Sei quem sou quando sei contra quem me oponho. Ao me afirmar estou implicitamente negando tudo aquilo que me nega e que me ameaça de dissolução. Identidade pressupõe conflito. E, inversamente, conflito cria a identidade. Compreende-se, portanto, que as situações de perigo tendem a produzir coesão social. (…) A guerra produz muito mais sentido de unidade nacional que a paz. É mais fácil convencer uma nação a fazer pesados sacrifícios para a destruição de um inimigo comum, que convencê-la a construir um mundo de paz, onde não haja inimigos. Na guerra, os inimigos internos marcham juntos sob uma mesma cadência.(…)

O PRD (protestantismo da reta doutrina) tem uma visão muito clara dos seus inimigos. E a definição dos seus inimigos é parte de sua maneira de se compreender a si mesmo. (…)

As aberturas ecumênicas do catolicismo, assim, tiveram sobre o PRD um efeito oposto ao que se poderia esperar. A renovação católica ameaça mais o PRD que as suas perseguições passadas. As perseguições foram funcionais à comunidade perseguida. Contribuíram para um senso de identidade e coesão. Mas se o inimigo desaparece, não existe mais contra quem lutar.

O ecumenismo implica uma transformação de definições: inimigos são redefinidos como amigos. Mas, como já observamos antes, num mundo bélico, de oposições metafísicas radicais, a redefinição do inimigo implica uma subversão da própria estrutura do real. Aquele que tenta redefinir o inimigo é, portanto, um traidor, alguém que abre as portas ao cavolo de Tróia, o presente que contém a morte. (ALVES, Rubem. Religião e Repressão. Teológica e Edições Loyla, págs. 285-286 e 292.)

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