“Quando falamos sobre nós próprios, sobre os outros ou simplesmente sobre coisas, o que pretendemos é – poderíamos dizer – nos revelar através das nossas palavras: queremos dar a conhecer o que pensamos e sentimos. Permitimos que os outros lancem um olhar para dentro da nossa alma. (…) Compreendido dessa forma, somos os diretores soberanos, os dramaturgos autônomos, no que diz respeito à abertura da nossa interioridade. Mas, e se isso estiver completamente errado? Na verdade, nós não apenas nos revelamos com as nossas palavras, nós também nos traímos. Acabamos por revelar muito mais do que gostaríamos e, às vezes, acontece precisamente o contrário. E os outros podem interpretar as nossas palavras como sintomas de algo que nós próprios talvez nem conhecemos. Como sintomas da doença de sermos nós mesmos. Pode ser divertido observarmos os outros dessa maneira, pode nos tornar mais tolerantes, mas também pode significar munição. E se, no instante em que começamos a falar, lembramos de que os outros também agem assim conosco, então a palavra pode ficar entalada na garganta, e o susto pode nos emudecer para sempre.”

(Pascal Mercier emTrem noturno para Lisboa, pág. 381-382)

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