tipo de relacionalidade pessoal e global tem pelo menos as seguintes dez características práticas. Primeiro, a encarnação, dentro da individualidade de cada um que se importa com essa nova iniciativa, da aceitação incondicional do adversário e do outro diferente, onde quer que essa pessoa ou comunidade se encontre neste momento em seu estado de saúde ou de perversidade de espírito. Segundo, uma profunda empatia que coloque a pessoa que se importa dentro do sistema de referência da pessoa ou comunidade diferente ou alienada (leia-se o al Qaeda, por exemplo). Isso levará a pessoa interessada a discernir as fontes e a natureza das obstruções à relacionalidade cheia de graça enfrentadas pelo outro diferente, bem como a sugerir possibilidades para que se vença essa alienação. Essa graça incondicional proporciona à pessoa ou comunidade alienada o potencial para um novo senso de auto-estima, de significado salutar e de uma narrativa divina saudável. Terceiro, essa iniciativa provê tanto pessoas quanto comunidades com um senso de mutualidade na busca por bem-estar. Quatro, implica no reconhecimento de que o iniciador compassivo adentra a relação com suas próprias deficiências humanas.

Quinto: nesse contexto, existe a chance para que se torne evidente que a visão de mundo da pessoa ou da comunidade que demonstra compaixão expresse uma ambição abrangente pela integridade de todo o mundo de seres humanos e de coisas, e que o bem-estar do outro diferente está sendo buscado nesse cenário. Sexto, isso deveria tornar aparente que o crescimento mútuo de pessoas e comunidades é uma possibilidade real e esperada. Sétimo, ambos irão perceber operacionalmente a extensão em que o bem-estar humano depende da saúde do Deus concebido por cada um. O Islã teve longos séculos de uma visão de Alá que inspirou uma cultura e uma relacionalidade ricamente salutar com judeus e cristãos. A grandiosa sociedade islâmica espanhola é um exemplo. Oitavo, podemos antecipar que essa estratégia evocará aquele nível de segurança e confiança que coloca de lado modelos defensivos em ambos os lados e supera as obstruções à mutualidade, ao crescimento, à integridade e ao bem-estar. Nono, tanto pessoas quanto comunidades perceberão que estão sendo afirmadas e levadas a sério. Décimo, a efetividade dessa jornada de apreço positivo incondicional pode ser medida e criticada em uma perspectiva psico-espiritual a cada passo do caminho, à luz da expectativa de que a concretização última do bem-estar mútuo será efetivada como maturidade psico-espiritual, com todos os benefícios materiais e econômicos, acadêmicos e espirituais, estéticos e espirituais que representam a verdadeira plenitude.

O presente conflito mundial, que tem assumido a forma de violência internacional e de terrorismo, é atualmente a maior ameaça ao bem-estar humano. Esse perigo é acompanhado pelo aterrorizante avanço da AIDS e pelo desperdício de recursos que poderiam ser investidos em promover avanços nas áreas da medicina, da saúde mental, da educação e da criação de uma cultura de estética em nosso mundo. Todos esses terrores continuam a violar e a solapar o bem-estar humano, devido a nossos modelos e arquétipos psico-espirituais conscientes e inconscientes, todos formados ao longo dos eixos da vingatividade, das estratégias toma-lá-dá-cá para a resolução de conflitos, do estabelecimento de barreiras entre pessoas e comunidades através de uma disciplina forçada sobre elas, de enfrentar força com força, de fazermos aos outros o que não queremos que nos façam e de nos certificarmos, a partir da doutrina da defesa preventiva, de fazê-lo primeiro. Esses arquétipos de lutar com fogo contra fogo são produtos de metáforas inconscientes de que o mundo opera inflexivelmente deste modo, de que o universo opera inflexivelmente deste modo, de que Deus opera inflexivelmente deste modo. Se você tem um grande problema, recorra a violência decisiva. Deus faz assim, porque não deveríamos? É como as coisas funcionam. Deus ficou tão indignado conosco que não conseguiria voltar a colocar a cabeça no lugar até ter matado alguém, ou nós ou seu único filho. Este é o modo familiar em que as coisas estão configuradas.

