Lançamento do livro em Fortaleza

http://elienaijr.files.wordpress.com/2013/03/lanc3a7amentoce_fb1.jpg

            Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista. Ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é. Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais, lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida, e uma abertura despojada e generosa ao outro e à sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, eu pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor: assistir pessoas em cerimônias fúnebres, sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. Atendendo a um pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali, então, um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações a partir da leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da jovem falecida, disparou cruelmente:  “Eu disse a ela: se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!” Sua mãe, um ano antes, pelo motivo, também falecera. Deixaram ambas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz da mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandado as dores da despedida. Alguém me pediu que cedesse um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, eis as palavras que se congelaram em minha mente:  “Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima”. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, atentou às desajeitadas palavras do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se ao pai, em prantos ainda mais sofridos. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência inconsolável do pai, amigo e provedor. Um Deus injusto? Narcisista? Impassível? Assassino? Revoltei-me em meu coração.

Cenas como essas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas sem reflexão, pelas razões que forem: comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos adoecerão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia assim, tão existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa, a mistificação da vida, a alienação e malignização da humanidade; herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos. Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar. Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo. Veio em carne, insiste o apóstolo.

Assim concebi este livro, com desejos pretensiosos, mas modestas proposições. Reuni insights, réstias que pudessem iluminar um pouco a nossa fé e libertá-la dos fungos da irreflexão que, protegidos da luz, espalham mofo e focos de infecção em sua conexão com a vida. A imagem é boa, porque é assim que acontece aos crentes quando fogem do enfrentamento de sua realidade. Adiam a reflexão e enfermam suas relações.

Dividi a exposição dos ensaios em três movimentos, que apesar disso não deixam de estar entrelaçados em conceitos que se repetirão teimosa, mas didaticamente. Na primeira parte, reuni ensaios que pretendem se livrar de práticas que considero vícios nocivos a uma espiritualidade lúcida, como a sublimação da realidade, o medo e a preguiça de enfrentar questões difíceis, a fobia à dúvida, a fantasia de relações e conceitos absolutos e organizados por propósitos divinos, as gigantes expectativas sobre as igrejas e suas organizações e programas doutrinários, mas também o estranho menosprezo pela poesia e outras expressões de beleza.

O segundo movimento deseja abrir janelas de compreensão sobre a Bíblia, o texto que funda a fé cristã e organiza seu culto, moralidade e expectativas sobre a vida. Nestes ensaios, convidei filósofos e teólogos para breves e promissoras conversas sobre o que podemos esperar do texto bíblico: Gadamer, Nietzsche , Rorty e Vattimo sugerem ideias ao lado de Segundo, Queiruga, Ricardo Gondim e Rubem Alves. Acredito que desmistificar a Bíblia é potencializar sua capacidade de abençoar a vida humana.

O terceiro momento deste trabalho quer ofertar algumas sugestões de compreensão da relação da fé com as nossas expectativas para a vida concreta, e algumas insinuações de caminhos a seguir em nossa espiritualidade. Deixei para esse instante um ensaio muito precioso para a minha trajetória, Meu pentecostalismo revisitado, texto autobiográfico, sem deixar de ser ensaístico. Publiquei-o pela primeira vez em 2002, e retomá-lo foi terapêutico e enriquecedor; o meu leitor, que já o conhecia, perceberá as novidades que felizmente pude lhe acrescentar. Acredito sim em uma pentecostalidade como ingrediente afetivo e catalisador da espiritualidade cristã.

Já me confessei pretensioso com o livro e a reunião de filósofos e teólogos que vêm iluminando meu caminho, mas quero incentivá-lo na leitura, antecipando que também participaram desta aventura alguns poetas e romancistas imprenscindíveis para a construção da minha fé. Entraram na roda Dostoievski, Muriel Barbery, Pascal Mercier, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Lenine, Gilberto Gil e Jorge Luis Borges. Ninguém melhor que o poeta para insinuar versões possíveis para a vida, e não apenas, mas também provocar a imaginação, esta modalidade espiritual tão esquecida entre religiosos, no entanto tão importante para uma vida luminosa e aquecida por esperança.

