Afinal de contas, do que estamos falando? Quando participo de conversas, com poucos ou muitos, e sou ‘condenado’ por falar coisas às quais jamais fiz referência: ‘quer dizer que agora temos que jogar fora tudo o que aprendemos desde o início? E tudo o que aprendemos de todos os pastores da nossa igreja?’ ‘Quer dizer que Deus não é mais onisciente?’ ‘Não podemos mais orar?’ ‘Deus é como qualquer homem, não pode conhecer todas as coisas?’ E outras generalizações desse tipo. A impressão que me resta é que os ‘corredores da futrica’ estão sendo mais freqüentados que as salas de conversa e, até mesmo, que os templos onde pregamos. Sinto uma igreja mais pastoreada nos ‘corredores da futrica’ que nas conversas e sermões de seus pastores. O que se fala nos corredores convence mais que o que se prega no púlpito. Meu pedido é, por favor, se sua crise é gerada por zelo, desista das (des)informações dos corredores. Ouça-me uma vez mais.

 

Não estamos jogando fora uma teologia e trazendo outra para o seu lugar. Nosso esforço é por aprofundar antigas verdades, por terminar a obra que começamos. Às vezes, para se terminar uma construção se paga um preço mais caro que o imaginado no início do projeto. Às vezes, é mais difícil e exige mais firmeza e coragem concluir um edifício que começá-lo. Acredito que é o que está acontecendo neste momento em nossa Betesda.

 

Não estamos desistindo de uma teologia, estamos avançando no projeto. Nossa teologia sempre se caracterizou por alguns compromissos, sentimentos e percepções que fundaram a Betesda, permitam-me sugerir alguns:

 

1.      Acreditamos que o único Evangelho verdadeiro é o da Graça, nada do que recebemos de Deus é do tamanho de nossos méritos. Deus não nos deu porque merecemos, mas porque nos amou gratuitamente (Ef 2.5-10; Gl 3.3-5). Por isso não conseguimos acreditar em qualquer benção que seja conquistada por tamanho de fé, ou quantidade de oração. Afirmar que Deus abençoou porque se orou muito, ou com força, ou se acreditou mais é negar a Graça de Deus. É chamar Deus de débil em seu amor e misericórdia, ao ponto de precisar de nosso empurrãozinho devocional para amar melhor! O que é inaceitável.

Nenhuma benção vem de sacrifício e esforço humano, logo, corrente de oração ou campanhas que sugerem cumprir um rito de sacrifício para se conseguir uma benção é viver outro evangelho que não o da graça.

Pensando assim, oração não é uma forma de conseguir coisas, mas uma disciplina espiritual que busca intimidade, santidade, confissão, verdade, a glória de Cristo e não a realização de meus desejos, mas dos desejos de Deus.

 

2.      Denunciamos qualquer expressão de espiritualidade em nossa prática que produza engano. (Gl 1.6-7) Abominamos qualquer esperança que se baseie na ilusão. A fé não ilude, não coloca vendas. Antes, acorda, abre os olhos para a verdade (2Tm 4.2-4). O evangelho é luz que revela a verdade e não uma maquiagem na realidade da vida. Negamos qualquer fé que se comporte como uma barganha com Deus (1Tm 6.3-6). Razão porque cedo denunciamos a teologia da prosperidade e os chamados movimentos da fé. Por essas denúncias já fomos chamados de pouco espirituais, ou mesmo incrédulos. Já fomos acusados de tirar a esperança das pessoas. No entanto, o que cremos é que a verdadeira esperança nunca ilude, nunca cria falsas expectativas.

Só há uma esperança que vale a pena, a que não engana com fantasias. A esperança do cristão não é a de uma vida facilitada e intocável, mas da presença incondicional do Pai que nos sustenta em seu amor. Aconteça o que acontecer, ouviremos a voz do Amado: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.  Diante do que, cada um de nós poderá sempre responder: Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.”

3.      Acreditamos que a única forma de nossa relação com Deus ser de verdadeiro amor é termos sido criados com verdadeiro livre-arbítrio. Qualquer coação, determinismo, predestinação implica em negação da liberdade humana, tanto quanto, de um possível amor genuíno a Deus. Servimos a Deus porque o amamos e não porque fomos obrigados a isso. Por isso sempre afirmamos que o ditado popular ‘quem não vem pelo amor vem pela dor’ é uma inverdade. A Bíblia diz que Deus rejeita qualquer fé que não seja por amor verdadeiro. E amor verdadeiro é sempre livre, espontâneo e decidido. “Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1Jo 4.16-19)

 

4.      Recusamo-nos a buscar a Deus, ao próximo, ou mesmo, a viver em caixinhas conceituais. Deus não cabe em nossas tradições, em nossos conceitos, em nossa cultura, ou qualquer construção humana. Deus transcende a tudo e a todos. Por isso, nos primeiros anos de Betesda, fizemos ouvido de mercador para as acusações de que éramos a igreja do evangelho fácil, das inovações perigosas, dos mundanismos, porque usávamos retroprojetor nos cultos, nossas mulheres vestiam calças compridas, brincos e se maquiavam, nossa música era contemporânea e executada com quaisquer instrumentos disponíveis. Porque íamos ao cinema, teatro e ouvíamos música secular. Curiosamente, fomos um escândalo por essas coisas que agora são tão banais. Acredite! Essas coisas eram muito escandalosas e consideradas gravíssimas! Mas Deus usou a coragem da Betesda para libertar muitos irmãos do legalismo perverso.