Anton Boisen, Seward Hiltner e Donald Capps propuseram uma trajetória de modificação da pessoa interior através da reformulação dos modelos de comportamento exterior. Eles esperavam que isso fosse eventualmente produzir uma mudança interior. John Carter, Bruce Narramore e H. Newton Malony preconizaram uma reforma de nossa função interior pela reestruturação do sistema de referência moral através da combinação de uma teologia bíblica de certa forma literal e de uma psicologia psicodinâmica. Eles acreditavam que os farás de a tradição do Deus monstro dariam conta da tarefa. Sigmund Freud, Carl Jung e Eugen Drewermann achavam que a psicologia psicanalítica seria capaz de recanalizar a função de nossos arquétipos interiores. O trabalho de todos esses tem suas utilidades, mas não chegam a alcançar os profundos desafios estruturais nos quais a verdadeira obra precisa ser realizada. O al Qaeda continuará a encontrar modos de lutar por Alá enquanto persistir a crença de que Alá é um Deus do jihad e da fatwah, o extermínio de infiéis na Umma muçulmana. Esse não é um empreendimento diverso das cruzadas do século XII, e seu Deus guerreiro que ansiava que seus servos “libertassem a Terra Santa do Turco Infiel”. Não é preciso ponderar-se muito sobre a origem dos espíritos das cruzadas contemporâneas. Também não é diverso da convicção israelita de que deflagravam a limpeza étnica de Canaã no século XII a.C. porque esse era o mandamento de Deus. É alarmante entender que foram os israelitas contemporâneos a inventarem a noção perversa de defesa preventiva.

Não quero aqui propor qualquer trivialização ingênua do problema, tentando psicologizá-lo ou espiritualizá-lo com uma superficialidade de Escola Dominical. Também não quero subestimar o tamanho do desafio. Quero que minha proposta se alinhe mais com o racionalismo agressivo e prático de Ayn Rand do que com a sentimentalidade manipulativa do litigioso e débil liberalismo norte-americano.

Não atingiremos o bem-estar humano até que tenhamos criado uma cultura mundial de bem-estar. Não conseguiremos isso até que Deus esteja bem. Uma cultura mundial de bem-estar implica um mundo de metáforas psico-espirituais que produzam arquétipos inconscientes salutares. Para conseguirmos isso devemos destruir o doentio Deus monstro que reina inconscientemente no coração de todos nós. Os programas de reformulação psicológica e moral valem o trabalho que dão. Freud e Jung ofereceram-nos ajuda valiosa. Porém é o Deus monstro que deve ser exorcizado e morto, se quisermos avançar rumo ao mundo de bem-estar que somos capazes de imaginar, em vez do mundo letal que tendemos continuamente a criar.

J. Harold Ellens, PhD
Universidade de Michigan

Em tempo de mentiras, fofocas, intrigas e má fé, é importante descer do muro e se posicionar. Quem assim orientou foi o Dr. Martin Luther King Jr., que em sua carta da prisão em Birminghan, de 1963, escreveu: “Mais nociva que a minoria de homens maus que criam a injustiça é a maioria de homens “bons” que não fazem nada para denunciá-la”.

 

Dr. King dirigiu a carta aos pastores brancos que o pressionavam a se calar a respeito dos direitos civis dos negros, criticavam suas manifestações, chamavam King de extremista, anarquista, ateu e humanista.

 

Isso aconteceu numa época em que ter a pele escura, nos EUA, era sinônimo de “não ser gente”. Quem era o Dr. King para querer transformar negros em gente e lhes dar direitos civis?

 

O argumento vigente contra os direitos civis dos afro-americanos vinha da Bíblia. A maioria dos cristãos (brancos, claro) afirmava que Deus não queria que os diferentes descendentes de Noé fossem misturados aos brancos puros, alvos mais que a neve.

 

Da boca do falecido senador norte-americano Absalom Robertson – pai do famoso televangelista Pat Robertson – veio a conclusão que representava a mentalidade branca cristã norte-americana na década de cinquenta: “Eu certamente gostaria de ajudar as pessoas de cor, mas a Bíblia diz que não posso” <!–[if !supportFootnotes]–>[i]<!–[endif]–>.

 

Cada época tem seu argumento bíblico conveniente para oprimir as minorias.

 

Voltando ao assunto, não podemos nos calar diante de uma cruel injustiça que estamos testemunhando. Queremos fazer algo para denunciá-la. Não podemos ver lobos em pele de cordeiro dar a última palavra como se fosse verdadeira.

 

A injustiça a qual nos referimos é o violento e sistemático ataque ao Pr. Ricardo Gondim. Não é de hoje que os ataques acontecem, mas pioraram dramaticamente depois de sua entrevista à Carta Capital, quando se posicionou a favor de estender direitos civis aos homossexuais, garantindo-lhes o reconhecimento jurídico de união estável perante o Estado.

