Os capítulos 14 a 16 do evangelho joanino nos apresentam a uma realidade pouco explorada em suas implicações eclesiológicas. Tratamos das verdades do texto apenas no que concerne imediatamente à missão da terceira pessoa da trindade, o Espírito Santo. Raciocínio típico da sistematização teológica, que tem uma enorme dificuldade de flexionar os princípios em suas conseqüências. Mas os sentidos do texto repercutem em todas as manifestações da vida redimida. Trata-se do ambiente, da mentalidade, dos modos de construção do Reino de Deus. A indicação de Cristo é de um tempo que sucederá o seu. Um tempo de continuação do que ele iniciou. Um tempo marcado por uma outra presença distinta da sua.

(Jo 14.12-17,25-26) Digo-lhes a verdade: Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai. E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho.O que vocês pedirem em meu nome, eu farei. (Jesus Promete o Espírito Santo) “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês. Tudo isso lhes tenho dito enquanto ainda estou com vocês. Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse. 

(Jo 17.5-7,12-13) “Agora que vou para aquele que me enviou, nenhum de vocês me pergunta: ‘Para onde vais?’ Porque falei estas coisas, o coração de vocês encheu-se de tristeza. “Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei.” “Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. “Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir.”

 Jesus afirma uma outra presença necessária tendo em vista a mudança de sua corporeidade: o corpo enfraquecido e aniquilado na morte será transformado em um corpo novo, glorificado e triunfante sobre a morte. Jesus conversa com os seus discípulos sobre sua partida prevista e necessária ao desenvolvimento do Reino de Deus. Ao terminar o que veio fazer, morrer e ressuscitar, não estará mais fisicamente entre os seus discípulos. O que muito nos intriga! Justamente na hora mais oportuna à permanência, Jesus escolhe partir! Depois de incorporar o maior milagre de todos os tempos, a ressurreição. Na hora da virada. Na volta olímpica Jesus abandona os holofotes. Nossa inquietação com a orientação do Reino de Deus já indica o quanto nossa mentalidade pastoral é influenciada pela prática de poder. Qualquer um de nós esperaria uma super exibição do Cristo ressurreto. Jesus nega esta lógica. A negação desta lógica é a essência do Reino e a natureza desta Outra Presença, o Outro Conselheiro, o Paracleto. A negação desta lógica é a recusa divina do exercício de poder e sua escolha precípua do exercício do amor.

Para insistir na inquietação. Depois de tudo pelo que Jesus passará, da terrível aparência de fraqueza e derrota na cruz. Depois de ser abandonado por todos. Com um corpo ressurreto, inquestionavelmente poderoso. Com a prova incontestável da verdade que veio proclamar. Jesus, simplesmente, vai embora e deixa todo esse material propagandista de fora! Na hora que nós entendemos que Jesus deveria mais aparecer, promover mais visibilidade, é a hora que ele menos aparece. Cristo se esconde na meta-história quando deveria se publicar historicamente. A vingança do Cristo outrora enfraquecido é a lógica já abandonada por Deus com a qual tratamos nossos eventos! No entanto, depois de ressurreto, Jesus aparece apenas a alguns, confirma-lhes a vocação e vai embora! Deus escolhe a ausência de quaisquer visibilidades de poder.

Aqui, Jesus revela aos discípulos que ele partirá com o seu corpo glorioso para que venha O Sopro Santo da parte do Pai. O corpo do milagre partirá para que um ser-sem-corpo, descrito como vento de Deus, o substitua. Mais intrigante ainda: Jesus diz que é melhor para nós que isto aconteça. Em outras palavras, há uma dimensão da vida espiritual que é superior a esta que vocês estão vivendo comigo e que poderiam viver depois de minha ressurreição caso eu permanecesse com vocês, em que a presença discreta de Deus é fundamental: o Espírito Santo. O parácleto, o outro conselheiro. “Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai.”(Jo 14.12b.) -“Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei.” (Jo 16.7)

A pergunta é óbvia, por que Deus tendo um material tão forte, eu diria violentamente forte, de um Cristo ressurreto inquestionável e imponente, abre mão? Por que Deus escolhe uma presença tão discreta como a do Espírito, sem corpo, sem visibilidade, para promover a nossa comunhão? Por que Deus desiste da imponência inquestionável da ressurreição para promover seu Reino e opta pela presença invisível e questionável do Espírito? Invisível, porque sendo Espírito tem por vocação não falar de si mesmo. Questionável, porque sendo o convencimento sua tarefa, a rejeição é sua contrapartida.

A Bíblia nos fala da grande epifania(manifestação) de Cristo(1Ts 4.13-18). Uma conclusão da tarefa redentora, o Dia de Cristo, em que Jesus, com corpo ressurreto e incontestável, com uma visibilidade triunfante e debeladora de quaisquer anticristianismos, se imporá ao mundo. Será um Cristo irresistível e inquestionável. “Todo olho o verá”(Ap 1.7) e “toda língua confessará que Jesus é o Senhor” (Fp 2.9-11) são descrições de um tempo em que o diálogo e a discrição cessarão. Mas o tempo da igreja, o nosso tempo, é marcado pela vida no Espírito. Neste nosso tempo, inaugurado pelo envio do Parácleto, tempo pós-ressurreição de Cristo, a ação de Deus é delicada e invisível. Persuasiva e “esperançosa”. Deus, em seu Espírito, procura nos persuadir na esperança de que o amemos de fato, livremente.

