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Em um dia desses, assustei-me com o que me era muito familiar. Sabe quando você percebe que o óbvio não é tão previsível assim? Algo como descobrir o próprio nariz? Descobri-me com o que estava na cara e perdi o fôlego. Falo das insistentes folhinhas onde anoto as providências para os eventos, para a semana, ou para o dia.

Na cabeceira da página, Providências. Um pouco abaixo, a data. Em seguida, numeradas, todas as ações das quais não posso me esquecer. Algumas, mais complicadas, exigem desdobramentos, pequenas resoluções para que a grande se resolva. Porque as vi depois, já carregam as marcas de como vivi naqueles dias sob aquelas providências. Algumas, simplesmente ticadas, bola para frente. Outras, com uma ou várias interrogações ao lado. A vida é mais imprecisa e desobediente que gostaríamos. Outras, com um traço, constatei, que riscava as palavras grosseiramente. Obrigações com gosto ruim que vamos deixando pelo caminho. Outras, sem marca nenhuma. Terá faltado tempo? Foi muita providência para pouca vida? Não consegui me lembrar.

Meu susto veio com uma revelação inquietante. Aquelas listas colecionadas em meu pequeno bloco, ou avulsas e esquecidas pelas gavetas, eram o rascunho de como vivi. Vivi para aquelas providências. Vivi para ticar o que cumpri. As rasuras não eram apenas as marcas feitas sobre palavras. Eram rasuras do modo como existi naqueles dias. Meu Deus! Quantas interrogações deixei pelo caminho? E a mais grave das revelações, se aquelas listas de providências rascunharam os meus dias, então não me preparei para a felicidade. Preparei-me somente para resolver problemas. Para funcionar.

Esqueci-me de rascunhar os instantes agradáveis. Um dia com as crianças na praia. O próximo livro a ser degustado. Um filme imperdível. Uma noite inesquecível ao lado da minha linda Bete. Um capítulo de “Law & Order” ao lado da Cacá. Uma corrida com os parceiros da próxima maratona. Os devaneios mais recentes do Márcio. Um texto escrito com taquicardia. Conversas profundas e inquietantes com o Ricardo. Boas gargalhadas com os amigos. Que aconteceram. Mas bem menos que poderiam. Incidências entre as interrogações das atitudes mais sérias que tomei. Tudo errado.

Tomei uma decisão. Esses não podem ser os rascunhos da minha vida. Não posso escrevê-la com uma pauta tão sisuda e infeliz. Preciso preparar-me para a alegria e não apenas para livrar-me dos problemas. É isso. Vou rascunhar de agora em diante uma vida com mais beleza, afetos, amigos, vinho, poesia, música. Mais Bete, Cacá, Bibi e Tatá. Sei que não posso livrar-me das outras providências. Mas elas terão que viver à sombra das minhas novas providências. Rascunharei dias mais belos.

Depois de me escandalizar com os meus rascunhos, assustei-me alegremente também com uma compreensão corrigida das palavras de Jesus. Sempre as pensei com uma dose de moralismo. Honestidade, castidade, fidelidade, justiça e tantas outras atitudes corretas, mas muito mais exigentes e sérias que a vida exige ou permite. Entendi que não é disso que fala o texto de Mateus 6.22-25, depois de descrever as bem-aventuranças (uma vida feliz), Jesus ensina a não deixar a vida ser gasta pelos cuidados, ou pelas listas de providências. Ensina-nos a rascunhar a vida como mais luz. Veja.

A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; e, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?(Grifo meu)

Olhos que só enxergam os problemas quando pro-videnciam são olhos sem luz. São rascunhos de trevas. Não é a vida mais que os problemas, e o corpo mais que o trabalho?

Para o próximo ano, novos rascunhos. Tudo bem! Eu sei que não dá para evitar os problemas a serem ticados, nem as obrigações ruins a serem rasuradas. Quem me dera viver sem as interrogações sobre minhas tarefas. Mas é possível rascunhar a vida com mais leveza, doçura, afeto, descontração. Vamos rascunhar boas gargalhadas? Mais amigos? Mais beleza? Mais vida? Mais luz? Se teus rascunhos forem trevas, que grandes trevas serão. Mas se forem rascunhos luminosos?

Para o próximo ano, melhores rascunhos e uma vida mais luminosa!

Um beijo,

Elienai

            Em uma data comemorativa o que mais importa é o que está escondido. Por trás dos sorrisos, dos aplausos, das danças e da decoração pulsa o que realmente vivifica um projeto. A verdade que perturba ou acalma freqüenta os corredores de uma igreja em festa.

            Somos prontos para responder a pergunta pelos nossos motivos de alegria. Mas o que primeiro vem à boca geralmente são aqueles que nada dizem. Frases ocas que apenas reproduzem jargões insossos: “O Senhor nos abençoou!” Ou: “Nossos ministérios são produtivos.” Ou: “Construímos…Inauguramos…Crescemos…Compramos…Fizemos!” E toda essa espuma colorida e cintilante se dispersa nas primeiras horas do dia seguinte. Basta a rotina para percebermos que faltaram razões consistentes para tanta euforia.

            Se quisermos encontrar os motivos que ecoarão com força, as razões para gostarmos de quem somos, teremos que ouvir o coração. O que se diz com pouco barulho e muita sensibilidade é o que está mais próximo da verdade. A Betesda tem muitos e bons números há bastante tempo. Vinte e sete anos de empolgada evangelização nos renderam muitas conquistas. Uma lista de realizações é tão fácil quanto inútil. Até porque, a esta altura, também temos uma lista fácil do que não deu certo, de nossas perdas e amarguras.

            Melhor que as tolas listas é o que abrigamos na alma. Não o que somos, mas quem somos. Por que nos alegrar? Entre conquistas e perdas? Entre alegrias e tristezas? Entre avanços e recuos? Entre acertos e enganos? Porque não somos feitos de edifícios. Nem de estruturas. Nem de números. Nem de propaganda. Somos feitos de gente.

            Nossas ambigüidades não nos desmerecem. Nossa incompletude não nos invalida. Nossa fragilidade não nos esvazia. Nossa transparência não nos envergonha. Somos feitos da mesma matéria que Deus escolheu para fazer a si mesmo quando realizou sua melhor idéia, quando mais amou: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.”(Jo 1.14) A idéia de Deus foi desmistificar a si mesmo fazendo-se gente. Fez-nos gente. Fez-se gente.

            Deus não habita em estruturas. Habita em gente (1Co 3.16). Deus não ama construções. Ama gente. Deus não busca templos. Busca adoradores (Jo 4.20-24). Deus não nos pergunta pelo nosso desempenho. Pergunta pelo nosso irmão (Gn 4.9). Deus não quer que o amemos. Quer que o amemos enquanto amamos nosso irmão (1Jo 4.7-12). Não temos um currículo a ser apresentado para Deus. Temos um nome escrito no céu (Lc 10.20). Nada sabemos de Deus mais intenso e digno de confiança que de Jesus, feito gente, foi revelado. Sendo gente, Deus mostrou exatamente quem era: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Cl 2.9)

            O único movimento digno de festa em nome de Jesus é o que repete sua humanidade (Fl 2.5-8). Nela, Deus experimentou nossas alegrias e tristezas, nossa ansiedade e prazeres, nosso vinho e dissabores, nosso pão e nossa fome, nossa vida e nossa morte. Seu poder e exaltação foram sua fragilidade e humilhação. Essa é nossa vocação. Essa é a idéia de Deus. Isso é ser gente.

