A morte não é fim. Não é estática. Ela é um vento. E ouso dizer que se move a nosso favor. Que nos salva.
Pulveriza nossas medidas e espalha nossas palavras. Sentir-se por ela envolvido é sugestão de silêncio e temor. Condenam-se ao ridículo os que ousam falar da vida na morte.
Com a morte, só ela sabe da vida.
Por isso descobri no ofício do pastor o lugar de sua mais baixa miséria e mais elevada virtude: a beira de um caixão. É ali que o oficiante experimenta sua redentora contradição: a missão de falar quando nada diz. Reunir as palavras quando são inconciliáveis. Ensinar quando nada se sabe. Falar quando até as palavras silenciam.
Mas, desconcertante, a morte que espalha nossas palavras junta-nos em abraços. Quanto menos na morte conseguimos dizer, mais apertado aos vivos precisamos abraçar. Menos esperança, mais amor.
Ali, nunca deixei de ouvir com tanto alívio qualquer palavra. Ali, nunca vi com igual intensidade tantos abraços. A morte que me cala une mais irmãos que qualquer sermão que já preguei.
A morte que, ao lançar longe toda e qualquer palavra, nos ensina que nada da vida sabemos, agora joga-nos aos braços do que chora para ensinar-nos o que é amor.
O evangelho diz que no princípio Deus era o verbo.
A morte completa: no fim Deus é só o abraço.
Ao Allison, que em vida nos amou com tanta poesia e carinho, agora, não mais vivo, junta-nos em tantos abraços.
Obrigado, amigo.

11 comentários
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10/02/2010 às 9:27 am
Will
Não sou (ainda) membro da Betesda, mas a morte do poeta me fez perceber o quanto o meu ser está ligado a essa comunidade. Senti. Senti muito. Passei o dia de ontem, quando soube da notícia – pela manhã-, cabisbaixo, reflexivo e muito triste. A morte foi cruel (mais uma vez) conosco.
Conheço a Betesda desde 2004. Um dos primeiros nomes que conheci – uma pena não ter sido pessoalmente; não ter podido bater um papo – foi o Pr. Allison. Sua música “Sonda-me” foi muito cantada em minha antiga comunidade, até hoje aprecio no coração a sua voz cantando “maranata…”
Valho-me das palavras de um querido Pastor, quando soube do falecimento do querido poeta: Tivermos uma perda irreparável.
O poeta se foi, mas está eternizado entre nós, mediante sua obra, sua poesia e sua arte. A morte insiste contra nós, mas ela, e nós, estamos conscientes de que um dia, em breve, ela será tragada pela vida. Esse é o nosso consolo.
Aos amigos, presto meus reais sentimentos. Compartilho da dor, pra que seja mais branda e do choro, pra que seja mais curto.
À família, dedico meus joelhos curvados, meus olhos cerrados e o meu coração ligado ao trono da graça, pedindo ao Altíssimo que lhes dê, muito mais agora, de sua ternura, seu acalento, sua esperança, que é Jesus de Nazaré. Que o Espírito de Deus seja, agora como nunca, seu grande Auxiliador.
Maranata! Ora vem Senhor pra bem perto de nós!
10/02/2010 às 11:15 am
Dudu
Interessante também é perceber que o abraço não se restringe aos limites físicos do corpo humano. O abraço em que a morte agora nos une, não abarca apenas dois ou três, mas uma multidão de gente que chora a morte do Allison. Boas memórias vão ficar, como os momentos de discipulado na casa ainda em construção, sentados sobre tijolos, compartilhando experiências e comendo o pãozinho recém saído da padaria.
Pena que, devido à distância geográfica, muitos como eu não puderam estar nesse último momento de despedida com ele e a família. Mas o abraço que nos une supera a distância física e faz com que me sinta tão próximo, a ponto de sentir o luto e a tristeza de todos que estão em Floripa, como se presente eu estivesse.
Allison, obrigado por mais uma vez nos unir.
10/02/2010 às 12:55 pm
Dani Jarrão
Olá amigo!
Não vou deixar comentários, só gostaria de estar próximo para ser mais um abraço. Quando se é díficil de acordar mas é preciso, bom seria ter um rosto amigo por perto.
