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A incredulidade de São Tomé, Caravaggio.

Foi a angústia que nos aproximou, segui a dúvida quando aceitei o convite para me juntar aos discípulos de Jesus. Eu sou um homem feito de perguntas e muita aflição.

Não lembro de mim sem o sofrimento de quem sufoca o que grita na alma. Carregava a vergonha de ser um estranho, alguém sem o fervor dos crentes; o que todos tratavam como óbvio, a mim parecia vago.

Sentia-me uma farsa nos jejuns sabáticos e suas purificações; a autocomiseração dos devotos não me descia pela garganta. O que em todos provocava culpa e arrependimento, em mim era revolta e ódio. Não aceitava que as legiões romanas pudessem ser instrumentos da justiça divina, não conseguia acreditar que éramos tão transgressores que a opressão tornara-se o nosso castigo. Se os tiranos que nos afligem são uma providência de Deus, o que fazer com a ira que sinto por tanta destruição e ruindade?

Um Deus que usa maldosos para realizar a sua vontade não é ainda mais perverso? Quem é esse Todo-Poderoso que eu preciso convencer de ser justo e bom? Sou melhor que ele? Preciso mostrar-me indigno para que ele de mim sinta dó? É o meu sofrimento que o torna favorável? Então ele é pior que o meus inimigos? Esse Deus não nos ama. Ele nos odeia. E eu a ele. Sentia. Mas nada podia dizer. Havia uma ruptura dentro de mim.

Eu existia do lado de fora, mas ninguém podia saber. O corpo dentro, o sentimento fora. Cada vez que entrava na sinagoga, a sinagoga saia de mim. Enquanto liam os Profetas, não dava para não ver as testas piedosamente franzidas dos mesmos que há pouco ignoraram o faminto à porta. Não queria acreditar que esse mundo precisasse ser sem Deus para ser bom, e isso me atormentava; mas me incomodava muito mais que pessoas tivessem tanto de Deus e fossem tão más.

Sentia-me exilado de mim mesmo. Não conseguia hospedar o estranho que me tornei.

Pelo meu nome ninguém nunca me chamou, Judas. Chamam-me pelo nome do meu triste silêncio, Gêmeo. Os judeus não satisfeitos com o Tomé da língua do povo, acrescentam a língua dos gregos, Dídimo. Para que ninguém esqueça que sou gêmeo. Da minha perda. De uma ausência.

Lísia era a minha irmã, nascemos na mesma gravidez. Dividimos o corpo da nossa mãe, sugamos os mesmos peitos, disputamos a atenção do mesmo pai e espalhamos brincadeiras pelas ruas da Galiléia. Repartimos a mesma alegria de viver.

Ainda criança, acompanhei nosso pai para aprender o ofício da sobrevivência, no entanto, pescar era ficar longe dela e das brincadeiras e das estripulias e dos segredos de nossa gêmea infância. Mas ao voltar, nossos encontros eram cheios de histórias para contar; a luz dos seus olhos admirados ainda brilha na minha saudade.

Um dia, voltamos e a aldeia estava revirada. Enquanto pescávamos, os soldados do império invadiram nossas casas, violentaram as mulheres e sequestraram a minha alma. Paralisei à porta, diante do corpo morto de minha mãe, minhas palavras e lágrimas foram sugadas pelo horror; imaginava o que os sobreviventes contavam, os gritos desesperados por socorro, o clamor delas para que Deus tivesse misericórdia e as ajudasse. Lísia foi levada para servir na casa de algum centurião. Nunca mais soube dela.

Foi nesse dia que me desencontrei de Deus.

A cada oração comunitária, minha tristeza tornava-se mais profunda e calada. O que dizer a um Deus que domina sobre tudo e nada acontece sem que ele queira, até mesmo a violência dos que nos humilham? Onde estava o livramento prometido aos justos quando os romanos esmagaram nossa dignidade e nos proibiram de viver?