            Coloquei minha cabeça no travesseiro com uma pergunta que não me deixava dormir. O que realmente festejar na Betesda? Pensei com o olhar fixo no teto: porque nela, eu, minha família e meus amigos podemos viver nossa humanidade e isso não ser demérito. Ao contrário, é salvação e plenitude de Deus entre nós. Porque somos feitos de gente. Então dormi um sono feliz.

 

Os capítulos 14 a 16 do evangelho joanino nos apresentam a uma realidade pouco explorada em suas implicações eclesiológicas. Tratamos das verdades do texto apenas no que concerne imediatamente à missão da terceira pessoa da trindade, o Espírito Santo. Raciocínio típico da sistematização teológica, que tem uma enorme dificuldade de flexionar os princípios em suas conseqüências. Mas os sentidos do texto repercutem em todas as manifestações da vida redimida. Trata-se do ambiente, da mentalidade, dos modos de construção do Reino de Deus. A indicação de Cristo é de um tempo que sucederá o seu. Um tempo de continuação do que ele iniciou. Um tempo marcado por uma outra presença distinta da sua.

(Jo 14.12-17,25-26) Digo-lhes a verdade: Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai. E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho.O que vocês pedirem em meu nome, eu farei. (Jesus Promete o Espírito Santo) “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês. Tudo isso lhes tenho dito enquanto ainda estou com vocês. Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse. 

(Jo 17.5-7,12-13) “Agora que vou para aquele que me enviou, nenhum de vocês me pergunta: ‘Para onde vais?’ Porque falei estas coisas, o coração de vocês encheu-se de tristeza. “Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei.” “Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. “Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir.”

 Jesus afirma uma outra presença necessária tendo em vista a mudança de sua corporeidade: o corpo enfraquecido e aniquilado na morte será transformado em um corpo novo, glorificado e triunfante sobre a morte. Jesus conversa com os seus discípulos sobre sua partida prevista e necessária ao desenvolvimento do Reino de Deus. Ao terminar o que veio fazer, morrer e ressuscitar, não estará mais fisicamente entre os seus discípulos. O que muito nos intriga! Justamente na hora mais oportuna à permanência, Jesus escolhe partir! Depois de incorporar o maior milagre de todos os tempos, a ressurreição. Na hora da virada. Na volta olímpica Jesus abandona os holofotes. Nossa inquietação com a orientação do Reino de Deus já indica o quanto nossa mentalidade pastoral é influenciada pela prática de poder. Qualquer um de nós esperaria uma super exibição do Cristo ressurreto. Jesus nega esta lógica. A negação desta lógica é a essência do Reino e a natureza desta Outra Presença, o Outro Conselheiro, o Paracleto. A negação desta lógica é a recusa divina do exercício de poder e sua escolha precípua do exercício do amor.

Para insistir na inquietação. Depois de tudo pelo que Jesus passará, da terrível aparência de fraqueza e derrota na cruz. Depois de ser abandonado por todos. Com um corpo ressurreto, inquestionavelmente poderoso. Com a prova incontestável da verdade que veio proclamar. Jesus, simplesmente, vai embora e deixa todo esse material propagandista de fora! Na hora que nós entendemos que Jesus deveria mais aparecer, promover mais visibilidade, é a hora que ele menos aparece. Cristo se esconde na meta-história quando deveria se publicar historicamente. A vingança do Cristo outrora enfraquecido é a lógica já abandonada por Deus com a qual tratamos nossos eventos! No entanto, depois de ressurreto, Jesus aparece apenas a alguns, confirma-lhes a vocação e vai embora! Deus escolhe a ausência de quaisquer visibilidades de poder.

Aqui, Jesus revela aos discípulos que ele partirá com o seu corpo glorioso para que venha O Sopro Santo da parte do Pai. O corpo do milagre partirá para que um ser-sem-corpo, descrito como vento de Deus, o substitua. Mais intrigante ainda: Jesus diz que é melhor para nós que isto aconteça. Em outras palavras, há uma dimensão da vida espiritual que é superior a esta que vocês estão vivendo comigo e que poderiam viver depois de minha ressurreição caso eu permanecesse com vocês, em que a presença discreta de Deus é fundamental: o Espírito Santo. O parácleto, o outro conselheiro. “Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai.”(Jo 14.12b.) -“Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei.” (Jo 16.7)

A pergunta é óbvia, por que Deus tendo um material tão forte, eu diria violentamente forte, de um Cristo ressurreto inquestionável e imponente, abre mão? Por que Deus escolhe uma presença tão discreta como a do Espírito, sem corpo, sem visibilidade, para promover a nossa comunhão? Por que Deus desiste da imponência inquestionável da ressurreição para promover seu Reino e opta pela presença invisível e questionável do Espírito? Invisível, porque sendo Espírito tem por vocação não falar de si mesmo. Questionável, porque sendo o convencimento sua tarefa, a rejeição é sua contrapartida.

A Bíblia nos fala da grande epifania(manifestação) de Cristo(1Ts 4.13-18). Uma conclusão da tarefa redentora, o Dia de Cristo, em que Jesus, com corpo ressurreto e incontestável, com uma visibilidade triunfante e debeladora de quaisquer anticristianismos, se imporá ao mundo. Será um Cristo irresistível e inquestionável. “Todo olho o verá”(Ap 1.7) e “toda língua confessará que Jesus é o Senhor” (Fp 2.9-11) são descrições de um tempo em que o diálogo e a discrição cessarão. Mas o tempo da igreja, o nosso tempo, é marcado pela vida no Espírito. Neste nosso tempo, inaugurado pelo envio do Parácleto, tempo pós-ressurreição de Cristo, a ação de Deus é delicada e invisível. Persuasiva e “esperançosa”. Deus, em seu Espírito, procura nos persuadir na esperança de que o amemos de fato, livremente.

Por que uma presença discreta de quem se põe ao lado e não a presença cheia de visibilidade e imponência do Cristo ressurreto? (“é bom que eu vá para que o Pai envie o Outro”) Por que tanta discrição se Deus pode gritar? Por que tanta delicadeza se Deus pode impor? Deus poderia fazer da presença forte de Jesus, ressurreto, um argumento final diante do qual todos se calariam. Mas Deus escolheu a delicadeza da amizade. Preferiu o sussurro do Espírito.

A única relação que Deus deseja conosco é a do amor. Deus não quer adeptos, Deus quer amigos:

 “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também amarei e me revelarei a ele”.” (Jo 14.21)

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido. (Jo 15.13-15)

“Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. “No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.” Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 Jo 4.15-19)

 A experiência de Elias no Antigo Testamento é uma manifestação desta escolha graciosa de Deus diante do fracasso de ter amigos fiéis pela oponência de poder. Profeta de Deus que em um primeiro instante desenvolve seu ministério a partir do desafio e da imponência. Desafia todos os profetas de Baal e a indecisão de quem deveria estar do seu lado, seu povo. O desafio é radical, o verdadeiro Deus é o que responde com fogo. Baal não responde e humilha seus profetas. Deus responde com fogo e exalta o discurso de Elias. Depois de tudo isso o que muda na vida de Israel? Nada. A imponência do milagre, o poder manifesto de Deus fracassa em mudar a alma confusa e instável dos israelitas. É o fracasso da visilibidade de Deus. Jezabel se levanta para destruir Elias. Ele entra em depressão. Depois de tanto fogo, foge e duvida de tudo e de Deus. O poder-fogo escamoteou um solipsista adoecido, alguém que estranha a comunhão dos fiéis e a presença graciosa de Deus. Na montanha, é chamado por Deus para sair da caverna de sua solidão suicida e encontrar-se com “um outro Deus”. Vem o fogo e Deus não está no fogo. Vem um vento forte e Deus também não está lá. Vem um terremoto, idem. Um assovio suave (imagino que depois de tanto barulho Elias ouve com dificuldade) é que revela Deus e o recoloca no caminho da vida. A brisa suave que soprou e revelou Deus para Elias, em contrapartida às imagens violentas do terremoto, do fogo e do vento forte, devolveu ao solitário e recém herói frustrado o caminho da relacionalidade: são 7.000 que não dobraram os joelhos, há uma unção sobre outros três. A brisa suave oferecida por Deus é a ambiência de ternura, fragilidade, discrição, sutileza, de humanidade em que Elias continuaria no exercício profético.

