
Um desconforto vem me acompanhando há bastante tempo. A dificuldade com que muitos recebem a proposta de uma religião radicada no amor e não no medo, na liberdade e não no patrulhamento moral, na maioridade e não na infantilização.
Ouço de tudo. Aquele que acredita que para algumas pessoas uma espiritualidade baseada na consciência e responsabilidade, frutos livres de uma relação de amor e não de constrangimento, é perigosa, quando não, pouco producente para os engajamentos religiosos. Há pessoas, afirmam com um pragmatismo encabulado, que precisam de regras, coerção e cobrança. Precisam de uma religião legalista. Caso contrário, não conseguem vencer seus vícios e pecados.
Outros desconfiam da liberdade. Pregar um Deus que ama em completa independência do desempenho humano é muito arriscado. Deus também é justiça! A Graça de Deus tem que ter limite. Se a pessoa não tiver medo do inferno, vai fazer tudo o que der na cabeça. Se não souber que existe uma punição divina para os seus deslizes, vai se tornar alguém imoral.
Vejo o descontentamento de alguns com a sugestão de que a imperfeição não é pecaminosa, mas um dom divino que torna a vida significativa e mais bonita. E, apesar de ninguém conseguir uma vida perfeita, esbravejam que Deus não pode abrir mão de que sejamos perfeitos.
Tirando de lado a questão semântica, de que a imperfeição a que me refiro é alusão ao que não está pronto, ao que é livre para ser, ou ao que está sempre em via de se tornar. Liberdade e não inconseqüência, leveza e não leviandade. O que, então, incomoda tanto algumas pessoas?
Por que o anúncio libertador de que Deus não espera de nós a perfeição amedronta alguns?
Desconfio de algo. Se tirarem o medo, ou a culpa, de sua fé, ficam sem fé. Se crer em Deus não for um movimento em busca de blindagem diante da insegurança do mundo, ou absolvição sem fim de uma insuperável culpa, revelam-se incrédulos. Ateísmo desesperado.
A religião a que fomos apresentados é um comportamento motivado pelo medo. Medo de não ser aprovado, o que é o mesmo que não ser amado. Ou medo de estar fazendo a coisa errada e ganhar um destino infernal. Foi a partir desse medo que aprendemos a rejeitar comportamentos tidos como réprobos. Fazemos e deixamos de fazer coisas pelo medo de sermos punidos pela implacável justiça divina.
Mas também medo de ficarmos expostos aos infortúnios de uma orfandade religiosa. Vivemos em um mundo inseguro, que muitas vezes se mostra desfavorável à nossa busca de bem estar. A religião promete um apadrinhamento divino. Foi a partir desse medo e da expectativa de um arranjo sobrenatural para garantir uma vida de exceção que aprendemos a cultuar nossas divindades.
A voz divina que aprendemos a ouvir é ou a voz ameaçadora frente à nossa vida moral, ou a voz de uma barganha com o Céu, que em troca de devoção e obediência, oferece a proteção que poucos tem. Propor uma espiritualidade movida por amor e, portanto, gratuidade não é um remendo possível ao que já tínhamos, mas um novo e levíssimo tecido religioso.
E a metáfora não é minha. É de Jesus. A religião que ele propõe não pode ser colocada como remendo em pano velho, ou vinho novo em odre velho. Em ambos os casos a convivência implicará em ruptura. O vinho novo da gratuidade no relacionamento com Deus exige um novo odre. É muita dinâmica para pouca dilatação. Tecer uma relação baseada no amor reivindica um novo tecido. É muita tensão para pouca resiliência.
Por que muitos reagem agressivamente à proposta de que Deus não espera nossa perfeição, mas tão somente nossa integridade? Porque se tirarmos a voz culpabilizadora de sua fé, ficam com uma fé muda. Sua reação escrupulosa revela a compreensão do que pregamos como uma ameaça à sua fé. Intimidam os olhos assustados e hostis. Cansa ver-se nos olhos de alguns religiosos como um inimigo de Deus. Iconoclasta.
Mas não terá sido a mesma tensão vivenciada por Jesus?
