Você não precisa ler o que escrevo a seguir.

Nem tenho nada a dizer que lhe seja imprescindível.

Até porque venho percebendo que as coisas diante dos olhos são as mais difíceis de serem vistas e as coisas mais significativas, quase impronunciáveis.

O que mais importa e é mais difícil de abraçar dispensa as palavras: o óbvio, o comum, o que todos sentem e, às vezes, nem sabem que sabem.

Também não acredito nos conhecimentos pretensamente imprescindíveis. Com frequência, discursos que se revestem de urgência e relevância são assim feitos à medida de sua fragilidade. Quanto menos são, mais retóricos e impositivos.

Se você chegou até aqui, temos um encontro. Na insignificância. Na irrelevância. No que pode nos salvar do inferno dos poderes que concorrem por nossa atenção, por nosso compromisso, por nossa fé.

Não quero sua adesão. Por favor, não curta a postagem. Deixe-a escorrer desimportante entre algoritmos. Quero a liberdade da ignorância. Não temos que saber um do outro, nem seguirmos o perfil um do outro, nem aprovar o que pensamos.

Se ainda não perdi sua leitura, estamos lado a lado, sorrindo com o olhar, fruindo a leveza de ombros com menos expectativas e mãos com mais ternura.

O escritor do Eclesiastes na Bíblia é um desiludido. Assim como nós dois. Também ele passou a duvidar das grandes realizações da vida, da busca por riquezas, da ufania de uma vida excepcional, da panaceia de um mundo controlado por um Deus ou determinado por uma lei; ele a tudo considerou “vapor de nada”. E apenas a partir daqui se sentiu livre o bastante para amar, sob o conselho: “coma o teu pão com prazer, beba o teu vinho com satisfação e alegra-te com a tua mulher.”

Se ainda estamos juntos, reunimos as condições de Jesus e seus amigos. Leio a narrativa dos Evangelhos e sinto um líder se desmanchando em decepções. Quanto mais desencantado, mais Jesus se torna e mais amigos os poucos seguidores se revelam.

Descobriu-se mais à vontade entre os renegados da sua religião; para ser feliz, come e bebe com quem não tem reputação a zelar. Sente-se mais inteiro longe da massa; quanto mais seguidores, mais donos do seu destino, vontade e voz ele tem; escorrega para a solitude como uma lagarta deixa o casulo.

Percebo-o se desligando dos grandes projetos, das salvações cósmicas, das reformas pretensiosas da velha religião e seus antigos costumes. Aos poucos, abandona os grandes discursos pelas pequenas histórias, os rasbiscos no chão, as crianças no colo, as conversas mastigadas com pães e molhos, os valores regados a vinho, os afetos com menos palavras e mais cheiros e sabores e toques e olhares.

João também se perdeu das grandes expectativas e filosofias e se encontrou recostado no peito do amigo. Ao relatar o último dos encontros, descreveu o mestre como um anfitrião à beira mar. Foi servindo peixe e pão preparados na brasa que conversou com o que vem antes das palavras, o idioma das origens, a linguagem do amor. Alguém disse que ninguém ali ousava cobrar explicações. Ao falastrão deu a chance de suas almas conversarem. Perguntado sobre amor por três vezes, finalmente Pedro disse menos e bastante, com os olhos nos olhos do amigo, suspirou: você sabe de tudo, sabe que te amo.

Se resistimos juntos depois de desfiar o que poderia ser um texto, revelo a você os gostos que renovo no novo ano: cercar-me de gente com quem consiga dizer e mostrar o que sinto e sou; orar instantes silenciosos; abraçar e rir com meus amores; ler na companhia de um bom vinho; cultivar o amor por ser quem sou; correr sem pressa pensando em nada; encontrar amigas e amigos entre cheiros, sabores, olhares e ouvidos fáceis; escutar sem juízos e conselhos; conduzir reflexões cheias de poesia e delicadezas em minha comunidade de fé; encantar-me com belezas feito quem vê o próprio Deus; encontrar-me com o divino ao estender a mão ao que me pede ajuda; chorar minhas faltas sem rancor e gritar bem alto: Fora, Bolsonaro!