Inicio com este tema a tentativa de pensar um pouco a nossa espiritualidade. Mas quero pensá-la no binômio angustiante racionalismo-misticismo. A idéia é tratar o assunto em quatro momentos: Transcender Angústias, Transcender o Medo do Desgaste, Transcender o Desejo de Poder e Transcender Distrações.

Primeiro momento: Transcender angústias

            Quem está preocupado com a verdadeira espiritualidade fatalmente já se deparou com duas angústias. A de perceber que o caminho de investigação e compreensão das verdades espirituais, o caminho das palavras, com muita freqüência descamba em teologia árida, ou mesmo em criticismo cínico, o que aqui chamamos de racionalismo. Por outro lado, também encontramos naqueles que optam pelas veredas místicas, o caminho das intuições espirituais, para encontrarem saciedade espiritual, uma outra angústia, a freqüência com que se tornam histéricos e neurotizantes da vida comum, o que aqui designamos pelo termo misticismo. Não podemos crer, no entanto, que ambos os descaminhos, racionalismo e misticismo, partiram de um pressuposto maléfico. Ao contrário, ambos resultam do mesmo anseio, da sede de Deus que abrigamos no íntimo.

O alarde com que se fala de espiritualidade no mundo moderno sintomatiza o anseio frustrado da alma humana por Deus. Frustração que tem por trás a religião organizada e o mundo tecnologizado. A religião organizada é estéril espiritualmente, visto estar enfocada em sua auto-subsistência, trata as pessoas como adeptos e as educa para ritualizarem a vida. O mundo tecnologizado reduz a vida humana à coisa e à função. As pessoas são treinadas para possuírem coisas e assumirem funções, e a vida é bem mais que isso, o que torna o desejo por Deus ainda mais intenso de tão frustrado.

Neste cenário, a resposta da espiritualidade cristã é angustiada. Cada vez mais pessoas se tornam avessas aos caminhos da racionalidade para se chegar a Deus, o racionalismo, mais freqüentemente presente nas igrejas históricas. Como também outros tantos sentem repulsa pelos modelos do misticismo, mais freqüentemente presente nas igrejas pentecostais e neopentecostais. O desconforto angustiado é fenômeno de decepção, de crise. Mas precisamos enxergar na crise não um beco sem saída, mas a ação do Espírito fermentando uma nova realidade. O Espírito catalisando em nós uma outra e boa espiritualidade.

Tanto a espiritualidade alardeada na busca secular, quanto o desconforto com o racionalismo e misticismo dos ambientes cristãos, indica o anseio por uma espiritualidade que transcenda a esta angústia. Eugene Peterson[1] pensa espiritualidade como desejo por intimidade e transcendência. As pessoas “desejam experimentar o amor, a confiança e as alegrias” das outras pessoas e de Deus. A resposta bíblica para esta busca é a vida no Espírito. A vida no Espírito é a que experimentamos quando nos sujeitamos ao trabalho do Espírito Santo em nós.

Aos Gálatas, em contraposição ao esforço frustrante do trabalho humano, das obras da lei, para viver em comunhão com Deus, Paulo proclama a vida no Espírito. Depois de contrapor as obras da carne ao fruto do Espírito, o apóstolo complementa: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”. O resultado de andar no Espírito é exemplificado pela figura agrária do fruto. O fruto não é resultado do que o homem faz, os processos de constituição do fruto são maiores que o trabalho humano. O que o agricultor faz é harmonizar-se com as leis da natureza para conseguir o melhor fruto. Viver no Espírito é harmonizar-se com a lei do Espírito, com o trabalho que Ele desenvolve em nós, para, então, experimentar um bom fruto.

O desconforto com o racionalismo pode nos conduzir a um emburrecimento da fé, como pretensa espiritualidade. O desconforto com o misticismo pode no conduzir a um sapientismo distraído consigo mesmo, como pretensa maturidade espiritual. O nosso desafio é compreender o místico e o racional na vida no Espírito, e como um e outro podem se tornar desvios espirituais.

Nós precisamos afirmar que a espiritualidade cristã não prescinde do místico para ser racional, nem do racional para ser mística. Se compreendermos que a vida espiritual é mística porque fala de algo que transcende o nosso mundo tangível, isto é, é maior que aquilo que podemos perceber sensorialmente e, portanto, maior do que a nossa capacidade de organizar e classificar intelectualmente, não há como negar que uma verdadeira espiritualidade é mística, pois o nosso Deus ultrapassa-nos sempre. Ainda mais se falamos da enorme tarefa de sermos igreja, o corpo de Cristo na figura paulina, em que interagimos para o bom funcionamento; a incumbência de sermos portadores do evangelho, não apenas na fala, mas existencialmente, é muito maior que a nossa condição limitada e intimidada pelo pecado, portanto, débil. A presença do Espírito compensando nossa debilidade, sendo o Dom de Deus que distribui dons é a condição mística, porque sobrenatural, para cumprirmos nossa missão. Mas também se entendermos que a capacidade humana do pensamento, de abstrair, de imaginar, de organizar é parte fundamental da vida, ou seja, do modo como Deus nos criou à sua imagem e semelhança, não há como viver uma verdadeira espiritualidade sem o exercício racional.

Um primeiro exemplo desta verdade, uma espiritualidade racional ou uma racionalidade espiritual, é a definição de fé na Carta aos Hebreus (11.1): “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. A “certeza” e a “prova” são manifestações racionais, mas que nos remetem a realidades transcendentes à nossa segurança: a “esperança” e “as coisas que não vemos”.

Outro exemplo desta conjugação do místico e do racional é o modo como Paulo ensina os crentes coríntios a administrarem os dons espirituais (1Co 14). O dom de línguas, que não produz resultados racionais, deve ser tratado mais individualmente; isto nos diz que a experiência mística não se confunde com um surto esquizofrênico, pode ser racionalizada. Os dons de revelação devem ser exercidos amplamente, mas de forma organizada, um de cada vez e com uma admoestação: depois de falar o que profetiza, julguem a profecia. Avaliar uma manifestação mística é um trabalho racional.

Outro exemplo importante é o chamado “pentecoste dos gentios”, na casa de Cornélio. Antes de tudo, Pedro tem uma experiência de êxtase seguida de um convite de Deus para repensar suas posições. Depois, na casa de Cornélio, Pedro expõe organizadamente o evangelho, e compõe um exemplo importante do kerigma cristão. Na medida em que prega, o Espírito Santo é derramado sobre os gentios reunidos ali. Alegria, sensação de prazer extático, e línguas estranhas são sinalizações de que o acontecimento entre os gentios é idêntico ao do dia de Pentecostes entre os judeus. A meditação na Palavra é um caminho racional de espiritualidade, ou seria uma racionalidade espiritual, ou ainda, uma teologia espiritual? O racional seguido do místico. O racional que se misticiza. O místico pensante.

Daqui, podemos concluir que a espiritualidade bíblica é um exercício racional e uma vivência mística.

Elienai Cabral Junior


[1] PETERSON, Eugene H. De Volta à Fonte. Encontro Publicações. Curitiba-PR, 2000. Pág. 33.

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