MEDO DE VIVER

 A música composta por Gainsbourg pode ser uma redentora desmistificação do suicídio e da loucura, marcas fortes do nosso desespero. Ambas ideias vizinhas, suicídio e loucura, por serem muito temidas. O suicida é um desconhecido, um totalmente outro; quem tenta se suicidar não é suicida, só o é aquele que já está morto, logo não pode mais ser, portanto, um desconhecido. O louco, também; o outro da nossa racionalidade, a racionalidade normalizada. Também o louco nos aflige, pois se o conhecemos já não é mais tão louco assim, ou nós o somos e já não podemos mais traduzi-lo à razão “normal”. No show de Ana Carolina e Seu Jorge, parece ser uma catarse, uma confissão coletiva do que nos apavora. E nada alivia mais o peso de um medo que falar sobre e com o deboche, desmistificá-lo. Veja:

Chatterton

(Serge Gainsbourg)

Chatterton, suicidou

Kurt Cobain, suicidou

Vargas, suicidou

Nietzsche, enloqueceu

E eu, não vou nada bem

Chatterton, suicidou

Cléopatra, suicidou

Isocrátes, suicidou

Goya, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

Chatterton, suicidou

Marc-Antoine, suicidou

Van Gogh, suicidou

Schumann, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

O suicídio parece ser o mais radical ato humano. Afinal, implica em um encerramento definitivo dado pelo próprio indivíduo a sua vida. Até o suicídio, a vida é inevitável e a morte, um destino ineludível. Com o suicídio, somos obrigados a assumir a vida e administrar o evento da morte. Mas a palavra vem carregada de moralismo. Seja o religioso, seja o moralismo triunfalista do nosso tempo. E todo moralismo é fuga de uma angústia.

Repelimos o suicídio talvez porque seja o gesto do outro que enfraquece o nosso. Alguém desistiu da vida, a ponto de abreviá-la ou antecipar a morte. E isso enfraquece nossa valorização da vida. A religião moraliza o discurso com o dogma do pecado e tenta frear o medo de viver com o medo de morrer. Já que a morte do pecador é a porta de entrada para um eterno inferno. Nenhum moralismo é eficiente sem uma promessa de céu e uma ameaça de inferno.

André Comte-Sponville, em seu Bom dia, angústia, nos ajuda a desmistificar o suicídio e aponta alguns caminhos de reflexão para o enfrentamento do medo e da angústia. Para o filósofo francês, o suicídio não pode ser visto como uma morte voluntária, afinal, todos estamos obrigados a morrer. Veja o que diz:

A expressão “morte voluntária” é equívoca. O suicida não escolher morrer (é uma escolha que não se faz: cumprirá morrer de qualquer maneira), mas morrer agora. Quantos fariam essa escolha, se pudessem escapar ao nada? Quantos adiantariam a hora de sua morte, se pudessem jamais morrer? Lucrécio já havia percebido – antes, talvez, de suicidar-se ele mesmo – que é a assustadora certeza do falecimento que deixa a vida odiosa a muitos, a tal ponto, às vezes, que eles se matam para escapar afinal à angústia que ela lhes inspira… [1]

            Mas antes de percorrer o caminho do suicídio em busca dos dramas escondidos sob a cortina da melancolia, dos acontecimentos e suas condições de possibilidade da escolha por antecipar a morte, também é Sponville que nos ajuda a olhar para o suicídio sem a roupagem moralista. Para Sponville, usando o pensamento de Epicuro, o suicídio é necessário para que a vida seja boa, para que a vida valha a pena. Afinal, eu não posso escolher não nascer nem não morrer, mas posso escolher continuar vivo, não adiantando a própria morte.

