Chegamos a um mundo pronto.
Carregamos forças que nos ultrapassam, genéticas e culturais, que nem de longe escolhemos (ou escolheríamos).
Tudo já significa, vale e condiciona.
E se quisermos o mínimo de contentamento, aprenderemos a indócil arte de nos adaptar ao que está aí.
E alguém ainda diz que somos livres?
Sim. Livres.
Porque o futuro está vertiginosamente aberto.
Escancarado.
Por mais forças alheias a nós que se combinem para escrevê-lo; ele mantém-se tão inédito quanto as páginas do livro que ainda escreverei.
Livres, sim. Porque o menor descuido, ou o desejo mais insistente.
A resposta mais demorada, ou precipitada.
O assombro que nos convenceu de impotência, ou o arroubo que nos fez ir a despeito de nossa covardia.
O rompante criativo de um argumento, ou a anuência passiva com o que sempre se disse sobre qualquer coisa.
A convicção desesperada ou a dúvida angustiante.
Uma réstia incerta de esperança.
Qualquer cisco nos olhos pode iniciar a revolução.
Como o fez aquele teimoso e incerto espermatozóide, alcançando o irresistível óvulo e o infinito corpo de possibilidades se jogou na existência.
Livres, sim, e maravilhosa e violenta e irresistivelmente.
Livres sim, sartreanamente condenados!
Insisto. Livres.
De tanta verdade que pulsa e lateja e arde,
desejante,
apaixonada.
Faminta de sentido e graça e amor.
E o atordoante Galileu bem que disse:
um conhecimento assim não nos permite ignorar o quão verdadeiramente somos livres.
Livres assim,
ai dos que resistirem aos abraços,
às mãos que se dão,
aos afetos,
aos amores!
Livres assim,
Deus é a amizade(não me deixa esquecer um amigo, mesmo que de longe, Paulo Brabo).

 

O Natal não é uma história fácil de ser contada, a despeito de ser a mais linda narração de todos os tempos.

Se parecer fácil, não é o Natal dos Evangelhos e nem tão bela. É difícil, porque é feita de estranhas contradições. De irônicos e graciosos espetáculos, de um lado. E de discretíssimos e opacos acontecimentos, do outro.

De um lado, luzes, corais de anjos, estrela guia, arrebatadoras revelações. Do outro, na multidão dos sem-rostos, no labirinto sombrio de vias infindas, no alvoroço ruidoso daqueles que quanto menos voz têm, mais barulho fazem, assiste-se a um delicado e quieto sinal.

Da banda de lá, a promessa eloquente e luminosa do Filho de Deus, Messias esperado, nascido entre nós. Da banda de cá, o silêncio feminino, de uma ressabiada mãe, guardando despretensiosa as altaneiras palavras, os inquietos semblantes, os curiosos olhares, os ansiosos tons de voz, sinais e arrepios de um Deus inesperadamente presente.

Do lado de lá, pastores ouvem um coro celeste e a voz do imponente Gabriel, a promessa gigante do Messias, tudo junto em um menino-deus. Do lado de cá, na incômoda estrebaria, no improvisado berço de uma manjedoura, apenas um bebê, embrulhado nos pobres panos que a todos os infantes plebeus envolve.

Entre a promessa cintilante e alvissareira e o seu pretenso cumprimento, uma viagem, uma despedida, um abandono e a salvação.

Sejam os sábios magos, ou os discriminados pastores, é preciso desnudar a esperança de trajes vultuosos, de expectativas de majestosos eventos. Importa esquecer o desejo crédulo de um potente Deus, ou de um irresistível Titan. O bebê é apenas mais um bruguelo. Chora estridente. Sorri gracioso. Suja fraldas. Esbaforido, suga os peitos maternos. Tão frágil, ao colo, suscita cuidado e reverência com a delicada vida.

Indispensável que seja apenas um bebê. Um nenê sem adjetivos, de tão imprescindível.

Deus de fraldas é de tirar o fôlego.

