O novo desconcerta. E a novidade radical do mundo moderno desconcertou  o pensamento religioso de tal forma que existem poucas comparações na história: a secularização e o ateísmo são os sinais mais evidentes de uma crise que afetou tudo.

Entretanto, se é verdade que o novo desconcerta, normalmente traz também a possibilidade de invocação. As mudanças profundas não são uma resposta ao capricho de uns poucos, mas a uma necessidade do tempo. E isso significa que, por debaixo delas, há forças que trabalham a história, tratando de reorganizá-la de uma forma nova, mais adequada ao estado atual da humanidade. Essa reorganização, quando afeta o conjunto, constitui uma “mudança de paradigma”.

Não se trata, portanto, de modificações localizadas ou de reajustes em apenas alguns elementos: mexe-se e se reestrutura a própria totalidade, em busca de uma nova compreensão global. Essa mudança não tem por que anular o passado; o que se exige é compreendê-lo e vivê-lo de outra maneira. Especialmente no caso de experiências profundas que afetam as raízes permanentes do humano: justamente por não serem uma pedra fossilizada na corrente da vida, mas seu alimento permanente, exigem retraduzir-se nas novas circunstâncias. Tratando-se da fé, isso é óbvio.

A tentação, porém, já se sabe, é quase sempre a da inércia e da acomodação: resistir à mudança ou tentar defender-se dela com meros arranjos que não vão à raiz. Isso ocorre também no âmbito científico, como o demonstrou Thomas S. Kuhn, onde, por sua maior “positividade asséptica”, não seria de esperar. E se torna praticamente inevitável no terreno comprometido do religioso. Os tradicionalismos, fideísmos e fundamentalismos são a reação extrema, e por isso mesmo mais visível e fácil de superar. Mais sutil e conseqüentemente menos perceptível é a simples acomodação que, “lampedusianamente”, muda algo para que tudo permaneça como está.

Creio que esse representa hoje o grande perigo do cristianismo nesse nível. Não por malícia ou estratégia, mas por mero instinto defensivo e pelo próprio peso da dificuldade. Compreendeu-se a necessidade de renovação, mas ela é feita pela metade: aceita-se em princípio a crítica bíblica, mas depois se fazem leituras fundamentalistas (caso do Novo Catecismo); aceita-se a necessidade de reformar a Igreja, mas depois se reforça o seu juridicismo centralista (caso do Novo Código). Em relação a nosso problema específico: aceita-se a existência de uma mudança radical na concepção da revelação, mas continuam-se mantendo os antigos esquemas de fundo.

Se esse é o perigo, convém olhá-lo de frente. Porque, ademais, a fé bíblica está especialmente preparada para tanto, pois se caracteriza justamente por uma historicidade radical (a ponto de ter sido ela que introduziu, de modo decisivo, a idéia de história na cultura, rompendo o prestígio da concepção circular com seu eterno retorno: Nietzsche sabia-o muito bem). Por outro lado, exemplos como o da teologia da libertação mostram que, quando uma iniciativa dessas é levada a efeito com plena conseqüência, surgem problemas, é evidente, mas se alcança aquilo que é decisivo: a presença, no mundo, de uma fé viva, atual e operante.

(QUEIRUGA, Andrés Torrez. Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus. Editora Paulinas. São Paulo, SP. 2001. Pág. 29-30.)

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