Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista. Ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é. Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais, lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida, e uma abertura despojada e generosa ao outro e à sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, eu pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor: assistir pessoas em cerimônias fúnebres, sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. Atendendo a um pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali, então, um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações a partir da leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da jovem falecida, disparou cruelmente:  “Eu disse a ela: se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!” Sua mãe, um ano antes, pelo motivo, também falecera. Deixaram ambas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz da mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandado as dores da despedida. Alguém me pediu que cedesse um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, eis as palavras que se congelaram em minha mente:  “Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima”. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, atentou às desajeitadas palavras do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se ao pai, em prantos ainda mais sofridos. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência inconsolável do pai, amigo e provedor. Um Deus injusto? Narcisista? Impassível? Assassino? Revoltei-me em meu coração.

Cenas como essas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas sem reflexão, pelas razões que forem: comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos adoecerão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia assim, tão existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa, a mistificação da vida, a alienação e malignização da humanidade; herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos. Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar. Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo. Veio em carne, insiste o apóstolo.

Assim concebi este livro, com desejos pretensiosos, mas modestas proposições. Reuni insights, réstias que pudessem iluminar um pouco a nossa fé e libertá-la dos fungos da irreflexão que, protegidos da luz, espalham mofo e focos de infecção em sua conexão com a vida. A imagem é boa, porque é assim que acontece aos crentes quando fogem do enfrentamento de sua realidade. Adiam a reflexão e enfermam suas relações.

Dividi a exposição dos ensaios em três movimentos, que apesar disso não deixam de estar entrelaçados em conceitos que se repetirão teimosa, mas didaticamente. Na primeira parte, reuni ensaios que pretendem se livrar de práticas que considero vícios nocivos a uma espiritualidade lúcida, como a sublimação da realidade, o medo e a preguiça de enfrentar questões difíceis, a fobia à dúvida, a fantasia de relações e conceitos absolutos e organizados por propósitos divinos, as gigantes expectativas sobre as igrejas e suas organizações e programas doutrinários, mas também o estranho menosprezo pela poesia e outras expressões de beleza.

O segundo movimento deseja abrir janelas de compreensão sobre a Bíblia, o texto que funda a fé cristã e organiza seu culto, moralidade e expectativas sobre a vida. Nestes ensaios, convidei filósofos e teólogos para breves e promissoras conversas sobre o que podemos esperar do texto bíblico: Gadamer, Nietzsche , Rorty e Vattimo sugerem ideias ao lado de Segundo, Queiruga, Ricardo Gondim e Rubem Alves. Acredito que desmistificar a Bíblia é potencializar sua capacidade de abençoar a vida humana.

O terceiro momento deste trabalho quer ofertar algumas sugestões de compreensão da relação da fé com as nossas expectativas para a vida concreta, e algumas insinuações de caminhos a seguir em nossa espiritualidade. Deixei para esse instante um ensaio muito precioso para a minha trajetória, Meu pentecostalismo revisitado, texto autobiográfico, sem deixar de ser ensaístico. Publiquei-o pela primeira vez em 2002, e retomá-lo foi terapêutico e enriquecedor; o meu leitor, que já o conhecia, perceberá as novidades que felizmente pude lhe acrescentar. Acredito sim em uma pentecostalidade como ingrediente afetivo e catalisador da espiritualidade cristã.

Já me confessei pretensioso com o livro e a reunião de filósofos e teólogos que vêm iluminando meu caminho, mas quero incentivá-lo na leitura, antecipando que também participaram desta aventura alguns poetas e romancistas imprenscindíveis para a construção da minha fé. Entraram na roda Dostoievski, Muriel Barbery, Pascal Mercier, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Lenine, Gilberto Gil e Jorge Luis Borges. Ninguém melhor que o poeta para insinuar versões possíveis para a vida, e não apenas, mas também provocar a imaginação, esta modalidade espiritual tão esquecida entre religiosos, no entanto tão importante para uma vida luminosa e aquecida por esperança.

Boa leitura!

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