Chamamos de preconceituoso aquele a quem xingamos. Um condenado ao inferno da ignorância. A pessoa preconceituosa é a que conduz para o ato do conhecimento uma opinião já formada sobre o assunto. Sua concepção orienta a apreensão de novos conceitos. Dessa forma, agir preconceituosamente é impedir-se o acesso ao conhecimento mais profundo, ou à verdade.
Um pouco mais do mesmo. Um preconceito é como uma impureza no manuseio da verdade. Quem quiser chegar a um conhecimento legítimo precisará purificar-se de qualquer idéia que possa influenciar a compreensão do objeto. O preconceito, pensando assim, distorce o conhecimento pretendido.
É com essa advertência que a epistemologia moderna indica o acesso ao conhecimento bem fundamentado. É com essa perspectiva que o fundamentalismo resolve o nó de sua pretensão de posse absoluta da verdade sobre Deus: o intérprete que há entre o texto bíblico e o que dele se diz. O cientificismo propõe para o bom conhecimento o método, o rito de purificação das idéias, que promete livrar a interpretação de todos os preconceitos. A hermenêutica fundamentalista apresenta uma ciência de interpretação, letrista e imparcial, que pode fornecer a confiança de que sua aplicação redundará em uma “reta doutrina”. Livre-se dos preconceitos e descubra a sã doutrina! Lindo, se não fosse uma tolice.
A lógica moderna chegou ao limite dessa pretensão ao propor uma linguagem artificial, uma linguagem matemática, para articular todo e qualquer conhecimento. Uma linguagem pura, sem as ambigüidades da linguagem historicamente constituída. A compreensão fundamentalista da Bíblia também tem a sua linguagem artificial. É o dogma da inspiração verbal-plenária das Sagradas Escrituras, tudo o que está no texto é absolutamente dito e orientado pelo próprio Deus, portanto, é um texto inerrante e infalível. Se formos capazes de dominar o super-texto, tal como o lógico quer dominar a linguagem científica, nosso discurso será digno de confiança.
Mas tudo seria perfeito se não fosse humano. A inserção do humano é a manifestação do provisório, do incerto, do ambíguo, do contraditório, do histórico, do finito. Entrou gente, chegou o duvidoso. Se há a liberdade humana, também há a imprevisibilidade. Por isso, é impossível a tal relação pura com a verdade. É impensável a compreensão das Escrituras sem os preconceitos.
Uma pessoa não recebe a linguagem como um processador previamente programado recebe um banco de dados. A linguagem é a experiência da pessoa com o seu mundo. Uma experiência histórica, por isso processual e finita. Em um mundo intersubjetivo, por isso ambígua e conflitante. A pessoa nasce e se desenvolve com linguagem. O que fala e compreende ganham sentido à medida que experimenta socialmente o seu mundo e o seu tempo. Uma palavra significa sempre alguma coisa muito rica e prolífera. Ou seja, uma coisa sempre significa um mundo de coisas. Dizer algo remete a muitas experiências e sentidos. É tanto assim que a teoria literária fala do texto como algo que deixa de pertencer ao seu autor quando ofertado aos leitores. E o que significa não é o que o autor poderia originariamente pretender, mas tudo o que incorre na leitura de quem o faz.
Tentar ler qualquer coisa sem preconceitos, sem os sentidos carregados de antemão, é o mesmo que não ler. Ninguém lê sem uma bagagem nas costas. Uma palavra só é lida, ou compreendida, ou dita porque faz parte de uma lógica, de um modo de compreender agregado historicamente. Senão, nada diz. Senão, nada significa. Então, não há leitura não preconceituosa possível. Quando eu leio “amor” só compreendo porque tenho “amor” na bagagem. O “amor” que leio funde-se com o “amor” que carrego e minha bagagem se transforma e aumenta. Isso é compreensão.
É a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer que propõe a imprescindibilidade dos preconceitos para a compreensão. Marco Antonio Casanova, em seu excelente artigo sobre a hermenêutica gadameriana diz: “No momento em que nos aproximamos do texto, já nos vemos orientados por uma série de expectativas de sentido e significação que nunca podemos descartar por completo. Mais ainda: se pudéssemos algum dia suspender essas expectativas, tal suspensão não implicaria senão uma inviabilização imediata e completa do movimento mesmo de leitura.” [1]
Não só não podemos ler sem os preconceitos, como eles também são componentes riquíssimos para uma compreensão atual das Escrituras. São os preconceitos que atualizam e fazem ter sentido o que compreendemos. São eles que conectam as Escrituras com o nosso mundo, nossa vivência e nossas aspirações. São eles que nos fazem herdar hoje as idéias do que já estava escrito.