 

A partir daí mentiras foram inventadas, de propósito, por pessoas de má fé que não gostam do Gondim e que queriam, a todo custo, que sua voz fosse enfraquecida no universo evangélico brasileiro.

 

Interessante é que a maior parte de seus acusadores e perseguidores nunca leu um livro que ele escreveu, ou um artigo, uma entrevista, nunca foram em um culto na igreja Betesda do Jardim Marajoara, em São Paulo – onde ele é pastor e prega todos os domingos – não conhecem os membros da Betesda e não sabem quase nada sobre a história de vida do Gondim nem da Betesda. Apenas repete o discurso inflamado de seus líderes e pastores que vêem no livre-pensar do Gondim uma ameaça.

 

Afirmam que o pensamento do Gondim é uma ameaça à Bíblia e à fé cristã – mas é claro que isso é pretexto, para não dizer balela. Quem conhece a Betesda e o Gondim sabe que ele prega todos os domingos na Bíblia e que proclama em alto e bom som a fé cristã: Jesus é Deus encarnado, nascido de uma virgem por meio do Espírito Santo, morreu na cruz por amor de nós, a fim de nos salvar, e ressuscitou no terceiro dia vencendo a morte, estendendo a ressurreição a todos os homens e mulheres por meio da fé. Os que o consideram ameaça, portanto, consideram contra si mesmos, suas doutrinas maléficas, suas estruturas de poder e manipulação mental de gente honesta e de boa fé.     

 

O Gondim virou o herege da vez. O inimigo da vez. Nada mais mesquinho e estranho ao Evangelho – que nos convida a amar os inimigos, mas parece que o universo evangélico se especializou em produzir inimigos para odiá-los em comunhão.

 

“Heresia” é uma palavra criada para tentar invalidar ideias opostas às ideias vigentes. Criar hereges é fonte de alianças maquiavélicas, para calar a boca de quem incomoda as maiorias, sempre poderosas. O Dr. Martin Luther King Jr. também já foi acusado de herege pelos pastores poderosos de sua época – e libertou um povo oprimido, dando a eles direito à cidadania. Lutero também já foi acusado de heresia, e é reconhecidamente o maior herege da Modernidade – é só por causa dele que temos livre acesso e interpretação da Bíblia. Os apóstolos foram chamados de herege por anunciar que Deus havia encarnado em Jesus Cristo. E, por fim, Jesus já foi chamado de herege por se posicionar ao lado de uma mulher adúltera, relativizando uma lei mosaica, e libertando-a de um assassinato por apedrejamento – por essas e outras, foi parar numa cruz.

 

Heresia pressupõe uma verdade absoluta. Na fé cristã essa verdade é o Amor, não uma doutrina ou um dogma. Por isso não consideramos o Ricardo Gondim um herege, pois nunca o vimos relativizar a revelação que Deus é Amor. Ele é um herege apenas para quem considera alguma doutrina e lei absolutas. Mas nesse caso, King, Lutero, os apóstolos e o próprio Jesus também eram, então o Gondim está em ótima companhia, e seguindo um excelente caminho.

 

Se for assim, ainda bem que há hereges, e que ele é um! Nesse caso, aceitaremos o adjetivo como elogio.

 

Escrevemos para nos posicionar ao lado de quem tem nos ensinado a pensar, a ser livres e a amar. Escrevemos para dizer “obrigado” e “estamos juntos”, a quem nos tem ensinado a crescer a amadurecer na fé cristã.

 

Como escrevemos em 2007, voltamos a afirmar: aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

 

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

 

Obrigado Pr. Ricardo Gondim, conte com a gente. Sua vida tem sido inspiração para todos nós.

 

Liderança de Jovens da Betesda em São Paulo

 

Andréa Lujan

Sheyla Pereira

Vitor Príncipe

Heloisa Príncipe

Adilson Lopes

William Romanini

Rose Guedes

Eliane Leite

Bruno Reikdal

William Barros

Joyce Banzato

Alex Janderlan

André Cavalcante

Lucas Lujan

Igreja Betesda no Jardim Marajoara

 

Fabio Guerra

Igreja Betesda em Diadema

 

Juliana Caroprezo

Igreja Betesda na Zona Leste

 

Marcos Ferreira

Igreja Betesda em Jardim das Fontes

 

Richard Castilho

Igreja Betesda em Osasco

 

Luis Dias

Igreja Betesda em Vila das Belezas

O que pensamos, do que temos medo, o que amamos, nossas crenças não podem evidenciar-se. Não totalmente, menos ainda de uma vez por todas. É preciso negociar o que de nós pode participar da vida pública e o que deve permanecer guardado como reserva existencial.