A natureza do outro Reino anunciado por Jesus, o Reino de Deus, é nos evangelhos também a indicação da escolha graciosa de Deus em detrimento da escolha autoritativa. Há, com clareza, uma relação importante entre a natureza do Reino de Deus, tal como anunciado por Cristo, como um Reino de invisibilidade, um Reino cuja virtude está na dimensão invisível e a ação do Espírito, discreta, interna e invisível. Um Reino que se perde ao se aproximar das estruturas de visibilidade é catalisado na interioridade das vidas que o acolhem. Este Reino só pode ser promovido por uma presença discreta e delicada.

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Lc 17.20-21)

 Perguntado por Nicodemos, que exigia mais dados concretos sobre o Reino, Jesus dimensiou a vida no Reino de Deus:

“Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”. (Jo 3.7-8)

 O mais importante presente deixado por Jesus depois de sua ressurreição e ascensão, não foi uma estrutura visível e imponente, mas a presença invisível e discreta do Espírito Santo. Não poderia ser outro a dar o sentido deste Reino de Invisibilidade senão o Espírito, pneuma: o vento. Sopro de Deus. Parakléto, aquele que não se coloca à frente, ou mesmo, acima de outro, mas ao lado, como ajudador. Um companheiro que não trabalha por sua visibilidade, mas cujo poder está exatamente em sua discrição. A delicadeza é a única via de realização da vida cristã. Este é o modus operandi do Espírito.

         Precisamos pensar a presença do Espírito Santo na legitimação e promoção do Reino de Deus não só como o mordomo-mor, aquele que organiza e distribui dons (Hb 2.4), ou mesmo aquele que capacita, ambas tarefas amplamente apresentadas pelo texto bíblico. Mas devemos também pensar em sua presença como ambientadora da vida cristã. Modeladora. A vida em Cristo é uma vida inspirada pelo Espírito. O Espírito Santo é o que dá a ambiência da vida cristã. O Espírito é aquele dá o sentido da vida em Cristo.

(Continue a leitura deste artigo.) “O OUTRO CONSOLADOR” PARA UM OUTRO TRABALHO PASTORAL

 
Afinal de contas, do que estamos falando? Quando participo de conversas, com poucos ou muitos, e sou ‘condenado’ por falar coisas às quais jamais fiz referência: ‘quer dizer que agora temos que jogar fora tudo o que aprendemos desde o início? E tudo o que aprendemos de todos os pastores da nossa igreja?’ ‘Quer dizer que Deus não é mais onisciente?’ ‘Não podemos mais orar?’ ‘Deus é como qualquer homem, não pode conhecer todas as coisas?’ E outras generalizações desse tipo. A impressão que me resta é que os ‘corredores da futrica’ estão sendo mais freqüentados que as salas de conversa e, até mesmo, que os templos onde pregamos. Sinto uma igreja mais pastoreada nos ‘corredores da futrica’ que nas conversas e sermões de seus pastores. O que se fala nos corredores convence mais que o que se prega no púlpito. Meu pedido é, por favor, se sua crise é gerada por zelo, desista das (des)informações dos corredores. Ouça-me uma vez mais.

 

Não estamos jogando fora uma teologia e trazendo outra para o seu lugar. Nosso esforço é por aprofundar antigas verdades, por terminar a obra que começamos. Às vezes, para se terminar uma construção se paga um preço mais caro que o imaginado no início do projeto. Às vezes, é mais difícil e exige mais firmeza e coragem concluir um edifício que começá-lo. Acredito que é o que está acontecendo neste momento em nossa Betesda.

 

Não estamos desistindo de uma teologia, estamos avançando no projeto. Nossa teologia sempre se caracterizou por alguns compromissos, sentimentos e percepções que fundaram a Betesda, permitam-me sugerir alguns:

 

1.      Acreditamos que o único Evangelho verdadeiro é o da Graça, nada do que recebemos de Deus é do tamanho de nossos méritos. Deus não nos deu porque merecemos, mas porque nos amou gratuitamente (Ef 2.5-10; Gl 3.3-5). Por isso não conseguimos acreditar em qualquer benção que seja conquistada por tamanho de fé, ou quantidade de oração. Afirmar que Deus abençoou porque se orou muito, ou com força, ou se acreditou mais é negar a Graça de Deus. É chamar Deus de débil em seu amor e misericórdia, ao ponto de precisar de nosso empurrãozinho devocional para amar melhor! O que é inaceitável.

Nenhuma benção vem de sacrifício e esforço humano, logo, corrente de oração ou campanhas que sugerem cumprir um rito de sacrifício para se conseguir uma benção é viver outro evangelho que não o da graça.

Pensando assim, oração não é uma forma de conseguir coisas, mas uma disciplina espiritual que busca intimidade, santidade, confissão, verdade, a glória de Cristo e não a realização de meus desejos, mas dos desejos de Deus.

 

2.      Denunciamos qualquer expressão de espiritualidade em nossa prática que produza engano. (Gl 1.6-7) Abominamos qualquer esperança que se baseie na ilusão. A fé não ilude, não coloca vendas. Antes, acorda, abre os olhos para a verdade (2Tm 4.2-4). O evangelho é luz que revela a verdade e não uma maquiagem na realidade da vida. Negamos qualquer fé que se comporte como uma barganha com Deus (1Tm 6.3-6). Razão porque cedo denunciamos a teologia da prosperidade e os chamados movimentos da fé. Por essas denúncias já fomos chamados de pouco espirituais, ou mesmo incrédulos. Já fomos acusados de tirar a esperança das pessoas. No entanto, o que cremos é que a verdadeira esperança nunca ilude, nunca cria falsas expectativas.

Só há uma esperança que vale a pena, a que não engana com fantasias. A esperança do cristão não é a de uma vida facilitada e intocável, mas da presença incondicional do Pai que nos sustenta em seu amor. Aconteça o que acontecer, ouviremos a voz do Amado: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.  Diante do que, cada um de nós poderá sempre responder: Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.”

