Tenho pena dos brasileiros barrados e expulsos dos Estados Unidos e da Europa.
Tenho vergonha dos políticos do Rio de Janeiro que fabricaram bala perdida, dengue, jogo do bicho; eles matam sem se sentirem culpados.
Tenho pena da Polícia Federal que trabalha muito e eficientemente, mas em vão; bastam poucos dias e os presos ganham a liminar que lhes garante a liberdade esplêndida.
Tenho vergonha dos dirigentes do futebol brasileiro. Neles vejo exposto o lado mais sórdido da cultura nacional.
Tenho pena dos professores que ralam nas escolas da rede pública. Imagino quanta energia gastam para manter o profissionalismo enquanto carteiras mal ficam em pé e falta giz.
Tenho vergonha dos pastores da televisão. Eles não imaginam como soam ridículos em suas prédicas.
Tenho pena dos meus patrícios e das minhas irmãs,
coveiros,
operadoras de telemarketing,
lavadores de prato,
porteiros,
pescadores,
bordadeiras,
serventes de construção,
trocadores de ônibus,
catadoras de lixo,
copeiras;
Meu Deus, como vivem?
Tenho vergonha de gente como eu e você;
precisamos escrever e esforçar-nos para ter pena.
Soli Deo Gloria.

5 comments
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31/03/2008 às 11:56 am
Anônimo
Uma pergunta e uma constatação:
Em que categoria de gente ele coloca os tais “patrícios e irmãs” citados, para ter pena?
Depois de escrever isso, ele deita em sua confortável cama e dorme o sono dos justos.
Ps.: Ah, e meu nome é Anônimo mesmo, não precisa melindrar, não (rs)!
31/03/2008 às 2:07 pm
Lou Mello
Pena e vergonha são dois sentimentos negativos. Nietszche conta que Aristóteles costumava receitar laxante para as pessoas que sentiam compaixão (uma forma mais apurada da pena). Mas entendi o propósito do autor em antagonizar algozes e vítimas, finalmente chamar os leitores à razão. Por essas e outras fico cada vez mais perplexo com Jesus Cristo e suas idéias subversivas de desejar morrer por gente má como esses algozes citados na coluna da vergonha, tanto quando pelas vítimas citadas na coluna da pena. Morro de vergonha e pena desse cristianismo utópico.
01/04/2008 às 1:14 pm
Anônimo
Mas, caro senhor, afinal de contas não somos todos algozes e vítimas ao mesmo tempo? Ora um, ora outro?
E se compaixão é um sentimento negativo, como Nietzsche – impulsionado por sentimentos muito peculiares em relação ao cristianismo – define, como pensar em um Cristo que se compadece tanto que “decide” morrer (e morre)?
Nietzsche falava da virtude dos fortes, Cristo falava da virtude dos fracos. Só que os fracos (nós!) não entenderam que (em Cristo) na fraqueza poderiam ser fortes, isso foi o que revoltou Nietzsche: a insistência dos fracos na fraqueza.
Uma coisa Nietzsche acertou: somos uma religião de rebanho mesmo.
Paz.
08/04/2008 às 4:08 pm
Júnior
Existem doenças leigas, ministeriais, amadoras e profissionais, também chamadas de crônicas. Mas a dengue já está se aposentando por tempo de serviço.
Abraço
12/04/2008 às 3:03 pm
Moisés
Ninguém gosta de ser penalizados ou empenados. Isto é coisa de condenado ou de galinha.
Mas o significado de “pena” é mais abrangente.
Por isso, peço: Tenham pena e dó de mim em meus dias maus. Certamente enxergarei apenas amor e cuidado.
Temos de aprender a dicernir significação coração. Lá é onde se dá os significados positivos ou negativos.
Abraços!