ImagemPelas ruas nunca se cantou tanto os versos triunfais do salmista: Bendito o que vem em nome do Senhor! Fácil. O Nazareno pôs em pé um morto sepultado há dias, porá em pé a cadavérica nação de Israel.

Dia desses, perambulou por aqui. Escorregou pelos becos, foi visto tenso e irrequieto no templo. Não tinha boa aparência. Discutiu com cambistas. Interrogou mulheres e perguntou pelas crianças. Juram que balbuciou palavras e parecia maquinar algo. Talvez uma revolução. Depois de Lázaro, parece não haver muito mais o que esperar. Um milagre assim não pode esfriar suas utilidades. Argumento forte é discurso oportuno.

Não há outro assunto entre o povo. Jesus fala de um reino que virá, faz verem os cegos, multiplica pães e sacia os famintos, limpa os imundos leprosos e agora reanima defuntos. O Reino deve estar por um triz.

Alguns dos discípulos avisam eufóricos o Mestre, que anda fraquejando no ânimo. Queixa-se de incompreensão. Duvida até dos mais próximos. Mestre, o povo acredita. As mulheres cantarolam bendizendo o Messias. Os velhos lembram as histórias dos profetas, contam às crianças sobre o poderoso redentor que chegará montado no jumentinho. Ele arqueia as sobrancelhas e insinua um sorriso. Suspira. Não acompanha o entusiasmo dos demais. Ouve. Mas todos sabem que sempre compreende outra coisa.

Ninguém pergunta mais nada. Todas as últimas questões suscitaram poesias, contos, comparações. Tanto mais estranho o Cristo, mais prosador. Sua poesia é a distância que a todos aflige.

Continua a falar do Reino vindouro, mas sempre contando histórias e propondo dispendiosos enigmas. Diz que só veremos se não enxergarmos; só ouviremos se não escutarmos; só saberemos se não compreendermos. O que precisamos saber que nosso entendimento impeça? Que visões temos que nos tapam os olhos? Que ruídos escutamos que nos ensurdecem? O que cremos que possa nos atrapalhar o pensamento?

Não provoque o poeta.

Faz poesia o que duvida da regra, consola os demais o pensativo Tomé. Conta histórias quem procura por ouvidos, emenda João, sapiencial. Pedro, meio sem entender, diz qualquer coisa: eu prefiro as espadas. Doem menos.

Sem gaguejar, interrompe as suspeitas de todos e pede para que busquem um jumentinho. Como nas prosas dos velhos com as crianças há pouco relatadas. Entrará em Jerusalém montado no profético bichinho, é o seu plano. Cumprirá as Escrituras tal qual o ator submete-se à dramaturgia. Por quê? Questiona alguém. Porque é preciso que imaginem mais o que veem.

O jumentinho, montado dramaticamente por Jesus, aproxima-se. A chegada é lenta, demora estratégica o bastante para que a notícia se espalhe entre o povo de Jerusalém. E antes de chegar ao templo e às casas dos poderosos, são incontornáveis os pobres, habitantes sempre dos limites da cidade. Risível, não fosse grave. Os últimos a serem ouvidos são os primeiros a deslumbrarem o Messias. Os excluídos do mundo recepcionam o divino. O fôlego da multidão, que encena a mais messiânica das histórias, é a angústia dos que padecem.

É lírico o Cristo de Deus montando imponente o humilde e pacífico jumento. Lirismo eloquente, ninguém duvida do Messias. Os mantos e os  ramos de árvores, arrancadas à beira do caminho, espalham-se pelo chão, como se a multidão e seus deuses há muito ensaiassem o encontro. As mulheres iniciam a cantoria: Hosanas ao que vem em nome do Senhor! Bendito o que vem em nome de Deus. As crianças saracoteiam pelo cortejo, ao reconhecerem o personagem de suas histórias prediletas. Ele também ri. Também festeja. Como é estética a esperança.

Os fariseus, religiosamente ausentes dos afetos, sabem da insanidade coletiva. Do risco que corre Jerusalém. Pedem para que Jesus os repreenda. Uma agitação assim pode indicar insurreições e suscitar toda a repressão das temidas Legiões romanas.

Pode-se até calar a cantoria, reprimir os gestos; mas a imaginação, este movimento de gente embrutecida em busca de graça; com afetos empedrados ansiando por ternas esperanças; ora, se uma boa imagem dá voz às pedras, o que não fará em corações sangrando fé e desejo? Se eles se calarem, as pedras falarão, responde o divino dramaturgo, arrependido dos anos gastos com as sinagogas e suas doutrinas.

O cortejo avança e o horizonte se abre desvelando Jerusalém. Descortinam-se mutuamente o estranho Messias e a patética cidade. Não demora, e os mesmos algozes crucificarão um e depredarão a outra.

E a metáfora cumpre seu papel. Reúne os díspares mundos na mesma imagem. Faz conversar falas tão distintas na mesma cena. Concilia opostos. Justapõe adversos. Dá ao poeta a fugidia sensação de acolhimento, sendo ele o maldito extravagante. O Messias de outra esperança. O Rei de vário governo. O Deus-homem do homem-Deus.

Ausentando-se da grita, os olhos do herói lacrimejam. Nada traduz mais sua agonizante alma que a refração implacável da imagem, caleidoscópio de sentidos e compreensões. O que acende melhor os sentidos que a lúdica encenação? O poeta faz-se vidente, vê mais e além. E quanta dor sente este que habita as fronteiras dos saberes?

Deus mora na metáfora, liame dos mundos. E chora.

Ninguém viu a lágrima nem ouviu o lamento do divino, exceto uma mulher que confidenciou seu segredo ao amigo de Teófilo; de onde estava, jura ter visto o que à multidão ficou incôndito e ouvido o despercebido pela surdez ruidosa do povo. O Cristo lamentou ser a mensagem que ninguém entendeu, a metáfora de um mundo que poderia ser.

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