3.      Acreditamos que a única forma de nossa relação com Deus ser de verdadeiro amor é termos sido criados com verdadeiro livre-arbítrio. Qualquer coação, determinismo, predestinação implica em negação da liberdade humana, tanto quanto, de um possível amor genuíno a Deus. Servimos a Deus porque o amamos e não porque fomos obrigados a isso. Por isso sempre afirmamos que o ditado popular ‘quem não vem pelo amor vem pela dor’ é uma inverdade. A Bíblia diz que Deus rejeita qualquer fé que não seja por amor verdadeiro. E amor verdadeiro é sempre livre, espontâneo e decidido. “Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1Jo 4.16-19)

 

4.      Recusamo-nos a buscar a Deus, ao próximo, ou mesmo, a viver em caixinhas conceituais. Deus não cabe em nossas tradições, em nossos conceitos, em nossa cultura, ou qualquer construção humana. Deus transcende a tudo e a todos. Por isso, nos primeiros anos de Betesda, fizemos ouvido de mercador para as acusações de que éramos a igreja do evangelho fácil, das inovações perigosas, dos mundanismos, porque usávamos retroprojetor nos cultos, nossas mulheres vestiam calças compridas, brincos e se maquiavam, nossa música era contemporânea e executada com quaisquer instrumentos disponíveis. Porque íamos ao cinema, teatro e ouvíamos música secular. Curiosamente, fomos um escândalo por essas coisas que agora são tão banais. Acredite! Essas coisas eram muito escandalosas e consideradas gravíssimas! Mas Deus usou a coragem da Betesda para libertar muitos irmãos do legalismo perverso.

 

5.       Sempre acreditamos que a igreja já é a resposta de Deus ao clamor humano por justiça. O Reino de Deus não pode ser buscado sem a sua justiça. Não por acaso nossos empreendimentos sociais sempre acompanharam nossa evangelização. Sempre acreditamos que justiça social se faz com ação social e não com campanha de oração ou jejum. Que o faminto é saciado com pão e não com promessas covardes e irresponsáveis de um possível milagre. Curiosamente, as cidades e estados brasileiros onde algumas igrejas que prometem maravilhas e prosperidade mais crescem é justamente onde mais se alastra a miséria social. Na mesma proporção em que cresceram certos grupos religiosos brasileiros, cresceram a injustiça, a violência e a miséria. Caso típico e visível do Rio de Janeiro. “‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste?’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa,e em brigas de socos brutais.Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado,vestir o nu que você encontrou,e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada,e prontamente surgirá a sua cura;a sua retidão irá adiante de você,e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá;você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. “Se você eliminar do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar;se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfizer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, e a sua noite será como o meio-dia. O Senhor o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam.”(Is 58.3-11)

 

6.      Sempre nos recusamos a trocar as pessoas por programas ou razões teológicas. Mais importante que um programa ou organização são as pessoas que queremos amar e nelas promover o caráter de Cristo. Mais importante que manter um dogma, ou sustentar uma ortodoxia é acolher as pessoas em seus dramas pessoais. Nossa teologia procurou sempre ser uma resposta bíblica às verdadeiras questões da vida humana. Não defendemos conceitos, defendemos a dignidade humana devolvida pelo sacrifício de Cristo na cruz. Uma doutrina que não se sustenta na vida, que destrói, que afasta de Deus, que camufla fatos ruins não serve à vida e nem ao Reino de Deus. Não estamos preocupados em defender um conceito sobre Deus que, na vida comum, destoa da prática. Um amigo meu, pastor agora, reencontrou uma amiga da família de longa data, que logo lhe lembrou do pai, já falecido. Inevitavelmente fez referência à perda e emendou para consolar: – ‘Deus levou seu pai, mas teve um bom propósito para isso!’ Meu amigo, agradeceu com um sorriso amarelo. Passou pela sua cabeça todos os transtornos que enfrentou na vida. As dores que ainda carrega, suas fraquezas e medos. Pensou: que propósito é esse que Deus teve? Matou meu pai para me ensinar alguma coisa?

Não podemos lutar por conceitos que matam as pessoas e que nada produzem que faça sentido na vida comum.

Teologia na Betesda não se faz a partir de conceitos, mas a partir das pessoas. Nossa teologia tem que ser pastoral antes de ser conceitual. É dos dilemas e tragédias das pessoas pastoreadas por nós que buscamos respostas em Deus.

 

7.      Não cremos em um Deus que faz acepção de pessoas ou mesmo se reduz à experiência de um apenas. Se Deus fez ontem, ele pode fazer hoje. Se Deus fez com o americano, faz também com o africano. Se agiu no desabamento de uma casa, agiu também no Tsunami. Não podemos acreditar que no mesmo instante que o garoto João Hélio, tragicamente assassinado no Rio de Janeiro, filho de um crente a caminho de uma programação evangelística, foi vítima da violência e, do outro lado do Brasil, alguém divulgue que porque é fiel a Deus no dízimo e nunca sai de casa sem orar, Deus o livrou de um assalto. Esse não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é o que não faz acepção de pessoas. Ama a todos igualmente. Abençoa a todos igualmente.

 

Por essas razões, temos pregado uma mensagem que inspire as pessoas a levarem a sério sua liberdade (Tg 2.12-13). A não se esconderem por trás de desculpas ou ritos.

 

Não cremos em um Deus que escolhe alguns para a salvação e outros para o condenação. Cremos em um Deus que a todos ama e a todos quer salvar. Por isso afirmamos que não podemos crer em um futuro que já esteja pronto. E que afirmar que Deus conhece o futuro é o mesmo que afirmar que já está pronto. O que anula nossa liberdade e faz de Deus mentiroso, já que na verdade ele se relaciona conosco num tipo de ‘faz-de-conta’, em que ele já sabe o fim da história, mas finge que não. Deus conhece tudo. Mas o futuro não existe, por isso não pode ser conhecido, porque não há nada para conhecer.

 

Não acreditamos em uma espiritualidade preventiva. Do tipo ‘se eu fizer tudo certinho nenhum mal me atingirá!’ A Bíblia não promete uma humanidade isenta de acidentes, dores, injustiças, doenças e transtornos pertencentes a um mundo desajustado e inseguro como o nosso. Se Jesus veio entre nós e enfrentou todas as nossas dores, por que nós seríamos maiores que ele para sermos exceções? Se ele aceitou não fugir das horas mais difíceis, por que nós acreditamos que nossa oração nos poupará delas? E lhes disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem”. Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”.”(Mc 14.34-36)

 

Nosso momento é o de levarmos às últimas conseqüências o evangelho da graça e não do esforço humano. Da liberdade e não do determinismo arbitrário. Do Reino do amor e não do Reino dos privilegiados. Da cruz e não o das facilidades. Da verdade e não o da ilusão. Nossa pregação está apenas indo a fundo na graça, no amor e na verdade.

 

Há muito o que conversar. Não há pressa, o que há é a decisão de não deixar para depois.

 

Um abração,

 

Elienai

Termino este ano com um sentimento forte de gratidão. Gosto mais de pastorear. Gosto de fazê-lo na minha Betesda.

Sou pastor porque sou ambíguo. Pastoreio porque preciso de cúmplices, gente que me flagre “demasiado humano”. Pastoreio como quem seduz, preciso estar cercado de pessoas que me ajudem a não perder-me  da vida. Pastoreio porque não posso mais distrair-me  do que é verdadeiro. Desde a cruz minhas escaramuças tornaram-se insuportáveis. Nela, toda a minha contradição foi exposta. Pastoreio como quem precisa de companhia diante da cruz, lugar de minha nudez existencial. É muita cruz para um homem solitário.

Sou pastor porque sou um falastrão. Não suporto o letrismo teológico mudo. Descobri que teologia é falatório e que encontro com Deus é um sarau. Qualquer teologia tagarela na academia e muda na vida é blasfêmica. Pastoreio como quem conversa com Deus na vida. Pastorear é repercutir. Desde as parábolas de Jesus só consigo pensar Deus a partir da vida. Semeador. Pai de pródigos. Noivo. Pastor. Sua voz tem o timbre do drama humano. Com tanta voz, não posso não pastorear.