As feridas da nossa gente eram as pegadas de um Deus que tinha me dado as costas. Se existe, pensava, ele é meu inimigo.

Não podia dizer não creio sem que isso parecesse um ruído. Então fazia inoportunas perguntas, estragava os prazeres da piedade irrefletida. Alguém dizia, Deus me chamou, eu perguntava, quem mais ouviu? Outro tentava consolar, Deus sabe o que faz, então foi ele que matou? Mas Deus é bom, é mundo é mau por quê? Deus curou, então por que deixou adoecer? E um dia, um velho saduceu delirou, se eu morrer, Deus vai me ressuscitar; com ou sem rugas? Amargo, também conseguia rir.

Já eram várias noites de frustração. Precisávamos que a pesca tivesse sido boa. Mas só juntamos rasgos e sujeiras nas redes. Na manhã do grande dia, as esperanças anoiteceram mais uma vez. A boca salgada pela maresia, as costas surradas pelas tempestades, nossos sonhos esfarelados na areia da praia. Eu evitava levantar a cabeça e ter que olhar para tantos rostos vazios. Pedro ainda tentou animar, amanhã o Senhor dará os peixes. E o que mata a fome hoje? Importunei, sem tirar os olhos do chão.

As manhãs costumam ser muito frias à beira do lago. O sol ainda tímido sequer aquece a pele, os ossos gelam e doem. A gente se movimenta com exagero e bate as mãos nas redes para que caiam as algas e esquentem um pouco o corpo.

Não faltava muito para terminar os consertos, quando uma gente aflita se juntou e empurrou o novo rabi contra a praia, os barcos e o nosso desânimo. Ele nos observou breve, mas com interesse. Percebeu nosso cansaço e o vazio dos barcos. Viu nossa vergonha. Eu desviei o olhar. Em seguida, pediu emprestado o barco de Pedro. Afastou-o um pouco da praia, flutuando solene nas águas mortas do lago. E muito à vontade, falou às pessoas que permaneciam atentas. Contou histórias do mar e do campo, narrou medos e coragens. Sem pedir licença, entrou na nossa imaginação e sugeriu outra vida. Uma em que somos bem-aventurados e nossas lágrimas sinalizam o consolo por vir; em que nossa fome de pão é de justiça e será saciada; em que a perseguição dos nossos algozes confirma que a mudança desejada é digna; e, para o meu susto, que Deus tem lado, o dos empobrecidos e sofre e chora e clama com eles por outro reino.

Jesus entrou na minha vida através das minhas feridas.

O que era o lugar do nosso sofrimento se tornou por instantes o do anúncio de uma nova humanidade. De uma cara nunca vista no divino. Falou de dentro da nossa angústia. Não deixou com o fracasso a última palavra. E uma inusitada fé flutuava no lago e dançava na sua voz.

De dentro de um reencantado barco, pescou-nos de nossos vazios. Mandou-nos jogar as redes mais uma vez, um pouco além do costume. Pedro não queria, mas foi. Eu nem queria nem fui. Fiquei de longe, da praia, de soslaio com o inaudito. Alguém o provocou em voz baixa, só eu ouvi, você quer ensinar pescadores a pescar? Ele respondeu, mais que isso, quero pescar neles outra fé, a simples coragem de não desistirem.

De repente, o grito esganiçado de Pedro, de quem parecia não saber o que fazer com o que precisava ser dito. Pedia ajuda. Tinha mais peixes nas redes que palavras em sua boca. Outros barcos precisaram socorrer. O amor é quando o espanto é pesado demais para um homem só.

Pensei sem deslumbre, os peixes estavam à distância de mais uma tentativa. Fixei os olhos em Jesus querendo flagrá-lo aproveitando a sorte para inventar-se divino. A frustração do meu melindre, ele gargalhava feito os demais, divertindo-se e mostrando-se desavergonhadamente também surpreso. Olhou para quem o provocara e emendou um aliviado “por que não?”