Quem quiser ver o prometido Filho de Deus, terá que desembaçar os olhos, superar o nervoso pigarro na garganta, respirar fundo e olhar de novo. Falar bem pouco, ou quem sabe se calar. E se converter aos pobres, aos esquecidos, aos sem-lugar, aos simples, àquele que não é mais do que o que menos é entre nós. Ele é um de nós. E esta é a sua glória. E esta é a nossa salvação.

Nunca mais o divino se confundirá com uma ficção. Não mais será um Deus refém de nossas abstrações e seus tédios e suas lonjuras e suas estéreis doutrinas; que quanto mais falam, menos dizem. Tanto descrevem, tanto escondem.

Um Deus nascido entre nós é um novo Deus.

Um Deus inesperado.

Maravilhosamente próximo.

Generosamente semelhante.

Graciosamente comum.

Ponderável.

Presumível.

Imitável.

Tão aqui.

Tão nosso.

Tão íntimo.

A criança é a mensagem.

Um Deus que entra em nossa vida desde a meninice é o mais crente de nós.

Acredita em recomeços.

Tem fé nos reinícios.

Adere aos nossos renascimentos.

O bebê é Deus dizendo: Faça como eu, recomece sempre que um novo início for a salvação.

Ele não é o outro que vem a nós.

É o menino que vimos crescer.

Não chega. Nasce.

Não se impõe. Entrega-se.

Não reivindica. Serve.

Não esmaga. Mistura-se.

Conta histórias para contar-se entre nós.

Não intima. Seduz.

E se assusta. É porque não contávamos que a salvação, a graça, o amor, a esperança estivessem logo ali, no berço pobre, na louca e hostil cidade, na outra esquina, ao alcance dos olhos, dos ouvidos, do colo.

Em um de nós.

Elienai Jr.

Aproximar-se de alguém a quem se reputa grandeza e exceção é como poder tocar o inatingível. E para isso fazem-se perversas as pessoas, desprezam o humano porque para outra coisa não é bom que sirva, além de ídolo, de simulacro da vida que ninguém tem. Mas eu só queria tocar quem me devolvesse aos abraços e amores.

Quem me tocou? Intima.

Ele marchava com a urgência dos poderosos, o homem que manda na sinagoga tem uma filha que, de tão doente, e dizem que já morreu, faz do forte fraco demais para que alguém com o mínimo juízo não corra em socorro.

Ela, à beira da morte, tem de vida o que eu tenho de morte, à beira da vida. Doze anos, muito curtos para ela, intermináveis para mim.

São doze anos exilada do amor. Impedida do toque, confesso, aprendi a tocar sem ser percebida. Pelo mísero prazer de sentir de qualquer um, um trisco que seja de importância. Fico por horas saboreando o formigamento nas pontas dos dedos, ou na superfície dos braços, ou das pernas; a memória fugidia de que existo; fluida sensação sobre a pele, que me remete às mãos que já me tocaram como se jamais fossem me largar, ao prazer que já me fez arder em brasa, aos abraços e beijos que, de tanta querença, pareciam sugar-me a alma. E agora, resvalo anônima mendigando afeto.

Ser mulher é estar sob o ciclo da maldição, a cada época em que meu corpo avisa que não serviu para parir, também indica que não valho para existir. Impureza inclemente, danação insuperável. A menina de Jairo já deve saber o gosto amargo de ser, vez ou outra, estranhada por todos. Seu corpinho é tenro, mas a regra da religião é maldição antiga que lhe pesará implacável.

No entanto, minha maldição se sobrepôs à dela, sangro sem parar, esvaio-me de dignidade e sem fim. Hemorragia de esperança, sangria de futuro. Talvez, ela, que aos doze descobre a morte precoce, tenha a sorte de morrer abreviada; eu, que a descubro tardia, tenho a sina de viver adiada. Invejo os moribundos e sua angústia pela vida que se vai, porque eu que nunca morro, diviso a vida que nunca vem.