Se permaneço pastor, hoje, devo a esse espaço marcado por uma ambivalência que me salva: Betesda. Perdoem-me o aparente propagandismo. Não saio em defesa da instituição. Apenas exerço o incontinente sentimento da gratidão. Neste lugar, a cada contraponto, um fôlego novo enche meu peito. A coragem quase-irresponsável de repensar a fé espalha uma boa adrenalina no meu corpo. Os constantes desafios fazem do meu ofício uma vertigem maravilhosa. Acredito que apenas os aventureiros conseguem continuar pastores. Apenas quem aceita apostar, como Deus, mais do que os méritos sugerem, tornam-se aptos ao pastoreio. Betesda tem feito assim. Credita sempre muito mais do que faço por merecer.

2007 vai começar! Quase não me aguento de ansiedade. Nessas festas de fim de ano terei que cumprimentar com a mão molhada, abraçar com taquicardia. É muito pastoreio para um homem só. Obrigado, Betesda!

 

Como qualquer pessoa, conheci “O Príncipe” de Maquiavel primeiro a partir do adjetivo “maquiavélico”, para depois conhecer o sujeito e sua obra. Maquiavélico refere-se a qualquer ação sagaz, premeditada e habilmente executada para manipular pessoas ou situações. Há algo de malévolo em quem recebe o adjetivo “maquiavélico”. Também sobre “O Príncipe” soube superficialmente: um manual escandaloso de como governar sem escrúpulos.

Mas tão logo entrei em contato com o texto de Maquiavel, descobri a pressa e grosseria dessas generalizações. Minha descoberta, no entanto, se iniciou com o susto de flagrar-me despido nos conselhos de Maquiavel. Com uma freqüência vergonhosa, identifiquei-me com o modo como Maquiavel orienta a prática do poder. Mais ainda, o que de mim identifiquei o fiz mormente do espaço do qual faço parte. Os pastores e suas igrejas. Isso mesmo! Não disse políticos, mas pastores!

Ler Maquiavel é uma experiência repleta de contradições. Odiamos seus conselhos à medida que amamos. Odiamos porque seu atrevimento de expor algo sem preocupações éticas, nem roupagens ideológicas é constrangedor. Mas também odiamos porque nos flagramos amando a perspicácia com que nos ensina a concretizar o que desejamos: perpetuar nossa vontade sobre os outros, garantindo nosso prestígio e influência. Lia o texto, mas surpreendia-me ouvindo interessado os seus conselhos, para em seguida rechaçá-los. Numa espécie de auto-exorcismo: sai de mim que este corpo não te pertence!? Do repúdio à atração. Do afastamento à afinidade. Da indignação ao conformismo pragmático. É o gosto agridoce de O Príncipe. Lê-lo é repudiar práticas de liderança ao nosso redor, para em seguida perceber-nos maquiavélicos em quaisquer dos níveis de relacionamento da vida. Inclusive na vida religiosa, na vida de dentro da igreja. Este lugar pelo qual inutilmente nutrimos uma fantasia de imunidade moral.

A partir dessa experiência tridimensional com o texto de Maquiavel, nasceu meu desejo de percebê-lo em nossa prática evangélica. Identificar o poder maquiavélico em nossa pastoral como um chamado a inconformação e ao olhar cuidadoso para a escolha divina em Jesus de um outro poder é a que me proponho neste trabalho. Primeiro, nos deixaremos radiografar por Maquiavel, para em seguida compreender o poder no qual veio Jesus como um “outro poder”, com o qual e tão somente o Reino de Deus é possível entre nós. Comecemos com Maquiavel.

A obra de Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”, é tida como a fundadora da noção de Estado Moderno. Maquiavel participa, na Itália, ainda feudal, de um processo amplo de transição. Sobre ele está a forte influência do renascimento cultural, a transferência do horizonte último de legitimação da vida humana da religião para as relações seculares, de um teocentrismo para um antropocentrismo. Não mais a vontade de Deus expressa pela religião, mas a necessidade e anseio da pessoa humana tornam-se determinantes. Maquiavel sonha em ver acontecer na Itália o que já estava em desenvolvimento acelerado na França e Espanha, a centralização do poder em uma monarquia absoluta, como esclarece José Nivaldo Junior:

“A reação contra a idade Média, chamada injustamente pelos humanistas do Renascimento de “Idade das trevas”, alcança todos os valores e instituições, principalmente a Igreja. A burguesia invocava novos valores cosmopolitas, ridicularizava a nobreza e seus atributos e transformava a Igreja em alvo das mais severas críticas.(…)Na Itália, contudo, a tendência centralizadora esbarra em um obstáculo irremovível: os Estados pontifícios, plantados no centro da península, impedem a unificação. Alguém disse que a igreja não tinha forças para unificar a Itália sob a sua égide, mas era forte o suficiente ara impedir essa unificação. Esta unidade seria o grande sonho da vida de Maquiavel. É nesse sentido que ele direciona “O Príncipe”.”[1]

            Maquiavel está exilado do Estado Florentino, sua terra natal, quando escreve sua obra prima. Sua intenção, dizem os historiadores, era a de promover-se diante dos Medici, família que ocupava o governo em Florença, sonhando em ser repatriado, ao mesmo temo em que trabalhava para, a partir do Estado de Florença, proporcionar a unificação tão sonhada da Itália.  

 

Curiosamente, Maquiavel inicia sua carreira de homem público logo após a deposição de Girolano Savonarola, executado na fogueira em 1498. Sabe-se que este evento é uma antecipação e preparação da Reforma protestante promovida por Lutero. Savonarola é referido por Maquiavel como o profeta desarmado”, seu governo pretendeu fazer de Florença uma república teocrática, onde seu governante seria nada mais e nada menos que Jesus Cristo. Sabendo do impedimento dos estados pontifícios para a unificação da Itália, substituindo o governo religioso de Savonarola, é que Maquiavel trata das questões de poder em O Príncipe. Também não por acaso é que tem um tom irônico ao citar entre os seus exemplos de liderança a grande personagem bíblica de política, Moisés. Seu trato do poder é uma desistência radical de qualquer mecanismo redentivo para a humanidade. Maquiavel parte do pressuposto pessimista de humanidade. A humanidade não é boa, por isso a prática do poder exige o esvaziamento de utopias e escrúpulos morais.

