O templo pode se tornar o lugar de seu maior desencontro e a comunhão mais legítima, uma violência inadiável.
Dias antes ele viera a um lugar que há muito não estava lá, aquela ‘Casa de Oração’ esquecida sob camadas de mentiras. Porque são necessárias muitas paredes para se esconder com eficiência uma grande mentira. Um grande templo para uma grande religião.
Os barulhos e os cheiros da procissão desembocando na cidade são familiares, homens e mulheres arrastando ofertas e expectativas. As músicas se revezam no embalo final dos que chegam ao lugar decisivo, à morada do Deus que não regateia seus rigores. E um Deus assim, tão inegociável, sempre cria filhos que aprendem a pechinchar à sombra de suas imperfeições.
Os olhos cansados esbugalham em rostos bronzeados pelo sol de tantos dias, andam-se muitos caminhos para se chegar a um templo. Olhares aflitos se destacam em faces ressecadas, cruzam-se desertos para que o templo cumpra seu papel. Gastam-se corpos, afetos, até a fé. O caminho que leva ao templo exaure forças, é epopéia de cansaços, senda de claudicantes. E toda fadiga termina se tornando um grande negócio.
E os que negociam já estão lá, como garantia de que o enorme esforço será triunfante. São mercadores mediando a grande utopia. Nenhuma fadiga, qualquer distância, incidente que seja pode ser tão imprevisível, tão suficientemente contingencial para assaltar a vitória do crente. O templo não pode ser comprometido com as precariedades do caminho.
O custo de um templo assim é alto, mas ninguém garante ofertas à altura de um Deus terrível sem pagar um preço elevado. A demanda é enorme, mas sempre haverá pombas, cabritos, bois e tudo o mais de que carecer o culto. Tudo para que Deus não seja frustrado pelo triste caminho que separa os humanos da glória.
O culto não para. Ninguém para. Nada pode estancar uma ordem que cumpre tão prodigioso papel: garantir um acerto glorioso com o divino. O templo realiza sua vocação à medida que sublima a vida dos imperfeitos. Tudo funciona lá dentro a despeito de tudo o que não funciona lá fora.
O barulho incessante empolga os guardiães do templo. É muito feliz a sensação de assistir à coreografia ininterrupta dos que chegam com tantas expectativas. E que partem já antecipando o dia em que voltarão. Nada é mais lindo aos olhos do sacerdote que o vai-e-vem inexorável da multitude encantada.
Mas um rito subversivo é urdido à margem do templo. E como todo rito é uma trama. Uma dramatização de anseios. Uma usina de novidades. Alguém costura o inusitado, fabrica uma revolta.
A primeira fabricação de um instrumento ultrasônico, aquele capaz de ultrapassar a barreira do som, foi um chicote. Isto porque o movimento da chicotada é mais veloz que o som por ela produzido. E o que direi agora pode ser a descrição mais profana que já se fez de um homem. Um nazareno reuniu todas as iras que a religião do templo lhe provocou em cada tira de corda costurada. Ele mesmo fez o chicote que interromperia o barulho do ajuntamento em transe. O slasch viria depois da dor. Eis o rito mais subversivo. Nada mais apropriado para acordar gente encantada que o som da idéia chegar depois do estrago já feito.
E foi assim. Um homem enfurecido ziguezagueou pelo pátio chicoteando com poucos critérios os que ainda negociavam. A princípio, imaginou-se serem soldados romanos descontentes pelas comissões. Houve quem afirmasse, enquanto corria, que era um endemoniado. O som do chicote e as mesas viradas dos cambistas fizeram a voz do reclamante se multiplicar em tantas que nem imaginamos quem pudesse ser, até o pátio em pandemônio dar lugar ao silêncio estupefato dos que ali permaneceram. E sozinho, resfolegante, restava com a arma ainda empunhada, Jesus.
O amor assusta ao fazer-se ódio. Desvela-se em tensão, revolta e ruptura. Sombrio e violento, mas amor.