Boa leitura!

Imagem

Descubro aos 39 que uma história são muitas e que a narrativa reivindica ser recontada sempre e nunca em definitivo. Parece que o modo como vínhamos contando quem somos, no que cremos ou não mais, o que esperamos e do que desistimos, porque chegamos aqui, não conseguisse mais nos narrar. Entediados com os contos de nossa história, angustiados pela desconfiança de que um outro era uma vez precise ser arriscado, redescrevemo-nos.

Não consigo contar a minha história como vinha contando. Minha filha me perguntou em um dia desses: por que você é assim, diferente? Engasguei nas primeiras sílabas da história que sempre narrei para dizer quem sou. Não era mais. Não contava mais. Instantes novos, pessoas distintas, perguntas outrora adiadas, respostas blasfemas, fantasmas desvelados mudaram quem venho sendo desde o era uma vez. Não falo de capítulos novos de uma novela antiga. Mas de fatos novos que recontam a história toda. Uma narrativa é uma verdade que nunca chega, uma identidade sempre a caminho.

Talvez por isso Jesus nada tenha escrito. A palavra escrita finge que disse o que nunca deixará de ser. Talvez por isso, a única vez em que escreveu o fez na areia. Para que a brisa, essa velha contingência, tratasse de desescrever. Foi a escrita fugidia na areia que obrigou os contadores de uma história só, a que junta pedras nas mãos, a recontarem-se. Quem não tiver pecado que conte uma única história. À mulher, que repetia pela última vez a história de sempre, impôs a tarefa de olhar-se de novo e narrar-se de novo e tentar ser de novo: onde estão as pedras, memórias mortas de quem é você? Restou o vácuo criativo das versões que se foram. Eu também não sei mais quem é você. Vá e conte de novo. Era uma vez uma mulher que queria amar.

Engasgado nas primeiras sílabas da história que sempre contei, mas que não me conta mais, perguntei, curioso, como se quisesse saber como de fato foi: o que você acha? Seu olhar irônico e juvenil, sobrancelhas franzidas, maneando a cabeça, era Jesus sugerindo redescrever-me. Esse que vou deixando de ser.

Imagem

O Thales da gente

Thales sem a gente é sem “h”

A vida sem beleza é só letra com som,

a fonética da mesmice

É o que se diz que todo mundo diz

O Thales da gente é com “h”.

É o que se vê e a boca não fala,

só abre, calada e feliz

É o “h” do Thales,

Letra sem fonema, beleza indizível.

Lá em casa é assim,

a gente tem essa mania de inventar

A gente vive inventando beleza

Tá tudo bom, tudo já bonito.

Mas a gente inventa um “h”

Éramos eu e ela,

Afeto sem feto.

Tanta gente e só a gente.

E a gente inventou a Clara,

Inventou a ternura no que já era delicadeza.

Éramos eu, Bete e Clara

E não faltava mais nada.

E a gente inventou a Gabriela,

Inventou a alegria no que já era felicidade.

Éramos eu, Bete, Cacá e Bibi

E gente inventou o Thales,

Inventou o amor no que já era… amor mesmo,

inventou o “h” do Thales.

É isso o que o Thales é,

Invenção de beleza.

É isso o que a gente é,

O “h” do Thales

Elienai, o phai do Thales.

  ABC e festa junina 003

27 de janeiro de 2005, algum tempo depois das 8:51 h. do dia 25/01, quando o Thales conheceu a luz. Madrugada, entre um choro e outro, Maternidade do Hospital São Luiz, São Paulo.

Imagem

O que vejo quando te vejo?

A vida inventada por Deus em nós.

Toda a grandeza da criação

em meio metro de choro e colo.

Recém chegada à nossa luz,

seu choro cessa no colo certo.