De volta à areia, ninguém sabia o que fazer com a vida quando ela é boa. Pedro se encolheu prostrado e todos reagimos com a vergonha de sempre. Ele nos olhou com a fé que eu só vi devotada pelos crentes a um Deus. Acreditou em nós. Pescou dignidade no farrapo, o belo no desumanizado, a vida boa no que era só sobrevivência. Pediu-nos para nos reinventar, propôs fazer conosco o que ele se tornou para nós, pescadores de humanidade.

Segui-lo devolveu-me ao lado de dentro; a cada ensinamento, a fé bailava com as minhas perguntas. As palavras cirandavam promissoras; sua fé era dançarina e nossas dúvidas davam o ritmo do próximo passo.

Ele não acreditava a despeito dos que sofriam, mas a partir deles. Nunca falou do divino de costas para os pobres. Ele deslocou Deus do céu às encruzilhadas, do templo aos guetos, da letra fria da lei à pele dos esquecidos. Um Deus à flor da terra.

Minha dúvida também se deslocou. O milagre foi tornar o leproso saudável, ou dar à pele maldita o toque de quem se importa? O cego que o chamara de Filho de Davi via mais que os observadores escandalizados? O prodígio era uma multidão saciada com inexplicáveis pães ou a multiplicação de gestos generosos? A hemorragia da mulher foi estancada para mostrar poder, ou deixar-se tocar por uma maldita é perder poder para estancar o desamor?

Minhas dúvidas abriram lugar para um mundo que valia a pena. Pavimentaram o caminho onde Deus passou a andar ao meu lado. Observando Jesus, vi que Deus está naquele que desperta meus afetos, que acorda minha sensibilidade, que ressuscita minha compaixão e me coloca no mundo como a pergunta que dá voz aos emudecidos.

Descobri que transcender é ter misericórdia. Sair de seu desesperado egoísmo, expandir a consciência e ver-se melhor nos olhos do outro. Estar com Jesus revirou a minha incredulidade, o que era descrença jogou-me na exuberante presença de um Deus feito gente. Reencontrei a fé no cuidado com os feridos do mundo.

A compaixão tornou-se a minha fé.

Os dias foram ficando cada vez mais nervosos. Os poderosos passaram a olhar para Jesus com incômodo. Não gostavam de quem fazia o povo crer sem sacrifícios. Temiam quem preferia os que o Templo desprezou. Tinham nojo de quem festejava a vida com os transgressores. Aquele que levava esperança às margens também fazia o povo dar as costas ao Palácio.

Já se falava em conspiração para matá-lo; as conversas foram se tornando emboscadas; temíamos um apedrejamento a cada multidão; em Jerusalém e nos arredores, dizia-se que o nosso mestre era uma ameaça à família e à nação, um blasfemo subversivo.

A notícia da morte de seu amigo Lázaro chegou feito um furacão. Desacomodou o mestre como eu nunca tinha visto. E o fez fechar os olhos para o risco de ir a Betânia, casa de seus amores, vizinha da perigosa Jerusalém. Sabíamos que era um lugar hostil e uma séria ameaça a sua vida. Mas ele fez trocadilhos, disse que o amigo dormia e iria acordá-lo, provocou a nossa lealdade e insinuou a absurda ressurreição. Alguém comentou que ele não suportava a ideia de Maria estar desesperada e longe dos seus braços.

Avisamos que seria morto se pusesse os pés no vilarejo. Mas ele manteve a decisão intacta. A promessa de uma ressurreição entendi como mais uma parábola, outro provocativo enigma para uma vida tão precária quanto carente de recomeços. Alguns o viram alucinar ao prometer o impossível e discutiram a doutrina e os antigos debates dos saduceus. Não. Ali não vi um delirante nem um herege nem um teimoso, vi um amor mais forte que a morte. Ali a fé transbordou em mim depois de uma inundação de sentidos. Coloquei-me em pé e fiz o que seria a declaração do que creio: Vamos juntos para morrer com ele! A minha crença roubou o fôlego de todos. Eu não acreditava em ressurreição. Eu acreditava no amor.