Sendo assim as palavras também podem ser entendidas como uma herança de sentidos acolhida com a compreensão. Ler é herdar valores. Sentidos até então escondidos nas palavras. Mas desvelados no encontro das palavras que eu carrego com as demais. Leitura é encontro de palavras, as que estão em mim com as que estão no texto. Leitura é o sentido desvelado no encontro das palavras. Leitura é herança de sentidos. É herança e revelação.
“A fé vem pelo ouvir a palavra, mas como crerão se não há quem pregue?”. Porque só as palavras falam às palavras. Porque apenas as palavras ouvem as palavras. Só os preconceitos nos dão ouvidos de verdade. Só os preconceituosos herdarão as palavras. E o Reino de Deus.
Elienai Cabral Junior
[1] CASANOVA, Marco Antonio. A compreensão em jogo ou o jogo da compreensão. Artigo publicado pela revista Mente.Cérebro e Filosofia, nº11, pág. 63.

9 comments
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11/09/2008 às 12:31 pm
Marcio Uno
Gostei do texto, principalmente de seu título, que é algo bem instigante e interessante. Bela reflexão para as questões da relatividade absoluta da pós-modernidade.
Abraços
22/09/2008 às 1:55 am
carla alana
bem não tenho muito o que dizer pois sou suspeita por que sou da betesda e adimiro demais os pensamentos e o modo que olhamos as coisas
gostei demais do topico e de todo o texto meio intrigante que enche e abri as nossas mentes
15/10/2008 às 11:38 pm
Julio Soder
Não sei se é apenas impressão de minha parte, posso estar errado, corrija-me se estiver; mas parece que a idéia,não só neste, mas nos últimos posts que li neste blog, parece chegar as raias do Antinomismo.
Sei que o que sabemos não é final mas também torna tudo que aprendemos duvidoso ou no mínimo inconsistente.
Será que alguma coisa é “real”?
16/10/2008 às 12:54 am
rubens osorio
Como bem dizia meu amigo, mano e sábio jovem – Valdir Steuernagel – nos anos 70: “Lemos com as lentes da cultura e individualidade que trazemos”. Portanto, impossível fazer uma leitura “padrão” de qualquer coisa, tanto mais das Escrituras!
16/10/2008 às 5:46 pm
Julio Soder
Aos 50 anos, depois de 15 anos servindo como missionário na Amazônia, carregando, internando e cuidando de viciados, prostitutas, ladrões e toda espécie de gente oprimida pelas trevas, estou em BH para tratamento médico.
Aqui, também, os pecados e a opressão é a mesma mas é diferente.
O tratamento médico me obriga a restringir as atividades e isto me possibilitou conhecer o mundo da internet, os blogs (até abri um), os artigos, mensagens e pensamentos de outros homens de Deus.
Sinto-me, no momento, um troglodita. Não somente pela complexidade da tecnologia que agora estou tentando lidar, mas principalmente pelas idéias e pensamentos de algumas pessoas que escrevem nesses blogs.
Fala-se com tanta facilidade e fluência sobre Deus, as Escrituras, revelação, missões e tudo o mais que se relaciona a obra de Deus.
Fala-se e critica-se com uma facilidade de espantar e me dá a impressão que os autores são verdadeiros monstros da fé, pois eu creio que a autoridade e as palavras de alguém são testadas pela sua vida e obra.
Pela quantidade e certeza do que falam devem ter feito muitas coisas e terem sido muito usados por Deus.
Por isso desejo conhecer estes irmãos e aprender com eles, ouvindo-lhes o testemunho das coisas que, através delas, Deus em Sua misericórdia operou, para que a minha fé seja edificada e fortalecida.
Quero olhar nos seus olhos e ouvir as suas experiências e as suas dores ao contarem ao que renunciaram para servir ao Senhor, as suas lutas contra o pecado e apelos da carne.
Quero ouvir delas as derrotas e vitórias que tiveram na caminhada e serviço.
Quantas e quais privações passaram
Ouvir quantas pessoas Deus permitiu que evangelizassem.
Quantas discipularam e pastorearam.
Quantos obreiros e líderes treinaram.
Quantas congregações tiveram a oportunidade de fundar.
Não que o número importasse, mas que quantidade de esforço foi feito porque cada unidade dessas já é uma obra, um universo.
Quantas e quais revelações tiveram de Deus e em quais situações e como Deus revelou.
Quantos e quais milagres e provisões de Deus presenciaram.
