Como qualquer pessoa, conheci “O Príncipe” de Maquiavel primeiro a partir do adjetivo “maquiavélico”, para depois conhecer o sujeito e sua obra. Maquiavélico refere-se a qualquer ação sagaz, premeditada e habilmente executada para manipular pessoas ou situações. Há algo de malévolo em quem recebe o adjetivo “maquiavélico”. Também sobre “O Príncipe” soube superficialmente: um manual escandaloso de como governar sem escrúpulos.

Mas tão logo entrei em contato com o texto de Maquiavel, descobri a pressa e grosseria dessas generalizações. Minha descoberta, no entanto, se iniciou com o susto de flagrar-me despido nos conselhos de Maquiavel. Com uma freqüência vergonhosa, identifiquei-me com o modo como Maquiavel orienta a prática do poder. Mais ainda, o que de mim identifiquei o fiz mormente do espaço do qual faço parte. Os pastores e suas igrejas. Isso mesmo! Não disse políticos, mas pastores!

Ler Maquiavel é uma experiência repleta de contradições. Odiamos seus conselhos à medida que amamos. Odiamos porque seu atrevimento de expor algo sem preocupações éticas, nem roupagens ideológicas é constrangedor. Mas também odiamos porque nos flagramos amando a perspicácia com que nos ensina a concretizar o que desejamos: perpetuar nossa vontade sobre os outros, garantindo nosso prestígio e influência. Lia o texto, mas surpreendia-me ouvindo interessado os seus conselhos, para em seguida rechaçá-los. Numa espécie de auto-exorcismo: sai de mim que este corpo não te pertence!? Do repúdio à atração. Do afastamento à afinidade. Da indignação ao conformismo pragmático. É o gosto agridoce de O Príncipe. Lê-lo é repudiar práticas de liderança ao nosso redor, para em seguida perceber-nos maquiavélicos em quaisquer dos níveis de relacionamento da vida. Inclusive na vida religiosa, na vida de dentro da igreja. Este lugar pelo qual inutilmente nutrimos uma fantasia de imunidade moral.

A partir dessa experiência tridimensional com o texto de Maquiavel, nasceu meu desejo de percebê-lo em nossa prática evangélica. Identificar o poder maquiavélico em nossa pastoral como um chamado a inconformação e ao olhar cuidadoso para a escolha divina em Jesus de um outro poder é a que me proponho neste trabalho. Primeiro, nos deixaremos radiografar por Maquiavel, para em seguida compreender o poder no qual veio Jesus como um “outro poder”, com o qual e tão somente o Reino de Deus é possível entre nós. Comecemos com Maquiavel.

A obra de Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”, é tida como a fundadora da noção de Estado Moderno. Maquiavel participa, na Itália, ainda feudal, de um processo amplo de transição. Sobre ele está a forte influência do renascimento cultural, a transferência do horizonte último de legitimação da vida humana da religião para as relações seculares, de um teocentrismo para um antropocentrismo. Não mais a vontade de Deus expressa pela religião, mas a necessidade e anseio da pessoa humana tornam-se determinantes. Maquiavel sonha em ver acontecer na Itália o que já estava em desenvolvimento acelerado na França e Espanha, a centralização do poder em uma monarquia absoluta, como esclarece José Nivaldo Junior:

“A reação contra a idade Média, chamada injustamente pelos humanistas do Renascimento de “Idade das trevas”, alcança todos os valores e instituições, principalmente a Igreja. A burguesia invocava novos valores cosmopolitas, ridicularizava a nobreza e seus atributos e transformava a Igreja em alvo das mais severas críticas.(…)Na Itália, contudo, a tendência centralizadora esbarra em um obstáculo irremovível: os Estados pontifícios, plantados no centro da península, impedem a unificação. Alguém disse que a igreja não tinha forças para unificar a Itália sob a sua égide, mas era forte o suficiente ara impedir essa unificação. Esta unidade seria o grande sonho da vida de Maquiavel. É nesse sentido que ele direciona “O Príncipe”.”[1]

            Maquiavel está exilado do Estado Florentino, sua terra natal, quando escreve sua obra prima. Sua intenção, dizem os historiadores, era a de promover-se diante dos Medici, família que ocupava o governo em Florença, sonhando em ser repatriado, ao mesmo temo em que trabalhava para, a partir do Estado de Florença, proporcionar a unificação tão sonhada da Itália.  