 

 

O que vejo quando te vejo?

A curiosidade pulsando em passos,

menina de olhar aceso,

fôlego inquieto ansiando pelo novo.

Sua ida desconcertada ainda

encontra abrigo tão logo vinda.

 

O que vejo quando te vejo?              

Papai ou mamãe, o que importa?

se as palavras, tão logo ditas,

pronunciam o som do afeto

de quem entendeu o que vale:

Qual for a fala, o amor é que diz.

 

 

 

O que vejo quando te vejo?

              A intensidade das fantasias nos olhos e gestos

Quando corre, pula e grita,

brinca, brinca e brinca.

A vida com gosto de menina.

 

 

O que vejo quando te vejo?

A vocação doce de voltar pra casa.

A recepção empolgada abrindo a porta,

a convicção feliz do melhor lugar.

Minha filha, minha amiga, meu lar.

 

 

O que vejo quando te vejo?

Deus alinhando meus erros e acertos,

você me aproximando de Deus,

fazendo-me pai, ensina-me a ser filho.

Nosso abraço faz descer o Céu,

um chamego e a vida faz sentido.

 

O que vejo quando te vejo?

10 anos brindados de Ana Clara.

A cada Agosto um gosto de festa.

A cada Agosto, gosto mais de viver.

A cada Agosto, a cada dia,

Ana Clara, gosto mais de você.

 

O que vejo quando te vejo?

Vejo você 10 vezes mais filha.

10 vezes mais linda, 10 vezes maior.

Os primeiros 10 anos de uma mulher.

A criança da criação,

A criação de um mundo melhor.

Imagem
A fala de Deus

Elogia os pés: formosos

De gente anunciando boa nova.

A fala de Deus

Elogia o ventre: feliz

Anunciação de gente nova.

Você é toda anunciação,

Formosura de Bete inteira,

O aviso redondo e cheio:

10 anos de “eu e você”,

o binômio do amor.

 

Sagradas no altar,

Alianças trêmulas (de tão convictas)

Trocam-se entre os dedos:

Entrelace de histórias.

Uma noite doce (gosto de cereja),

Interpenetração de vidas.

Amamos tanto, à redondeza.

O redondo é da Clara,

Essa luminosidade em gente,

Faz de nós, três: a trilogia do amor.

 

As alianças não tremem mais (de tão convictas)

A noite continua doce (gosto de férias)

Amamos tanto, à redondeza.

O redondo é de mais uma,

Sua alegria já sapeca sem chegar

(pula em festa na barriga)

Fará de nós, quatro:

A quadradura de um amor redondo:

De tanto que nos amamos.

 

 

 

25/07/2002

00:15 h.

ImagemEsqueci que fui poeta,

desaprendi o jogo das palavras.

Aprouve à vida comum,

na insistência do banal,

a inconsistência da escrita.

 

Poderia dizer:

- o amor não é feito de palavras!?

Mas as palavras, poesia,

fazem amor feito gente.

 

Então, quem sabe?:

- teu corpo é poesia maior!?

No entanto, a poesia, palavras apoquentadas,

tocam em ti mais que os dedos.

 

e, por que não?:

- as palavras, o vento leva!?

Mas o amor, sem palavras,

não se renova sem o vento delas.

 

Ah! Agora sim:

- o silêncio fala mais alto!?

Ih! Que bobagem!

O amor não gosta de gritos …

prefere o sussurro.

(Poesia é sussurro d’alma)

 

Preciso das palavras, onde estão?

Na ponta de uma caneta tímida? Não.

Na timidez de uma caneta sem ponta? Pior.

Com a caneta em um ponto tímido qualquer? Melhor.

Sem esquecer da caneta, esquecendo a timidez,

Apontar o que realmente importa:

Amo você! e com palavras.