Enxergo a mesma dificuldade em seus discípulos quando Jesus sugere outra lógica para a nossa relação com Deus. No momento mais imponente de seus argumentos. Ressurreto contra toda a injustiça e humilhação de sua morte. Com uma prova material irrecusável, forte, violenta. Irresistível. Com visibilidade incontestável. Jesus afirma que nesta exata hora o melhor será sumir. Substituir a presença irresistível, visível e poderosa pela sutileza de uma brisa: o outro paráclito tem o nome de vento, o Espírito de Cristo ao invés do Cristo ressurreto. Ele diz que sumirá nesta hora para o bem de seus discípulos.
Uma presença delicada e discreta invoca e sensibilidade e cuidados como “não apaguem o Espírito.” “Não entristeçam o Espírito.” “Não resistam ao Espírito.” Uma presença que não nos substitui no enfrentamento da vida. Que não nos infantiliza em proteções excepcionais. Que não manipula comportamentos. Sem regras. Que faz da liberdade o ambiente próprio para a nova humanidade esboçada em Jesus. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.”
Somente um Deus com presença discreta, uma quase ausência, é capaz de lembrar-nos de que não somos escravos, mas filhos e não nos esmagar com sua absurda e insustentável grandeza. Daí compreendermos a imagem de Deus permitindo a Moisés ver a sua glória escondendo-o com a mão em uma fenda na rocha. Vê as suas costas, desfilam sua bondade e misericórdia. Tudo de Deus que podemos ter sem sermos desintegrados. Suas costas. Sua ausência de poder e força.
A presença discreta de Deus é a nossa única chance de integridade.
Um Deus discreto é um Deus quase ausente. Uma religião que continua ao substituir seus processos de infantilização é uma religião com pouquíssima religião. A vida proposta por Jesus a Nicodemos, nascida do Espírito, como o vento que ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai.
Uma religião com pouco pastoreio e muita tolerância. Com dogmas frágeis e ritos sutis. Que deixa morrer suas instituições para sobreviver sua gente. Que desiste da hierarquia e esconde-se nos santos anônimos. Que ri dos jogos de poder e reverencia os gestos de amor. Que abre os braços, em cruz, para os riscos para não deixar de abraçar os vivos. Acolhimento das angústias e inseguranças das liberdades. Fermentação de humanos.
Um lugar que é menos espaço e mais ajuntamento. Um culto que é menos tempo e mais encontro.
Só uma religião discretíssima sobrevive a um Deus que é Espírito.
Só uma religião discretíssima sobrevive à maioridade dos religiosos.
Elienai Cabral Junior

24 comments
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01/10/2009 às 5:37 pm
rubens osorio
O teu texto é de uma leveza, de uma delicadeza, de uma emoção e sinceridade tal que só posso identificá-lo como palavra de Deus…
Obrigado!
01/10/2009 às 6:42 pm
Paulo Brabo
Seria muito mais simples para todos nós se Deus não falasse tão claramente através de você.
01/10/2009 às 6:46 pm
Gaby
Adorei seu fè compartilhada assim. Seu texto e livro.
Obrigadissima.
01/10/2009 às 7:32 pm
CArlos BEzerra
Irado o texto Elienai. Esse é o caminho que Jesus nos convidou a viver.
abração,
Carlos
01/10/2009 às 9:04 pm
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01/10/2009 às 9:46 pm
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02/10/2009 às 5:13 pm
Paulo de Rezende
Me emocionei. Muito. Não cesso de ser chocado por um Pai tão amoroso. Oro para que Deus continue te iluminando. Quanta lucidez!
02/10/2009 às 7:35 pm
Anibal
Pastor,
Se não fossem as incessantes Petições de Princípio (que vocês insistem em chamar de poesia, mas que não é) presentes em seu texto, eles certamente perderiam a tal delicadeza que tanto lhe atribuem.
Quando você diz: “A religião a que fomos apresentados é um comportamento motivado pelo medo”…
Quer dizer o que? Quem foi apresentado? Você? Eu? A Gretchen quando disse que se converteu?
E por aí vai…
Chego a achar engraçado.
06/10/2009 às 11:28 am
rubens osorio
Que bom que você, Anibal, não tem uma religião que lhe foi apresentada como comportamento motivado pelo medo!!! Eu fui. E só me livrei dele – o medo – aos 20 anos. E dela – a religião – aos 35. Sorte a sua!
