“O padre Antunes sentia medo em regressar ao velho assunto. Agora, a meio caminho entre a Índia e África, ele perdia certezas como um corpo perde o pé nas fundas águas. O sacerdote espreitou por entre as colunas do chapitéu, perscrutou o horizonte e perguntou:

– Sabe, D.Gonçalo, o que levamos no porão das naus?

– Sei, são mercadorias.

– Nada disso, D. Gonçalo. Nós carregamos é o Diabo.

– Cruz credo, padre Antunes. Tenha tento nas palavras.

– É isso mesmo. É assim que fazemos nas conquistas: primeiro, segue o Diabo; só mais tarde é que enviamos Deus.

– As suas palavras são pecaminosas, meu filho.

– Desça lá baixo e veja com seus olhos,”

 (O Outro Pé da Sereia, Mia Couto)

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