 

 

            Descubro tardiamente que minha alma é lenta. Meus pensamentos chegam sempre primeiro e organizam a cena, parece que dá para continuar sem muitos prejuízos. Meus sentimentos, também. No meio da confusão, sinto-me sempre forte, lúcido. Minha tristeza e desilusões são tímidas sempre. Depois de tudo fico achando que sou melhor do que imaginava. Que resisti incólume.

            Mas então chega a alma. Bem depois de tudo. Com a cara indolente de quem deixa para depois. Sua lentidão me irrita. Dá vontade de sacudi-la e dizer: por que você nunca vem junto comigo? No entanto, lenta e inclemente, traz todas as minhas verdades. Toda a minha estupidez. Ela parece ter a missão de não deixar que minha história durma inerte.

            Depois de tudo, vem continuar as conversas. Do dia anterior, dos enfrentamentos adiados. Das agressões arquivadas como desimportantes. Das decisões que, diferentes, a tudo poderiam sempre mudar. Das evidências apontadas, mas desconsideradas. Dos medos silenciados por desejos mais fortes.

            Habilmente, minha alma, ressoa o barulho de meses atrás, das ofensas ou apenas insinuações. Estas, sempre mais devastadoras. Quem insinua encapsula nas reticências o pior veneno e por isso destrói por mais tempo e com mais dor. A alma se encarrega de tirar das cápsulas da memória antiga o veneno que até então não havia me feito tão mal. Vem exigir de mim que diga o que não disse. Não admite as poucas e atrapalhadas falas, implacável, pune-me. Vem lembrar-me os desencantos. Vem arder meu peito com tudo o que já era. Vem sussurrar minhas impotências. Vem dizer-me que sou menos.

            Chega sempre depois e muito deprimida. Vem chorar quando tudo já pede para agir. Vem me mandar parar quando já não posso mais ficar. Vem cobrar de mim que deixe de crer naquilo em que não creio mais. Vem gorda e pesada. Doem o pescoço e as pernas. Doem os ossos e os olhos. Doem as lágrimas nas pálpebras. Dói viver.

            Alguém pode xingá-la acusando-a de ressentida. Injustiça. Ela é lenta porque nossa pressa é uma mentira. Minha lenta alma vem dizer que não foram inertes as palavras que ouvi. Porque tudo o que é de verdade sofre. É ela que me impõe uma sentença, viver transforma. A minha alma é a minha condenação a jamais viver à toa.

            Se não doesse tanto, faria um elogio a minha alma: você é mais linda verdade que habita em mim, graças a você minha vida é grave.

            Se a dor que me faz sentir não fosse tão real e se, neste exato momento, não estivesse chorando, diria com uma ponta de esperança: não sei mais quem sou e quais os dias que me esperam. Sei, tão somente, que sou outro.

(A partir de hoje, recupero algumas postagens que achei valerem a pena a memória.)

De longe já dava para vê-lo sentado ao poço. Preferia que não estivesse lá, como nos outros dias. Venho aprendendo a escolher lugares e horas que me ajudem a ficar só. Aquele poço e sua distância de tudo e todos, aquela hora e seu sol a pino traziam menos desgaste que esbarrar naqueles, quaisquer que fossem, cujos olhares espelhassem o pior de mim.

A aproximação acrescentou um dissabor, não bastasse alguém atrapalhar minha solidão, agora ficava evidente que o homem perto do poço era um judeu. Os babados da sua roupa de bom judeu anunciavam um daqueles que se crêem puros a despeito de nossa impureza. Nada é mais opressor que se enxergar tão estranha e detestável nos olhos de quem quer que seja.

Ao poço, o inusitado mostrou a face. Antes que pudesse deixar nítida minha pressa e indiferença, pediu-me água. Eu sei que a cortesia mínima não rejeita água sequer ao inimigo, mas não soube disfarçar minha amargura. Neguei-lhe e lembrei-lhe o óbvio, era homem e eu, mulher; era judeu e eu, samaritana. Fronteiras fortes o suficiente para que nem a mais sofrida angústia licenciasse o encontro. Nenhum preconceito é tão cruel que não possa servir a uma doentia e útil comodidade.