 

Curiosamente, Maquiavel inicia sua carreira de homem público logo após a deposição de Girolano Savonarola, executado na fogueira em 1498. Sabe-se que este evento é uma antecipação e preparação da Reforma protestante promovida por Lutero. Savonarola é referido por Maquiavel como o profeta desarmado”, seu governo pretendeu fazer de Florença uma república teocrática, onde seu governante seria nada mais e nada menos que Jesus Cristo. Sabendo do impedimento dos estados pontifícios para a unificação da Itália, substituindo o governo religioso de Savonarola, é que Maquiavel trata das questões de poder em O Príncipe. Também não por acaso é que tem um tom irônico ao citar entre os seus exemplos de liderança a grande personagem bíblica de política, Moisés. Seu trato do poder é uma desistência radical de qualquer mecanismo redentivo para a humanidade. Maquiavel parte do pressuposto pessimista de humanidade. A humanidade não é boa, por isso a prática do poder exige o esvaziamento de utopias e escrúpulos morais.

            É neste contexto de transição de valores e busca de se posicionar nos novos moldes políticos que Maquiavel escreve seu texto. Sua expectativa é clara, não está escrevendo um tratado científico, muito menos uma obra de filosofia política. Sua obra é um manual prático para o exercício do poder. Não há uma utopia nas entrelinhas, não há um ideal romântico a ser alcançado. O que há é a necessidade de se ter êxito no poder. A pergunta que Maquiavel quer responder é uma apenas: como se perpetuar no poder? Questão que carrega a natureza mesma do poder: autoperpetuação. José Nivaldo Junior afirma que “O Príncipe” é um manual de marketing político. Dentro dos eventos reais envolvidos no exercício do mando, sua conquista, consolidação e expansão, como deve agir aquele que governa é a questão a ser respondida. Sua preocupação não é de apontar para um poder ideal, mas para o poder real. Não trata do que pode ser, mas do que é

        Ao desnudar a prática do poder de todos os seus romantismos e escaramuças teológicas, torna visível a natureza do poder na sua realidade mais concreta, a das manobras para a autoperpetuação. O livro tem a forma de conselhos ao novo governante do Estado Florentino, Lourenço de Médici, sobre como se sustentar no poder. Reúne as lições para uma governança bem sucedida vasculhando exemplos na história. Trás à superfície os conflitos da vida social e termina por radiografar as entranhas do poder: afirmar-se em um campo de forças em colisão.Maquiavelismo tornou-se sinônimo de manobra malévola, como dissemos. O indivíduo maquiavélico passou a significar aquele que orquestra maldosamente para se beneficiar. Mas isto é uma generalização grosseira. A obra de Maquiavel, O Príncipe, é bem mais refinada que isso. O que Maquiavel faz não é inventar a manobra política. Maquiavel apenas vira do avesso o poder e oferece uma  abordagem realista de seu exercício concreto.Se Maquiavel não apresenta um poder propositivo, ideal, mas simplesmente o poder, quase como uma manifestação animal de nossa humanidade, ou o poder instintivo, como se mostra desde sempre, temos dele um conceito de poder que precisa ser pontuado como o nosso ponto de partida. José Nivaldo Junior pode nos ajudar novamente:“Max Weber dizia que o poder é a possibilidade de alguém impor sua vontade sobre o comportamento de outras pessoas. Completaríamos dizendo que essa imposição da vontade, para caracterizar, de fato, o poder, deve potencialmente ser exercitada, inclusive, contra a vontade das pessoas. (…)A possibilidade de imposição coercitiva da vontade é uma característica essencial do exercício do poder.

