O RACIONALISMO SE DISTRAI COM AS PALAVRAS DE DEUS E PERDE DE VISTA “A PALAVRA DE DEUS”. 

            A relação estreita do Espírito Santo com a Palavra de Deus é incontestável. O Parákleto é aquele que vem para sustentar a Palavra de Cristo(Jo 14.26): “ele vos lembrará de tudo o que vos tenho falado”. Portanto, o Espírito Santo realiza o papel racional de manter a memória da Palavra, do Evangelho. Se Jesus é aquele que vem para lembrar das palavras de Cristo, do Logos, é com o Logos que nos relacionamos necessariamente ao vivermos no Espírito. Entre as peças da armadura do cristão listadas na metáfora paulina(Ef 6.17) está “a espada do Espírito que é a Palavra de Deus”.  Outrossim(Jo 16.7-13), o Espírito é chamado por Jesus de o “Espírito da Verdade”, o que tem a missão da persuasão humana de seu “pecado, da justiça e do juízo”. Novamente, um papel junto à racionalidade humana. O raciocínio é participante fundamental da vida no Espírito.

            O racionalismo é a antivida no Espírito na medida em que subtrai a relação pessoal com Deus a partir de sua Palavra, pela distração com as palavras de Deus, ou, palavras sobre Deus. Antonio Vieira percebeu esta diferença com brilhantismo. No Sermão da Sexagésima, baseado na Parábola do Semeador, Vieira fala dos pregadores que não pregam o evangelho: “Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”.[1] A partir daí, Vieira apresenta a tentação no deserto cujo sujeito foi o Diabo. Em suas três abordagens, o Diabo tenta Jesus com as palavras de Deus. O Diabo tomava as palavras de Deus em sentido escorregadio, Jesus as tomava no sentido em que Deus as disse: “e as mesmas palavras, que tomadas em sentido verdadeiro são palavras de Deus, tomas em sentido alheio, são armas do Diabo.”[2] Outra percepção de Vieira muito interessante é a da tentação no pináculo do templo: “Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-no templo: no deserto tentou-o com a gula, no monte tentou-o com a ambição, no templo tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.”[3]

            Eugene Peterson[4], citando Evagrius Ponticus, faz a diferença entre o Logos e os logismos. O Logos é a Palavra de Deus, que muito mais que conceitual é pessoal e relacional, é o Cristo de Deus. Os logismos são pensamentos que se interpõe ao Logos. Os logismo são as palavras sobre o Logos. A crise dos logismos está em quando eles perdem de vista o Logos, tornando-se um desvio de Deus, ou mesmo uma oposição a Deus. É o racionalismo. Eugene Peterson completa: “O objetivo, o bem maior da criatura humana, é que o conhecimento sobre Deus e a oração a Deus convirjam. Conhecimento de Deus que não leva ou não se transforma em oração a Deus é, na análise de Evagrius, demoníaco, é uma espiritualidade divorciada da obediência a Deus.”[5] 

O RACIONALISMO É INCUBADOR DA INDIFERENÇA A DEUS – O nome disso não é ateísmo?! 

            Dostoieviski percebe com maestria essa verdade no seu romance O Idiota. O protagonista do romance é o príncipe Michkin, um homem estranho ao seu tempo. Enquanto todos amam o jogo das aparências da sociedade russa, disputam com ganância o acesso às castas superiores, desprezam os pobres e doentes, Michkin, mesmo com uma herança que o fez inesperadamente rico, vive à parte de tudo isso. Seu olhar compassivo para os desprovidos, mas não apenas, também para os de caráter duvidoso e sua incapacidade de participar dos jogos de hipocrisia lhe tornam um estranho, um idiota, que dá nome ao romance. Além de ser também epiléptico e, por isso, visto como um doente à beira da loucura. Suas melhores percepções surgem à beira dos surtos. Prestes a ter um acesso de epilepsia, o príncipe dispara suas indignações contra o cristianismo católico do ocidente, e nas palavras da personagem, Dostoieviski, fala desse cristianismo que cria o ateísmo. Vejamos:“A meu ver, o Catolicismo romano não é nem uma fé mas, terminantemente, uma continuação do Império Romano do Ocidente, e nele tudo está subordinado a esse pensamento, a começar pela fé. O Papa apoderou-se da Terra, do trono terrestre e pegou a espada; desde então não tem feito outra coisa, só que à espada acrescentou a mentira, a esperteza, o embuste, o fanatismo, a superstição, o crime, brincou com os próprios santos, com os sentimentos verdadeiros, simples e fervorosos do povo, trocou tudo, tudo por dinheiro, pelo vil poder terrestre. Isso não é uma doutrina anticristã?! Como o ateísmo não iria descender deles? O ateísmo derivou deles, do próprio Catolicismo romano! Antes de mais nada o ateísmo começou deles mesmos; poderiam eles crer em si mesmos? Ele se fortaleceu a partir da repulsa a eles; ele é produto da mentira e da impotência espiritual! Ateísmo!(…)Não só à teologia, eu lhe asseguro, lhe asseguro que não! Isto nos afeta muito mais de perto do que o senhor imagina.(…) Porque até o socialismo é criação do Catolicismo e da essência católica! Ele, como seu irmão ateísmo, também foi gerado pelo desespero, em contraposição ao Catolicismo no sentido moral, para substituir o poder moral perdido da religião, para saciar a sede espiritual da humanidade sequiosa e salvá-la não por intermédio de Cristo, mas igualmente da violência.”[6]

