O que pensamos, do que temos medo, o que amamos, nossas crenças não podem evidenciar-se. Não totalmente, menos ainda de uma vez por todas. É preciso negociar o que de nós pode participar da vida pública e o que deve permanecer guardado como reserva existencial.
É possível existir verdade demais em uma alma para que ela se exponha e com isso comprometa sua sobrevivência. É preciso economizar as exibições.
O contrário é também verdadeiro. Neste jogo ambivalente, muito pouca verdade em uma alma, ou uma verdade que faz seu portador pequeno demais, reivindica grandes mentiras em um desempenho.
Verdade demais ou de menos, mas todos têm algo a escamotear. A isso chamamos de interioridade.
Aquela mulher tem envolvimentos questionáveis. Todos já sabem e ninguém toca no assunto. Não convém ir às últimas conseqüências. Talvez porque lhes sejam muito bons seus favores sexuais, ou muito útil sua candidatura iminente a próxima maldita. Ela segue sua rotina de culpa e apreensão. Qualquer dia desses o seu mundo desmorona.
Jesus faz escolhas sintomáticas. Sensível demais com quem ninguém se importa. Gente já assentada nos espaços organizados para que a vida de todos prossiga sem perturbação. Mulheres, doentes, pecadores, malditos, por eles demonstra afetos perigosos. Sua linguagem o classifica entre revolucionários. Fala de um Reino para pobres e incita à busca de justiça. Mas o que é mais grave, parece ficar à vontade demais com os proscritos, demonstra com eles sentir-se em casa. Veja como olha para essa gente. Veja como bebe, come e ri. Entre os demais mestres há uma intuição desesperada de que ele é uma ameaça, de que suas intenções são profanas. De que esconde o que a todos escandalizaria.
Fariseus e mestres da Lei, estes despendem enorme energia no jogo. Dos três, Jesus, a mulher e os guardiões da religião, estes são os mais miseráveis. Todos padecem, mas ninguém precisa tanto esconder quanto eles. Ninguém lustra com tanto rigor e piedade o que aos outros aparece. Jesus anda revoltado com o seu procedimento. Já os chamou de “sepulcros caiados”, hipócritas.
E o trágico acontece. A mulher foi flagrada. O que pode ser mais proibido no jogo da moral que se deixar flagrar? Surpreendida em condições indisfarçáveis, seu sexo condenável de tão ardente, ou seria, ardente de tão condenável, acende escrúpulos e ardis. Como são perspicazes os escandalizados. O que mais desnudaria o perigoso mestre nazareno que a nudez de uma pecadora? Pois castrar o erótico é o que mais se aproxima de reprimir a crítica.
Jesus está cercado de gente quando o ruído raivoso interrompe seus ensinamentos. Homens de passos decididos, olhares fulminantes e um trapo humano nas mãos. Na boca, o rigor da lei; já no chão, a vergonha que despiu de humanidade a mulher; em seus corações, armadilhas.
O texto frio da lei é fluente no simulacro da moral. A letra grafada e morta não vasculha corações nem pergunta por afetos, não ilumina interioridades nem chora misérias, mata. Pronuncia-se a Lei com reverência, apedreja-se pessoas, portanto, com fervor. A lei diz para apedrejar e você, o que diz? Quem está ali conclui rápido a derrocada incontornável do mestre. Não dá para driblar a tensão. E todos já sabem que escolha ele fará.
Sua resposta é uma sátira. Um deboche. Uma charge. Porque todo assunto muito sério é uma piada. Jesus curva-se em desdém à gravidade da proposição e escreve com o dedo no chão. Galhofa. Sua escrita evade o ambiente e ri da austeridade dos zeladores da moral.
Neste instante há uma superposição de cenas. Fariseus e mestres da dura escrita da Lei com cenhos franzidos, pedras nas mãos e um jogo de poder funesto na alma, encena o primeiro plano. Ausentando-se para o segundo plano, Jesus, de cócoras, lúdico, escrevendo com o dedo no chão. Sua escrita brinca e dança na areia. Insuperável escolha. Quem olha não os tem no mesmo foco. Se o rigor oportuno dos fariseus é o que amamos, a imagem satírica de Jesus embaça, quase desaparece. Se a cena despretensiosa e estética do mestre, que rabisca desenvolto no chão, é o que nos magnetiza, então os aflitos e tensos fariseus esvanecem ao fundo. O Cristo que risca trivialidades no chão faz poesia e chama de triste ficção o flagrante que mente a vida e anuncia a morte.