Vez ou outra, perseguem-me os pensamentos feito demônios indômitos. Fico achando estranho que o sangue do sexo, este que junta os corpos em uma só carne de amor e gozo, seja assim impuro. E a pureza sacramentada no templo seja apartamento de afetos, deportação de mulheres. Justo elas que emprestam seus corpos ao prazer pródigo dos que mandam na benção. Também estranho que a sanha por pureza seja assim tão mórbida, estéril e frígida. E se purificar é matar em vida, penso despudorada, talvez viver seja a experiência dos impuros que aos puros desprezam.

Quem me tocou? Pergunta aquele que pode ser meu próximo algoz. Certamente. Assim me expurgaram e maldisseram os últimos com os quais fracassei em meu desgraçado ofício de discrição. Fiz com ele o que com tantos tentei, roubar a virtude de um toque e nela, mesmo que tão breve, a sensação pobre de existir. Sendo ele o Cristo que todos suspeitam, apenas toquei-lhe os babados que a um bom religioso credenciam. Ousei sentir na pele sua fé, já que tão diferente, bem poderia ser ela o fim do meu sofrimento.

Sua insistência em querer me descobrir assusta. Mas o que é isso? Ele diz que dele saiu virtude, mas eu sinto que o que de mim saía estancou. Já conferi meu sexo. O sangue parece ter parado. Agora o que não para é o tremor do meu corpo. De tanto pavor, temo até ter conseguido o que me trouxe aqui.

Responde indignado aos que tentam convencê-lo que todos lhe tocam. Diz-lhes que dele saiu poder. E isso me acalma um pouco. Afinal, sempre que meu toque por alguém foi percebido, ganhou fôlego seu poder de me execrar. Tocar alguém sempre evidenciou sua força e confirmou minha fraqueza. Agora que me sinto mais forte, ele diz que perdeu poder. Quem sabe isto seja amor. Enfraquecer-se até sentir-se tocado. Talvez porque o poder que nunca se perde, anestesie a pele, e o amor que a pele inflama, doa mais, sofra mais, sinta mais. A salvação seria fazê-lo por mim sentir-se tocado?

As mãos fremem cada vez que seus olhos me procuram. Aprendi a temer o olhar dos que me descobrem. Nada me humilha mais que me ver nos olhos dos que me cercam, tão menos do que acho que valho. Levanto minha mão para confessar o blasfemo toque. Tremo tanto que todos já devem ter percebido minha culpa. Ele está pedindo para que eu me aproxime? Já disse que estou apavorada. Mulher, a tua fé é a tua salvação. E ele diz com olhos que me admiram. E neste instante, avisa a todos que me vejam diferente, e se viam com condenação meu destino cruel, agora veem com surpresa minha inusitada fé. Resta-me acolher silente suas palavras, ele chama de fé aquilo que há pouco me enchia de culpa. O que todos chamariam de transgressão, ele dá outro nome. Fé. Pasmo com a surpreendente graça, já consigo pensar na sangria que estancou. Sinto-me devolvida ao mundo dos que são vistos e tocados e amados.

Agora ele seguirá com Jairo. Tomara que consiga ajudar à menina. Esqueci de lhe dizer meu nome. Mas se minha transgressão para ele foi fé, meu atrevimento em entrar na história que não tinha meu nome bem que poderia se chamar pureza.

ImagemPelas ruas nunca se cantou tanto os versos triunfais do salmista: Bendito o que vem em nome do Senhor! Fácil. O Nazareno pôs em pé um morto sepultado há dias, porá em pé a cadavérica nação de Israel.

Dia desses, perambulou por aqui. Escorregou pelos becos, foi visto tenso e irrequieto no templo. Não tinha boa aparência. Discutiu com cambistas. Interrogou mulheres e perguntou pelas crianças. Juram que balbuciou palavras e parecia maquinar algo. Talvez uma revolução. Depois de Lázaro, parece não haver muito mais o que esperar. Um milagre assim não pode esfriar suas utilidades. Argumento forte é discurso oportuno.

Não há outro assunto entre o povo. Jesus fala de um reino que virá, faz verem os cegos, multiplica pães e sacia os famintos, limpa os imundos leprosos e agora reanima defuntos. O Reino deve estar por um triz.