Em Betânia, as cenas se sucederam velozes, quase impossível não se perder. Marta o recebeu com instruções e prognósticos. Maria perdeu-se em seu colo, chorou e o culpou por não estar lá e impedir a morte do irmão. E o mestre, até então cheio de certeza, se desmanchou vulnerável como nunca antes. Chorou. Depois disso outras cenas vieram, mas eu fiquei imerso em suas lágrimas. Mergulhei no coração de Deus através de suas dores.

Tudo o mais pareceu um detalhe. Jesus mandar remover a pedra que encerrava o Lázaro tido como morto e gritar pelo seu nome feito quem acorda o doente de um sono profundo. Não me comoveu Lázaro aos olhos de todos. Permaneci submerso na fragilidade de Jesus como no dia que fui batizado no Jordão. Na minha mente, o choro de Jesus foi o que de mais divino aconteceu em Betânia. Mas a multidão e os demais pareciam se desviar do homem que ali se revelava, afirmar uma milagrosa ressurreição era meio-caminho para o trono. Sentiam-se ao lado do Todo-poderoso. E eu só via o Todo-amante.

Aqui se formou a encruzilhada que o levou à cruz e os discípulos à grande decepção. Para os poderosos, livrar-se de alguém com a fama de ressuscitar pessoas era urgente. Para os discípulos, tomar o poder dos romanos era um delírio religioso. Para mim, ninguém tinha entendido nada.

Quando o mal caiu sobre nós, o meu sofrimento não foi o mesmo dos demais. O nosso mundo desmoronou em cascata. A traição pelo íntimo e confiável Judas Iscariotes. A Captura do imbatível e promissor rei igual a um colibri indefeso. A humilhação e tortura aplaudidas pela multidão que passou a ver nele um demônio. A absurda preferência do povo pela violência de Barrabás à ternura de Jesus. Os inescrupulosos chefes do Templo mentindo para salvar suas verdades. A indiferença de Pilatos que ignorava tanto o réu quanto os acusadores.

Pedro não sabia o que fazer com a fraqueza de Jesus; menos ainda com a fanfarrice de uma fé que fecha os olhos para o fracasso. João e Tiago não puderam mais trovejar planos de conquista. Judas descobriu tarde demais que seguiu o homem certo pelo motivo errado.

Meu sofrimento por sua prisão e morte nada teve de decepção. A cruz sempre esteve no horizonte que ninguém quis ver, mas ele nunca deixou de apontar. Olhando-o crucificado, tinha em mente o gesto escandaloso de se inclinar aos nossos pés para os cuidados que cabiam aos escravos. Na cruz, tanto quanto na bacia com água, para encontrar Deus também precisaríamos nos baixar até o ponto em que nossa humanidade não dependesse mais de prepotências.

Vi Deus ferido pela mesma dor que atravessou a minha história e a da minha gente. E acreditei.

Ver o divino Jesus crucificado foi tão triste quanto reconciliador. Eu me vi nele. Como um dia ele se viu em mim. Fui salvo por essa estranha beleza.

Há mais de uma semana falam de sua ressurreição. O que em todos causa euforia, em mim reivindica um pouco mais de escuta. Ouço de Maria que o confundiu com o jardineiro, mas o reconheceu pelo jeito de chamar seu nome. Não lhe diz nada que ao tentar segurá-lo em seus braços, ele tenha se negado e sumido diante de seus olhos? Tê-lo nas mãos como um troféu não seria perdê-lo? Não foi a saudade de quem não deixou de amar que o reviveu?

