Um velho guarda-roupa.
Ricardo Gondim.
Meu guarda-roupa também foi um portal mágico. Era um móvel encantado, de duas portas estreitas, com um cabide de madeira e duas pequenas gavetas na parte de baixo.

A princípio, só servia para brincar. Depois, aprendi a enfurnar-me em suas entranhas para ficar só. Numa casa em que moram pais, tios e cinco irmãos, faltam lugares para desaparecer. Eu precisava de uma toca, um esconderijo secreto, sem luz, onde não escutasse barulho e ninguém me achasse.

Para sumir, engatinhava por baixo das camisas curtas, dava um leve puxão na porta e sumia. Um mundo maravilhoso se escancarava na minha frente. Nesse mundo, não havia leões, neve ou perigos. A única feiticeira que me visitava, apagava a claridade no meio da tarde para eu mergulhar em trevas profundas. O calor não me importava. Naquele breu, o relógio dava tréguas e eu experimentava o nada; o mesmo nada que povoa a eternidade. Não, não era uma ausência de morte, semelhante a um aniquilamento. Eu entrava no nada contemplativo, no denso vazio onde vivem os deuses.

Os guarda-roupas já não me cabem mais. Mas ainda careço de solitude. Procuro transformar a cama em cova profunda e não consigo. Imagino que a luz da alvorada me empurra até os confins do universo. Tento me convencer que hei de calçar as botas-sete-léguas, comprar um tapete mágico para alcançar o horizonte da eternidade. Inútil! Só o meu velho guarda-roupa tinha poder. Como voltar à barriga daquele grande peixe de madeira que me conduzia ao céu?

Adolescente, o velho guarda-roupa transformou-se em cofre. Por debaixo de suas gavetas, escondi as revistas proibidas que acendiam o vulcão do sexo. Derramei naquele armário muito amálgama erótico. E como lhe sou grato por manter-se discreto. No oculto absoluto de suas entranhas, calei a culpa insaciada de uma ressaca lasciva.

Por anos, os cabides do meu guarda-roupa foram poucos. Para não repetir camisas, eu precisava revezar com meu irmão. E o grande baú testemunhou como sofri com as minhas primeiras crises consumistas. Eu não podia namorar duas semanas seguidas com as mesmas calças, Renato Jorge e eu nos tornamos sócios. O calendário, entretanto, não coincidia sempre. Certa noite, tive que ir a uma festa e só restavam algumas camisas desbotadas. E a melhorzinha estava agendada para o Jorge. Tentei dissuadi-lo, mas não teve jeito. Brigamos. Aos gritos, empurrei meu irmão que, para apoiar-se, arrancou as dobradiças do nosso querido guarda-roupa. Ainda sofro por ter mutilado a minha primeira alcova com tanto egoísmo.

O meu guarda-roupa atual é embutido. Sem alma. Não passa de um depósito, onde armazeno indumentária. Ah, como sinto saudade do meu amigo de casca escura. Embora antigo e feio, nele guardei imagens e cheiros do Paraíso.

Soli Deo Gloria.

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