A visão de um menino é encantada, vê no pai um deus, diria Freud. Olhar para o pai aos 36 anos é perigoso, é enxergar um homem. Olhar para o pai sendo eu também pai é ainda mais arriscado, é enxergar-me idêntico. Olhar para o pastor sendo um pastor é entender o que demorei
em descobrir. A força de sua paixão por Deus contagiou-me com um único sonho possível, servir ao mesmo Deus no mesmo ofício.

Não foi no púlpito que descobri sua fé. Na verdade, quando ele subia ao púlpito, impressionavam-me muito mais os olhos arregalados do auditório. Da admiração de todos admirava-me.

Foi nos flagrantes de seus segredos que descobri sua fé. Menino inquieto que sempre fui, abri portas de repente. Pela fresta, quarto escuro, murmúrio de oração, línguas estranhas, um homem prostrado ao lado da cama. A voz rouca do pregador afinou em contrição. O rosto de outrora, brilhando do suor da tarefa, pregador afogueado em gotas, ali era um rosto com o brilho das lágrimas do quebrantamento, meu pai aos pés de Cristo.

Deus é mais real quando ninguém vê, exceto o menino da fresta da porta. Foi por aquela fresta que Deus entrou na minha vida. Deus tem a cara e a concretude desta cena. Deus, em minha vida, tornou-se tão real quanto a cena inesperada. No púlpito, deixei de me empolgar com a empolgação do auditório. Fascinou-me saber ali o que ninguém mais sabia. O segredo de sua eloqüência residia lá
em casa. Naquele auditório apenas eu sabia porque ele pregava assim. Eu vi o crente bem antes do púlpito.

Nas histórias de Monteiro Lobato, Visconde de Sabugosa era um boneco feito de uma espiga de milho que criou vida. Tornou-se sábio porque vivia na biblioteca da casa. Meus pais impuseram-nos esta cena familiar. Fomos, eu e Tamara, criados entre os livros. Os livros estavam por todos os cantos. Nos sofás, no banheiro, na mesa de jantar, nos corredores, nas estantes abarrotadas deles. Aprendi bem cedo a gostar de livros. Enquanto via meu pai estudá-los e escrevê-los, tornou-se natural a fé pensada. Surpreendi-me todas as vezes que alguém colocou a fé em oposição às letras. Novamente, eu vi um homem atrás da escrivaninha antes de se colocar atrás de um púlpito.

Não consigo lembrar-me dos meus pais em uma briga. Já busquei esta lembrança. Ela não existe. Sei que tiveram diferenças e crises. Mas as colocaram em lugar devido. Lembro deles, um dia, um, outro dia, o outro, passando em frente ao meu quarto bem cedo, de pijama ainda e xícara na mão, desfilando o cheiro do café que acordaria na cama do casal o que ainda estivesse dormindo. Gosto desta cena singela. Gostava de saber que se amavam. Eu vi o que ninguém viu. Privilégio de quem conheceu o pregador de pijama. Vi meu pai amar minha mãe antes de pregar amor atrás do púlpito.

O púlpito carregou meu pai para longe de casa muitas vezes. Suas voltas eram sempre aguardadas com festa. Gostávamos dos presentes, das fotos, das aventuras contadas. Mas o que eu gostava mesmo era de ouvir sua voz rouca pelos compartimentos da casa. Gostava de ver no rosto de minha mãe a sua felicidade, coisa de mulher amada. Também a vi chorar e reclamar sua presença. Coisas da ausência que suas voltas apagavam. Mas há uma lembrança dessas voltas que luto para que não se apague. Nela há mais sensações que palavras e imagens. Lembro do colo de meu pai. O seu casaco vinho e com zíper (devo ter inventado esta informação na cabeça de menino) tinha uma textura agradável e quente. Lembro de sentir-me acolhido e feliz enquanto me levava de algum lugar para qualquer outro, não importa, estava no seu colo. Prega, homem do púlpito, o menino já sabe que é amado. Ninguém mais ali ouviu de você o que eu ouvi. Ouvi seu coração no colo do seu amor, ouvi o som do afeto bem antes de ouvir sua pregação.

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