            O Dr. James Houston, em uma palestra proferida em 09/09/2003, no Centro Mariápolis em Vargem Grande – SP, afirma que o ateísmo é parasita do racionalismo teológico.

            Não por acaso os seminários teológicos ganharam fama de cemitérios de crentes. Nossos jovens, outrora ardorosos por Deus e pelo ministério, dentro do Seminário, lugar de muitas palavras – lugar de pensar, questionar e pesquisar sobre Deus – tornam-se distantes da comunhão simples dos irmãos, céticos diante de verdades espirituais, mas o que é pior, completamente alheios à vida de oração e meditação na Palavra. Fui ao seminário debaixo das justas admoestações de amigos sobre os perigos de “muito estudar”. No seminário, constatei que os perigos eram reais. Descobri na própria pele a perda de interesse pela vida de oração, coincidente com o encantamento pelos logismos. Somados à tentação dispersiva das palavras sobre Deus, minha adolescência em busca de auto-afirmação, uma estrutura de seminário anacrônica, professores inteligentíssimos, mas frustradíssimos com a vida da igreja foi o suficiente para encomendar o funeral da minha fé e vocação. Saí do seminário com algumas caixas de livros, uma cabeça hipertrofiada e completamente distraída de Deus. Maravilhosa foi a maneira como o Espírito seduziu-me de volta. De retorno à igreja, uma tarefa imediatamente foi-me dada para compensar os investimentos da igreja no meu seminário: integração de novos convertidos. Que perigo! O que, no entanto, poderia ser mais propício para resgatar a atenção no Logos que homens e mulheres ainda sem os logismos e apaixonados pelo Logos. O ambiente fervoroso dos novos convertidos, a necessidade de traduzir com simplicidade e praticidade as verdades centrais da fé foram as insinuações do Espírito de Deus para trazer-me de volta. Os novos convertidos foram expressões de beleza, a estética do divino, para o meu despertamento.

Se pensarmos melhor, o perigo de refletir é idêntico ao de não refletir. O que nos leva a perceber que a coincidência entre os dois perigos somos nós. Isto significa que o perigo são os ardis de nossa interioridade confusa, intimidade com o pecado, de nosso egoísmo que ama vestir fantasias e permanecer no controle.

            Paulo nos ensina o caminho para não sermos distraídos do Logos pelos logismos (Fl 3.7-11): “Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos.”  

A vida no Espírito não é uma irracionalidade, disso já falamos, mas uma racionalidade espiritual. Porque não é um exercício de domínio intelectual, mas uma contemplação de Deus, uma percepção dos vestígios da verdade que dele emanam. Eugene Peterson propõe a “exegese contemplativa”[7], uma busca nas Escrituras por encontrar-se sempre com a pessoa de Deus. É também de Peterson a sugestão para transformar olhos em ouvidos, porque investigar a Palavra é ouvir o Logos, o próprio Deus. É pessoal e simpático. É desistir do olhar letrista para as Escrituras. Ressensibilizar os ouvidos, coisa de amante, amigo. O ouvir poético, uma espiritualidade estética.


[1] VIEIRA, Antonio. Sermões. Organização de Alcir Pécora. Hedra. Pág. 47.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] PETERSON, Eugene. De Volta à Fonte. Encontro Publicações. Pág. 48.

[5] Idem. Pág. 49.

[6] DOSTOIÉSVISKI, Fiódor. O Idiota. Editora 34, 2002. P. 606-7. O grifo é meu.

[7] PETERSON, Eugene. O Pastor Segundo o Coração de Deus.  Editora Textus, RJ. Pág. 99.

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