Alguns dos discípulos avisam eufóricos o Mestre, que anda fraquejando no ânimo. Queixa-se de incompreensão. Duvida até dos mais próximos. Mestre, o povo acredita. As mulheres cantarolam bendizendo o Messias. Os velhos lembram as histórias dos profetas, contam às crianças sobre o poderoso redentor que chegará montado no jumentinho. Ele arqueia as sobrancelhas e insinua um sorriso. Suspira. Não acompanha o entusiasmo dos demais. Ouve. Mas todos sabem que sempre compreende outra coisa.

Ninguém pergunta mais nada. Todas as últimas questões suscitaram poesias, contos, comparações. Tanto mais estranho o Cristo, mais prosador. Sua poesia é a distância que a todos aflige.

Continua a falar do Reino vindouro, mas sempre contando histórias e propondo dispendiosos enigmas. Diz que só veremos se não enxergarmos; só ouviremos se não escutarmos; só saberemos se não compreendermos. O que precisamos saber que nosso entendimento impeça? Que visões temos que nos tapam os olhos? Que ruídos escutamos que nos ensurdecem? O que cremos que possa nos atrapalhar o pensamento?

Não provoque o poeta.

Faz poesia o que duvida da regra, consola os demais o pensativo Tomé. Conta histórias quem procura por ouvidos, emenda João, sapiencial. Pedro, meio sem entender, diz qualquer coisa: eu prefiro as espadas. Doem menos.

Sem gaguejar, interrompe as suspeitas de todos e pede para que busquem um jumentinho. Como nas prosas dos velhos com as crianças há pouco relatadas. Entrará em Jerusalém montado no profético bichinho, é o seu plano. Cumprirá as Escrituras tal qual o ator submete-se à dramaturgia. Por quê? Questiona alguém. Porque é preciso que imaginem mais o que veem.

O jumentinho, montado dramaticamente por Jesus, aproxima-se. A chegada é lenta, demora estratégica o bastante para que a notícia se espalhe entre o povo de Jerusalém. E antes de chegar ao templo e às casas dos poderosos, são incontornáveis os pobres, habitantes sempre dos limites da cidade. Risível, não fosse grave. Os últimos a serem ouvidos são os primeiros a deslumbrarem o Messias. Os excluídos do mundo recepcionam o divino. O fôlego da multidão, que encena a mais messiânica das histórias, é a angústia dos que padecem.

É lírico o Cristo de Deus montando imponente o humilde e pacífico jumento. Lirismo eloquente, ninguém duvida do Messias. Os mantos e os  ramos de árvores, arrancadas à beira do caminho, espalham-se pelo chão, como se a multidão e seus deuses há muito ensaiassem o encontro. As mulheres iniciam a cantoria: Hosanas ao que vem em nome do Senhor! Bendito o que vem em nome de Deus. As crianças saracoteiam pelo cortejo, ao reconhecerem o personagem de suas histórias prediletas. Ele também ri. Também festeja. Como é estética a esperança.

Os fariseus, religiosamente ausentes dos afetos, sabem da insanidade coletiva. Do risco que corre Jerusalém. Pedem para que Jesus os repreenda. Uma agitação assim pode indicar insurreições e suscitar toda a repressão das temidas Legiões romanas.

Pode-se até calar a cantoria, reprimir os gestos; mas a imaginação, este movimento de gente embrutecida em busca de graça; com afetos empedrados ansiando por ternas esperanças; ora, se uma boa imagem dá voz às pedras, o que não fará em corações sangrando fé e desejo? Se eles se calarem, as pedras falarão, responde o divino dramaturgo, arrependido dos anos gastos com as sinagogas e suas doutrinas.

O cortejo avança e o horizonte se abre desvelando Jerusalém. Descortinam-se mutuamente o estranho Messias e a patética cidade. Não demora, e os mesmos algozes crucificarão um e depredarão a outra.