É possível existir verdade demais em uma alma para que ela se exponha e com isso comprometa sua sobrevivência. É preciso economizar as exibições.

O contrário é também verdadeiro. Neste jogo ambivalente, muito pouca verdade em uma alma, ou uma verdade que faz seu portador pequeno demais, reivindica grandes mentiras em um desempenho.

Verdade demais ou de menos, mas todos têm algo a escamotear. A isso chamamos de interioridade.

Aquela mulher tem envolvimentos questionáveis. Todos já sabem e ninguém toca no assunto. Não convém ir às últimas conseqüências. Talvez porque lhes sejam muito bons seus favores sexuais, ou muito útil sua candidatura iminente a próxima maldita. Ela segue sua rotina de culpa e apreensão. Qualquer dia desses o seu mundo desmorona.

Jesus faz escolhas sintomáticas. Sensível demais com quem ninguém se importa. Gente já assentada nos espaços organizados para que a vida de todos prossiga sem perturbação. Mulheres, doentes, pecadores, malditos, por eles demonstra afetos perigosos. Sua linguagem o classifica entre revolucionários. Fala de um Reino para pobres e incita à busca de justiça. Mas o que é mais grave, parece ficar à vontade demais com os proscritos, demonstra com eles sentir-se em casa. Veja como olha para essa gente. Veja como bebe, come e ri. Entre os demais mestres há uma intuição desesperada de que ele é uma ameaça, de que suas intenções são profanas. De que esconde o que a todos escandalizaria.

Fariseus e mestres da Lei, estes despendem enorme energia no jogo. Dos três, Jesus, a mulher e os guardiões da religião, estes são os mais miseráveis. Todos padecem, mas ninguém precisa tanto esconder quanto eles. Ninguém lustra com tanto rigor e piedade o que aos outros aparece. Jesus anda revoltado com o seu procedimento. Já os chamou de “sepulcros caiados”, hipócritas.

E o trágico acontece. A mulher foi flagrada. O que pode ser mais proibido no jogo da moral que se deixar flagrar? Surpreendida em condições indisfarçáveis, seu sexo condenável de tão ardente, ou seria, ardente de tão condenável, acende escrúpulos e ardis. Como são perspicazes os escandalizados. O que mais desnudaria o perigoso mestre nazareno que a nudez de uma pecadora? Pois castrar o erótico é o que mais se aproxima de reprimir a crítica.

Jesus está cercado de gente quando o ruído raivoso interrompe seus ensinamentos. Homens de passos decididos, olhares fulminantes e um trapo humano nas mãos. Na boca, o rigor da lei; já no chão, a vergonha que despiu de humanidade a mulher; em seus corações, armadilhas.

O texto frio da lei é fluente no simulacro da moral. A letra grafada e morta não vasculha corações nem pergunta por afetos, não ilumina interioridades nem chora misérias, mata. Pronuncia-se a Lei com reverência, apedreja-se pessoas, portanto, com fervor. A lei diz para apedrejar e você, o que diz? Quem está ali conclui rápido a derrocada incontornável do mestre. Não dá para driblar a tensão. E todos já sabem que escolha ele fará.

Sua resposta é uma sátira. Um deboche. Uma charge. Porque todo assunto muito sério é uma piada. Jesus curva-se em desdém à gravidade da proposição e escreve com o dedo no chão. Galhofa. Sua escrita evade o ambiente e ri da austeridade dos zeladores da moral.

Neste instante há uma superposição de cenas. Fariseus e mestres da dura escrita da Lei com cenhos franzidos, pedras nas mãos e um jogo de poder funesto na alma, encena o primeiro plano. Ausentando-se para o segundo plano, Jesus, de cócoras, lúdico, escrevendo com o dedo no chão. Sua escrita brinca e dança na areia. Insuperável escolha. Quem olha não os tem no mesmo foco. Se o rigor oportuno dos fariseus é o que amamos, a imagem satírica de Jesus embaça, quase desaparece. Se a cena despretensiosa e estética do mestre, que rabisca desenvolto no chão, é o que nos magnetiza, então os aflitos e tensos fariseus esvanecem ao fundo. O Cristo que risca trivialidades no chão faz poesia e chama de triste ficção o flagrante que mente a vida e anuncia a morte.