Mas doutrinadores entendem de emboscadas morais e tocaias linguísticas, não de escritas leves e despretensiosas. A mesma poesia que salva Jesus da sanha por doutrina e dominação é desespero para os demais. Ah, se ele pudesse ficar ao chão, rabiscando, descolado daquele mundo, desligado daquela lógica! Eles insistem na inquisição e na morte da mulher. Cristo se ergue, dedos sujos de tanto que brincou no chão, às inquirições questiona, pergunta às interrogações e flagra os flagrantes. Quem não tiver pecado atire a primeira pedra. Quem não se flagrar em segredos leve a sério a sua religião. Descobrir-se protagonista da grande piada é a pior vergonha. Um a um, todos se retiram.
Enquanto isso, Jesus mantém-se curvado e entregue aos rabiscos na areia. É assim que se escreve, com a fluidez de quem o faz sem a pretensão poderosa de se perpetuar. O resto é doutrina, é lei, é flagrante de morte. Ele dá as costas à escrita pretensiosa de ocupar o mundo, como se o mundo fosse o que aparece. Escreve no fugidio pó o traço da misericórdia. A escrita na areia que o vento leva é tão livre que torna aquele ambiente insustentável para os rígidos escribas. Apenas quem escreve conteúdos para serem esquecidos está apto a desenhar o belo e a liberdade. Apenas os riscos poéticos, espalhados no chão e que logo serão lançados pelo vento no imponderável horizonte, somente eles libertam os pecadores de seus cruéis flagrantes.
Não há mais ninguém ali, além dos dois. Estão livres, por enquanto. A mulher, do apedrejamento. Jesus, de mais uma arapuca. Mas os fariseus e mestres da lei, estes foram condenados a manterem a todo custo o falso brilho de sua aparência.
A mulher volta à vida. Jesus fica um pouco mais por ali, escrevendo na areia e saboreando, com um breve riso nos lábios, a sobrevida.
Até que em um dia desses, sua poesia se torne um crime e sua liberdade, uma cruz.
Elienai Cabral Junior

19 comentários
Feed de comentários deste artigo
09/05/2011 às 6:41 pm
Tininha
Que texto M A R A V I L H O S O!!!!
Mt obrigada por compartilhar.
Abs
09/05/2011 às 7:02 pm
Iêda
Caro Júnior,
Fantástico o texto!. Deixou-me sem palavras!
Como eu gosto deste Jesus amigo dos proscritos, cheio de ironias sutis e capaz de poesias inusitadas na areia!
E como eu gosto de quem sabe perceber-Lhe a essência e descrever-Lhe tão bem como vc o fez!
Sabe, há 10 anos, vi uma pregação de seu pai no aniversário de 90 anos da Assembléia de Deus em Belém e gostei muitíssimo.
Pois hoje, vi que que o pendor para as palavras pode ter um quê de genético.
Continue assim: com a escrita leve, com a alma sensível, com a mente aberta.
Nós outros precisamos de penas livres e ágeis.
Um forte abraço!
09/05/2011 às 9:37 pm
Adeilton
Que graciosidade na escrita… que elgância.
Ufa…Que a graça do nosso Deus vivo seja a força motriz do seu viver e do seu pensamento.
09/05/2011 às 10:56 pm
Will
Amigo, mais uma vez sua pena atingi meu coração. Texto excelente, ainda mais porque sei que todo esse movimento de Jesus de Nazaré se dá no seu coração e no coração de sua comunidade.
Abs.
09/05/2011 às 11:41 pm
Laion Monteiro
Lindo texto!
10/05/2011 às 12:11 am
Leonardo Silva
O coraçao parou de bater algumas vezes, durante a leitura, esperando a conclusão das frases. Ufa, consegui chegar ao fim vivo!
