Mia Couto foi a melhor leitura que já fiz. O romance fantástico “O Outro Pé da Sereia” é contado em dois tempos. No século XVI e XXI. O ambiente é o africano. As falas são repletas de lirismo e aforismos. Riso, choro, espanto, reflexão, prazer combinaram-se em uma leitura que me salvou na virado do ano. Somente agora reúno as citações que irresponsavelmente extraí do texto. Sei que as estrago um pouco, ou muito. Mas reparto essas sombras do que vivi com Mia Couto como quem divide luzes.

Citações de Mia Couto em O Outro Pé da Sereia

“só é olhado pelo céu quem olha para as estrelas.”

“Nascemos para ser escolhidos, vivemos para escolher.”

“ergueu os olhos para a noite como se nela procurasse chão.”

“Queria dormir, apagar o seu existir.”

“os enganosos astros são barcos onde navegam os que não souberam morrer.”

“Os outros rezavam a Deus. Ele rezava com Deus. Os outros rogavam ao Criador. Madzero conversava com Ele, fazendo dele as Suas palavras.”

“os feiticeiros trazem a chuva dos primórdios; os vapostori (protestantes) transportam o fogo do fim do mundo.”

“A mulher regressava à sua condição de esposa: retirou-se, convertendo-se em ausência. Lá fora, ela se dedicaria à sua mais antiga vocação: esperar.”

“- Cuidado, minha filha. Muita cautela: quem não vê os seus sonhos é porque está sonhando aquilo que está vendo.”

“De que valia dormir se ela não adormecia os sonhos?”

“Tens medo de morrer?

– Não é morrer que me dói. O que me dá tristeza é ficar morto.”

“Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter destino.”

“A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores.”

“- Porquê, Zero Madzero, por que é que eu recordo tanto?

O Marido não sabia responder. Era por isso que ela lhe perguntava: por não temer a resposta. No íntimo de si, Mwadia sabia: quem se lembra tanto de tudo é porque não espera mais nada da vida.”

“A saudade é a única dor que me faz esquecer as outras dores.”

“Não há pior cegueira que a de não ver o tempo.

E nós já não temos lembrança

senão daquilo que os outros nos fazem recordar.

Quem hoje passeia a nossa memória

pela mão são exatamente aqueles que, ontem,

nos conduziram à cegueira.”

“Salvar é uma grande palavra. E amor é uma palavra ainda maior. Grandes palavras escondem grandes enganos.”

“Cada mulher sente o sofrimento de todas as mulheres.”

“De todas as vezes que rezei não foi por devoção. Foi para me lembrar. Porque só rezando me chegavam as lembranças de quem eu fui.”

“Triste é viver num lugar onde dormir não difere de morrer.”

“O serviço dos dias é apenas este: trazer dias, levar dias. O Tempo existe para apagar o Tempo.”

“Mentir não passa de uma benevolência: revelar aquilo que os outros querem acreditar.”

“Ir para a África é longe. Para o Japão, mais longe ainda. Mas ir para padre, isso é seguir para além do mundo.”

“O padre Antunes sentia medo em regressar ao velho assunto. Agora, a meio caminho entre a Índia e África, ele perdia certezas como um corpo perde o pé nas fundas águas. O sacerdote espreitou por entre as colunas do chapitéu, perscrutou o horizonte e perguntou:

– Sabe, D.Gonçalo, o que levamos no porão das naus?

– Sei, são mercadorias.

– Nada disso, D. Gonçalo. Nós carregamos é o Diabo.

– Cruz credo, padre Antunes. Tenha tento nas palavras.

– É isso mesmo. É assim que fazemos nas conquistas: primeiro, segue o Diabo; só mais tarde é que enviamos Deus.

– As suas palavras são pecaminosas, meu filho.]

– Desça lá baixo e veja com seus olhos,”

“Primeiro, desejamos uma mulher que nos faça sentir a Vida. Depois, queremos uma mulher que nos faça esquecer a Vida. Por fim, queremos apenas estar vivos.”

“Esse é o destino da mulher pobre: ser a última a deitar-se e não dormir com medo de não ser a primeira a despertar.”

“Nascemos e choramos. A nossa língua materna não é a palavra. O choro é o nosso primeiro idioma.”

“- Veja, mãezita, escrevi esta cartinha para Deus.

– Não se escreve para Deus, minha filha.

