
Tão logo aconteceu, ainda nos primeiros instantes do ofício de pregador, desdenhei do que entendia como uma distração, ou superficialidade de muitos de meus ouvintes. Após um longo (e chato?) sermão, marcado por uma construção cuidadosa de conceitos, desembocando em uma conclusão bem assentada, ficavam apenas, como marcas distintivas, ou as comparações, ou as histórias ilustrativas, ou poesias, ou citações de filmes, ou músicas, utilizados como coadjuvantes do grande conceito. O brilho afetivo da poesia ofuscava levianamente a importância moral das asserções.
Hoje, menos ocupado em me auto-afirmar, descrente da relação entre o que digo e o que sou, rendo-me. As pessoas não pensam através de conceitos. Pensam através de imagens.
Palavra boa é palavra imaginada.
As palavras, provavelmente, estão primariamente relacionadas às imagens que colecionamos enquanto vivemos. Não só as imagens dos olhos, mas todas as que formamos impressionados por tudo o que nos afeta.
A verdadeira construção do saber é multimídia. As palavras ditas em e através de um mundo vivido. Ninguém, portanto, pensa para valer sem imaginar.
Esta é a grandeza da Bíblia. Marcadamente narrativas, As Sagradas Escrituras são sagradas imagens. Gênesis não conceitua e descreve a formação do universo e a origem da raça humana. Quem o faz absolutamente? Apenas imagina o significado do universo e da vida humana. Universo é criação. Humanidade é imagem. À imagem de Deus os criou.
A vida é feita de jardinagem. Insistente plantio de paraísos. Chão coberto de mato, flores e trilhas, o traçado da sobrevivência. Cores e sons. Aromas e sabores. Alguns familiares e com poucos atrativos. Outros diferentes. Proibidos. Intocáveis para quem não inventa destino. Incontornáveis para quem quer mais que viver. Para quem deseja ser, quem busca história.
Duvidar. Transgredir. Imaginar possibilidades tem gosto de fruto proibido. Escolha e culpa tem gosto de fruto comido e o jeito de humanidade parida. Na vertigem da liberdade, na nudez da responsabilidade, na dor dos processos de criação, no suor do trabalho, no mundo inseguro e inacabado. Na culpa de querer desistir tarde demais, no pecado de tentar fugir à história imprevisível que o lado de lá do jardim aponta.
Fé e esperança tem a afeição do calor de um Deus que desde já nos veste de perdão e graça. Salvação é a pele da inocência que sempre cobre a pele fria e desnuda da coragem de fazer escolhas. Emancipar-se é cercar-se da friagem do inusitado. Ser salvo é abrigar-se na compreensão quente de quem não nos deixa voltar atrás. É assim que vejo os três primeiros capítulos da Bíblia.
Faz alguns dias que sentei no chão do quarto só para contar histórias. Thales e Gabriela se aconchegaram rápido em torno de mim. Olhos dilatados. O sorriso ameaçado nos rostinhos. Conto histórias. Imito vozes. Alimento imagens com entonações várias. Conto uma. Conto duas. Conto três. Nunca me sinto tão perto de meus filhos quando conto histórias. Nunca os tenho por tanto tempo e com tanta intensidade quando sento no mundo das fantasias que mora lá no quarto deles. Mas ainda é pouco. Acredita? Gabriela acha que as melhores histórias não são as que lemos. Prefere as que inventamos. Conta uma, vai! Era uma vez um menino chamado Juninho. Silêncio e olhinhos compenetrados.
Ele tinha uma irmãzinha chamada Tamara. Pera aí! Essa é a sua história, pai! Tudo bem. Não para. Histórias findas. Crianças cobertas. Hora de dormir para elas. Hora de voltar para o mundo dos adultos para mim. Hora de conceitos. É assim que imagino Deus na Bíblia. Como um pai que conta histórias. Não quaisquer. As melhores estão para além da escrita. Mas não só. A surpresa é que as histórias que ele conta são também as suas.
Um Deus com histórias é um Deus mais perto e inesquecível. É o Deus da Bíblia. Um Deus narrado ao nosso lado.
Foi também naquela época infantil de pregador, das frustrações com a superioridade das imagens frente aos conceitos, que tomei uma decisão. Não posso fazer com a Bíblia, Palavra de Deus, o que seu grande inspirador se recusou a fazer com seu discurso. Revelar o que é pelo que se diz. Melhor é revelar o que pode ser pelo que imaginamos. Foi quando convidei gente imaginativa para ler a Bíblia comigo. Fernando Pessoa. Leonardo Boff. Drummond. Rubem Alves. Dostoievisk. Adélia Prado. Mario Quintana. Kierkegaard.Thomas Mann. José Lins do Rego. Ricardo Gondim. João Guimarães Rosa. Paulo Brabo. Chico Buarque. Mia Couto. Richard Rorty. Marcio Cardoso. Lenine. Meus filhos. Gente que toca o mundo pela imaginação.