Mas doutrinadores entendem de emboscadas morais e tocaias linguísticas, não de escritas leves e despretensiosas. A mesma poesia que salva Jesus da sanha por doutrina e dominação é desespero para os demais. Ah, se ele pudesse ficar ao chão, rabiscando, descolado daquele mundo, desligado daquela lógica! Eles insistem na inquisição e na morte da mulher. Cristo se ergue, dedos sujos de tanto que brincou no chão, às inquirições questiona, pergunta às interrogações e flagra os flagrantes. Quem não tiver pecado atire a primeira pedra. Quem não se flagrar em segredos leve a sério a sua religião. Descobrir-se protagonista da grande piada é a pior vergonha. Um a um, todos se retiram.

Enquanto isso, Jesus mantém-se curvado e entregue aos rabiscos na areia. É assim que se escreve, com a fluidez de quem o faz sem a pretensão poderosa de se perpetuar. O resto é doutrina, é lei, é flagrante de morte. Ele dá as costas à escrita pretensiosa de ocupar o mundo, como se o mundo fosse o que aparece. Escreve no fugidio pó o traço da misericórdia. A escrita na areia que o vento leva é tão livre que torna aquele ambiente insustentável para os rígidos escribas. Apenas quem escreve conteúdos para serem esquecidos está apto a desenhar o belo e a liberdade. Apenas os riscos poéticos, espalhados no chão e que logo serão lançados pelo vento no imponderável horizonte, somente eles libertam os pecadores de seus cruéis flagrantes.

Não há mais ninguém ali, além dos dois. Estão livres, por enquanto. A mulher, do apedrejamento. Jesus, de mais uma arapuca. Mas os fariseus e mestres da lei, estes foram condenados a manterem a todo custo o falso brilho de sua aparência.

A mulher volta à vida. Jesus fica um pouco mais por ali, escrevendo na areia e saboreando, com um breve riso nos lábios, a sobrevida.

Até que em um dia desses, sua poesia se torne um crime e sua liberdade, uma cruz.

Elienai Cabral Junior

http://www.baciadasalmas.com/2011/a-fenix/

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

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Números apetitosos

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Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 24,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 5 navios.

Em 2010, escreveu 6 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 120 artigos. Fez upload de 11 imagens, ocupando um total de 4mb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

The busiest day of the year was 17 de setembro with 272 views. The most popular post that day was DA SUBVERSÃO À BRINCADEIRA: COMO SE RESGATA UMA CASA DE ORAÇÃO?.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram betesda.com.br, twitter.com, betesdaaldeota.com.br, baciadasalmas.com e pavablog.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por elienai cabral junior, elienai cabral jr, pés feios, laerte e elienai cabral

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

DA SUBVERSÃO À BRINCADEIRA: COMO SE RESGATA UMA CASA DE ORAÇÃO? setembro, 2010
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2

POR QUE OS EVANGÉLICOS SÃO TÃO CRENTES, MAS TÃO FEIOS? julho, 2009
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3

O FIM DOS SERMÕES julho, 2010
36 comentários

4

DEUS É SÓ O ABRAÇO fevereiro, 2010
10 comentários e 1 “Like” no WordPress.com,

5

A kenosis, o amor e a internet maio, 2010
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O melhor e mais importante de nossa história resulta dos planos que não deram certo. E esta é a descoberta que nos atordoa e redime.

Em um mundo de liberdades, o incerto e o imprevisível criam o espaço mais doloroso, e mais rico. Naquilo em que nos tornamos, somos desenhados, com uma freqüência surpreendente, pelas linhas oblíquas de nossos projetos frustrados.

Ele desfila expectativas, propósito e determinação nos caminhos que inauguram seu Reino. É possível ver em seus olhos o foco intransigente de quem acredita com força e urgência em sua utopia. E para toda utopia há uma estratégia tão rigorosa quanto crédula. O Reino virá agora, eis sua paixão. Israel, reinventado, inaugurará a política que salvará o mundo e a Torá, reinterpretada, encantará as nações da Terra. Para uma nova  política, um novo rei. Para uma nova religião, uma nova pedagogia.

A fé encontrará novos sentidos, frutos de uma leitura imaginativa e de uma pedagogia que dialogará com o mundo concreto. As parábolas recontarão a história da humanidade.

O tempo é fermentado pelos que tem fome e sede de justiça. Os que choram inspiram uma nova pregação. Os pobres enfileiram os que tomarão com a força de sua necessidade o destino dos povos. Os mansos darão o ritmo dos que sobreviverão para herdar a Terra. Eis o novo Reino e sua bem-aventurança!

esta ingênua determinação explica o deslize deselegante com aquela desgraçada. Desesperada, mas sirofenícia. E este era seu defeito. Persegue Jesus e os discípulos aos gritos. Fresca na memória a advertência de que sua missão era com os filhos de Israel, aqueles pedidos incomodam mais do que deveriam. Mas a mulher teima como insistente é sua tragédia. Tem uma filha possuída pelas forças do mal. Seu grito é finalmente silenciado por uma truculenta, mas previsível resposta. O pão da mesa é dos filhos e não dos cachorrinhos.