10/05/2011 às 12:44 am
Daniel Santos
Belíssimo texto, meu amigo! É um privilégio poder lê-lo e ouví-lo.
Abração!
10/05/2011 às 8:50 am
Cristina
Amei o texto.
“todo assunto muito sério é uma piada…”
10/05/2011 às 9:41 am
Carlos Alberto
É impressionante como as pessoas gostam de pintar o nazareno. Uns fazem dele um filósofo, outros um poeta e outros ainda um revolucionário rebelde às suas tradições. Poucos o vêem como um simples judeu, religioso, éé religioso, amante da Toráh, cumpridor das mitzvot, enfim, como diz na tradição judaica, um tzadik.
Combateu o pecado, abraçou oe pecadores, ensinou-os e disse-lhes; “vá não peques mais”. Deus exige que não pequemos ? Não, ele conhece nossa estrutura, sabe que somos pó. João diz que aquele que não peca faz Deus mentiroso. Pecamos. Fato. Deus perdoa. Fato. Assim como a Toráh instrui, aliás, Toráh significa instrução e não lei como comumente o cristianismo popular entende, o nazareno instrui a todos, “vá, e não peques mais”. Isto é, atente para minha instrução, para meu ensino, para os meus mandamentos. A verdade é que se o amamos guardamos o seus mandamentos Jo 14.15. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele Jo 14.21
Veja como é simples, sem rodeios, sem filosofias. Pq complicamos as coisas. O problema da teologia não seria os teólogos ? É só uma pergunta.
Abraços fraternos
10/05/2011 às 11:01 am
Waldir Martins
Este maravilhoso relato da mulher pega em flagrante adultério foi retratado de forma bela e poética. Sensibiliza os corações mais duros. Grande mensagem. Deus continue te usando Pastor Elienai.
10/05/2011 às 11:41 am
Arézia
Lindo! filho.
Amei. Muito profundo e denso. Quero lembrar que a verdade sempre há que ser complexa. Às vezes nem nós mesmo captamos até onde ela vai. Guarde aquilo que precisa ser guardado e compartilhe o que que convier a cada relacionamento. Mas… lembre-se que deve haver algué com quem seu coração passa mostrar-se por completo.
10/05/2011 às 1:17 pm
rubens osorio
Toda vez que meu Reader aivsa que tem texto novo aqui, venho com pressa e receio. Pressa porque sei que a qualidade e beleza do texto vão me embevecer; medo porque serei confrontado com verdades duras e chamados eloquentes que me trarão lágrimas aos olhos e peso ao coração. Mas venho depressa.. e leio devagar, com olhos embaçados.
Obrigado!
11/05/2011 às 9:34 am
Mateus Octávio
Exelente percepção, uma verdadeira pintura de lucidez, parabéns pastor.
12/05/2011 às 12:38 am
Lucas Queiroz
Mui belo e com a leveza das palavras.
Daria uma peça teatral !
abs
12/05/2011 às 5:22 pm
Mario
Lindo! Sensível, preciso e despretensioso. Parabéns.
12/05/2011 às 7:14 pm
Pedro
Belo e edificante. Uma pena afiada e profunda como a dos filosofos, e ao mesmo tempo atraente e caticante como a dos poetas.
12/05/2011 às 8:04 pm
Wendel Cavalcante
E em dias que os fundamentalismos insistem em nos puxar para baixo, respiro, puxando o ar com a força que me resta, como quem acaba de levar um caldo da onda, ao ler seu belo texto, Elienai!
Abração!
13/05/2011 às 8:58 pm
PH
Muito bom mesmo. Parabéns.
Abraço
17/05/2011 às 6:56 pm
toninho ager
meu amigo
É PURA RETUNDâNCIA EU COMENTAR ESTE TEXTO.
Faço então minhas, com a gentileza da permissão dele, as palavras do especialista judeu Carlos Alberto.
Eque bom saber que existem pelo menos dois escrevendo assim e isto sem falar no terceiro,ou seja, o RGD.
Graças a Deus por tantas sumidades.
um abraço a todos voces e a paz do Senhor.
toninho ager