Depois dos últimos sinais, fiquei com a impressão de que minha maior ignorância, a mais grave distração, meu esquecimento mais freqüente é de mim.

Ignoro-me, esqueço-me e sigo em frente desprezando quanto custo. Quanto sou o que acabei me tornando. Minha dispersão é o coeficiente de quanto custa ser assim.

Sou perspicaz em descrever as pessoas a minha volta. Qualquer movimento alheio faz soar meus juízos e afetações. O que todos dizem ou ouvem de mim imprime uma memória quase infalível. Mas me dei conta de que tudo o que sei sobre mim sei de longe. Sei acanhado.

Os sinais que recebi poderiam ser mais discretos, mas sutileza apenas convence a face ignorante de minha dor. São ruidosos. Expuseram-me. Estamparam minha impotência. Sinais escatológicos devem ser indiscretos.

Dão-me bom dia as lágrimas. Um choro engasgado de tão profundo e distante. De lá de onde um dia espero ser resgatado.

Choro sem decisão, aos poucos. Espero pelas dez, ou onze. Sempre passa, silencia e me adia. Minha angústia disfarçada pelos cantos é ávida devoradora das minhas manhãs.

Quando, enfim, a mínima tarefa reinicia, reencena, reticências.

Em um dia desses, sem mais sinais, tão temida, a epifania de mim.

Elienai Cabral Junior

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