02/10/2009 às 8:47 pm
Rondinelly
Derruba as resistências, encanta e comove a constranger: essas tuas delicadezas nos desarmam obscenamente.
02/10/2009 às 8:59 pm
Bruno
Gostei muito do seu texto. Também imagino que seja loucura e absurdo pra algumas pessoas pensar a religião sem o elemento cooptador do medo, pois isto pressuporia a plena liberdade em si. Entretanto, Jesus fala de uma liberdade apontada e dirigida ao outro, já que o problema do mundo sempre foi saber se relacionar com o outro, o próximo, o irmão. Que Deus continue lhe proporcionando essa leve percepção do divino Espírito Santo, manifesto em Jesus.
03/10/2009 às 9:10 pm
O Reino da delicadeza « Nada de novo sob o sol
[...] O reino da delicadeza – Elienai Cabral Júnior [...]
03/10/2009 às 10:48 pm
Bartira Ferraz
Assistindo a uma palestra entitulada “Religião e Violência”, ouvi o palestrante dizer que “quanto mais ‘exigente’ for a igreja, mais adeptos ela conseguirá em periferias”. Parece que, para o tal sociólogo, elevar o preço do ‘produto’ é valorizá-lo. Parece que ele tem razão, é a lógica vigente.
05/10/2009 às 6:37 pm
Lia Freitas
Alimenta a alma viver essa fé, não destrói como os moralismos castradores…
Uma fé existencial, e acima de tudo, legitimamente humana!
Creio que Deus sorri, com certeza… Ele gosta de vê quando nos tornamos mais homens e menos máquinas de pré-conceitos cruéis.
Texto tocante, simples e ao mesmo tempo grandioso!
Adorei!
08/10/2009 às 11:48 am
luciano
Gostei terrivelmente do seu texto. Já reli várias vezes e a cada leitura brota algo novo destas palavras. na questão do medo você foi muito feliz. Estou fazendo uma monografia sobre o tema. Na maior parte do tempo, em sua história, a Igreja utilizou-se da questão do poder para dominar, nobres ou plebeus. O medo da condenação, por parte de um Deus vingativo, mantinha (ou mantém) as pessoas submissas e “controladas”. Grande abraço.
08/10/2009 às 2:15 pm
toninho ager
Bartira tem razão; conversando muito percebo que lideres que falam em grande quantidade, não importando o que, angariam adeptos de montão também, sutilezas de argumentos sub lineares e imposição psicológica arbitrária fazem parte do cabedal de milhares de adeptos que os transformam em semi deuses capazes de serem mais bonzinhos que Deus e eles se locupletam. Não temo pela devastação porque ainda enxergo oásis. Continuemos despertos no amor e delicadamente pelo espirito, afinal dizem que ele é “cavalheiro”. Pelo menos para os que aceitam gentilezas.
toninho ager
11/10/2009 às 12:41 pm
Gresder Sil
Elienai, posso as vezes pegar textos seus e postar no meu blog, alguns se encaixam perfeitamente na proposta de um cristianismo a-religioso(sem religião).
13/10/2009 às 10:05 pm
Alysson Amorim
Ele veio resgatar da ansiedade pescadores ávidos por segurança e poder, e aqueles que primeiro aderiram ao seu projeto foram também os primeiros a tomá-lo com um castelo forte, garantia suprema de poder e segurança.
Ele nos chama para a coragem de encarar com o peito nu a realidade e nós o tomamos como um escudo.
A tarefa dos profetas, hoje e sempre, não pode ser outra senão desarmar.
14/10/2009 às 12:04 pm
esdras
Muito lindo, Elienai. É reconfortante ler seus textos.
E é ótimo conseguir ser feliz sem tanto peso. Sem tantas regras. Sem tanta religiosidade.
Obrigado, de coração.
05/11/2009 às 1:01 am
César Belieny
Que bom que o Espírito que sopra, soprou pra cá…Testificando que é possível viver em fé genuína. Feliz de lhe encontrar no Caminho, pela lucidez do Evangelho, por valores eternos. Graça e Paz!!