[2]            O exercício do poder está relacionado com a nossa busca de efetivar a nossa vontade sobre a dos demais e, se necessário, contra os demais. É daí que parte Maquiavel, a política, ou a prática do poder é a arte de superar conflitos, é a vida concreta no campo de forças. O que justifica o poder é o fato da convivência dos diferentes. Nela, o movimento natural de seus convivas é o de buscar cada um garantir a preponderância de sua vontade. Exercer o poder é fazer a vontade de um prevalecer sobre a vontade dos demais. Veja o que Maquiavel observa sobre a governança:

“Daí decorre  que todos os profetas armados foram vitoriosos e que os desarmados sofreram derrotas. E isto porque, além das coisas ditas, a natureza dos povos é mutável, e, se é fácil persuadi-los de algo, é difícil perpetuá-los nesta persuasão. Eis a razão da conveniência em instaurar-se uma ordem tal que, ao serem estes povos tomados pela descrença, possa-se fazê-los crer à força.”

[3]            Aqui, a provável referência a Girolano Savonarola com o seu governo baseado na pregação e no ideal cristão. Nãocomo negar o desencanto de Maquiavel com qualquer utopia na prática do poder. A utopia pode existir como justificação de mecanismos cínicos de exercício do poder, mas não no interior concreto do poder. Um profeta desarmado termina na fogueira. Eis o poder maquiavélico, alimentado pelo desencanto, movido por uma atitude pragmática de quem espera ter êxito e não paixão ideológica. Aqui antecipamos uma questão? O Príncipe é um convite à escolha entre o que queremos ser: príncipes armados ou profetas desarmados?            Proponho alguns princípios da prática do poder maquiavélico, pinçados em O Príncipe, a partir do qual seremos confrontados por sua presença quase inevitável em nossa prática pastoral.

1.   A sensação de neutralidade ética de quem pratica o poder.

 “Se podia vencer pelo engano não tentava vencer pela força dizendo que a glória provém da vitória, não do modo.”[4] 

“As crueldades bem usadas(se do mal for lícito falar bem) são aquelas, para ele, que se praticam pela necessidade de chegar ao poder ou nele se firmar, mas que depois são abandonadas em troca de ações úteis para os súditos.”

[5]             A neutralidade dos valores éticos é uma marca escandalosa da prática bem sucedida do poder maquiavélico. O que Maquiavel está fazendo não é a proposta de uma estratégia inescrupulosa de poder, mas a revelação de sua dinâmica interior. Quem pratica o poder experimenta a sensação de neutralidade ética, ou de anestesiamento da consciência moral. Os valores morais tornam-se flutuantes, relativos. Isto porque a necessidade, interna ao poder, de auto-perpetuação relativiza quaisquer outros valores. O poder relativiza as escolhas morais de quem o exerce.             É do poder a sensação em quem o exerce de superioridade sobre as questões morais da vida comum. O poder relativiza os valores morais na medida que fornece aos que o exercem o sentimento de superioridade. Quem pratica o poder sente-se uma exceção. Tornou-se evidente a noção maquiavélica de poder em uma declaração do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, de que há duas éticas: a da política e a da vida social. Por trás deste corte (i)moral, a sensação messiânica de que as questões do poder estão em um nível valorativo superior ao da vida comum. Subornar o guarda de trânsito é condenável, mas aprovar emendas ao orçamento em troca de apoio no Congresso é articulação política.            O exemplo bíblico clássico desse anestesiamento é o de Davi em seu adultério, seguido por uma sucessão de vícios morais: dissimulação, manipulação e assassinato. Depois de se livrar de Urias, marido de Batseba, manobrando politicamente para conduzi-lo a morte, Davi não se sente um adúltero: sente-se um Rei em seu direito de posse. Não se sente um mentiroso e manipulador, sente-se um Rei costurando rupturas para o bom andamento de seu reino. Não se sente um assassino, sente-se um Rei dando uma solução difícil, mas necessária para um problema político.            A dessensibilização moral de um líder é percebida por Paulo, que a reconhece, rejeita e age para resgatar sua sensibilidade: Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.” (1Co 9.24) 

2.   A busca por tornar-se necessário. 

“É que um príncipe não pode fundar-se naquilo que em tempos mansos, tempos em que os cidadãos necessitam do Estado, porque então todos acorrem em seu favor, todos prometem e todos, com a morte bem distante, querem por ele sacrificar-se. No entanto, é na adversidade, quando o Estado necessita dos cidadãos, que raros deles se fazem presentes. De resto, são ainda maiores os riscos dessa experiência na medida em que ela não é realizável mais do que uma única vez. Por isso, um príncipe cauteloso deve conceber um modo pelo qual os seus cidadãos, sempre e em qualquer situação, percebam que ele e o Estado lhes são indispensáveis. então aqueles ser-lhe-ão sempre fiéis.”