 

5.       Sempre acreditamos que a igreja já é a resposta de Deus ao clamor humano por justiça. O Reino de Deus não pode ser buscado sem a sua justiça. Não por acaso nossos empreendimentos sociais sempre acompanharam nossa evangelização. Sempre acreditamos que justiça social se faz com ação social e não com campanha de oração ou jejum. Que o faminto é saciado com pão e não com promessas covardes e irresponsáveis de um possível milagre. Curiosamente, as cidades e estados brasileiros onde algumas igrejas que prometem maravilhas e prosperidade mais crescem é justamente onde mais se alastra a miséria social. Na mesma proporção em que cresceram certos grupos religiosos brasileiros, cresceram a injustiça, a violência e a miséria. Caso típico e visível do Rio de Janeiro. “‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste?’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa,e em brigas de socos brutais.Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado,vestir o nu que você encontrou,e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada,e prontamente surgirá a sua cura;a sua retidão irá adiante de você,e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá;você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. “Se você eliminar do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar;se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfizer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, e a sua noite será como o meio-dia. O Senhor o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam.”(Is 58.3-11)

 

6.      Sempre nos recusamos a trocar as pessoas por programas ou razões teológicas. Mais importante que um programa ou organização são as pessoas que queremos amar e nelas promover o caráter de Cristo. Mais importante que manter um dogma, ou sustentar uma ortodoxia é acolher as pessoas em seus dramas pessoais. Nossa teologia procurou sempre ser uma resposta bíblica às verdadeiras questões da vida humana. Não defendemos conceitos, defendemos a dignidade humana devolvida pelo sacrifício de Cristo na cruz. Uma doutrina que não se sustenta na vida, que destrói, que afasta de Deus, que camufla fatos ruins não serve à vida e nem ao Reino de Deus. Não estamos preocupados em defender um conceito sobre Deus que, na vida comum, destoa da prática. Um amigo meu, pastor agora, reencontrou uma amiga da família de longa data, que logo lhe lembrou do pai, já falecido. Inevitavelmente fez referência à perda e emendou para consolar: – ‘Deus levou seu pai, mas teve um bom propósito para isso!’ Meu amigo, agradeceu com um sorriso amarelo. Passou pela sua cabeça todos os transtornos que enfrentou na vida. As dores que ainda carrega, suas fraquezas e medos. Pensou: que propósito é esse que Deus teve? Matou meu pai para me ensinar alguma coisa?

Não podemos lutar por conceitos que matam as pessoas e que nada produzem que faça sentido na vida comum.

Teologia na Betesda não se faz a partir de conceitos, mas a partir das pessoas. Nossa teologia tem que ser pastoral antes de ser conceitual. É dos dilemas e tragédias das pessoas pastoreadas por nós que buscamos respostas em Deus.

 

7.      Não cremos em um Deus que faz acepção de pessoas ou mesmo se reduz à experiência de um apenas. Se Deus fez ontem, ele pode fazer hoje. Se Deus fez com o americano, faz também com o africano. Se agiu no desabamento de uma casa, agiu também no Tsunami. Não podemos acreditar que no mesmo instante que o garoto João Hélio, tragicamente assassinado no Rio de Janeiro, filho de um crente a caminho de uma programação evangelística, foi vítima da violência e, do outro lado do Brasil, alguém divulgue que porque é fiel a Deus no dízimo e nunca sai de casa sem orar, Deus o livrou de um assalto. Esse não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é o que não faz acepção de pessoas. Ama a todos igualmente. Abençoa a todos igualmente.

 

Por essas razões, temos pregado uma mensagem que inspire as pessoas a levarem a sério sua liberdade (Tg 2.12-13). A não se esconderem por trás de desculpas ou ritos.

 

Não cremos em um Deus que escolhe alguns para a salvação e outros para o condenação. Cremos em um Deus que a todos ama e a todos quer salvar. Por isso afirmamos que não podemos crer em um futuro que já esteja pronto. E que afirmar que Deus conhece o futuro é o mesmo que afirmar que já está pronto. O que anula nossa liberdade e faz de Deus mentiroso, já que na verdade ele se relaciona conosco num tipo de ‘faz-de-conta’, em que ele já sabe o fim da história, mas finge que não. Deus conhece tudo. Mas o futuro não existe, por isso não pode ser conhecido, porque não há nada para conhecer.

 

Não acreditamos em uma espiritualidade preventiva. Do tipo ‘se eu fizer tudo certinho nenhum mal me atingirá!’ A Bíblia não promete uma humanidade isenta de acidentes, dores, injustiças, doenças e transtornos pertencentes a um mundo desajustado e inseguro como o nosso. Se Jesus veio entre nós e enfrentou todas as nossas dores, por que nós seríamos maiores que ele para sermos exceções? Se ele aceitou não fugir das horas mais difíceis, por que nós acreditamos que nossa oração nos poupará delas? E lhes disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem”. Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”.”(Mc 14.34-36)

 

Nosso momento é o de levarmos às últimas conseqüências o evangelho da graça e não do esforço humano. Da liberdade e não do determinismo arbitrário. Do Reino do amor e não do Reino dos privilegiados. Da cruz e não o das facilidades. Da verdade e não o da ilusão. Nossa pregação está apenas indo a fundo na graça, no amor e na verdade.

 

Há muito o que conversar. Não há pressa, o que há é a decisão de não deixar para depois.

 

Um abração,

 

Elienai

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