Com câimbras na mão e a voz já rouca, vaticina pela última vez: vocês transformaram este lugar em um covil de ladrões. E pensar que um dia já foi uma Casa de Oração. A família, distante, desconfia de sua sanidade. Os discípulos, sem coragem de se aproximar, lembram do profeta. O zelo por sua casa me consumirá.
Dispersos os mercadores, uma gente, que ninguém vê há tanto tempo por ali, aparece vinda de todos os cantos, e nada os impede agora, são os cegos e os mancos. O chicote, quente e trêmulo, despenca teatral da mão de Jesus, tão lentamente quanto a compaixão que agora o envolve. Um Deus assim, tão improvável, sempre junta os filhos dos quais o templo se esqueceu.
As crianças, que tem no mundo um lugar de imaginação, a continuidade das histórias ouvidas antes de dormir, olham a cena e enxergam o que ninguém vê. Apenas continuam a história preferida. De um Davizinho que derrubava gigantes com uma atiradeira na mão, mas curava a tristeza de reis com harpas e poesia. Agora ele tinha um filho, que expulsa gigantes com um chicote, mas toca os doentes como Davi dedilhava sua harpa.
E começaram a se divertir com a mais nova brincadeira, e viam quem gritava mais alto: Hosana ao Filho de Davi!

24 comentários
Feed de comentários deste artigo
17/09/2010 às 11:07 am
MaTeus Octávio
Muito legal e interessante, o estilo de escrita
muito original, parabenss
17/09/2010 às 1:01 pm
Joaquimtiago Bill
Incrível descrição da mais real situação que nos assusta até os dias de hoje. Mais uma vez, parabéns!
17/09/2010 às 4:39 pm
Amanda-São Paulo
Parabéns! Lindo!
17/09/2010 às 5:48 pm
Wendel Cavalcante
Por um instante prendi a respiração aqui!
Ver a família duvidar na sanidade e os amigos se esquivarem não foi maior do que a compaixão pelos excluídos!
“Um Deus assim, tão improvável, sempre junta os filhos dos quais o templo se esqueceu”.
Que Deus nos ajude e nos inspire a abraçar e acolher os que o templo se esqueceu e tem esquecido!
Belo texto!
17/09/2010 às 9:31 pm
Josué Oliveira
Por trás da imagem denunciante, uma esperança emerge enchendo o meu coração.
Glórias a Deus pela sua vida e pela beleza de sua escrita!
Parabéns!
17/09/2010 às 9:44 pm
Jeq*
Maravilha literária! Lindo, lindo! E de uma verdade incontestável.
18/09/2010 às 3:44 pm
Djalmir de Barros
Você é um ministro de Deus, dentro e fora do templo.
19/09/2010 às 3:55 pm
Wani
Meu… maravilhoso.
Parecia que eu estava lá.
Um convite: vamos “fazer” a Igreja do Chicote Estravagante?
20/09/2010 às 4:40 pm
Lucas Queiroz
Bastante desafiador o texto !
Tento imaginar que ‘chicote’ temos nas mãos em nossos dias pois somente as palavras bastam ?! Onde está a coragem que ser rotulado insano pelos mais próximos e dançar a música que poucos ouvem ?!
22/09/2010 às 2:48 pm
James
Grande texto Elienai. Estava com saudades da boa leitura e reflexão aguçante. Parabéns!
22/09/2010 às 9:53 pm
Rodolfo Gabriel
“E começaram a se divertir com a mais nova brincadeira, e viam quem gritava mais alto: Hosana ao Filho de Davi!”.
E quem diria: o verdadeiro culto de ao Senhor veio do lado de fora do templo, através de crianças, num momento despretencioso, natural, humano…enfim, tudo que se espera de um cristão.
Belíssimo texto!
25/09/2010 às 10:32 pm
Johny Loiola
O pintar do quadro dessa narrativa fizera entender a contradição do Amor Divino.
O amor divino é contraditório.Ou seja, é contra o dito de outrora.
26/09/2010 às 2:20 am
Ayres Filho
Paisagens escritas. Emoções impressas. Verdades em Arial? Lendo esse texto me convenço que a Palavra se fez carne.
Belo texto.