            É neste contexto de transição de valores e busca de se posicionar nos novos moldes políticos que Maquiavel escreve seu texto. Sua expectativa é clara, não está escrevendo um tratado científico, muito menos uma obra de filosofia política. Sua obra é um manual prático para o exercício do poder. Não há uma utopia nas entrelinhas, não há um ideal romântico a ser alcançado. O que há é a necessidade de se ter êxito no poder. A pergunta que Maquiavel quer responder é uma apenas: como se perpetuar no poder? Questão que carrega a natureza mesma do poder: autoperpetuação. José Nivaldo Junior afirma que “O Príncipe” é um manual de marketing político. Dentro dos eventos reais envolvidos no exercício do mando, sua conquista, consolidação e expansão, como deve agir aquele que governa é a questão a ser respondida. Sua preocupação não é de apontar para um poder ideal, mas para o poder real. Não trata do que pode ser, mas do que é

        Ao desnudar a prática do poder de todos os seus romantismos e escaramuças teológicas, torna visível a natureza do poder na sua realidade mais concreta, a das manobras para a autoperpetuação. O livro tem a forma de conselhos ao novo governante do Estado Florentino, Lourenço de Médici, sobre como se sustentar no poder. Reúne as lições para uma governança bem sucedida vasculhando exemplos na história. Trás à superfície os conflitos da vida social e termina por radiografar as entranhas do poder: afirmar-se em um campo de forças em colisão.Maquiavelismo tornou-se sinônimo de manobra malévola, como dissemos. O indivíduo maquiavélico passou a significar aquele que orquestra maldosamente para se beneficiar. Mas isto é uma generalização grosseira. A obra de Maquiavel, O Príncipe, é bem mais refinada que isso. O que Maquiavel faz não é inventar a manobra política. Maquiavel apenas vira do avesso o poder e oferece uma  abordagem realista de seu exercício concreto.Se Maquiavel não apresenta um poder propositivo, ideal, mas simplesmente o poder, quase como uma manifestação animal de nossa humanidade, ou o poder instintivo, como se mostra desde sempre, temos dele um conceito de poder que precisa ser pontuado como o nosso ponto de partida. José Nivaldo Junior pode nos ajudar novamente:“Max Weber dizia que o poder é a possibilidade de alguém impor sua vontade sobre o comportamento de outras pessoas. Completaríamos dizendo que essa imposição da vontade, para caracterizar, de fato, o poder, deve potencialmente ser exercitada, inclusive, contra a vontade das pessoas. (…)A possibilidade de imposição coercitiva da vontade é uma característica essencial do exercício do poder.

[2]            O exercício do poder está relacionado com a nossa busca de efetivar a nossa vontade sobre a dos demais e, se necessário, contra os demais. É daí que parte Maquiavel, a política, ou a prática do poder é a arte de superar conflitos, é a vida concreta no campo de forças. O que justifica o poder é o fato da convivência dos diferentes. Nela, o movimento natural de seus convivas é o de buscar cada um garantir a preponderância de sua vontade. Exercer o poder é fazer a vontade de um prevalecer sobre a vontade dos demais. Veja o que Maquiavel observa sobre a governança:

“Daí decorre  que todos os profetas armados foram vitoriosos e que os desarmados sofreram derrotas. E isto porque, além das coisas ditas, a natureza dos povos é mutável, e, se é fácil persuadi-los de algo, é difícil perpetuá-los nesta persuasão. Eis a razão da conveniência em instaurar-se uma ordem tal que, ao serem estes povos tomados pela descrença, possa-se fazê-los crer à força.”

[3]            Aqui, a provável referência a Girolano Savonarola com o seu governo baseado na pregação e no ideal cristão. Nãocomo negar o desencanto de Maquiavel com qualquer utopia na prática do poder. A utopia pode existir como justificação de mecanismos cínicos de exercício do poder, mas não no interior concreto do poder. Um profeta desarmado termina na fogueira. Eis o poder maquiavélico, alimentado pelo desencanto, movido por uma atitude pragmática de quem espera ter êxito e não paixão ideológica. Aqui antecipamos uma questão? O Príncipe é um convite à escolha entre o que queremos ser: príncipes armados ou profetas desarmados?            Proponho alguns princípios da prática do poder maquiavélico, pinçados em O Príncipe, a partir do qual seremos confrontados por sua presença quase inevitável em nossa prática pastoral.

1.   A sensação de neutralidade ética de quem pratica o poder.

 “Se podia vencer pelo engano não tentava vencer pela força dizendo que a glória provém da vitória, não do modo.”[4] 

“As crueldades bem usadas(se do mal for lícito falar bem) são aquelas, para ele, que se praticam pela necessidade de chegar ao poder ou nele se firmar, mas que depois são abandonadas em troca de ações úteis para os súditos.”

[5]             A neutralidade dos valores éticos é uma marca escandalosa da prática bem sucedida do poder maquiavélico. O que Maquiavel está fazendo não é a proposta de uma estratégia inescrupulosa de poder, mas a revelação de sua dinâmica interior. Quem pratica o poder experimenta a sensação de neutralidade ética, ou de anestesiamento da consciência moral. Os valores morais tornam-se flutuantes, relativos. Isto porque a necessidade, interna ao poder, de auto-perpetuação relativiza quaisquer outros valores. O poder relativiza as escolhas morais de quem o exerce.             É do poder a sensação em quem o exerce de superioridade sobre as questões morais da vida comum. O poder relativiza os valores morais na medida que fornece aos que o exercem o sentimento de superioridade. Quem pratica o poder sente-se uma exceção. Tornou-se evidente a noção maquiavélica de poder em uma declaração do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, de que há duas éticas: a da política e a da vida social. Por trás deste corte (i)moral, a sensação messiânica de que as questões do poder estão em um nível valorativo superior ao da vida comum. Subornar o guarda de trânsito é condenável, mas aprovar emendas ao orçamento em troca de apoio no Congresso é articulação política.            O exemplo bíblico clássico desse anestesiamento é o de Davi em seu adultério, seguido por uma sucessão de vícios morais: dissimulação, manipulação e assassinato. Depois de se livrar de Urias, marido de Batseba, manobrando politicamente para conduzi-lo a morte, Davi não se sente um adúltero: sente-se um Rei em seu direito de posse. Não se sente um mentiroso e manipulador, sente-se um Rei costurando rupturas para o bom andamento de seu reino. Não se sente um assassino, sente-se um Rei dando uma solução difícil, mas necessária para um problema político.            A dessensibilização moral de um líder é percebida por Paulo, que a reconhece, rejeita e age para resgatar sua sensibilidade: Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.” (1Co 9.24) 

2.   A busca por tornar-se necessário. 

“É que um príncipe não pode fundar-se naquilo que em tempos mansos, tempos em que os cidadãos necessitam do Estado, porque então todos acorrem em seu favor, todos prometem e todos, com a morte bem distante, querem por ele sacrificar-se. No entanto, é na adversidade, quando o Estado necessita dos cidadãos, que raros deles se fazem presentes. De resto, são ainda maiores os riscos dessa experiência na medida em que ela não é realizável mais do que uma única vez. Por isso, um príncipe cauteloso deve conceber um modo pelo qual os seus cidadãos, sempre e em qualquer situação, percebam que ele e o Estado lhes são indispensáveis. então aqueles ser-lhe-ão sempre fiéis.”

[6]             Novamente, é próprio do poder nutrir-se do desencanto em suas prerrogativas. As pessoas não são confiáveis. As pessoas não são fiéis. As pessoas são volúveis. Isso descobre cedo quem exerce o poder, portanto, termina desenvolvendo mecanismos artificiais para manter as pessoas reverentes e dependentes de seu mando.

            Na prática pastoral, isto vem em muitas formas. Manipulação pela culpa. Chantagem emocional. A espiritualização do trabalho pastoral (não toque no ungido do Senhor). O culto à pessoa do pastor é promovido amplamente, suas orações tornam-se mais poderosas que as dos demais, sua benção é tratada como chancela para qualquer decisão. No cultivo da reverência e sacralização da figura pastoral, a fusão de quem o pastor é e do que faz é fundamental. Logo, todos são ensinados a chamá-lo pelo título e em hipótese alguma pelo nome. Mas, arrisco-me a dizer, a principal manifestação da prática do poder na igreja como Maquiavel denuncia seja a centralização da igreja na figura do pastor acompanhada de infantilização dos seus membros. Ao reduzir as atividades e identidade da igreja à figura pessoal do pastor, o que se chama usualmente de personalismo, cria-se uma dinâmica que ganha legitimidade com a presença do pastor.(- O culto nunca é a mesma coisa sem o pastor!) Nenhuma programação consegue um nível satisfatório de mobilização sem a participação pessoal do pastor. As lideranças sentem-se incompletas em seus empreendimentos dentro da igreja sem a chancela pessoal do pastor.