Se o suicídio é uma possibilidade, a minha vida passa a ser minha responsabilidade. A possibilidade do suicídio é a potencialização da minha liberdade. Não escolhi nascer nem os pais e a carga genética que deles recebi. Não optei pelas condições sócio-políticas nem pela língua com a qual cheguei ao mundo. Não fui educado segundo minha vontade. E tudo isso que não escolhi se combinou aleatoriamente para forjar muito de quem eu sou, desejos, medos, cosmovisão, cultura, gostos. Faço, sinto, reajo, desejo, temo um monte de coisas de um modo que contraria o que eu chamo de minha vontade. Sobra-me muito pouco para decidir, liames, réstias, fiapos de vontade. Por que me considerar responsável pela vida? Por que concluir que a vida que eu tenho é a minha vida? O suicídio é uma das razões, enquanto possibilidade. Nunca como realização.

Se não me suicido, vivo. Se vivo é porque poderia me suicidar, mas escolhi continuar vivo. O suicídio é uma possibilidade que intensifica a minha vida. Uma porta aberta que me faz responsável por continuar dentro da casa. Mas para o filósofo francês, uma possibilidade que não é sábio acessar, porque acessar é o remédio errado para a angústia.

Para Epicuro, nada justifica o suicídio, senão a decisão corajosa de antecipar a morte. Para ele, a vida oferece possibilidades de prazer maiores que as de infortúnio e bastantes para que a angústia a torne insuportável. Mas sabemos que existem outros acontecimentos em torno da depressão e do suicídio que precisamos conceber com cuidado.

Há na depressão e na angústia um nível de gravidade possível, que a intervenção profissional de medicamentos é necessária. Mas há também camadas e camadas de ignorância e distorção que precisam ser cavadas com reflexão para chegarmos à melhor compreensão do que aflige nossa existência, de nossas angústias.

Para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, “a angústia é vertigem da liberdade”. Somos expostos tão radicalmente às diversas possibilidades de viver, sem qualquer garantia de qualquer delas, sob o risco do infortúnio ou do desperdício, sob a pressão de escolher a melhor delas, que a angústia é o seu sintoma mais evidente.

Sartre repete o conceito kierkegaardiano em seu O existencialismo é também um humanismo. Para o filósofo existencialista francês, nada determina completamente quem nos tornamos, fazemos escolhas necessariamente. Estamos “condenados à liberdade”. Se nos distraímos, escolhemos. Se não optamos, também escolhemos. Se exercemos o poder de escolha ou se nos omitimos, escolheremos sempre. A angústia é assim um índice dessa condição existencial; para Heiddeger, estamos jogados no mundo, portanto, expostos e vulneráveis, eis o que nos aflige.

Nascer é uma angústia e morrer também, afirma André Comte-Sponville. A angústia de nascer é a do estranhamento do mundo e já a percepção do que nos ameaça, a morte. Imediatamente após nascermos enfrentamos a morte. A cada perda, conflito, doença, fome, cansaço, saudade, insegurança, desencontro são experiências com a morte, com a finitude. A morte pontua nossa insuperável finitude e isso nos apavora. Viver é ter medo. Ter medo, logo, não é o nosso problemas, talvez até a nossa solução, à medida que indica o quão a sério levamos a vida. Nossa crise é quando temos medo do medo, angústia pela angústias que viveremos.

É Lenine quem canta bem a nossa angústia, ou se preferir, o nosso medo de medos. “Medo que dá medo do medo que dá”. Certamente está aqui o nosso adoecimento, ou a nossa crise, medo do medo. Angústia pela angústia.

