
Ouvi tantas vezes que não consigo dar um rosto ao jargão. ‘A lógica de Deus é diferente da lógica humana’, ou ‘Deus não cabe na lógica humana!’ Diz-se como castração de qualquer mente ávida. Aquela que apenas anseia por melhor compreensão do que já se fala sobre Deus. Esse tipo entediante de argumentação poderia muito bem ser substituída por ‘vamos mudar de assunto porque estou boiando’, ou ‘já que eu não consigo contrapor, que tal desdenhar?’, ou ainda, ‘se quiser uma vida devocional, é melhor emburrecer um pouco’.
É o tipo de frase que parece mais um ruído que uma mensagem. Ela não diz nada. Vejamos. A lógica é qualquer construção lingüística que busca organizar nossa compreensão de mundo. Ninguém pensa sem palavras. Ninguém fala sem uma lógica. Uma palavra só é linguagem, e não ruído, porque significa algo. E só significa porque está conectada a outras palavras e sentidos que compõem um esquema conceitual, ou um paradigma, ou uma lógica, ou ainda, uma visão de mundo. Sequer dizemos ‘Deus’ sem uma lógica.
Um Deus sem lógica é um ruído absurdo. É claro que nenhuma lógica pode pretender descrever Deus como uma realidade em si. Porque nenhuma lógica pode sequer ter a descrição como um objetivo, muito menos uma realidade em si. Toda lógica é apenas uma forma de resolver problemas. Nunca a descrição definitiva e exaustiva de uma realidade. Uma lógica superada é uma lógica que não consegue mais resolver os novos problemas. Uma nova lógica é uma lógica que consegue resolver novos problemas.
Estou sofrendo de uma síndrome vexatória. Do bocejo ante o inefável. Fico entediado facilmente com as falas do tipo piedosa e devocional. Principalmente aquelas que enrugam as testas e comprimem os olhos para estampar certa resignação por crer em um ser absoluto, incondicionado e, portanto, inexplicável como Deus. Preciso sempre esconder o rosto, porque não resisto ao bocejo.
Um Deus absoluto é enfadonho. Tão enfadonho quanto tentar ler um livro sobre um assunto completamente desconhecido. Com termos técnicos inacessíveis. Ou assistir a uma partida de um jogo de regras desconhecidas, narrado em uma língua nunca antes ouvida por você. Ainda assim, meus exemplos não alcançam o tédio do absoluto. Porque em ambas situações haverá alguns pontos de afinidade. Uma frase aqui e outra ali serão compreendidas entre tantos termos técnicos. Um movimento ou outro do jogo fará algum sentido depois de algum tempo de observação. Mas um ser absoluto é sempre um chatíssimo “totalmente outro”. Não há nada para se compreender dele. Não há nada para dele se dizer.
Só existe compreensão de coisas relativas. Só há conversa e comunhão entre os relativos. Apenas os relativos se relacionam (a brincadeira com as palavras de mesma raiz e sentido foi irresistível). O Absoluto é solitário. Intransitivo. Intangível. É a mesmíssima eterna reafirmação de si. Ou seja. O Chato.
Nem Deus teria agüentado, acredito, tanta solidão. Desistiu já antes da fundação dos tempos e decidiu relativizar-se. A criação do humano é a taquicardia que faltava em Deus. Mas como em um risco incontornável, humanos que somos, cedo descobrimos o trabalho que dá a vida dos relativos, ou imperfeitos. Preguiçosos, começamos a acreditar sermos capazes de definir absolutos. Poderes. Estados. Posses. Religiões. Igrejas. Opiniões. Teologias. Deus. A preguiça de relativizar sempre gera absolutos entediantes.
Novamente, Deus relativiza. Agudiza a relação. Vira gente. Faz-se um de nós. Come e bebe com os mais relativos dos mortais, aqueles que os absolutos chamam de pecadores. Irrita-se com nossos discursos incondicionais, de tão dogmáticos. Experimenta nossas mais profundas fadigas, entre as mais tensas disputas de um poder que para ser inquestionável tem sempre que sacrificar alguém. Morre para escandalizar. O escândalo da desproporção. Tanta força e poder para esmagar um frágil e silente filho de Deus. Um elefante arrogante pisando uma formiga é a mais ridícula das bravatas. Deus encarnado é qualquer pretensão de absoluto ridicularizada e a recuperação de uma fé outrora dormente. Um Deus que vive a nossa vida e morre a nossa morte é a fé adrenalizada.
Nada melhor que o escândalo da cruz, de um Deus relativo a nós, para livrar-nos do sono de uma vida entediada. Jesus não é a encarnação do verbo por falta do que dizer. Ao contrário, porque depois de Jesus não falta o que dizer de Deus.
Elienai Jr.

5 comments
Comments feed for this article
16/06/2009 às 9:06 am
Jorge Baptista
Prezado Pr. Elienai Jr.
Muita Paz!
Teus textos sao bastante ricos. Nao pude deixar de comentar, dado a pertinencia do assunto e a propriedade dos pensamentos expostos. Que Deus o abencoe. Gostaria de postar este artigo em meu blog, caso o permitas.
Em Cristo,
Jorge Baptista,Sr.
Angola
16/06/2009 às 1:45 pm
Elienai Cabral Junior
Jorge,
sinta-se a vontade para postar o artigo. Sinto-me honrado. Espero contribuir de alguma forma para as conversas em seu blog.
Um abraço,
23/06/2009 às 12:26 pm
Jarlene
É uma delícia ler tudo que escreve.
saudade do amigo e do pastor…
23/06/2009 às 1:38 pm
Meire Fernandes Barbosa
Chegou seu filhinho mais novo e já o tenho em mãos!!!
Sou absolutamente impaciente e li algumas páginas….muito bom!
Comentar? Nem me atrevo!
Conhece essa música?
Senhas, Adriana Calcanhoto
Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
10/07/2009 às 4:57 pm
toninho campos
Elienai seus textos são incriveis,totalmente imprescindíveis, nem me atrevo a comenta-los, degustar sim, faz muita diferença em mim, conquistar sua amizade é mister, fas-me esta caridade, ser tocado pelo bom pensar me orgulha muito nesta amizade, estou muito obrigado…
amigo Toninho Ager