De Mario Quintana:
“Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!
10/02/2010 às 4:19 pm
Marcio dos Reis Uno
Abraços ao poeta e alegre Allison!!!! Saudades!!!
10/02/2010 às 10:35 pm
Otto Nelson
Ó, contraditória morte! Separa e une. Separa temporariamente na terra e une eternamente no céu. É nessa esperança que encontramos consolo nesse momento. Os risos e abraços do Pr. Allison ficarão para sempre nas vidas abençoadas por ele, como na minha e de minha família.
14/02/2010 às 5:26 pm
Weslley Talaveira
Allison cantava “Ora, vem Senhor pra bem perto de mim”. Mas ele resolveu mudar sua letra, e ele é quem foi pra perto de Deus.
Doeu. Doeu muito saber da morte de alguém que, mesmo nunca tendo conversado pessoalmente, era pra mim um modelo. Modelo de um evangelho tão simples, tão próximo, tão lindo. Allison era a forma humana da beleza poética. ela a encarnação da beleza da vida.
Como disse o Pr. Ricardo em seu site, o violão ficará em silêncio. Versos deixarão de ser cantados. Calou-se uma voz. Uma voz que sempre fez bom uso da música para alentar corações doloridos.
Como explicar? Mas, preciso fazer uma pergunta anterior a essa? Pra que explicar? Justificativas não irão trazer de volta o poeta. A nós resta lamentar, e levar o modelo dele de fé, de evangelho. Mais uma vez cito meu queridíssimo Pr. Ricardo e falo: sinto-me grato por ser contemporâneo de certas pessoas, de viver no msmo período de vida de algumas pessoas. Uma delas é o Pr. Allison Ambrósio.
Sem usar como clichê, só tenh oa dizer: que Deus o tenha, pois Allison sempre O teve!
15/02/2010 às 2:03 pm
Nilton Medeiros
Conheci o Pr. Allisson num dos aniversários da Betesda sede, pessoa cativante cheio de alegria e apaixonado pela vida, que tinha a musicalidade e a poesia na flor da pele, um amante de Deus. Apesar do pouquissimo contato que tivemos a minha alma se abalou e não tive como não ficar triste pela sua morte.
15/02/2010 às 4:48 pm
Luciane
Geralmente somos mais mais humanos quando não temos o que dizer… quando nossas ciências, experiências e conhecimentos afins não explicam, nem mudam aquilo que é… então Deus se faz… No outro.. No abraço solidário de saber quem somos e que também passaremos ( se já não passamos) pela dor de perder alguém que amamos…
Sendo solidária, sem explicações, nem ciência,deixo também meu abraço…
24/03/2010 às 12:18 pm
toninho ager
é melhor nem falar
seria nen conhecer
teria que invejar seus versos
seria bom só por puro prazer
brilhar na luz de seus olhos e
continuar a esquentar prazer
ele ficou e eu o vejo
o escuto neste ensejo
o adimiro como sempre
se continuo o cortejo
se fico tecnico demais
embolo e lembro que
só é ele quem faz bem
na saudade que se tem
nunca deveu a ninguem
amor..
até breve Alissom
só voce para afinar
esse som… toninho ager
14/08/2010 às 1:54 pm
Pedro Roberto
Conheci o Allison em Brasília, na década de 1980, nossa banda tocava algumas músicas dele e algumas vezes nos apresentamos juntos. Um certo Natal apresentamos uma cantata de sua autoria no Tetro Nacional.
Só nos reencontramos, depois de sua ida para Fortaleza, em 2005 no Congresso da Betesda em Águas de Lindóia. Muita alegria! Muito louvor! Muitas lembranças de uma amizade inspiradora.
Definitivamente a morte não é o fim. O Allison vive eternamente. Nos abraçamos aqui por ele e nos abraçaremos novamente em breve.
Como você disse Elianai, reuni palavras mas não consegui dizer nada. Pelo menos nada que se compare a um abraço.
Um abraço a você e a todos que se abraçaram pelo Alissom.
02/01/2011 às 5:58 pm
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