E a metáfora cumpre seu papel. Reúne os díspares mundos na mesma imagem. Faz conversar falas tão distintas na mesma cena. Concilia opostos. Justapõe adversos. Dá ao poeta a fugidia sensação de acolhimento, sendo ele o maldito extravagante. O Messias de outra esperança. O Rei de vário governo. O Deus-homem do homem-Deus.

Ausentando-se da grita, os olhos do herói lacrimejam. Nada traduz mais sua agonizante alma que a refração implacável da imagem, caleidoscópio de sentidos e compreensões. O que acende melhor os sentidos que a lúdica encenação? O poeta faz-se vidente, vê mais e além. E quanta dor sente este que habita as fronteiras dos saberes?

Deus mora na metáfora, liame dos mundos. E chora.

Ninguém viu a lágrima nem ouviu o lamento do divino, exceto uma mulher que confidenciou seu segredo ao amigo de Teófilo; de onde estava, jura ter visto o que à multidão ficou incôndito e ouvido o despercebido pela surdez ruidosa do povo. O Cristo lamentou ser a mensagem que ninguém entendeu, a metáfora de um mundo que poderia ser.

Lançamento do livro em Fortaleza

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            Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista. Ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é. Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais, lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida, e uma abertura despojada e generosa ao outro e à sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, eu pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor: assistir pessoas em cerimônias fúnebres, sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. Atendendo a um pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali, então, um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações a partir da leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da jovem falecida, disparou cruelmente:  “Eu disse a ela: se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!” Sua mãe, um ano antes, pelo motivo, também falecera. Deixaram ambas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz da mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandado as dores da despedida. Alguém me pediu que cedesse um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, eis as palavras que se congelaram em minha mente:  “Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima”. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, atentou às desajeitadas palavras do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se ao pai, em prantos ainda mais sofridos. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência inconsolável do pai, amigo e provedor. Um Deus injusto? Narcisista? Impassível? Assassino? Revoltei-me em meu coração.

Cenas como essas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas sem reflexão, pelas razões que forem: comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos adoecerão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia assim, tão existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa, a mistificação da vida, a alienação e malignização da humanidade; herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos. Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar. Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo. Veio em carne, insiste o apóstolo.

Assim concebi este livro, com desejos pretensiosos, mas modestas proposições. Reuni insights, réstias que pudessem iluminar um pouco a nossa fé e libertá-la dos fungos da irreflexão que, protegidos da luz, espalham mofo e focos de infecção em sua conexão com a vida. A imagem é boa, porque é assim que acontece aos crentes quando fogem do enfrentamento de sua realidade. Adiam a reflexão e enfermam suas relações.

Dividi a exposição dos ensaios em três movimentos, que apesar disso não deixam de estar entrelaçados em conceitos que se repetirão teimosa, mas didaticamente. Na primeira parte, reuni ensaios que pretendem se livrar de práticas que considero vícios nocivos a uma espiritualidade lúcida, como a sublimação da realidade, o medo e a preguiça de enfrentar questões difíceis, a fobia à dúvida, a fantasia de relações e conceitos absolutos e organizados por propósitos divinos, as gigantes expectativas sobre as igrejas e suas organizações e programas doutrinários, mas também o estranho menosprezo pela poesia e outras expressões de beleza.

O segundo movimento deseja abrir janelas de compreensão sobre a Bíblia, o texto que funda a fé cristã e organiza seu culto, moralidade e expectativas sobre a vida. Nestes ensaios, convidei filósofos e teólogos para breves e promissoras conversas sobre o que podemos esperar do texto bíblico: Gadamer, Nietzsche , Rorty e Vattimo sugerem ideias ao lado de Segundo, Queiruga, Ricardo Gondim e Rubem Alves. Acredito que desmistificar a Bíblia é potencializar sua capacidade de abençoar a vida humana.