Por que uma presença discreta de quem se põe ao lado e não a presença cheia de visibilidade e imponência do Cristo ressurreto? (“é bom que eu vá para que o Pai envie o Outro”) Por que tanta discrição se Deus pode gritar? Por que tanta delicadeza se Deus pode impor? Deus poderia fazer da presença forte de Jesus, ressurreto, um argumento final diante do qual todos se calariam. Mas Deus escolheu a delicadeza da amizade. Preferiu o sussurro do Espírito.

A única relação que Deus deseja conosco é a do amor. Deus não quer adeptos, Deus quer amigos:

 “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também amarei e me revelarei a ele”.” (Jo 14.21)

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido. (Jo 15.13-15)

“Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. “No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.” Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 Jo 4.15-19)

 A experiência de Elias no Antigo Testamento é uma manifestação desta escolha graciosa de Deus diante do fracasso de ter amigos fiéis pela oponência de poder. Profeta de Deus que em um primeiro instante desenvolve seu ministério a partir do desafio e da imponência. Desafia todos os profetas de Baal e a indecisão de quem deveria estar do seu lado, seu povo. O desafio é radical, o verdadeiro Deus é o que responde com fogo. Baal não responde e humilha seus profetas. Deus responde com fogo e exalta o discurso de Elias. Depois de tudo isso o que muda na vida de Israel? Nada. A imponência do milagre, o poder manifesto de Deus fracassa em mudar a alma confusa e instável dos israelitas. É o fracasso da visilibidade de Deus. Jezabel se levanta para destruir Elias. Ele entra em depressão. Depois de tanto fogo, foge e duvida de tudo e de Deus. O poder-fogo escamoteou um solipsista adoecido, alguém que estranha a comunhão dos fiéis e a presença graciosa de Deus. Na montanha, é chamado por Deus para sair da caverna de sua solidão suicida e encontrar-se com “um outro Deus”. Vem o fogo e Deus não está no fogo. Vem um vento forte e Deus também não está lá. Vem um terremoto, idem. Um assovio suave (imagino que depois de tanto barulho Elias ouve com dificuldade) é que revela Deus e o recoloca no caminho da vida. A brisa suave que soprou e revelou Deus para Elias, em contrapartida às imagens violentas do terremoto, do fogo e do vento forte, devolveu ao solitário e recém herói frustrado o caminho da relacionalidade: são 7.000 que não dobraram os joelhos, há uma unção sobre outros três. A brisa suave oferecida por Deus é a ambiência de ternura, fragilidade, discrição, sutileza, de humanidade em que Elias continuaria no exercício profético.

A natureza do outro Reino anunciado por Jesus, o Reino de Deus, é nos evangelhos também a indicação da escolha graciosa de Deus em detrimento da escolha autoritativa. Há, com clareza, uma relação importante entre a natureza do Reino de Deus, tal como anunciado por Cristo, como um Reino de invisibilidade, um Reino cuja virtude está na dimensão invisível e a ação do Espírito, discreta, interna e invisível. Um Reino que se perde ao se aproximar das estruturas de visibilidade é catalisado na interioridade das vidas que o acolhem. Este Reino só pode ser promovido por uma presença discreta e delicada.

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Lc 17.20-21)

 Perguntado por Nicodemos, que exigia mais dados concretos sobre o Reino, Jesus dimensiou a vida no Reino de Deus:

“Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”. (Jo 3.7-8)

 O mais importante presente deixado por Jesus depois de sua ressurreição e ascensão, não foi uma estrutura visível e imponente, mas a presença invisível e discreta do Espírito Santo. Não poderia ser outro a dar o sentido deste Reino de Invisibilidade senão o Espírito, pneuma: o vento. Sopro de Deus. Parakléto, aquele que não se coloca à frente, ou mesmo, acima de outro, mas ao lado, como ajudador. Um companheiro que não trabalha por sua visibilidade, mas cujo poder está exatamente em sua discrição. A delicadeza é a única via de realização da vida cristã. Este é o modus operandi do Espírito.

         Precisamos pensar a presença do Espírito Santo na legitimação e promoção do Reino de Deus não só como o mordomo-mor, aquele que organiza e distribui dons (Hb 2.4), ou mesmo aquele que capacita, ambas tarefas amplamente apresentadas pelo texto bíblico. Mas devemos também pensar em sua presença como ambientadora da vida cristã. Modeladora. A vida em Cristo é uma vida inspirada pelo Espírito. O Espírito Santo é o que dá a ambiência da vida cristã. O Espírito é aquele dá o sentido da vida em Cristo.

(Continue a leitura deste artigo.) “O OUTRO CONSOLADOR” PARA UM OUTRO TRABALHO PASTORAL

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