[6]             Novamente, é próprio do poder nutrir-se do desencanto em suas prerrogativas. As pessoas não são confiáveis. As pessoas não são fiéis. As pessoas são volúveis. Isso descobre cedo quem exerce o poder, portanto, termina desenvolvendo mecanismos artificiais para manter as pessoas reverentes e dependentes de seu mando.

            Na prática pastoral, isto vem em muitas formas. Manipulação pela culpa. Chantagem emocional. A espiritualização do trabalho pastoral (não toque no ungido do Senhor). O culto à pessoa do pastor é promovido amplamente, suas orações tornam-se mais poderosas que as dos demais, sua benção é tratada como chancela para qualquer decisão. No cultivo da reverência e sacralização da figura pastoral, a fusão de quem o pastor é e do que faz é fundamental. Logo, todos são ensinados a chamá-lo pelo título e em hipótese alguma pelo nome. Mas, arrisco-me a dizer, a principal manifestação da prática do poder na igreja como Maquiavel denuncia seja a centralização da igreja na figura do pastor acompanhada de infantilização dos seus membros. Ao reduzir as atividades e identidade da igreja à figura pessoal do pastor, o que se chama usualmente de personalismo, cria-se uma dinâmica que ganha legitimidade com a presença do pastor.(- O culto nunca é a mesma coisa sem o pastor!) Nenhuma programação consegue um nível satisfatório de mobilização sem a participação pessoal do pastor. As lideranças sentem-se incompletas em seus empreendimentos dentro da igreja sem a chancela pessoal do pastor.

Ao nutrir a idéia de que é imprescindível, compartilhada pela igreja, que de alguma forma também lucra com a infantilização, o pastor sente-se seguro no exercício do poder. Novamente, Paulo dissolve esta concepção ao apresentar o valor de seu apostolado aos Coríntios (4.6-13):

Irmãos, apliquei essas coisas a mim e a Apolo por amor a vocês, para que aprendam de nós o que significa: Não ultrapassem o que está escrito. Assim, ninguém se orgulhe a favor de um homem em detrimento de outro. Pois, quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse? Vocês têm tudo o que querem! se tornaram ricos! Chegaram a ser reis e sem nós! Como eu gostaria que vocês realmente fossem reis, para que nós também reinássemos com vocês! Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados! Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo.” 

3.   Quem pratica o poder busca sempre auto-perpetuação. 

“Donde pode tirar uma regra geral que jamais ou raramente falha: aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.”

“Os príncipes prudentes, portanto, sempre evitaram lançar mão de tais forças e recorreram às suas próprias, preferindo ser derrotados com estas a vencer com as de outrem, considerando ilusória qualquer vitória obtida com forças que fossem-lhes estranhas.”[8] 

            Quem pratica o poder sente-se sempre ameaçado. É da natureza do poder, aqui chamado de maquiavélico, tratar a insegurança sentida por quem lidera diante de um outro que também lidera, ou influência naturalmente. Também compõe a dinâmica interna do poder agir para podar a ascensão de outro líder nos espaços de poder. Promover as forças de um outro é tornar-se sujeito a ele e à possibilidade de perder poder. Quem já não lidou com este sentimento e a reação instintiva de defender seus espaços de poder? Seja na relação conjugal e as crises de ciúme. Seja no ambiente de trabalho e a chegada de um novo colega  que se destaca. Seja nas relações de amizade e a disputa por predileções. Seja na igreja e o modo como são tratados aqueles que ganham brilho na comunidade.

            É típico um pastor sentir-se inseguro com o sucesso de uma igreja vizinha, tanto quanto enciumar-se de seus membros que a visitam ou dela fazem referência. Daí o trabalho pastoral, às vezes sutil, às vezes grosseiro, de produzir isolamento de sua igreja por medo de perder prestígio, ou mesmo adesões para outras igrejas.