Miedo

Lenine

Tenho medo de gente e de solidão

Tenho medo da vida e medo de morrer

Tenho medo de ficar e medo de escapulir

Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar

Tenho medo de esperar e medo de partir

Tenho medo de correr e medo de cair

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo

O medo é uma casa aonde ninguém vai

O medo é como um laço que se aperta em nós

O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar

Tenho medo de amarrar e medo de quebrar

Tenho medo de exigir e medo de deixar

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia

O medo é uma armadilha que pegou o amor

O medo é uma chave, que apagou a vida

O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo

Medo de dobrar a esquina

Medo de ficar no escuro

De passar em branco, de cruzar a linha

Medo de se achar sozinho

De perder a rédea, a pose e o prumo

Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão

O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo

É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina

O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara

Medo de encarar

Medo de calar a boca

Medo de escutar

Medo de passar a perna

Medo de cair

Medo de fazer de conta

Medo de dormir

Medo de se arrepender

Medo de deixar por fazer

Medo de se amargurar pelo que não se fez

Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H

Medo de morrer na praia depois de beber o mar

Medo… que dá medo do medo que dá

Medo… que dá medo do medo que dá

            A entrevista de Pascal Bruckner[2] à Folha de São Paulo, em outubro de 2014, por ocasião de uma palestra sua no Fronteiras do saber, o filósofo francês fala sobre a sociedade da felicidade que vira também a do desespero e da angústia. Separei dois trechos da boa conversa que teve o filósofo em solo brasileiro:

Em Fracassou O Casamento por Amor?, o senhor diz que a expectativa atual do amor perfeito mina as relações conjugais tanto quanto, no passado, matrimônios arranjados solapavam sentimentos. Ainda se idealiza tanto o amor?

Pascal Bruckner: Vivemos uma mistura de romantismo agudo e consumismo sexual exacerbado, uma era em que amamos a ideia do amor acima de tudo. Cobra-se que a mulher seja uma amante ensandecida mas também exemplar mãe de família, profissional bem-sucedida, culta, sadia. E o homem deve ser igualmente um virtuose do sexo, bom no trabalho, pai amoroso, sujeito engraçado. É óbvio que isso conduz a um esgotamento, porque o amor é submetido ao regime da performance.

Esse amor do amor faz com que abandonemos uns aos outros assim que advém qualquer decepção. Esquece-se que amar é aceitar as fraquezas do outro e as nossas próprias, construir algo ao longo do tempo, à base de falhas, oscilações, mudanças de intensidade do sentimento. Pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exigência passional. Submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto, um deus implacável. Isso é desumano.

Em A Euforia Perpétua, o senhor afirma que a promessa de felicidade terrena inaugurada pelo Iluminismo foi deturpada nos anos 1960. Por quê?

Pascal Bruckner: A felicidade virou não mais um direito, mas um dever. Os anos 1960 e sua revolução individualista estenderam as regras de mercado a setores até então impermeáveis a elas: a intimidade, a sexualidade, a espiritualidade, o bem-estar. Essa incitação à felicidade nos fez seres extremamente ansiosos. Temos medo de não estar à altura dos ideais que fixamos para nós. A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia.

Deveríamos então nos contentar com pequenos prazeres e alegrias efêmeras, como o senhor diz no livro?

Pascal Bruckner: É preciso fazer com que as pessoas se sintam menos culpadas por não serem felizes o tempo todo. Para substituir essa obrigação, proponho o reinado da paixão. Felicidade, como dizia Charles Fourier [filósofo francês, 1772-1837], é ter várias paixões e diversos meios para saciá-las. A felicidade é da ordem da graça, e não da do trabalho. Essa incompreensão é a base da neurose americana. Nesse sentido, se há uma sabedoria europeia, ela reside justamente no ceticismo, no entendimento dos limites do homem, o que não impede que se viva uma cultura de prazeres.

Vivemos em uma cultura em que a felicidade deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação moral. O novo moralismo, e todo moralismo é desastroso. O moralismo hedonista, nele, parecer feliz é uma imposição social. Não temos o direito da infelicidade. O infeliz é um fraco. O moralismo da felicidade.

Dentro desse novo moralismo, Elisabeth Roudinesco[3] fala sobre o paradigma da depressão e a cultura dos antidepressivos. Tudo é depressão e é tratado com antidepressivo. Obesidade. TPM. Irritabilidade. Insônia. Medo. Agitação. Problemas de aprendizagem. Numa cultura assim, não estamos preparados para lidar com as incontáveis fraquezas.

No moralismo da felicidade, ser (parecer) forte é uma obrigação. Por isso somos medidos o tempo todo pela produtividade, desempenho, posse, consumo, prestígio, poder e prazer. Gente que não produz é imoral. Gente fraca é indigna.