Os que não carregam a oportunidade estratégica da etnia terão sua vez, mas não agora. Ele acredita que um novo mundo virá depois de uma nova etnia. Mas a réplica de uma mãe histérica é a fissura inevitável na lógica encantada pelo grande plano. Os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa. Logo se descobrirá que aquela piedosa mesa, tão fartamente servida, jamais saciará. O sentido da revolução pretendida por Jesus não será o do farto pão à mesa, mas o das involuntárias migalhas. Do chão dos esquecidos. Dos que carecem. Dos que estão à margem. Só eles poderão entender o evangelho. As migalhas no chão saciarão mais que o pão na mesa.

Aquele instante é ainda a réstia da grande luz, que iluminará pela dor da decepção um novo horizonte para seus empenhos.

Não foi preciso muito tempo para ver seus planos esbarrarem nas estruturas adoecidas da política e da religião e descobrir seu projeto como remendo novo em pano velho, vinho novo em odres velhos. Assistir àquele a quem mais se admira com a cabeça presenteada em uma bandeja de prata expôs a desproporcional força e patética dos que amam o poder. Os espaços do mando sempre guilhotinam os que não vestem suas máscaras.

Ser amado pelo pão que multiplica em detrimento da injustiça que subtrai custou o desencontro insuperável com as multidões. Convergir adeptos é sempre distorcer sentidos.

Assistir aos seus gestos de misericórdia agredirem os escrúpulos dos que frequentam o templo mostrou-lhe as vendas religiosas que cegam a fé. Sempre que um dogma precisa ser salvo, um aflito acaba esquecido.

Estes foram os dias da grande decepção. Aqueles que jamais terminaram de tão definitivos para o evangelho de Jesus. A eles deve ter se referido João quando retratou a história do Filho de Deus. Veio para os seus, mas os seus não o receberam. E a todos os que o receberam deu-lhes o direito de serem chamados filhos de Deus. Desde os dias funestos, não se viu mais Jesus nos mesmos lugares. A casa do pecador tornou-se seu espaço de comunhão. Todos foram para o templo, mas ele foi visto em um lugar estranho, nos pavilhões indesejados do Tanque Betesda. Ao escapar das multidões e seus desencontros, a casa de um maldito, o publicano Zaqueu, tornou-se a sua. Sua fama agora é de quem gosta das festas, com suas comidas, bebidas e gente despretensiosa e livre.

Na cruz morre um homem porque não quis ser o que seu mundo lhe impôs. Mas também, e na mesma cruz, morre o homem que Jesus nunca foi. Termina na cruz, porque é assim que se faz com os que destoam. Termina na cruz a imagem colada pelos seguidores em seu líder. Talvez apenas este paradoxo explique o estranho fenômeno de desconhecimento que acompanhou os dias do Cristo ressurreto entre os mais íntimos.

Maria o confundiu com um jardineiro atrevido, provável responsável pelo sumiço do corpo do Mestre amado. Os discípulos de Emaús o confundiram com um judeu mal informado sobre os acontecimentos de Jerusalém. Os discípulos o tomaram por uma ameaça ao refúgio para os perigosos dias que seguiram sua morte. Os que mais o conheceram não conseguiram reconhecê-lo. Não será porque o Cristo glorioso, aquele do grande plano, fora desconstruído rumo à morte na cruz? E este, que agora vêem, não será aquele que não conseguiram, mas deveriam, enxergar o tempo todo?

Naquele dia o mar não estava para peixes. Nada muito novo na árdua tarefa dos que pescam. Ele caminha na praia como quem espera ansioso pela volta dos que deveriam trazer os peixes. Aflito, sem poder esperar mais, vê os pescadores voltarem aos poucos com os barcos vazios. De longe ainda, pede peixe. Ninguém o reconhece. Antes que desistam totalmente da pesca, ele fala como quem sabe e aponta aonde entende que os peixes estão.