Como Jesus e suas parábolas. Como explicar que ser salvo de uma vida sem sentido não é uma questão de religião, nem de hierarquia, nem de ideologia, mas uma questão de amor? Pelo que se diz? Não, sequer seria entendido. Apenas e precipitadamente crucificado. Melhor contar uma história como a do ‘Bom Samaritano’. Nem sacerdote, nem levita. Nem religioso, nem capacitado. Apenas sensível o bastante para interromper uma viagem e se aproximar de uma vítima da crueldade de outras pessoas. Só as imagens podem nos salvar das crueldades que nossos conceitos insistem em disfarçar.
Vejo gente usando a Bíblia para ter razão. Para construir sistemas doutrinários e messiânicos (teologias?). Para excluir os loucos (hereges?) deste mundo. Para instruir os pequeninos (aqueles que só querem uma boa imagem para ser felizes). Para ganhar o mundo e perder a própria imaginação (alma).
E pensar que na Bíblia Deus pode nem ter revelado palavra alguma do texto. Mas apenas imagens.
Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.(1Co 1.20-21) Naquela hora Jesus, exultando no Espírito Santo, disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. (Lc 10.21)
Elienai Cabral Junior

6 comments
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10/05/2009 às 4:28 pm
Wendel Cavalcante
Que beleza, Elienai!
Sentar-se no chão e ficar mais perto do Reino, assim como os pequeninos estão!
“Um Deus com histórias é um Deus mais perto e inesquecível. É o Deus da Bíblia. Um Deus narrado ao nosso lado”.
Abração!
11/05/2009 às 1:29 pm
tuco
Ah. O chão do quarto dos meus filhos. Quisera eu poder levá-lo comigo. E a imaginação deles junto. Quando Jesus disse que o Reino é dos pequeninos, creio que se referia à invejável capacidade que eles têm de vivenciar o Reino na imaginação e, portanto, no coração.
Abraço.
11/05/2009 às 9:20 pm
rubens osorio
Elienai, colocar o Brabo no meio daqueles caras famosos me deu arrepios de satisfação!!!
“Melhor é revelar o que pode ser pelo que imaginamos” Oh! Que delícia!!!
11/05/2009 às 10:30 pm
Márcio Cardoso
Ainda bem que você me convidou a ler a Bíblia contigo, amigo, senão ela seria muitas letras e poucos devaneios! dedico o poema a você: o guru da imagem!
No princípio Deus imaginou…
O homem narrou o que percebeu
A um amigo que contou ao seu amigo que recontou também…
Escreveram a Revelação
E os copistas trabalharam
Os observantes aprenderam de cor a Torá…
Na seqüência Deus se imagina gente…
Palavra nua e crua, suor e sangue
Com textura, cheiro e sabor, ao vivo e a cores
A Verdade é amiga de pecadores!
O Verbo conjuga metáforas, parábolas, hipérboles, trocadilhos…
E o Outro Ajudador convida às visões, aos sonhos e às outras línguas
Anotaram o Logos em pergaminho
Os tradutores traduziram
E a imprensa acorrentou
Cartesianizaram e o sistematizaram
Saturaram as Escrituras até não mais poder
Crucificaram a Palavra
Assassinaram a imaginação…
… E a Palavra à beira do caminho
Espera um novo dizer
Parceiros de quimera
Contadores de histórias
Poetas, profetas, utópicos e loucos
Corações alados que descolem as Sagradas Letras
Para lerem as Sagradas Imagens.
12/05/2009 às 12:01 am
Dudu
Captain, my captain…..
A cada novo texto seu aumenta a minha ansiedade em devorar o seu livro.
Que texto incrível!
19/05/2009 às 9:45 am
Andréia Cardoso
E Deus imaginou… e Deus falou… e Deus fez… “um jardim, Paraíso, lugar de delícias… E viu Deus que era muito bom… E Deus que tinha um rosto de criança, riu de felicidade e disse: ‘Que bom lugar pra se morar, eternamente’. E deixando pra sempre o céu vazio passou a viver no jardim, brincando à brisa fresca da tarde. Árvores, regatos, flores, pássaros, borboletas, perfumes, cores, sons nuvens, chuva, frutas: esses eram os brinquedos do Deus criança. No Paraíso não haviam templos porque Deus morava no jardim. No Paraíso ninguém rezava porque a Beleza era uma oração. ”
Deus nos fez pra brincar… e quer bincar conosco… Que forma mais linda de nos ensinar a brincar do que quando nos dá a oportunidade de conviver com as crianças? (“quem não se fizer como criança não verá o Reino dos Céus”).
Por isso minha paixão eterna pelos pequenos… por isso o desejo de aprender com eles aquilo que já fomos um dia e quando crescemos deixamos “perdido no reino do beleléu”: eles nos ensinam a imaginar, a criar lindas imagens, a ver Deus e brincar com ele.
“Deus nos deu asas, mas as religiões inventaram gaiolas”.
(citações: Rubem Alves – Perguntaram-me se acredito em Deus)