O evento da salvação (a vinda de Jesus) é ele próprio, intimamente, um fato hermenêutico. Todavia, pode-se dizer que ele é hermenêutico somente até certo ponto: é verdade que Jesus é a interpretação viva do sentido da lei e dos profetas (eis aqui outro significado do logos que se fez carne: se encarna o logos, o sentido, do Antigo Testamento…), mas, de certa forma, também é o seu cumprimento e, portanto, parece se apresentar, muito mais, como a sua definitiva decifração – como se, depois, não houvesse mais espaço e nem necessidade de interpretação. Entretanto, muito embora a salvação esteja essencialmente “completada” com a encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus, ela ainda espera uma complementação ulterior (bastaria que pensássemos, aqui, em todos os acontecimentos da chamada escatologia conseqüente), e o Paracleto, o espírito de verdade que é enviado aos fiéis em Pentecostes, tem exatamente por tarefa assisti-los nesta ulterior empresa hermenêutica. É preciso não esquecermos que o Espírito (que também é aquele que vivifica o texto, o sentido verdadeiro da “letra”), ou seja, a pessoa mais deliciosamente hermenêutica da Trindade – ela própria estrutura hermenêutica por excelência, pois, de fato, nela o Filho é o logos do Pai e o Espírito é a sua relação, a hipóstase do seu amor/compreensão – é também aquele por obra do qual o Filho se faz homem no ventre de Maria. (VATTIMO, Gianni. Depois da Cristandade. Editora Record, pág. 78.)

Anúncios