Pela quantia de material escrito terei muita coisa a ouvir e ficarei como os crentes de Antioquia, quando Paulo voltava de suas viagens, não ouviam pregações e sim o relato de quão grandes maravilhas Deus tinha operado através dele.
Vou conhecer não somente os fatos mas sentir a autoridade e a unção daqueles que experimentaram ou foram testemunhas oculares das maravilhas de Deus.
Quem quiser vir comigo não esqueça o lenço. Quando há autoridade e unção o uso do lenço torna-se inevitável.
Paz seja convosco.
16/10/2008 às 6:17 pm
Elienai Cabral Junior
Julio,
prefiro me antecipar à decepção de quando me conhecer pessoalmente. Não sou um “monstro da fé”. Sou um homem. Coloquei o ponto final logo após, porque achei que quaisquer adjetivos pudessem ou ser generosos demais ou mesquinhos. Não tenho nenhuma unção que me privilegie entre os demais. Sou cheio de inadequações. Às vezes muito ansioso e confuso. Nada parecido com os heróis da fé descritos por você.
Pastoreio há 16 anos. Desde os meus 22 anos de idade. Conheço os bastidores da vida evangélica de todos os ângulos. Nem poderia ser diferente. Sou neto de pastores. Filho de pastor e pastor. Pastoreio uma igreja no Ceará. Já andei e trabalhei um bocado.
Quando escrevo tenho o desejo de pensar as minhas questões sobre Deus, a fé, a Bíblia, a igreja, a vida. Confesso que não vejo nos números do que faço autoridade para escrever isso ou aquilo. Até porque não escrevo um manual para o sucesso, nem dou conselhos para a eficiência, nem indico mapas para a felicidade. O que me autoriza é o que me atormenta. Minha autoridade é do tamanho da minha angústia. Meus contratempos. Meus medos. Minhas expectativas. Minhas frustrações. A dor daqueles que pastoreio. O desamparo de milhares de pessoas com quem me encontro. A injustiça que desumaniza minha cidade. Os heróis da fé que se desconstruíram ao meu redor. Mas também meus sonhos, alegrias, descobertas. A beleza que se mostra na vida humana. Uma autoridade mais frouxa essa das alegrias, mas também uma autoridade. Em tudo isso um pouco, bem pouco, de Deus. Mas muito mais, bem além, do que posso discernir.
Espero que no dia em que eu precisar de um amigo, haja um com um lenço para enxugar minhas lágrimas como um irmão. Mas espero, com mais força, ter muita gente leve por perto para dar boas gargalhadas, brindar nossas taças cheias de vinho e celebrar tudo o que de Deus nós descobrimos pelo caminho.
Um abração,
19/10/2008 às 2:08 pm
Lilian Mara
Acho engraçado a forma como sempre busca o paradoxo nas suas reflexões. Digo “engraçado” mas sem nenhum demérito que possa ser associado ao termo, pois para mim engraçado é tudo que me surpreende. E realmente gosto de ser surpreendida. É muito fácil ler e ouvir sobre as mesmas coisas ditas centenas de vezes e não ser surpreendida por nenhum novo modo de pensar, por nenhum outro ângulo fora daqueles que nos acostumamos a olhar. Fácil e monótono. Enquanto a vida real é tão complexa e surpreendente.
Admiro que use a sensibilidade de homem para ser pastor. Que encare as coisas complexas de nossa humanidade, os paradoxos da vida e até as nossas próprias contradições com seriedade. Que não tenha vergonha de ser humano. Mas por que será tão difícil para a maioria de nossos líderes (e não só para os líderes) assumir as questões humanas do jeito que elas de fato são?? Por que é tão raro ver pastores fugirem das reflexões “óbvias” e de fato mergulharem na essência do humano e do divino sem medo de se perderem, quando é tão óbvio que ninguém pode conhecer de verdade algo sem antes se perder completamente nele?? Talvez porque sejam tão humanos que tenham medo – “medo que dá medo do medo que dá” como diria Lenine. Se tiver outra resposta, por favor, espero vê-la postada em breve.
Abraço.
31/10/2008 às 10:15 am
joscelito vasconcelos
A paz um grande abraço pra vc e familia que Deus os abençoe muito
21/04/2009 às 2:11 am
toninho campos
fico maluco com voce Elienai , é instigante e como é que eu não pensei nisto antes? Que legal , continue penssando seu louco,agora tenho como compreender obscuridades tão escondidas de reles mortais como eu .muito obrigado cara. o legal é saber que voce vai me surpreeder logo na quartamarcha , hoje é segunda e ontem foi primeira ; ou talvez antes neste blog . que legal .
eu te amo cara.
toninho ager ET. não salve isto ,por favor. é coisanossa.