A internet não é uma mídia. É um espírito, ou se preferir, uma linguagem de época. O que significa não se tratar de mais um instrumento de comunicação, mas de uma compreensão de mundo. De um horizonte doador de sentido, diria meu querido mestre e filósofo, Manfredo Oliveira de Araújo.
Assiste-se ao debate agonizante de outras mídias sobre sua superação diante da expansão irresistível e substitutiva da internet. Ela absorve a radiodifusão, a imprensa, a televisão e a telefonia gulosamente e não apenas impõe a multimídia, como hiperdimensiona a informação no cotidiano. Sabemos e participamos por muitos meios, em tempo real, de diversos eventos e discussões em torno do mundo. E somos apresentados ainda à possibilidade atordoante de interagirmos nos processos de divulgação, debate e construção dos fatos em questão.
Apesar de tudo o que permeia o assunto internet, interessa-me um aspecto em particular, que talvez seja seu conceito central, a internet condenou toda e qualquer idéia a uma linda e libertadora precariedade. Nela o pensamento humano está necessariamente despido de qualquer roupagem metafísica. E entenda metafísica como toda e qualquer construção teórica que reivindique a condição de verdade última, ou de verdade que pretenda legitimar todas as demais verdades. Absoluta, universal, sistemática, racional e permanente. Em total descaso às pretensões metafísicas, no ciberespaço, todo pensamento e informação são relativos, fragmentários e provisórios.
Isto porque somos nervosamente expostos ao turbilhão de idéias e acontecimentos do mundo. A sensação fácil e confortável de outrora de um pensamento bem construído, ou de que uma versão dos fatos bem apresentada era final e, portanto, duradoura foi substituída pela angústia frente à impermanência de toda e qualquer versão. Novas informações, ou versões; novas abordagens, ou revisões; novas doutrinas, ou ressignificações se sucedem freneticamente impedindo a adesão forte e tranqüila dos interlocutores. Os guetos de certeza foram implodidos e os sítios de pensamento, mundanizados.
Qualquer cosmovisão que pense o mundo como um espaço racionalmente organizado; a história, divina ou teleologicamente orientada; a vida humana, anterior e sobrenaturalmente submetida a um sentido; o indivíduo, mágica ou arbitrariamente transformado em uma exceção de segurança; os fatos, sistematicamente encadeados em uma relação linear de causa e efeito; ou toda e qualquer concepção científica, política ou religiosa de uma vida apoiada em fundamentos fortes e duradouros está condenada a ser descoberta como um simulacro da vida.
Acredito que a internet libertou as idéias das farsas do discurso forte. A idéia é por si só volátil e imprecisa. Os pontos de comunicação que nos conectam em uma conversa são liames delicados. A troca de idéias esbarra sempre em nossas distâncias conceituais. Logo, o discurso forte é muito mais um simulacro comunitário, um fingimento coletivo. A internet não teme a volatilidade das idéias, ao contrário, a intensifica e valoriza. Sua força é exatamente o discurso fraco, por isso sempre aberto ao outro.
Como uma doutrina pode resistir à revisão frente a um fato que a surpreende? Como o conceito religioso de um Deus que tudo controla e de uma história cujos fatos, sem exceção, carregam propósitos se sustentam ante o testemunho amplo e escandaloso da injustiça e desigualdade entre os povos, ou ainda, dos acidentes da natureza, como os terremotos? Como as teorias científicas que propõem alguma explicação que decifre os eventos do universo semelhante a quem descobre uma mensagem secreta pode manter-se reverenciada diante do imprevisto e do caos? E tudo isso ao vivo e a cores?
Qualquer discurso que não seja marcado pela modéstia em sua pretensão de alcance, construído sem aberturas conceituais, não consciente de sua provisoriedade e sem um profundo comprometimento com a indisfarsável tarefa humana de construir seu sentido de vida sem muletas metafísicas está fadado a nada dizer que gere interesse e faça sentido à vida humana. A internet pulverizou os discursos que se pretendam finais.
Gosto da percepção de Gianni Vattimo a respeito da secularização e o enfraquecimento do discurso religioso na vida em sociedade. Ele propõe que este seja um fenômeno renovado da kenosis, palavra grega utilizada pelo Apóstolo Paulo, na Bíblia, com o sentido de esvaziamento. É assim que ele se refere à encarnação de Deus em Jesus. Como um processo de esvaziamento divino de suas prerrogativas absolutas, para andar entre nós com o mais radical e legítimo testemunho humano, frágil e suscetível à morte. Da mesma forma, na secularização, a igreja é esvaziada, ou sofre uma nova kenosis, de qualquer pretensão de posse da verdade e legitimadora da vida humana. Sem o discurso forte, resta-lhe o amor como única via de testemunho à pessoa humana. Com o pensamento fraco, resta-lhe ser humanizada através de gestos de ternura e delicadeza.
É assim que vejo a internet, como um amplo e libertador esvaziamento do discurso. Nela, nossas palavras têm que deixar de servir ao jogo de poder disfarçado na persuasão e se entregar à dinâmica leve e amorosa das relações livres. Desprovidos da obrigação de sermos sistemáticos, coerentes, convincentes e definitivos, poderemos ser mais divertidos, sensíveis, imaginativos e estéticos.
E como Deus em Jesus, ao andar entre nós, preferiu os ambientes dos pecadores, ou poderíamos dizer, dos precários, com suas comidas, bebidas e danças à companhia dos fariseus, ou poderíamos dizer, dos dogmáticos, e seus tensos debates pela perpetuação dos ritos e doutrinas. Nós, na internet, também escolhemos o mundo dos precários, onde a graça não é o que nos torna convictos, mas livres.
