A transfiguração do conflito ocorre quando a serpente empunha e veste um adereço que nenhum personagem havia usado até este momento: a máscara do acusador. Dizendo “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão”, a serpente dá a entender, enquanto acena com essa bem-aventurança aparentemente sonegada, uma má vontade divina. Neste seu primeiro gesto está a raiz de todos os nomes associados à sua herança, particularmente “diabo”, que vem do grego diabolos – caluniador, acusador.

A vida torta que há na serpente é a acusação de um inocente, e o primeiro na Bíblia inteira a ser acusado por ela (isto é, o primeiro a ser acusado, e ponto final) é o próprio Deus. Não teria como ser diferente, porque Deus é o primeiro transgressor e portanto o primeiro a colocar a cara para bater (ou, como se diz na linguagem de Gênesis, o primeiro a conhecer o bem e o mal).

No entanto o homem compreenderá sem qualquer dificuldade a atração irresistível que há em imitar a ânsia litigiosa da serpente. Antes do fim desta mesma página, a fim de justificarem a trangressão, tanto Adão (”A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi”) quanto Eva (”A serpente enganou-me, e eu comi”) terão vestido e falado através da máscara da acusação.

Através desse recurso narrativa demonstra claramente aquilo articulado por Girard, que o diabo é menos um personagem do que um mecanismo: o mecanismo da acusação alimentada pela imitação. Todos que usam a máscara do acusador imitam a serpente e são seus filhos; esses tornam-se a serpente e são a serpente.

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