Termino este ano com um sentimento forte de gratidão. Gosto mais de pastorear. Gosto de fazê-lo na minha Betesda.

Sou pastor porque sou ambíguo. Pastoreio porque preciso de cúmplices, gente que me flagre “demasiado humano”. Pastoreio como quem seduz, preciso estar cercado de pessoas que me ajudem a não perder-me  da vida. Pastoreio porque não posso mais distrair-me  do que é verdadeiro. Desde a cruz minhas escaramuças tornaram-se insuportáveis. Nela, toda a minha contradição foi exposta. Pastoreio como quem precisa de companhia diante da cruz, lugar de minha nudez existencial. É muita cruz para um homem solitário.

Sou pastor porque sou um falastrão. Não suporto o letrismo teológico mudo. Descobri que teologia é falatório e que encontro com Deus é um sarau. Qualquer teologia tagarela na academia e muda na vida é blasfêmica. Pastoreio como quem conversa com Deus na vida. Pastorear é repercutir. Desde as parábolas de Jesus só consigo pensar Deus a partir da vida. Semeador. Pai de pródigos. Noivo. Pastor. Sua voz tem o timbre do drama humano. Com tanta voz, não posso não pastorear.

Se permaneço pastor, hoje, devo a esse espaço marcado por uma ambivalência que me salva: Betesda. Perdoem-me o aparente propagandismo. Não saio em defesa da instituição. Apenas exerço o incontinente sentimento da gratidão. Neste lugar, a cada contraponto, um fôlego novo enche meu peito. A coragem quase-irresponsável de repensar a fé espalha uma boa adrenalina no meu corpo. Os constantes desafios fazem do meu ofício uma vertigem maravilhosa. Acredito que apenas os aventureiros conseguem continuar pastores. Apenas quem aceita apostar, como Deus, mais do que os méritos sugerem, tornam-se aptos ao pastoreio. Betesda tem feito assim. Credita sempre muito mais do que faço por merecer.

2007 vai começar! Quase não me aguento de ansiedade. Nessas festas de fim de ano terei que cumprimentar com a mão molhada, abraçar com taquicardia. É muito pastoreio para um homem só. Obrigado, Betesda!

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