O MISTICISMO CONFUNDE O ESPÍRITO SANTO COM PODER E OS DONS COM OPORTUNIDADES DE DESEMPENHO. 

            Inquestionavelmente, o movimento pentecostal revigorou a percepção do Espírito Santo e a busca por uma espiritualidade experencial. Redescobriu-se em Deus sua presença intensa e perceptiva. A adoração deixou de ser didática, um culto sobre Deus, para ser relacional, um culto jubiloso e afetivo com Deus. No culto, o falar de Deus deixou de ser apenas reflexivo e indireto na exposição das Escrituras, o “Castelo Forte é o nosso Deus” e passou a ser uma manifestação vívida na 1ª pessoa do singular, o “Eu te amo e adoro”. As curas deixaram de ser um exemplo do passado, ou mesmo uma alegoria ilustrativa do poder de Deus, para tornarem-se possibilidades do presente. Não por acaso o mapa da atual expansão do cristianismo tem no pentecostalismo sua maior legenda.

            No entanto, junto ao pentecostalismo, e sua cria indesejada, o neopentecostalismo, percebemos o misticismo mágico. A diferença entre a experiência mística no Espírito e a relação mágica com o Espírito é que no segundo, a pessoa de Deus é substituída pelo ego humano e suas projeções inconscientes e irracionais.

No misticismo mágico, o Espírito Santo não é desejado pelo relacionamento com Deus a que ele nos apresenta, mas pelo brilho que a manipulação do sobrenatural acrescenta ao ego. Foi esta a busca de Simão, o mágico em Samaria(At 8.9-24). Um homem habituado a “impressionar” a cidade com as práticas da feitiçaria, se autoproclamava “importante” e conseguiu ser chamado pelo povo de “o Grande Poder”. Adere ao evangelho pregado por Felipe, envolve-se com o novo culto. Agora, perceba a armadilha do misticismo. Em nenhum momento o texto suspeita da adesão de Simão, o mágico. Nem ele esconde qualquer realidade interior. Ao ver Pedro e João impondo as mãos sobre os crentes samaritanos e algo verificável acontecendo para que se entendesse que recebiam o Espírito Santo, Simão, sem mostrar qualquer escrúpulo, oferece dinheiro para manipular aquele “poder” e sobre quem ele impusesse as mãos “recebessem o Espírito Santo”. Em seguida, ele é duramente advertido pelos apóstolos, que revelam que “seu coração não é reto diante do Senhor” e percebem que ele “está cheio de amargura e preso pelo pecado”. O misticismo fantasiou seu egoísmo. Simão não via no Espírito Santo o relacionamento pessoal com Deus, místico e, portanto, inapreensível. Via no Espírito Santo o grande poder que, manipulado por ele, lhe encheria de prestígio. Os dons do Espírito, Simão via como desempenhos individualizantes. Não enxergou que os dons do Espírito eram um exercício de serviço ao outro, mas como algo que feito por ele o tornaria capaz de realização. O misticismo perpetua o egoísmo. Manipular o sobrenatural é fascinante porque me faz sentir-me divino.

            Jesus fala da fantasia do misticismo quando retrata a mentira dos que o procurarem em um dia de prestação de contas, alegando conhecerem-no porque estão cercados de pretensos prodígios espirituais(Mt 7.22-23): “Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” O misticismo impede o verdadeiro conhecimento de Jesus, pois é um desvio do olhar pessoal para o Iesus Kyrios revelado pelo Espírito Santo.

            Outro exemplo importante de denuncia da fantasia do misticismo está no retorno dos 70 da missão bem sucedida. Estavam todos empolgados não pelas vidas que conduziram a Deus, mas porque, em nome de Jesus, expulsavam demônios. Estavam fascinados com o desempenho pessoal de manipular o sobrenatural. Jesus dá uma ducha de água fria no misticismo empolgado deles e os recoloca na realidade da vida espiritual (Lc 10.20-23): “Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus“. Naquela hora Jesus, exultando no Espírito Santo, disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar“. Então ele se voltou para os seus discípulos e lhes disse em particular: “Felizes são os olhos que vêem o que vocês vêem”. Jesus, exultando no Espírito, revela o verdadeiro sentido da vida espiritual: intimidade com o Pai e com o Filho. A alegria espiritual é fruto do que os meus olhos vêem pela revelação do Espírito Santo.