Ao nutrir a idéia de que é imprescindível, compartilhada pela igreja, que de alguma forma também lucra com a infantilização, o pastor sente-se seguro no exercício do poder. Novamente, Paulo dissolve esta concepção ao apresentar o valor de seu apostolado aos Coríntios (4.6-13):

Irmãos, apliquei essas coisas a mim e a Apolo por amor a vocês, para que aprendam de nós o que significa: Não ultrapassem o que está escrito. Assim, ninguém se orgulhe a favor de um homem em detrimento de outro. Pois, quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse? Vocês têm tudo o que querem! se tornaram ricos! Chegaram a ser reis e sem nós! Como eu gostaria que vocês realmente fossem reis, para que nós também reinássemos com vocês! Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados! Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo.” 

3.   Quem pratica o poder busca sempre auto-perpetuação. 

“Donde pode tirar uma regra geral que jamais ou raramente falha: aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.”

“Os príncipes prudentes, portanto, sempre evitaram lançar mão de tais forças e recorreram às suas próprias, preferindo ser derrotados com estas a vencer com as de outrem, considerando ilusória qualquer vitória obtida com forças que fossem-lhes estranhas.”[8] 

            Quem pratica o poder sente-se sempre ameaçado. É da natureza do poder, aqui chamado de maquiavélico, tratar a insegurança sentida por quem lidera diante de um outro que também lidera, ou influência naturalmente. Também compõe a dinâmica interna do poder agir para podar a ascensão de outro líder nos espaços de poder. Promover as forças de um outro é tornar-se sujeito a ele e à possibilidade de perder poder. Quem já não lidou com este sentimento e a reação instintiva de defender seus espaços de poder? Seja na relação conjugal e as crises de ciúme. Seja no ambiente de trabalho e a chegada de um novo colega  que se destaca. Seja nas relações de amizade e a disputa por predileções. Seja na igreja e o modo como são tratados aqueles que ganham brilho na comunidade.

            É típico um pastor sentir-se inseguro com o sucesso de uma igreja vizinha, tanto quanto enciumar-se de seus membros que a visitam ou dela fazem referência. Daí o trabalho pastoral, às vezes sutil, às vezes grosseiro, de produzir isolamento de sua igreja por medo de perder prestígio, ou mesmo adesões para outras igrejas.

            Outra relação no ambiente da igreja que expressa este movimento é a da substituição de um pastor por outro. Aquele que substitui entra em uma relação de conflitos. Age, quase inconscientemente, para desligar os vínculos do antigo pastor. Permite-se ouvir críticas ao desempenho do outro, jogo que curiosamente os componentes da igreja aprendem a fazer também para ganhar poder diante do seu novo representante. Ou então o antigo pastor insiste em manter tentáculos de mando na igreja que não mais pastoreia. Também ele promove uma presença-fantasma, assombrando a influência do novo líder.

4.   A arte do verniz e a fobia da transparência são componentes irresistíveis da prática do poder. 

“Há mais prudência em ater-se à reputação de miserável, que engendra uma infâmia que não te faz execrado, do que, ao pretender a fama de liberal, incorrer inevitavelmente na de rapinante, que engendra uma infâmia que te faz odiado.”[9] 

“A um príncipe, portanto,  não é necessário que de fato possua todas as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las. Antes, ouso dizer que, possuindo-as e praticando-as sempre, elas redundam em prejuízo para si, ao passo que, simplesmente dando a impressão de possuí-las, as mesmas mostram toda a sua utilidade.(…)Por isso, será preciso que ele possua uma natural disposição para transmudar-se segundo o exijam os cambiantes ventos da fortuna e das circunstâncias, e, como eu dizia acima, que, havendo a possibilidade, ele não se aparte do bem, mas que, havendo a necessidade, saiba valer-se do mal.”[10] 

            Quem pratica o poder sente uma enorme necessidade de sustentar uma aparência que promova a sua conservação. Já dissemos que é da natureza do poder o denodo em sua manutenção. A paixão do poder é perpetuação. O poder cultua a imagem. O poder sustenta-se na imagem.

            Um exemplo duro dessa verdade e o seu decorrente desencontro com ‘o outro poder’ exercido por Jesus é o momento em que reivindica o cumprimento de uma profecia: “ferirão o pastor e as ovelhas se dispersarão”. Jesus preparava os discípulos para a experiência escandalosa de sua morte na cruz. A aparência de fraqueza e derrota seria insustentável para os discípulos. Pedro ergue-se imponente e afirma: todos podem te negar, mas eu nunca o negarei”. A resposta de Jesus é um desmanche do jogo de aparência, é um solvente no verniz de uma imagem brilhante. Jesus avisa que Pedro o negará e lhe dá um sinal para que a experiência seja a mais lúcida possível, o canto do galo. Ninguém havia pedido aquele compromisso de Pedro. O tempo era de fraqueza. Pedro assina um cheque sem fundo por necessidade de parecer bem.

            Também em nossa prática pastoral somos tentados a agir assim. Já ouvi conselhos insistentes de não me aproximar demais dos membros da minha igreja. Já fui advertido de não expor minhas fraquezas porque acabara de contar sobre a crise de depressão pela qual passara. A questão é: como confiarão em quem também se mostra fraco? Parece que não é esta a relação a que somos convidados pela Palavra:

Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns”. (1Co 9.22)  

Quem está fraco, que eu não me sinta fraco? Quem não se escandaliza, que eu não me queime por dentro?” (1Co 11.29)

 

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. (1Co 12,10)

 

“Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza. (2Co 11.30)

Pois, na verdade, foi crucificado em fraqueza, mas vive pelo poder de Deus. Da mesma forma, somos fracos nele, mas, pelo poder de Deus, viveremos com ele para servir vocês”.(2Co 13.4) 

POR QUE A PRÁTICA DO PODER É TÃO CONTAGIANTE? 

            A questão com a qual lidamos necessariamente é: por que o poder é tão envolvente? Por que o sentimos tão perto e freqüente em nossas relações? Por que não conseguimos, mesmo em nossa vocação, mesmo na prática da comunhão, experimentar alguma isenção a este poder como descrito por Maquiavel?

            A resposta é uma só: o poder é um terreno escorregadio percorrido por todos nós, porque aquilo que constitui a sua força interna habita em nós: o pecado. Tento uma definição do pecado a partir do poder: pecado é a força que, habitando em nós, impulsiona-nos para a auto-afirmação em detrimento do valor do outro. É a busca desesperada de autoperpetuação em desconfiança do outro.

            O outro de quem desconfio, a quem quero suprimir em sua independência e valor é Deus, mas também é o meu próximo. Meu pecado é fruto de minha inadequação à liberdade de Deus e à liberdade do próximo.