O terceiro momento deste trabalho quer ofertar algumas sugestões de compreensão da relação da fé com as nossas expectativas para a vida concreta, e algumas insinuações de caminhos a seguir em nossa espiritualidade. Deixei para esse instante um ensaio muito precioso para a minha trajetória, Meu pentecostalismo revisitado, texto autobiográfico, sem deixar de ser ensaístico. Publiquei-o pela primeira vez em 2002, e retomá-lo foi terapêutico e enriquecedor; o meu leitor, que já o conhecia, perceberá as novidades que felizmente pude lhe acrescentar. Acredito sim em uma pentecostalidade como ingrediente afetivo e catalisador da espiritualidade cristã.

Já me confessei pretensioso com o livro e a reunião de filósofos e teólogos que vêm iluminando meu caminho, mas quero incentivá-lo na leitura, antecipando que também participaram desta aventura alguns poetas e romancistas imprenscindíveis para a construção da minha fé. Entraram na roda Dostoievski, Muriel Barbery, Pascal Mercier, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Lenine, Gilberto Gil e Jorge Luis Borges. Ninguém melhor que o poeta para insinuar versões possíveis para a vida, e não apenas, mas também provocar a imaginação, esta modalidade espiritual tão esquecida entre religiosos, no entanto tão importante para uma vida luminosa e aquecida por esperança.

Boa leitura!

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Descubro aos 39 que uma história são muitas e que a narrativa reivindica ser recontada sempre e nunca em definitivo. Parece que o modo como vínhamos contando quem somos, no que cremos ou não mais, o que esperamos e do que desistimos, porque chegamos aqui, não conseguisse mais nos narrar. Entediados com os contos de nossa história, angustiados pela desconfiança de que um outro era uma vez precise ser arriscado, redescrevemo-nos.

Não consigo contar a minha história como vinha contando. Minha filha me perguntou em um dia desses: por que você é assim, diferente? Engasguei nas primeiras sílabas da história que sempre narrei para dizer quem sou. Não era mais. Não contava mais. Instantes novos, pessoas distintas, perguntas outrora adiadas, respostas blasfemas, fantasmas desvelados mudaram quem venho sendo desde o era uma vez. Não falo de capítulos novos de uma novela antiga. Mas de fatos novos que recontam a história toda. Uma narrativa é uma verdade que nunca chega, uma identidade sempre a caminho.

Talvez por isso Jesus nada tenha escrito. A palavra escrita finge que disse o que nunca deixará de ser. Talvez por isso, a única vez em que escreveu o fez na areia. Para que a brisa, essa velha contingência, tratasse de desescrever. Foi a escrita fugidia na areia que obrigou os contadores de uma história só, a que junta pedras nas mãos, a recontarem-se. Quem não tiver pecado que conte uma única história. À mulher, que repetia pela última vez a história de sempre, impôs a tarefa de olhar-se de novo e narrar-se de novo e tentar ser de novo: onde estão as pedras, memórias mortas de quem é você? Restou o vácuo criativo das versões que se foram. Eu também não sei mais quem é você. Vá e conte de novo. Era uma vez uma mulher que queria amar.

Engasgado nas primeiras sílabas da história que sempre contei, mas que não me conta mais, perguntei, curioso, como se quisesse saber como de fato foi: o que você acha? Seu olhar irônico e juvenil, sobrancelhas franzidas, maneando a cabeça, era Jesus sugerindo redescrever-me. Esse que vou deixando de ser.

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O Thales da gente

Thales sem a gente é sem “h”

A vida sem beleza é só letra com som,

a fonética da mesmice

É o que se diz que todo mundo diz

O Thales da gente é com “h”.

É o que se vê e a boca não fala,

só abre, calada e feliz

É o “h” do Thales,

Letra sem fonema, beleza indizível.

Lá em casa é assim,

a gente tem essa mania de inventar

A gente vive inventando beleza

Tá tudo bom, tudo já bonito.

Mas a gente inventa um “h”

Éramos eu e ela,

Afeto sem feto.

Tanta gente e só a gente.

E a gente inventou a Clara,

Inventou a ternura no que já era delicadeza.

Éramos eu, Bete e Clara

E não faltava mais nada.

E a gente inventou a Gabriela,

Inventou a alegria no que já era felicidade.