– E porquê?

O pobre Deus, esplicava Dona Constança, sofria de vista cansada, exaurido pelos peditórios infinitos.

– A mãe pode ler?

– Não quero.

– Posso ler em voz alta?

Também não. Os pedidos verbais, fora da oficial oração, não têm validade legal. Ela que rezasse, como mandavam as escrituras.

E tudo se repetia, sempre igual, até que, certa vez, Constança puxou a menina pelos braços, convidando-a com gentileza a sentar-se no chão. Partiu um galho de arbusto e solicitou, apontando a areia:

– Escreva aí!

– Escrever o quê?

– Qualquer coisa, um nome, o seu, o meu, qualquer…

– A moça hesitou. Escrever no chão? A mãe, por fim, se explanou:

– É que eu só sei ler na areia.

Tinha sido ali, no pátio da velha casa, que ela havia recebido lições do abecê. A terra tinha sido o seu quadro-negro, o quintal tinha sido a sua escola. Mwadia sorriu, fingindo acreditar. A mãe insistiu.

– Escreva na terra, filha. A terra é a página onde Deus lê.”

“A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.”

“Sem esquecer não podemos ser humanos.” (Nietzsche)

“- Somos iguais aos outros (…). – Os outros é que não são iguais a nós.”

“Os outros passam a escrita a limpo,

Eu passo a escrita a sujo.

Como os rios que se lavam em encardidas águas.

Os outros têm caligrafia, eu tenho sotaque.

O sotaque da terra.”

(O Barbeiro de Vila Longe)

“As pedras não pediram filhos. É por isso que as pedras não morrem.” (Provérbio Nupe, da Nigéria, citado pelo padre Odilo Gil)

“O problema da solidão é que não temos ninguém a quem mentir.”

“Só tem viagens quem recebe adeuses.”

“Quando se inventam assim maldades sobre um povo, é para abençoar as maldades que se vão praticar sobre ele.” (252)

“No processo de ser escravo ele aprenderia a escravizar os outros.” (258)

“Só há um modo de enfrentar as más lembranças: é mudar radicalmente de viver, decepar raízes e fazer as pontes desabarem.” (260)

“Eu turvo a água para olhar a transparência da terra.” (266)

“Em terra de cego quem tem um olho vê menos que do que os que nada enxergam.” (267)

“A vida são fósforos, acendendo-se uns em outros que se apagam.” (278)

“Não é fácil sair da pobreza. Mais difícil, porém, é a pobreza sair de nós.” (284)

“Ele quase a si mesmo não se enxergava. (…) Ele era um cegocêntrico.” (291)

“- Venho pedir desculpa, disse ele.

– Desculpa porquê?

– Não fomos capazes de vos ajudar. O seu marido meteu-se pelos matos porque não lhe demos respostas. Mas nós não podíamos, não sabíamos…

– Deixe isso, agora não interessa mais.

Esse desconhecimento era mais do que uma ignorância: era uma estratégia de sobrevivência antiga, tão antiga que a memória não podia alcançar. Os antepassados de Vila Longe, todos esses que viveram junto ao rio, tinham sofrido da mesma doença. Também eles, perante a pergunta “quem são vocês”, responderiam: “nós não somos quem vocês procuram.” Tinha sido assim desde há séculos: eles eram sempre outros, mas nunca exatamente “aqueles” outros.” (295)

“No nosso caos estamos de pé. Na ordem deles, estaremos de joelhos.” (309)

“A gente ama alguém que desconhece, casa com quem conhece e vive com uma pessoa irreconhecível. Às vezes, temos luas-de-mel, outras vezes, luas melosas. A maior parte do tempo, porém, são noites sem luar nenhum.” (314)

“Olhos,

Vale te-los,

Se, de quando em quando,

Somos cegos

E o que vemos

Não é o que olhamos,

Mas o que o nosso olhar semeia no mais denso escuro

Vida

Vale vive-la

Se de quando em quando

Morremos

E o que vivemos

Não é o que a vida nos dá

Nem o que dela colhemos

Mas o que semeamos em pleno deserto.” (317)

“Não são os grandes traumas que fabricam as maldades. São, sim as miúdas arrelias do quotidiano, esse silencioso pilão que vai esmoendo a esperança, grão a grão.” (328)

“A viagem termina quando encerramos as fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar.” (329)

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