Em uma data comemorativa o que mais importa é o que está escondido. Por trás dos sorrisos, dos aplausos, das danças e da decoração pulsa o que realmente vivifica um projeto. A verdade que perturba ou acalma freqüenta os corredores de uma igreja em festa.

            Somos prontos para responder a pergunta pelos nossos motivos de alegria. Mas o que primeiro vem à boca geralmente são aqueles que nada dizem. Frases ocas que apenas reproduzem jargões insossos: “O Senhor nos abençoou!” Ou: “Nossos ministérios são produtivos.” Ou: “Construímos…Inauguramos…Crescemos…Compramos…Fizemos!” E toda essa espuma colorida e cintilante se dispersa nas primeiras horas do dia seguinte. Basta a rotina para percebermos que faltaram razões consistentes para tanta euforia.

            Se quisermos encontrar os motivos que ecoarão com força, as razões para gostarmos de quem somos, teremos que ouvir o coração. O que se diz com pouco barulho e muita sensibilidade é o que está mais próximo da verdade. A Betesda tem muitos e bons números há bastante tempo. Vinte e sete anos de empolgada evangelização nos renderam muitas conquistas. Uma lista de realizações é tão fácil quanto inútil. Até porque, a esta altura, também temos uma lista fácil do que não deu certo, de nossas perdas e amarguras.

            Melhor que as tolas listas é o que abrigamos na alma. Não o que somos, mas quem somos. Por que nos alegrar? Entre conquistas e perdas? Entre alegrias e tristezas? Entre avanços e recuos? Entre acertos e enganos? Porque não somos feitos de edifícios. Nem de estruturas. Nem de números. Nem de propaganda. Somos feitos de gente.

            Nossas ambigüidades não nos desmerecem. Nossa incompletude não nos invalida. Nossa fragilidade não nos esvazia. Nossa transparência não nos envergonha. Somos feitos da mesma matéria que Deus escolheu para fazer a si mesmo quando realizou sua melhor idéia, quando mais amou: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.”(Jo 1.14) A idéia de Deus foi desmistificar a si mesmo fazendo-se gente. Fez-nos gente. Fez-se gente.

            Deus não habita em estruturas. Habita em gente (1Co 3.16). Deus não ama construções. Ama gente. Deus não busca templos. Busca adoradores (Jo 4.20-24). Deus não nos pergunta pelo nosso desempenho. Pergunta pelo nosso irmão (Gn 4.9). Deus não quer que o amemos. Quer que o amemos enquanto amamos nosso irmão (1Jo 4.7-12). Não temos um currículo a ser apresentado para Deus. Temos um nome escrito no céu (Lc 10.20). Nada sabemos de Deus mais intenso e digno de confiança que de Jesus, feito gente, foi revelado. Sendo gente, Deus mostrou exatamente quem era: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Cl 2.9)

            O único movimento digno de festa em nome de Jesus é o que repete sua humanidade (Fl 2.5-8). Nela, Deus experimentou nossas alegrias e tristezas, nossa ansiedade e prazeres, nosso vinho e dissabores, nosso pão e nossa fome, nossa vida e nossa morte. Seu poder e exaltação foram sua fragilidade e humilhação. Essa é nossa vocação. Essa é a idéia de Deus. Isso é ser gente.

            Coloquei minha cabeça no travesseiro com uma pergunta que não me deixava dormir. O que realmente festejar na Betesda? Pensei com o olhar fixo no teto: porque nela, eu, minha família e meus amigos podemos viver nossa humanidade e isso não ser demérito. Ao contrário, é salvação e plenitude de Deus entre nós. Porque somos feitos de gente. Então dormi um sono feliz.

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