Na encarnação, Deus sofre o esvaziamento de sua intocável glória e se humaniza na mais radical tragédia da vida, a morte na cruz. Seu esvaziamento gera um nome de gente que salva de tanto que amou: Jesus.
Na internet, a verdade sofre a divina kenosis. Desconstitui o discurso impassívele poderoso, que se pulveriza na morte da doutrina. Sua kenosis gera um nome que a todos pode salvar, de tanto que nos fragilizou: amor.

9 comentários
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17/05/2010 às 2:37 pm
rubens osório
Saudade! Teu texto é sempre bem vindo, instigante, generoso, profundo e inovador.
Bem aventurado sou eu por estar imerso nessa internet da precariedade e poder me deparar e comungar, por um momento que seja, com teus pensamentos.
17/05/2010 às 10:57 pm
Iago
Até que enfim, alguém que não lança demônios na internet!
hehe..
Alguém que não diga que é mais uma coisa qualquer da qual devemos ter cuidado! Minha mãe e meu pai precisam ler esse texto..
hauhauha..
Apesar de você ter sido muito caridoso com a internet, gostei muito de ler sobre como o nosso Deus está imerso nessa poderosa linguagem. Como nos diz o Queiruga, nós, igreja, devemos observar a cultura como uma perpetuadora da história de Deus na humanidade; levar a diante os sinais de Deus em nossa história, para as gerações futuras.
E você, nesse texto, apontou muito bem uma pegada de Deus em nosso meio!
um abraço, amigo!
18/05/2010 às 7:33 am
Xoyo
Caro Elienai,
Gosto muito de sua escrita leve. Mas acho que há um certo excesso de despretensão em seu texto. Eu diria, e sua referência ao Vattimo deixa isto bem claro, que o fenômeno do esvaziamento do discurso corresponde ao que o Gadamer denomina a universalidade da hermenêutica, isto é, de que todo e qualquer discurso demanda uma interpretação. Esta universalidade da hermenêutica, por sua vez, decorre do que ele chama autoconsciência histórica. Que é a consciência que temos de que um discurso, para ser compreendido depende sempre do seu contexto e de sua situação singulares, e de que nós mesmos pertencemos a um contexto e situação singulares, portanto a uma situação histórica, que é o que você chamou de provisoriedade e fragilidade do discurso. Achei o seu texto muito bom, exceto por este ponto. Por um lado acho que alguns filósofos e poetas já tinham consciência deste fenômeno, muito antes do advento da internet; por outro lado acho que a grande virtude da internet é reunir essa infinidade de discursos que já estavam aí, e que de uma forma ou de outra já estavam em diálogo. Acredito que a internet apenas deixou as coisas mais claras.
Abraços fraternos
18/05/2010 às 10:14 pm
Djalmir
Esta é a famosa frase de Nietzsche, quando alguém criticou irresponsavelmente, uma de suas publicações:
“Obra como esta é como um espelho, se um burro nela se mirar, não é de se esperar que a imagem refletida seja de um anjo.” (Nietzsche)
Belo texto, Elienai. Você modulou os bites e bytes da internet com o seu kenosis. Quando você escreve deixa a internet mais luminosa. Teu texto é sempre bem vindo !
19/05/2010 às 11:56 am
marcio cardoso
Amar é a sina de Deus; e se esvaziar é como ama – esvaziar-se para dar espaço ao outro.
Bem vindo de volta, Elienai, com delicado texto!
Abraços.
20/05/2010 às 3:41 pm
Joaquim Tiago
“o amor tudo sofre” mesmo o esvaziamento,
só não sofrerá quem não amou…
21/05/2010 às 12:25 am
ohrait
Caro Elienai,
De sua exposição, vislumbro: ” No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.
E o Verbo continua sendo Deus!
Difícil é, na minha fraqueza, despir-me das verdades absolutas que aprendi desde bebê!
Mais difícil, ainda, é compartilhar com outros, mais fracos que eu, “certas verdades incertas”, ante a volatilidade paralalelizada na interpretação da vida, e do próprio Verbo, conf muda o mundo…
E, ainda, assim, não mudo, continuar sendo um cristão convicto.
Qdo titubeio, sou tentado a traspassar até msm valores básicos, que com o tempo, de ontem e de hj, tem sido firmados…
E, no tempo, vamos sendo edificados, pelo alvissareiro – ainda q de forma obnubilada, agora vejo – caminha da dúvida.
Q Deus nos ajude!
Ohrait?
25/05/2010 às 8:02 am
A kenosis, o amor e a internet | PavaBlog
[...] fonte: Blog do Elienai Jr. [...]
11/08/2010 às 11:56 am
Rodolfo Gabriel
Pastor, seu texto me fez refletir sobre um questão que me incomoda há tempos. Parece que a sociedade da era pós moderna, marcada pela internet, rejeita absolutos, concorda? Enxergo isso na seguinte frase de seu texto “todo pensamento e informação são relativos, fragmentários e provisórios”. Então, como defender que a palavra de Deus, a Bíblia e seus mandamentos são A Verdade? Ouço muitos cristãos dizerem que essa característica da internet e da sociedade é terrível, pois coloca em xeque o posicionamento dos cristãos em relação a várias questões polêmicas como aborto, homossexualidade, sexo antes do casamento, entre outras.
Sendo assim, como conciliar a pregação de absolutos, “isso é correto”, ïsso é pecado” “isso é mandamento de Deus”, ou seja preservar certos pontos da tradição cristã, frente a relativização das idéias e práticas religiosas? Ou então, como o cristianismo pode ser relevante se não tem nenhum posicionamento, doutrina, tradição, já que tudo o que se pode pensar e produzir é provisório?
Abraços!