26/09/2010 às 8:02 am
Da subversão à brincadeira: como se resgata uma casa de oração? | PavaBlog
[...] fonte: Blog do Elienai Jr. [...]
12/10/2010 às 8:50 am
Jairo Soares
Cara você só viaja na maionese, filho de pastor rico tem tempo pra essas coisas, poesia é uma coisa agora que leigo vai entender o que você fala? A simplicidade era uma das maiores qualidades de Jesus Cristo…
É apostasia mesmo…
26/10/2010 às 5:33 pm
Nelson Costa
Li, gostei, voltarei mais vezes! Excelente trabalho Elienai !
Forte abraço.
Nelson Costa
31/10/2010 às 10:31 pm
Bella Dourado
Adorei o blog e o twitter , já estou seguindo!!!!!!!!!
Que DEUS continue – que você continue permitindo se usar para textos belos e claros de fácil leitura, sem rodeios.
Parabéns
05/12/2010 às 8:00 pm
Jorge Baptista
Prezado
Pr. Elienai
Muita paz!
Mais um texto magistral de sua erudita pena! “O som do chicote e as mesas viradas dos cambistas fizeram a voz do reclamante se multiplicar…”
JESUS FEZ UM CHICOTE – ESTE NAO REVELA O QUE ELE FEZ Á RELIGIAO, MAS O QUE A RELIGIAO FEZ CONTRA ELE!
Este foi mais um texto que me inspirou uma mensagem contra aquilo que sendo feito contra a igreja de Cristo e contra aquilo que a igreja está a fazer contra o seu Cristo!
Sempre em Cristo,
Pr. Jorge Baptista,Sr.
Luanda-Angola
17/12/2010 às 12:44 am
Ana Cris Gontijo
Caro Elienai Jr.,
Sou aquela moça que escreveu hoje no twitter sobre as primeiras duas páginas de seu livro “Salvos da Perfeição” e sobre como elas me emocionaram. Vi sua resposta dizendo que o poema não é de autoria do seu pai, mas sua. Sabe, me deu um sentimento bom, aquele sorriso no canto do rosto, como quem pensa: “ah, foi ele mesmo quem escreveu? Então aqui dentro, aqui nestas páginas, vou encontrar mais poesia! Assim hei de matar um pouco desta saudade doída deste Deus que nunca vi de verdade, mas para Quem sempre estou voltando, qual filha pródiga, todas as manhãs”.
Sim, estou curiosa. Quero ler seu livro.
Tomo a liberdade de deixar um texto que escrevi recentemente. Eu também gosto de escrever. E gostaria muito que você lesse um texto meu. Não escolhi este por ser o meu preferido, mas simplesmente por ter sido o último:
“Devo, não nego”
http://notasdeaprendiz.blogspot.com/2010/10/devo-nao-nego.html
O Levi Araújo e o Ricardo Gondim retuitaram, foi publicado no Pavablog, depois não tive mais notícia se alguém mais leu.
Bom, é isto então.
Um abraço e Deus tchabençoe.
Prazer em conhecê-lo.
Ana Cris
02/01/2011 às 5:58 pm
Os números de 2010 « Blog do Elienai Jr
[...] The busiest day of the year was 17 de setembro with 272 views. The most popular post that day was DA SUBVERSÃO À BRINCADEIRA: COMO SE RESGATA UMA CASA DE ORAÇÃO?. [...]
09/01/2011 às 2:51 pm
roberto oliveira
Excelente texto Elienai, assim como sua pregação! Precisamos de reflexões que nos revele o Jesus crucificado. Obrigado irmão.
28/01/2011 às 11:42 pm
DA SUBVERSÃO À BRINCADEIRA: COMO SE RESGATA UMA CASA DE ORAÇÃO? « "A Casa Sobre A Rocha" (Mt5:24).
[...] VIA ELIENAI CABRAL JR. [...]
25/03/2011 às 12:18 pm
Cintia Aires
Caro Elienai Jr,
Vou repassar agora para o pessoal da Betesda Brasília!
Lindo texto, parabéns.
Abraço,
Cintia Aires
23/11/2011 às 7:28 pm
Roger
gostei muito bom….