            Outra relação no ambiente da igreja que expressa este movimento é a da substituição de um pastor por outro. Aquele que substitui entra em uma relação de conflitos. Age, quase inconscientemente, para desligar os vínculos do antigo pastor. Permite-se ouvir críticas ao desempenho do outro, jogo que curiosamente os componentes da igreja aprendem a fazer também para ganhar poder diante do seu novo representante. Ou então o antigo pastor insiste em manter tentáculos de mando na igreja que não mais pastoreia. Também ele promove uma presença-fantasma, assombrando a influência do novo líder.

4.   A arte do verniz e a fobia da transparência são componentes irresistíveis da prática do poder. 

“Há mais prudência em ater-se à reputação de miserável, que engendra uma infâmia que não te faz execrado, do que, ao pretender a fama de liberal, incorrer inevitavelmente na de rapinante, que engendra uma infâmia que te faz odiado.”[9] 

“A um príncipe, portanto,  não é necessário que de fato possua todas as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las. Antes, ouso dizer que, possuindo-as e praticando-as sempre, elas redundam em prejuízo para si, ao passo que, simplesmente dando a impressão de possuí-las, as mesmas mostram toda a sua utilidade.(…)Por isso, será preciso que ele possua uma natural disposição para transmudar-se segundo o exijam os cambiantes ventos da fortuna e das circunstâncias, e, como eu dizia acima, que, havendo a possibilidade, ele não se aparte do bem, mas que, havendo a necessidade, saiba valer-se do mal.”[10] 

            Quem pratica o poder sente uma enorme necessidade de sustentar uma aparência que promova a sua conservação. Já dissemos que é da natureza do poder o denodo em sua manutenção. A paixão do poder é perpetuação. O poder cultua a imagem. O poder sustenta-se na imagem.

            Um exemplo duro dessa verdade e o seu decorrente desencontro com ‘o outro poder’ exercido por Jesus é o momento em que reivindica o cumprimento de uma profecia: “ferirão o pastor e as ovelhas se dispersarão”. Jesus preparava os discípulos para a experiência escandalosa de sua morte na cruz. A aparência de fraqueza e derrota seria insustentável para os discípulos. Pedro ergue-se imponente e afirma: todos podem te negar, mas eu nunca o negarei”. A resposta de Jesus é um desmanche do jogo de aparência, é um solvente no verniz de uma imagem brilhante. Jesus avisa que Pedro o negará e lhe dá um sinal para que a experiência seja a mais lúcida possível, o canto do galo. Ninguém havia pedido aquele compromisso de Pedro. O tempo era de fraqueza. Pedro assina um cheque sem fundo por necessidade de parecer bem.

            Também em nossa prática pastoral somos tentados a agir assim. Já ouvi conselhos insistentes de não me aproximar demais dos membros da minha igreja. Já fui advertido de não expor minhas fraquezas porque acabara de contar sobre a crise de depressão pela qual passara. A questão é: como confiarão em quem também se mostra fraco? Parece que não é esta a relação a que somos convidados pela Palavra:

Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns”. (1Co 9.22)  

Quem está fraco, que eu não me sinta fraco? Quem não se escandaliza, que eu não me queime por dentro?” (1Co 11.29)

 

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. (1Co 12,10)

 

“Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza. (2Co 11.30)

Pois, na verdade, foi crucificado em fraqueza, mas vive pelo poder de Deus. Da mesma forma, somos fracos nele, mas, pelo poder de Deus, viveremos com ele para servir vocês”.(2Co 13.4) 

POR QUE A PRÁTICA DO PODER É TÃO CONTAGIANTE? 

            A questão com a qual lidamos necessariamente é: por que o poder é tão envolvente? Por que o sentimos tão perto e freqüente em nossas relações? Por que não conseguimos, mesmo em nossa vocação, mesmo na prática da comunhão, experimentar alguma isenção a este poder como descrito por Maquiavel?

            A resposta é uma só: o poder é um terreno escorregadio percorrido por todos nós, porque aquilo que constitui a sua força interna habita em nós: o pecado. Tento uma definição do pecado a partir do poder: pecado é a força que, habitando em nós, impulsiona-nos para a auto-afirmação em detrimento do valor do outro. É a busca desesperada de autoperpetuação em desconfiança do outro.