            Uma análise de Gênesis 3 confirma esta definição. O nascimento do pecado na vida humana é a fissura criada por Satanás na confiança humana nas intenções do outro-Deus. A conversa da Serpente com Eva-humanidade é uma introdução à vida política, às questões do poder. O poder é inventado na história humana pelo lapso produzido pela persuasão de Satanás: Gn 3.5: Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deusa , serão conhecedores do bem e do mal.” Jacques Ellul nos ajuda a compreender esta idéia:

“Pode ser que a política seja o reino do diabo, mas isso certamente nos concerne como cristãos. (…) (a política)é a esfera da maior afirmação da autonomia do homem, de sua revolta, de sua pretensiosa tentativa de assumir o papel de Deus.”[11]

            Curiosamente, Maquiavel inicia sua carreira pública, como já dissemos, sob a compreensão de que no trato com as questões do Estado, não há utopia possível. O governo do qual faz parte sucede o fracasso de Girolano Savonarola, que buscou a formação de um estado religioso, baseado na pregação cristã, um poder teocrático, fundado sob as prerrogativas da religião. O desapontamento com a utopia cristã de um reino entre os homens sem esquemas coercitivos marcou fatalmente a formação de Maquiavel. O poder maquiavélico se alimenta do desencanto.

            Maquiavel nada mais faz que pensar a realidade humana do pecado quando elabora sua concepção de poder. O pecado se funda na busca de poder. O poder é a resposta ao desencanto com os outros. O poder é a solução pragmática ao desencontro com os outros. Os outros são fonte de desconfiança quanto à minha afirmação, o poder, portanto, são os procedimentos eficientes para superar a sua força negativa sobre mim.

COM QUE PODER DEUS AGE ENTRE NÓS? 

            Sendo assim, a compreensão urgente de que precisamos é que a ação de Deus entre nós nunca foi marcada por uma disputa de poder. Daí vem o maniqueísmo cristão que enxerga o poder de Deus como maior que os outros poderes. Deus não é mais poderoso que o mal, nem que o Diabo, e, muito menos ainda, mais poderoso que nós. O poder de Deus é um outro poder. O poder de Deus não é o de auto-afirmação. O poder de Deus não é o da supressão do outro. Na verdade, o testemunho bíblico é o oposto. Deus não carece de auto-afirmação porque é incomparável e o seu poder se manifesta não na supressão do outro, mas na sua criação e libertação para ser um outro pleno. Novamente, Jacques Ellul nos ajuda:

“O homem certamente não é livre em nenhum grau. Ele é escravo de tudo, exceto de Deus. Deus não o controla nem o coíbe. Deus deixa que ele continue independente nessas condições.”[12]

            É neste sentido que precisamos compreender a ação redentora de Deus em todo o antigo testamento, mas principalmente em sua coroação na encarnação de Jesus. Jesus não veio disputar poder com os demônios, com os líderes da religião e, muito menos, com a política de então. Jesus veio em um outro poder. Não o poder que salva a si mesmo: auto-perpetuação. Mas o poder que salva o outro. A cena da prisão de Jesus pelos soldados de Caifás é definidora:

“Jesus perguntou: Amigo, o que o traz?” e Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam. Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26.50-53)

            Quando Jesus expulsa demônios, não o vemos disputando poder com espíritos malignos, mas amando pessoas. O poder de Jesus que expulsa os demônios é o poder do amor. Quando Jesus é pressionado pelas multidões, mas também e para sua tristeza, pelos seus discípulos para praticar o poder liderando-os contra as forças romanas, Jesus se recusa radicalmente. 

Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Lc 17.20-21)

            Temos pensado a doutrina da substituição aprisionados na alegoria forense. Uma disputa em tribunal em que a sentença tem que ser aplicada na forma da lei. A justiça exige que a sentença da morte se cumpra. Acho que tropeçamos nesta doutrina quando a reduzimos à metáfora do julgamento, ou à metáfora litúrgica da expiação através de uma animal. Ambas fazem referência a um Deus justo que zela pela verdade de nossa liberdade. Nosso pecado necessariamente experimenta a morte.

Mas vejo a substituição de Cristo não apenas como o cumprimento da exigência de justiça de Deus, o que de alguma forma pode esvaziar sua capacidade amorosa de perdão gratuito. Sei que piso em um terreno minado para a ortodoxia evangélica. Mas insisto. Acredito que a doutrina da substituição retrata prioritariamente este ‘outro poder’ com o qual Deus no visitou em Jesus.

Se o poder como escolhemos em nossa pecaminosidade matou-nos diante de Deus, como figura o Jardim do Edem. Se o poder como o praticamos mata o próximo para afirmar a si mesmo, como figura Caim no assassinato de seu irmão. Se o poder como praticamos reúne a humanidade com a fantasia expansionista e divinizante, que propõe deixar o chão de nossa humanidade para galgar alturas de arrogância e supremacia, como figura a Torre de Babel. O outro poder com o qual fomos visitados por Deus em Cristo é o poder do amor, de se colocar no lugar do outro, de substituí-lo em sua tragédia. De se fragilizar na fraqueza do outro. O outro poder com o qual fomos visitados por Deus é o poder humanizador, de se fazer gente com a gente. É poder que pisa o chão de nossa humanidade com ternura e delicadeza. Como na descrição de Paulo aos Filipenses:

Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.  Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,para a glória de Deus Pai.” (2.3-11) 

            Afirmei que a prática do poder, a natureza dele, se apóia sobre três buscas: a conquista, a perpetuação e a expansão. A distância entre o poder como praticamos e o ‘outro poder’, como Deus se aproxima de nós é revelada na encarnação de Cristo. O outro poder se apóia em três buscas diametralmente opostas às nossas: a perda, a renúncia e o auto-esvaziamento. Deus aceitou perder em Cristo. Sendo Deus, renunciou seus direitos. Desistiu de avançar sobre nós, mesmo sendo santo e possuindo prerrogativas de justiça, e invadir nossa liberdade. Escolheu esvaziar-se de si mesmo. A força que nos salvou foi a força do amor, do esvaziamento. Fomos atraídos por um Deus que se fragilizou em nossas fraquezas. De dentro de nosso drama, amou-nos indicando uma nova direção de vida.

            Os príncipes precisam perder seus principados. O púlpito é o lugar da Palavra pregada à comunidade vocacionada por Jesus. O púlpito precisa ser esvaziado de suas possibilidades de manipulação. O púlpito precisa perder o brilho da exceção e tornar-se tão opaco quanto à vida dos pecadores, para então o único lampejo de glória ser o do amor de Deus redimindo-nos a todos. O púlpito precisa abrir da paixão por conquistar, seja pelo grito autoritativo, ou pelo argumento falacioso. Precisa ser um lugar de delicadeza. Um lugar de amizade. Afinal de contas, em Jesus, Deus substituiu nossa servidão pela amizade.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.  Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido.” (Jo 15.13-15)

Elienai Cabral Junior


[1] NIVALDO Jr., José. Maquiavel: O Poder. Editora Martin Claret, 2004. Páginas 37-38

[2] NIVALDO JUNIOR, José. Idem. Pág. 24 (O grifo é meu).

[3] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 1998. Pág. 27.

[4] MAQUIAVEL, Nicolau. A Vida de Castruccio Castrani. Citado por Jose Nivaldo Junior. Maquialvel: O Poder. Editora Martin Claret, 2004. Pág. 31.

[5] NIVALDO JR., Idem. Pág. 72.

[6] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 1998. Pág. 49.

[7] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem, pág. 17.

[8] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem, pág. 65.

[9] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem Pág. 78.

[10] MAQUIAVEL, Nicolau. Idem. Pág.86.

[11] ELLUL, Jacques. Políticas de Deus e Políticas dos Homens. Fonte Editorial, 2006. Pág. 16.

[12] ELLUL, Jacques. Idem. Pág. 18.

Quem me segue que também eu não o siga?

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