O MISTICISMO É INCUBADOR DO AMOR AO PODER. 

            A relação que confunde o Espírito Santo com poder perde de vista que o poder que o Espírito Santo traz é proporcional à nossa fraqueza. Não é poder de se impor ao outro. Nem poder de manipular. Não é poder de manobrar caprichos.  É o poder do amor. Que se enfraquece com o frágil. O poder de Deus é enfraquecer-se em nossa fragilidade. Mas o fato é que o misticismo, movimento disfarçado do egoísmo, busca o poder a despeito do que significa a presença pessoal do Espírito Santo em nós.

            É reveladora de desvio a imposição doutrinária no pentecostalismo tradicional de uma experiência do falar em línguas, como evidência do recebimento da segunda benção ou do batismo com o Espírito Santo, para ocupar funções de liderança. Que terminam não sendo outra coisa senão espaços de poder. As línguas estranhas, que são uma evidência primeira de nossa fraqueza, para então ser uma evidência do poder de Deus em nós, são buscadas para alçar ao poder eclesiástico homens e mulheres.

            O fato é que o ambiente que confunde a presença do Espírito Santo e os dons por ele manifestados com poder e desempenho transforma-se em um incubador de amor ao poder e não à pessoa de Deus. Daí encontrarmos nestes ambientes tanto envolvimento com a pior política, seja na briga pelo poder das instituições internas da igreja, seja na briga por espaço político na vida secular. Como também o amor aos títulos e cargos. Nos corredores da igreja, expressões do tipo: “-Se você não mostrar a cara nunca vai crescer.” Ou então: – “Agora eu estou andando com os grandes.” – “Fulano é ‘assim’ com o homem. (friccionando os dois dedos indicadores, sinalizando proximidade)”

            Outro exemplo de misticismo incubador do amor ao poder e ao desempenho é o movimento neopentecostal. A teologia da prosperidade traduz a presença do Espírito Santo na condição privilegiada de bens de consumo e de espaços de poder ocupados pelos “mais ungidos”. Desde o funcionário estimulado a reivindicar o lugar do seu superior porque é “cabeça e não calda”, ao empresário ensinado a orar a Deus para tirar do “ímpio” e dar ao “justo”(que por acaso é ele!?) É também neste ambiente que a busca por reconhecimento de poder cresce incontrolavelmente. Quem antes era pastor, passou a bispo (mesmo sem supervisão), que passou a apóstolo, e agora, o que mais virá?

            Não sem razão encontramos estes líderes brigando politicamente, participando de negociatas vergonhosas, loteando os votos dos membros da igreja em troca de poder político e favores à instituição. A incubadora de tudo isso, desconfio, foi a busca equivocada pelo poder espiritual, o misticismo.

            Paulo nos ensina o caminho do poder espiritual como um caminho de fraqueza. Carregando uma revelação mística indizível, o apóstolo identifica no “espinho” que o acompanha, uma oportunidade misteriosa de não sucumbir à vaidade. Confessa que tentou livrar-se de sua fraqueza por uma oração de forte apelo. Por três vezes pediu a Jesus que o livrasse daquilo que o enfraquecia. A resposta que obteve foi uma só(2Co 12.9-10): “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse
em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.”

            Espiritualidade é acolher o Espírito Santo com delicadeza correspondente à de Deus, que o enviou a nós para visitar-nos em nossa corporeidade. Em nossa humanidade permeável. Suscetível. Poros dilatados de simplicidade e verdade. Apenas assim recebemos o Espírito da Promessa. E assim já somos gente de novo. Redenção, vida no Espírito. Espiritualidade que humaniza. Como Jesus, que cheio do Espírito foi batizado em nossa humanidade em um deserto de fraquezas.

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