Meu amigo filho Thales,

Escrevo do espanto.

Gestei você em minhas paixões bem antes que sua chegada fosse certa.

Tudo era tão antes. Aprendi a amar a fé que a Filosofia iluminava e resolvi: meu filho teria o nome de quem a tradição grega chamou de o primeiro filósofo. Thales de Mileto foi o filho do espanto, da dúvida libertadora, a que não acreditou que tudo fosse só paisagem; mas viu sinais, indicações, janelas de sentido e possibilidades espalhados pelo mundo. Na água, o espantoso ponto de reconciliação do cosmos. Tudo é água.

Um filho meu teria o nome do espanto que me salvou, a porta de saída do tédio e suas certezas; a claridade que me ajudou a ter fé além do templo: Thales.

Não só.

Descobri-me amando o Flamengo no Rio de Janeiro encantado com Zico, Leandro, Junior, Adílio, Andrade, Rondinelli, Mozer, Nunes e todos os outros. Não tive chance de sequer notar outras cores, o Rio em que nasci se encontrava no Maracanã para sonhar a cada gol do Galinho. O Brasil que me encantou nunca foi verde e amarelo, o Mengão coloriu de vermelho e preto minhas raízes e devaneios.

Você também não conheceu a liberdade tola de não se encantar com o mais querido; transmiti a você o gene da teimosia de sonhar com a vitória; alimentei você com o gosto da inventividade que desmonta resistências invencíveis; vesti você do inesperado a driblar mesmices, do canto sofrido da torcida que vira os jogos mais perdidos: Oh, meu Mengão, eu gosto de você. Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser Rubro-Negro. Conte comigo, Mengão, acima de tudo Rubro-Negro!

Veja como a vida baila entre redentores acasos. Tal qual o filósofo, você também é filho do espanto. Chegou quando a gente achava que tudo já bastava; que tudo já tinha nome; chegou e o que já era pleno se fez insuficiente. Chegou feito a filosofia, pôs em dúvidas as certezas e reimaginou sentidos; reinventou-nos. A família se descobriu grávida do inusitado. A médica disse ‘é menino’. Chorei, duvidei de tão maravilhado, a médica se impacientou com meu susto. É menino. Será o Thales!

Quem seríamos sem o Tatá da Cacá da Bibi da Bete do Elienai?

Você não sabe, acho, mas fico te olhando do ponto cego do amor. Aquele que nos faz ver tudo e por ninguém ser visto; aquele que nos projeta para fora do instante e nos permite admirar reverente o que acontece. Vejo o menino que se faz homem e não disfarço o espanto. Ele não inventa mais histórias e diálogos e ruídos intermináveis com os seus brinquedos; agora cria músicas, amores e futuros; toca o violão, canta e faz ressoar o timbre mais bonito da casa; compõe canções que reúne parcerias e embala possibilidades; empresta ouvidos e companhia e carinho a cada um nós, que orgulhosos agradecemos por te ter irmão e filho e amigo.

Por isso, o Thales, o de Mileto e o de São Paulo, não pode ver com bom olhos algo que tem o nome de formatura; que indica chegada, fim, conclusão. Sugiro que siga suspeitando que nada chega, que tudo é insuficiente, que viver é aprender, não formar. Prefira as inconformações às formaturas; a dúvida aos dogmas; a fé à crença; o amor à indiferença; a conversa ao grito; o espanto à apatia.

O inconformado não teme fracassar, sua fraqueza é a flexibilidade para reinventar-se; seu cansaço é a chance de dar as mãos e não seguir só; seu medo é o índice do quanto se importa em viver bem e de verdade; sua tristeza é o silêncio que antecede a alegria, que nem será rasa nem tola.

Parabéns, filho, por não ter medo de sonhar e contrariar molduras e formas.

Como sou grato por você existir e ser quem vem se tornando!

Te amo, Thales!

Seu pai

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