            O outro de quem desconfio, a quem quero suprimir em sua independência e valor é Deus, mas também é o meu próximo. Meu pecado é fruto de minha inadequação à liberdade de Deus e à liberdade do próximo.

            Uma análise de Gênesis 3 confirma esta definição. O nascimento do pecado na vida humana é a fissura criada por Satanás na confiança humana nas intenções do outro-Deus. A conversa da Serpente com Eva-humanidade é uma introdução à vida política, às questões do poder. O poder é inventado na história humana pelo lapso produzido pela persuasão de Satanás: Gn 3.5: Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deusa , serão conhecedores do bem e do mal.” Jacques Ellul nos ajuda a compreender esta idéia:

“Pode ser que a política seja o reino do diabo, mas isso certamente nos concerne como cristãos. (…) (a política)é a esfera da maior afirmação da autonomia do homem, de sua revolta, de sua pretensiosa tentativa de assumir o papel de Deus.”[11]

            Curiosamente, Maquiavel inicia sua carreira pública, como já dissemos, sob a compreensão de que no trato com as questões do Estado, não há utopia possível. O governo do qual faz parte sucede o fracasso de Girolano Savonarola, que buscou a formação de um estado religioso, baseado na pregação cristã, um poder teocrático, fundado sob as prerrogativas da religião. O desapontamento com a utopia cristã de um reino entre os homens sem esquemas coercitivos marcou fatalmente a formação de Maquiavel. O poder maquiavélico se alimenta do desencanto.

            Maquiavel nada mais faz que pensar a realidade humana do pecado quando elabora sua concepção de poder. O pecado se funda na busca de poder. O poder é a resposta ao desencanto com os outros. O poder é a solução pragmática ao desencontro com os outros. Os outros são fonte de desconfiança quanto à minha afirmação, o poder, portanto, são os procedimentos eficientes para superar a sua força negativa sobre mim.

COM QUE PODER DEUS AGE ENTRE NÓS? 

            Sendo assim, a compreensão urgente de que precisamos é que a ação de Deus entre nós nunca foi marcada por uma disputa de poder. Daí vem o maniqueísmo cristão que enxerga o poder de Deus como maior que os outros poderes. Deus não é mais poderoso que o mal, nem que o Diabo, e, muito menos ainda, mais poderoso que nós. O poder de Deus é um outro poder. O poder de Deus não é o de auto-afirmação. O poder de Deus não é o da supressão do outro. Na verdade, o testemunho bíblico é o oposto. Deus não carece de auto-afirmação porque é incomparável e o seu poder se manifesta não na supressão do outro, mas na sua criação e libertação para ser um outro pleno. Novamente, Jacques Ellul nos ajuda:

“O homem certamente não é livre em nenhum grau. Ele é escravo de tudo, exceto de Deus. Deus não o controla nem o coíbe. Deus deixa que ele continue independente nessas condições.”[12]

            É neste sentido que precisamos compreender a ação redentora de Deus em todo o antigo testamento, mas principalmente em sua coroação na encarnação de Jesus. Jesus não veio disputar poder com os demônios, com os líderes da religião e, muito menos, com a política de então. Jesus veio em um outro poder. Não o poder que salva a si mesmo: auto-perpetuação. Mas o poder que salva o outro. A cena da prisão de Jesus pelos soldados de Caifás é definidora:

“Jesus perguntou: Amigo, o que o traz?” e Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam. Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26.50-53)

            Quando Jesus expulsa demônios, não o vemos disputando poder com espíritos malignos, mas amando pessoas. O poder de Jesus que expulsa os demônios é o poder do amor. Quando Jesus é pressionado pelas multidões, mas também e para sua tristeza, pelos seus discípulos para praticar o poder liderando-os contra as forças romanas, Jesus se recusa radicalmente. 

Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Lc 17.20-21)

            Temos pensado a doutrina da substituição aprisionados na alegoria forense. Uma disputa em tribunal em que a sentença tem que ser aplicada na forma da lei. A justiça exige que a sentença da morte se cumpra. Acho que tropeçamos nesta doutrina quando a reduzimos à metáfora do julgamento, ou à metáfora litúrgica da expiação através de uma animal. Ambas fazem referência a um Deus justo que zela pela verdade de nossa liberdade. Nosso pecado necessariamente experimenta a morte.

Mas vejo a substituição de Cristo não apenas como o cumprimento da exigência de justiça de Deus, o que de alguma forma pode esvaziar sua capacidade amorosa de perdão gratuito. Sei que piso em um terreno minado para a ortodoxia evangélica. Mas insisto. Acredito que a doutrina da substituição retrata prioritariamente este ‘outro poder’ com o qual Deus no visitou em Jesus.

Se o poder como escolhemos em nossa pecaminosidade matou-nos diante de Deus, como figura o Jardim do Edem. Se o poder como o praticamos mata o próximo para afirmar a si mesmo, como figura Caim no assassinato de seu irmão. Se o poder como praticamos reúne a humanidade com a fantasia expansionista e divinizante, que propõe deixar o chão de nossa humanidade para galgar alturas de arrogância e supremacia, como figura a Torre de Babel. O outro poder com o qual fomos visitados por Deus em Cristo é o poder do amor, de se colocar no lugar do outro, de substituí-lo em sua tragédia. De se fragilizar na fraqueza do outro. O outro poder com o qual fomos visitados por Deus é o poder humanizador, de se fazer gente com a gente. É poder que pisa o chão de nossa humanidade com ternura e delicadeza. Como na descrição de Paulo aos Filipenses:

Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.  Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,para a glória de Deus Pai.” (2.3-11) 

            Afirmei que a prática do poder, a natureza dele, se apóia sobre três buscas: a conquista, a perpetuação e a expansão. A distância entre o poder como praticamos e o ‘outro poder’, como Deus se aproxima de nós é revelada na encarnação de Cristo. O outro poder se apóia em três buscas diametralmente opostas às nossas: a perda, a renúncia e o auto-esvaziamento. Deus aceitou perder em Cristo. Sendo Deus, renunciou seus direitos. Desistiu de avançar sobre nós, mesmo sendo santo e possuindo prerrogativas de justiça, e invadir nossa liberdade. Escolheu esvaziar-se de si mesmo. A força que nos salvou foi a força do amor, do esvaziamento. Fomos atraídos por um Deus que se fragilizou em nossas fraquezas. De dentro de nosso drama, amou-nos indicando uma nova direção de vida.

            Os príncipes precisam perder seus principados. O púlpito é o lugar da Palavra pregada à comunidade vocacionada por Jesus. O púlpito precisa ser esvaziado de suas possibilidades de manipulação. O púlpito precisa perder o brilho da exceção e tornar-se tão opaco quanto à vida dos pecadores, para então o único lampejo de glória ser o do amor de Deus redimindo-nos a todos. O púlpito precisa abrir da paixão por conquistar, seja pelo grito autoritativo, ou pelo argumento falacioso. Precisa ser um lugar de delicadeza. Um lugar de amizade. Afinal de contas, em Jesus, Deus substituiu nossa servidão pela amizade.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.  Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido.” (Jo 15.13-15)

Elienai Cabral Junior


[1] NIVALDO Jr., José. Maquiavel: O Poder. Editora Martin Claret, 2004. Páginas 37-38

[2] NIVALDO JUNIOR, José. Idem. Pág. 24 (O grifo é meu).

[3] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 1998. Pág. 27.

[4] MAQUIAVEL, Nicolau. A Vida de Castruccio Castrani. Citado por Jose Nivaldo Junior. Maquialvel: O Poder. Editora Martin Claret, 2004. Pág. 31.

[5] NIVALDO JR., Idem. Pág. 72.

[6] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 1998. Pág. 49.

[7] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem, pág. 17.

[8] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem, pág. 65.

[9] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem Pág. 78.

[10] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem. Pág.86.

[11] ELLUL, Jacques. Políticas de Deus e Políticas dos Homens. Fonte Editorial, 2006. Pág. 16.

[12] ELLUL, Jacques. Idem. Pág. 18.

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