A obediência que liberta finca suas raízes no interior do homem, é tecida com a voz pura do obediente; pura pois não deve haver nessa voz, para que o ato de obediência seja efetivamente libertador, nenhum fonema que não seja de estrita autoria daquele que obedece.
A resposta mecânica a estímulos exteriores não é obediência e sim tolice, pois tem sua raiz não no sujeito que responde – que é nesse caso nada mais que um espelho a refletir cenas exteriores – mas geralmente em estruturas de poder, que dependem invariavelmente desses espelhos indolentes para manter no palco o seu teatro surreal.
Suprimir a autonomia do maior número possível de homens é não apenas a forma mais eficaz para estender e manter um poder como também uma maneira de obstar a salvação, originada de uma resposta autêntica e livre do homem à proposta de Deus.
O problema com a Igreja é que ela tornou-se uma estrutura de poder e com isso fez-se não uma semeadora da mensagem salvífica, mas precisamente o contrário, um sério obstáculo à divulgação dessa boa nova, uma estrutura que reclama espelhos que reflitam seus caprichos.
A tolice, me ensina Bonhoeffer, “não é um defeito de nascença [...] as pessoas são feitas tolas, isto é, deixam-se tornar tolas [...] Talvez seja mais um problema sociológico que psicológico. Ela é uma forma particular de influência das circunstâncias históricas sobre a pessoa.” Mais adiante o teólogo alemão, que sofreu barbaramente com a tolice nacional-socialista, afirma: “Qualquer demonstração exterior mais forte de poder, seja ele político ou religioso, castiga boa parte das pessoas, tornando-as tolas.”
O rebanho está inundado de ovelhas tolas que são reproduzidas em toda sorte de divisão celular, em meioses e mitoses. Na conversa com um tolo, lamenta Bonhoeffer – descrevendo com felicidade ímpar a impressão que se tem ao tentar conversar com um crente convicto – “chega-se a se sentir que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões e com palavras de ordem que tomaram conta dele. Ele está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser.”
Por viver no tempo e espaço em que viveu, Bonhoeffer sabia que “somente um ato de libertação poderia vencer a tolice” e que “uma libertação interior autêntica, na maioria dos casos, somente será possível depois que tiver ocorrido a libertação exterior. Até que esta aconteça, temos de desistir de todas as tentativas de persuadir o tolo.”
O desconcertante é que se queremos espalhar a boa nova o primeiro passo é tirar de cena a Igreja.

9 comentários
Feed de comentários deste artigo
29/12/2008 às 7:50 pm
Dudu
Elienai,
É isso aí, quem se aventura a garimpar pérolas como esse texto, acaba descobrindo uma verdadeira fonte de riqueza. Estou inaugurando meu primeiro post aqui no seu blog, apesar de ser um leitor assíduo do mesmo já há alguns meses. Não deixe de nos brindar com sua lucidez. A distância de Fortaleza para São Paulo é grande, então espero que esse seja um dos espaços que vai ajudar a estar perto de você.
Saudades desde já!
30/12/2008 às 7:14 pm
mpaii
Nossa… gostei muito dos textos, é ótimo para refletirmos sobre como temos vivido e o que temos feito tanto para nós p/ Deus e p/ o próximo… é uma leitura bem proximar do leitor e não é nada forçado… os textos são uma benção… li muitos deles e vou continuar lendo… estou linkando esse fim de semana seu site no meu blog…(tenha liberdade se quiser fazer o mesmo)
Fique na Paz…
Abç…
http://cavernadezion.wordpress.com
13/01/2009 às 12:02 pm
Paul
Tolo é quem se deixa ser ensinado por Bonhoeffer…
14/01/2009 às 1:18 am
Leny Brito
“chega-se a se sentir que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões e com palavras de ordem que tomaram conta dele. Ele está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser.”
Há um tempo atrás, vendo e ouvindo essa postura em algumas pessoas, me questionava o que estava me faltando… por ser e pensar um pouco diferente… Hoje percebo o quanto foi salutar pra mim, em não me deixar influenciar por essas “ondas”.
Muito interessante esse texto.
Pr Elienai, um enorme abraço pra você e a Bete.
Saudades,
Leny
14/01/2009 às 11:50 am
Marcio Uno
Belo texto!!! Já sofri muito com repressões, abusos de poder e autoritarismo na igreja. Esse texto nos traz alento e forças para continuarmos acreditando no Reino de Deus.
04/02/2009 às 1:12 am
Jarson Brenner
Fala de tirar que igreja de cena? A igreja como denominação?
Se for isso então lhe apresento o movimento emergente. Que visa a desinstitucionalização das igrejas.
Resumindo: Igreja são pessoas e não essas denominações.
Abraço.
16/02/2009 às 9:11 pm
sergio ribeiro
Muito bom esse texto!
11/03/2009 às 4:10 am
antonio campos
Elienai , como são ricos estes texeos . PARABÉNS .,
11/03/2009 às 4:29 am
antonio campos
como sao ricos estes textos obrigado por disponibilizar Qtal se voce também colocasse seus sermoes da betesda tatuape tambem , atingiria
um putro público e talvez o mais carente desse tipo de argumento que como nao poderia deixar de ser é mais leigo que estes notaveis comentaristas
tenho anotado seus semoes na medida do possivel alguns já passei a linpo se voce quizer ´psso ajudar neste intento pois são preciosidades riquissímas que não devem restringir se a sortudos como eu que tenho o privilegio de ouvi los semanalmente.
só quero partulhar de mente tão brilhante como a sua graças a DEUS.
um abraço a bete e filhos .
seu missíonário aposentado
toninho ager.