Pescadores desapercebidos lançam as redes e, finalmente, o reconhecem. Quem sabe depois de Pedro se lembrar de outra pesca prodigiosa orientada pelo Rabi? É Jesus? Mas é outro. Mas é Jesus. Pula do barco e, às braçadas, desliza saudoso em direção ao não mais tão estranho assim. Na areia, as brasas já assam alguns peixes e pães. O cheiro doce da comida dissolve apreensões. Um a um, todos chegam, sentam-se e comem. A comida espalha endorfina  e relaxa o corpo outrora teso e o calor da fogueira espanta o frio doído da brisa que já sopra no fim do dia. Logo a adrenalina daqueles dias dá lugar ao prazer, as palavras antes engasgadas, ficam fluidas e os sorrisos, tão raros ultimamente, retornam fáceis.

Encantado observo, mesmo que inseguro. A cena é constrangedora, mas também é a indicação de um livramento. O Reino do Cristo está ali, aquecido por aquela fogueira, feito de uma gente despida de qualquer imponência ou virtuosismo. Pondero abismado enquanto passo os olhos no grupo. O líder, alguém que acabou de passar por uma terrível humilhação pública. A multidão desistiu dele e de seu fosco projeto de Reino. Pedro, não conseguiu ser leal na hora mais aflita do anunciado, mas desprestigiado amigo. Os Filhos de Zebedeu, João e Tiago, brigaram por espaço e pompa até há pouco. Nós, os demais, dispersamos confusos e amedrontados no momento mais tenso da trajetória. E há um terrível vácuo, uma ausência amarga, um companheiro, antes tão presente, não está mais ali. Ele preferiu desistir da vida a encarar sua fraqueza. Amigos precários, mas amigos. Reunidos pelo breve e fugidio tempo de uma brasa. Sagrando os afetos com comida e conversa. Este é o Reino. Este é o evangelho que contagiará inalcançáveis almas.

Barriga cheia. Conversas fartas de memórias. Cristo chama por Pedro. O nome destacado na roda poderia indicar um grave e adiado acerto de contas. Ainda pairam dúvidas. Ao contrário do que poderia se imaginar, Jesus não pede explicações pelos tropeços, nem suscita grandes promessas para novas e também grandes expectativas. Não oportuniza um pedido formal de perdão. Ah! Nossos ritos de perdão! Fragmentos do grande plano. Pedimos perdão como quem pode retomar a fantasia de não mais frustrar. Perdoamos e iludimos novamente nosso coração com a panacéia de amigos que não decepcionam. Mas nada disso acontece ali. A pergunta é tão singela e quente e saborosa quanto à comilança em torno da fogueira. A brasa crepita e pausa os assuntos. Pedro, você me ama? A resposta é tímida, mas fluente. Você sabe que te amo! Pergunta e resposta se repetem como em um diálogo dramático. Num só lance e roubando o fôlego. E aos três movimentos modestos e teatrais de amor, um pedido despretensioso se segue: cuida das minhas ovelhas. E todos respiram aliviados.

Desde então, sempre que homens e mulheres se reúnem para comer e beber e conversar,  esquecem-se das grandes utopias e suas perversas expectativas, tornam-se mais amigos e amantes, cuidam-se como pastores de suas ovelhas e Jesus volta e seu Reino e seu Deus.

Elienai Cabral Junior

O templo pode se tornar o lugar de seu maior desencontro e a comunhão mais legítima, uma violência inadiável.

Dias antes ele viera a um lugar que há muito não estava lá, aquela ‘Casa de Oração’ esquecida sob camadas de mentiras. Porque são necessárias muitas paredes para se esconder com eficiência uma grande mentira. Um grande templo para uma grande religião.

Os barulhos e os cheiros da procissão desembocando na cidade são familiares, homens e mulheres arrastando ofertas e expectativas. As músicas se revezam no embalo final dos que chegam ao lugar decisivo, à morada do Deus que não regateia seus rigores. E um Deus assim, tão inegociável, sempre cria filhos que aprendem a pechinchar à sombra de suas imperfeições.

Os olhos cansados esbugalham em rostos bronzeados pelo sol de tantos dias, andam-se muitos caminhos para se chegar a um templo. Olhares aflitos se destacam em faces ressecadas, cruzam-se desertos para que o templo cumpra seu papel. Gastam-se corpos, afetos, até a fé. O caminho que leva ao templo exaure forças, é epopéia de cansaços, senda de claudicantes. E toda fadiga termina se tornando um grande negócio.

E os que negociam já estão lá, como garantia de que o enorme esforço será triunfante. São mercadores mediando a grande utopia. Nenhuma fadiga, qualquer distância, incidente que seja pode ser tão imprevisível, tão suficientemente contingencial para assaltar a vitória do crente. O templo não pode ser comprometido com as precariedades do caminho.