Ainda assim não me livrei do peregrino. Insistiu, apesar da cara de fadiga e dos lábios ressecados, e advertiu-me de estar desperdiçando uma grande chance. Falou-me da água de um jeito estranho. Não tive certeza se tentava me propor um enigma, como fazem os mestres e profetas, ou se de fato conhecia alguma água com poderes mágicos. Mas ofereceu uma água viva que resolveria a sede de uma vez por todas. Fiquei confusa. Não estou acostumada a esses devaneios, coisas de poetas e profetas, ou insanos. Sempre ali, icei baldes de água que, além de mal saciar minha sede, traziam o enfado de um serviço que nunca finda. Aos meus olhos, balde é balde, água é água, e gente nunca faz muito mais que trazer transtornos.

E mesmo depois de interromper o palavrório mostrando o absurdo de oferecer qualquer que fosse a água sem ter ao menos um balde, continuou a falar de tudo como se nada pudesse ser apenas o que sempre foi. Parecia falar de nada que já antes ouvi, como se tudo pudesse ter outra versão.

E falava como se fosse maior que aquele que cavara o poço, Jacó, nosso pai.

Falava como se palavras cavassem poços e baldeassem saciedade.

Talvez um poeta deslumbrado.

Sendo assim, aceitei a proposta da água viva e entrei na brincadeira. Dei ainda um certo tom de seriedade: ‘apenas para não ter mais o trabalho de ir ao poço’. Um silêncio e de novo aquele olhar insano de quem vê através das coisas e engendra o surpreendente. Eu, que queria não voltar ao poço de água, fui convidada por ele a voltar à origem da minha sede. Mandou-me buscar o marido, esse tipo de gente que primeiro abandona a imaginação, para depois abandonar a esperança e o amor.

A brincadeira perdeu a graça. A guinada da água para o coração causou-me vertigens. Lacônica, disse-lhe não ter marido. E não é que sequer esboçou surpresa? Nem um tom escrupuloso. Sabia de todos os maridos que tive e daquele que me toca, mas não me abraça. Senti meu rosto como um livro que se desenrola diante de um leitor. Seria eu tão evidente? Ou ele, um leitor habilidoso de gestos e olhares? Quem?

Poeta, sim. Louco? Com certeza e daqueles que a gente, atordoada, chama de profeta.

Alguém com versões tão diferentes do que a vida toda ouvi. Que fala estranhamente de tudo, mas com tanta graça. Que transfigura o óbvio e enxerga o avesso do que sempre me enfadou. E, sem pá, explora profundidades e, sem balde, baldeia com as palavras novos sentidos e embebe a vida de significados vários. Alguém assim pode me falar de Deus também com surpresa. Salvou-me da culpa de não ser amada, quem sabe salvará o divino do meu tédio?

Fala de Deus, poeta. Baldeia também o divino de outro poço, profeta. Porque tal como esta água, o que de Deus eu sei me angustia mais que sacia. Os samaritanos falam de um que é mais Deus em nosso templo que naquele de Jerusalém. Deus é só isso? Dos judeus ou dos samaritanos? De Jerusalém ou de Gerisim? Do templo que não me quer, ou que não me cabe? Dos homens e suas vaidades másculas e truculentas? Reiventa, poeta. Redescreve, profeta.

Bem naquela hora, uma brisa boa refrescou nossos rostos e a conversa, já tão tensa e grave. Ele, por um instante, pareceu esperar pelo sopro como um cantor aguarda o acorde da harpa. Como um poeta espera a metáfora que libertará a imaginação. Chamou o divino de vento. Desse que sopra selvagem e solto no deserto; desejado, mas indômito. Para além de qualquer estrutura, imprevisível, tão livre que apenas os que também anseiam pela liberdade podem encontrá-lo. Disse que Deus é vento e procura por quem, ao adorá-lo, também vai além dos edifícios e suas rígidas estruturas, tal qual o indomável e inventivo vento, e só assim o encontra de verdade.