Mas qual a crise? É que somos medo e fraqueza. E qualquer movimento e negação dessas condições é uma usina de deprimidos e suicidas, seja a religião, ou a cultura dos antiansiolíticos e antidepressivos, ou a cultura do sexo e do álcool.

Gosto de pensar o amor não como virtude. Se é virtude, perde-se na oposição ao poder ou ao egoísmo. Penso o amor como uma condição existencial. Somos amor, à medida que o amor é esta abertura nervosa ao outro, somos suscetíveis, permeáveis, carentes. O que acontece no mundo nos afeta sempre. Quem o outro é me toca. O olhar do outro importa no olhar que tenho de mim. O amor é uma fraqueza, pois não sou sozinho; porque o outro me perturba; porque sofro no mundo.

A sociedade do moralismo da felicidade se torna um fardo cruel. Sob a idealização de uma pessoa, de um amor, de uma carreira que nunca alcanço, desenvolvo a angústia desnecessária e fatal, a angústia pela angústia. O medo do medo. Afinal, o moralismo da felicidade faz do prestígio e da independência o ideal de humanidade, mas eu me sinto com frequência solitário e desamparado. Fantasia que o homem forte sabe que é, mas me sinto vazio e despreparado algumas vezes. Sugere que pessoas felizes tem relações e conquistas duradouras, mas sinto que tudo é impermanente e muitas vez perco e fracasso.

A resposta mais sábia sempre será o enfrentamento da realidade. E o ponto de partida é o reconhecimento da ilusão. O próximo passo será o acolhimento das possibilidades. E aqui reside o perigo. De subestimarmos as possibilidades com uma preguiça entreguista, com um covardia passiva e negativa. A alternativa é o acolhimento criativo. Ou o acolhimento gracioso. A partir da aceitação realista de que sou fraco, que possibilidades posso inventar para viver?

A fraqueza pode ser prodigiosa e criativa. E essa é uma concepção da Graça mais que do trabalho. O trabalho pode sugerir a fantasia de que tudo é feito pela força. A graça, ao contrário, sabe que nada é feito por força, mas a partir da fraqueza. Para o cristianismo, “quando estou fraco é que sou forte, e quando sou forte, fraco”.

É possível pensar na fraqueza não como um ponto final, mas uma vírgula. Não como um substantivo, mas uma conjunção adversativa, um porém, um entretanto, todavia. A fraqueza pode ser abertura para a novidade. A fraqueza pode ser flexibilidade.

A fraqueza também pode ser um niilismo positivo. É de Nietzsche a ideia do niilismo, tantas vezes mal interpretada. Do latim nihil, nada. O niilismo é um processo de descoberta do vazio, da precariedade, da fraqueza. Mas um vazio que potencializa, um vazio para a potência da vontade. Desistir das expectativas, desarmando a infelicidade. Diria Nietzsche, esperar menos, amar mais.

A fraqueza inventiva e graciosa é a chance de não termos medo do medo, porque o reconhecemos como um princípio de validação da própria vida. A vida é pra valer, por isso tememos. A chance de não termos angústia pela angústia, porque desistimos de uma existência sem dor, sem decepção, sem fraqueza, sem perda. Desistimos da invulnerabilidade e descobrimos que as perdas podem ser ganhos, “entretantos” que ampliam as possibilidades.

Assumir a fraqueza é não se angustiar por ter angústias, não ter medo de ter medo. Não sofrer por sofrer. A fraqueza dá ocasião ao improviso corajoso. Talvez aqui, uma chance maior de não sucumbir às frustrações com a vida que podemos viver.

(Palestra proferida para a turma de Direito e Filosofia, na FANOR Devry, em 17/06/2016)

[1] COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Pág. 79.

[2] Pascal Bruckner: “A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia”

por Folha de S.Paulo/Lucas Neves – 12.10.2014 | Pascal Bruckner | #Filosofia , #Sociedade

 

[3] ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Pág. 17.

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