O custo de um templo assim é alto, mas ninguém garante ofertas à altura de um Deus terrível sem pagar um preço elevado. A demanda é enorme, mas sempre haverá pombas, cabritos, bois e tudo o mais de que carecer o culto. Tudo para que Deus não seja frustrado pelo triste caminho que separa os humanos da glória.

O culto não para. Ninguém para. Nada pode estancar uma ordem que cumpre tão prodigioso papel: garantir um acerto glorioso com o divino. O templo realiza sua vocação à medida que sublima a vida dos imperfeitos. Tudo funciona lá dentro a despeito de tudo o que não funciona lá fora.

O barulho incessante empolga os guardiães do templo. É muito feliz a sensação de assistir à coreografia ininterrupta dos que chegam com tantas expectativas. E que partem já antecipando o dia em que voltarão. Nada é mais lindo aos olhos do sacerdote que o vai-e-vem inexorável da multitude encantada.

Mas um rito subversivo é urdido à margem do templo. E como todo rito é uma trama. Uma dramatização de anseios. Uma usina de novidades. Alguém costura o inusitado, fabrica uma revolta.

A primeira fabricação de um instrumento ultrasônico, aquele capaz de ultrapassar a barreira do som, foi um chicote. Isto porque o movimento da chicotada é mais veloz que o som por ela produzido. E o que direi agora pode ser a descrição mais profana que já se fez de um homem. Um nazareno reuniu todas as iras que a religião do templo lhe provocou em cada tira de corda costurada. Ele mesmo fez o chicote que interromperia o barulho do ajuntamento em transe. O slasch viria depois da dor. Eis o rito mais subversivo. Nada mais apropriado para acordar gente encantada que o som da idéia chegar depois do estrago já feito.

E foi assim. Um homem enfurecido ziguezagueou pelo pátio chicoteando com poucos critérios os que ainda negociavam. A princípio, imaginou-se serem soldados romanos descontentes pelas comissões. Houve quem afirmasse, enquanto corria, que era um endemoniado. O som do chicote e as mesas viradas dos cambistas fizeram a voz do reclamante se multiplicar em tantas que nem imaginamos quem pudesse ser, até o pátio em pandemônio dar lugar ao silêncio estupefato dos que ali permaneceram. E sozinho, resfolegante, restava com a arma ainda empunhada, Jesus.

O amor assusta ao fazer-se ódio. Desvela-se em tensão, revolta e ruptura. Sombrio e violento, mas amor.

Com câimbras na mão e a voz já rouca, vaticina pela última vez: vocês transformaram este lugar em um covil de ladrões. E pensar que um dia já foi uma Casa de Oração. A família, distante, desconfia de sua sanidade. Os discípulos, sem coragem de se aproximar, lembram do profeta. O zelo por sua casa me consumirá.

Dispersos os mercadores, uma gente, que ninguém vê há tanto tempo por ali, aparece vinda de todos os cantos, e nada os impede agora, são os cegos e os mancos. O chicote, quente e trêmulo, despenca teatral da mão de Jesus, tão lentamente quanto a compaixão que agora o envolve. Um Deus assim, tão improvável, sempre junta os filhos dos quais o templo se esqueceu.

As crianças, que tem no mundo um lugar de imaginação, a continuidade das histórias ouvidas antes de dormir, olham a cena e enxergam o que ninguém vê. Apenas continuam a história preferida. De um Davizinho que derrubava gigantes com uma atiradeira na mão, mas curava a tristeza de reis com harpas e poesia. Agora ele tinha um filho, que expulsa gigantes com um chicote, mas toca os doentes como Davi dedilhava sua harpa.

E começaram a se divertir com a mais nova brincadeira, e viam quem gritava mais alto: Hosana ao Filho de Davi!

Quem me segue que também eu não o siga?

  • Não temos mais q palavras e imagens dançando em nossa crenças, ora se unem sensualmente, ora se desencontram. E nós, não paramos de opinar. 0 minutes ago
  • @tomfernandes @nelsoncost @willcjc acho muito complicado isso de separar ideia da coisa em si. 1 hour ago
  • !RT @JoseBarbosaJr Meu maior problema com os teólogos: muitos deles se levam a sério demais! 5 hours ago
  • Quem me pergunta pela essência de algo, ou insiste em que apresente a natureza do que for, fala uma língua que não me fala mais. 22 hours ago
  • Nas redes sociais, assustei-me muitas vezes com a irreflexão de tantos, mas é empolgante ampliar minhas relações com tanta gente pensante. 23 hours ago

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