Porque a verdade nunca é o que já se disse, mas o que está por dizer.

A verdade nunca é o que a brisa já deixou desenhado na areia, mas o vento que sempre está por soprar e redesenhar o chão de nossa existência.

Então? Vocês não querem vir e ouvi-lo? Ele (re)contou tudo o que tenho feito. Acho que é o Messias. Certamente não o que esperávamos. Mas o Messias. E eu, nossa! Esqueci meu cântaro lá, de tão lembrada que estou de tudo o que ainda posso ser.

Elienai Cabral Junior

Filha,

nem direi mais que daria tudo para assisti-la desfilando seus sonhos, despedidas e expectativas nas passarelas de logo mais. Esses graúdos olhos enxergam a vida com gula. Gosto de observá-la engulindo o mundo com sua fome de viver, de fazer amigos, de mexer na história ao seu modo. Lembre aos teus admiradores que não desgrudem os olhos dos teus olhos, eles serão o palco mais lustroso dessa noite de gala. O paraninfo mais eloquente não será o professor mais querido, mas teu olhar reluzente. Peça à mamãe que fotografe teus olhos, preciso deles para insistir nos meus horizontes. Teu olhar me faz ver o divino.

Formar-se é uma tentativa de chamar um evento que tenta congelar o tempo. Pense comigo, que vivo forma-se por fim, senão na morte? Esta noite é apenas um retrato. Devia chamar-se ‘retratatura’. Porque é apenas a captura desesperada de uma cena. Graças a Deus ninguém nunca se forma enquanto vivo. A vida é uma linda informatura.

Ao desfilar na direção da mesa de professores, todos te olharão famintos de sua fome. Porque o sumo da vida é a fome, esta ânsia de experimentar o inédito, o inaudito, o imprevisível. Tome o ‘canudo’, erga-o, engula o auditório com teus olhos. Se vierem as lágrimas, lembre-se que vêem para embaçar sua visão imediata das coisas, o que lhe capacitará a enxergar pela imaginação todos os mundos por conquistar, todas as vidas por degustar, todos os abraços e amores, todo o prazer de existir em um mundo da informatura. Se quiser, enxugue as lágrimas, mas não pare de imaginar seu mundo no mundo que está aí. Traga o canudo ao peito, aperte-o e como uma sacerdotiza em um ritual, lembre-se dessas palavras: viverei para amar e ser feliz. Muitas formaturas virão. Mas as informaturas é que importam. As informaturas falam do que na vida não termina jamais. Meu amor por você é a informatura que hoje lhe dedico, ninguém diploma o que sinto, Clarinha, nem eu.

Quando der certo, qualquer coisa, você terá meus abraços e alegria. E quando não der, terá meu colo e companhia. O curso do meu amor não terá jamais formatura.Pode ir, linda e gulosa de viver, colecione diplomas, porque você já é amada de antemão e para sempre. Meu beijo nesta noite de (in)formatura.

Papai

Quem me segue que também eu não o siga?

  • O apartidarismo do movimento é uma mensagem para o momento, mas não pode ser uma negação das conquistas democráticas trazidas pela partidos. 20 hours ago
  • RT @MarceloTas: Emociono-me com a burrice de partidóides que tentar faturar sobre um movimento cujo DNA é ser apartidário #TiroPelaCulatra 21 hours ago
  • Má tbm estranhamento desta casa q deveria ser nossa. "@pefabiodemelo: Depredar o patrimônio público é o mesmo que destruir a própria casa." 21 hours ago
  • Tal qual o movimento das ruas, a despeito dos partidos, desejo q surja um vibrante cristianismo irreligioso, uma espiritualidade sem poder. 21 hours ago
  • "@pierobarbacovi: @elienaijr é o nosso grande medo. O descompromisso c uma causa certa pode fazer esvair o movimento" 1 day ago

Blog Stats

  • 172,660 hits

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 4.103 outros seguidores