Éramos eu, Bete, Cacá e Bibi

E gente inventou o Thales,

Inventou o amor no que já era… amor mesmo,

inventou o “h” do Thales.

É isso o que o Thales é,

Invenção de beleza.

É isso o que a gente é,

O “h” do Thales

Elienai, o phai do Thales.

  ABC e festa junina 003

27 de janeiro de 2005, algum tempo depois das 8:51 h. do dia 25/01, quando o Thales conheceu a luz. Madrugada, entre um choro e outro, Maternidade do Hospital São Luiz, São Paulo.

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O que vejo quando te vejo?

A vida inventada por Deus em nós.

Toda a grandeza da criação

em meio metro de choro e colo.

Recém chegada à nossa luz,

seu choro cessa no colo certo.

 

 

O que vejo quando te vejo?

A curiosidade pulsando em passos,

menina de olhar aceso,

fôlego inquieto ansiando pelo novo.

Sua ida desconcertada ainda

encontra abrigo tão logo vinda.

 

O que vejo quando te vejo?              

Papai ou mamãe, o que importa?

se as palavras, tão logo ditas,

pronunciam o som do afeto

de quem entendeu o que vale:

Qual for a fala, o amor é que diz.

 

 

 

O que vejo quando te vejo?

              A intensidade das fantasias nos olhos e gestos

Quando corre, pula e grita,

brinca, brinca e brinca.

A vida com gosto de menina.

 

 

O que vejo quando te vejo?

A vocação doce de voltar pra casa.

A recepção empolgada abrindo a porta,

a convicção feliz do melhor lugar.

Minha filha, minha amiga, meu lar.

 

 

O que vejo quando te vejo?

Deus alinhando meus erros e acertos,

você me aproximando de Deus,

fazendo-me pai, ensina-me a ser filho.

Nosso abraço faz descer o Céu,

um chamego e a vida faz sentido.

 

O que vejo quando te vejo?

10 anos brindados de Ana Clara.

A cada Agosto um gosto de festa.

A cada Agosto, gosto mais de viver.

A cada Agosto, a cada dia,

Ana Clara, gosto mais de você.

 

O que vejo quando te vejo?

Vejo você 10 vezes mais filha.

10 vezes mais linda, 10 vezes maior.

Os primeiros 10 anos de uma mulher.

A criança da criação,

A criação de um mundo melhor.

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A fala de Deus

Elogia os pés: formosos

De gente anunciando boa nova.

A fala de Deus

Elogia o ventre: feliz

Anunciação de gente nova.

Você é toda anunciação,

Formosura de Bete inteira,

O aviso redondo e cheio:

10 anos de “eu e você”,

o binômio do amor.

 

Sagradas no altar,

Alianças trêmulas (de tão convictas)

Trocam-se entre os dedos:

Entrelace de histórias.

Uma noite doce (gosto de cereja),

Interpenetração de vidas.

Amamos tanto, à redondeza.

O redondo é da Clara,

Essa luminosidade em gente,

Faz de nós, três: a trilogia do amor.

 

As alianças não tremem mais (de tão convictas)

A noite continua doce (gosto de férias)

Amamos tanto, à redondeza.

O redondo é de mais uma,

Sua alegria já sapeca sem chegar

(pula em festa na barriga)

Fará de nós, quatro:

A quadradura de um amor redondo:

De tanto que nos amamos.

 

 

 

25/07/2002

00:15 h.

Quem me segue que também eu não o siga?

  • O erro é o professor. 2 hours ago
  • Aprender é ouvir. 2 hours ago
  • Idealizar pessoas, nosso doce e incontornável vício. Decepção, nossa amarga e necessária libertação. 3 hours ago
  • Vc é meu convidado. Na @BetesdaFOR, hj, 19:30h. Para salvar-nos uns aos outros. Rua Cap. Gustavo, 3552 3 hours ago
  • Minha conversa de logo+ é sobre salvação, Para salvar-nos uns aos outros, na experiência da competente advinha e do angustiado carcereiro. 3 hours ago

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