De Cléopas ouvi que ele e seu amigo viram Jesus em Emaús. Depois de caminharem lado a lado como estranhos, o convidaram para pernoitar, assim que ele deu graças e partiu o pão, viram que era Jesus, ainda que ao tempo de uma piscadela. Também disseram que o coração queimava enquanto o estranho lhes falava no caminho. Não percebem que a fugidia presença é um encontro no coração? Não foi a imagem e o cheiro do pão partido que o fez reviver?

Pedro, João e os demais insistem que Jesus está vivo e que agora nada e ninguém irá impedir o Reino. Contaram que entrou, mas não lembram de lhe abrir a porta; que tinham muito medo quando o viram no meio da sala; o escutaram acalmá-los do mesmo jeito que no barco açoitado pela tempestade e, depois de soprar neles como quem suaviza uma ferida, disse que o mesmo ânimo que o inspirou estava vivo neles. Do jeito que apareceu, não foi mais visto. Ninguém entendeu que não se trata da reanimação de um defunto para uma vingança triunfal? Não será a vida arejada por seu testemunho que sempre o ressuscitará entre nós?

Não quis ficar na casa onde os outros discípulos se escondem. Na verdade, lamento a confusão de ideias e sentimentos. Não sou melhor que eles, mas lamento não terem entendido a estranha beleza das lágrimas e feridas de Jesus. Elas foram aberturas na recalcada humanidade para o coração. É sofrimento, mas é por ele que nossas almas se conectam. As feridas e as lágrimas de qualquer um são as feridas e o choro de Deus. Toca no divino quem cuida das dores de alguém.

Oito dias depois do alvoroço de quem disse ter visto Jesus vivo, cedo e estou aqui com os demais nesse casa de gente assustada. As janelas estão tão trancadas quanto as portas. O calor só não é maior que a pressão deles para eu deixar de duvidar. Pedem para eu crer na ressurreição. Não sei o que lhes dizer. Pedro insiste, você precisa ter fé. Tocar nas feridas de Jesus é a única chance de senti-lo vivo novamente, meu amigo, respondo.

A casa está fechada há dias, se tornou uma masmorra húmida e cheia de gente que só reconheço pela voz e o cochicho amedrontado desde a Páscoa. O azedume de hálitos aflitos tomou conta do ambiente. Sinto-me enjoado como num barco em mar agitado. Estou tonto, mas sair e arejar nem pensar. Não deixariam. Precisam que eu creia no que eles creem.

Quem é este? Parece o mendigo pelo qual passei ainda na rua.

Talvez alguém tenha esquecido a porta mal fechada. E essas mãos estendidas? Ah, quer me convencer a ajudá-lo por causa das feridas.

Por que me olha assim? Este olhar. Esta fragilidade. Aqui estou eu chorando de novo, não bastasse o suor escorrendo no rosto.

Por um instante, pareceu minha irmã pedindo-me um abraço. Deus Amado! Meus olhos estão embaçados e ardem. Não sei o que pensar. Só tenho vontade de chorar e abraçar esse estranho.

Toque aqui, homem, não tenha medo.

Agora é Jesus que vejo? Estou quase desmaiando, vou me ajoelhar. Choro mais que suo.

Deus está aqui. Jesus está aqui. Meu Senhor e meu Deus!

Se não é Jesus, o amor que sinto agora é o mesmo que tenho pelo Mestre.

Ele parece querer dizer algo.

Tem muita gente que não me vê para ser feliz. Você parece aflito, mas só você aqui dentro conseguiu me enxergar.

Seja quem for, é Jesus! Meu Deus e meu Senhor!

Elienai Cabral Junior

O poder não é grande nem imperial nem público. É mínimo. Limitado pelo alcance dos olhos. Íntimo. Sua fronteira é onde o soco pode ser desferido. Irrisório. Sua importância é do tamanho de uma conversa despretensiosa.

Os grandes não sabiam quem era o nazareno maldito. O Imperador sequer entra nessa história. Pilatos o ignorava. Herodes se divertiu por ter nas mãos o mosquito que fez os inconvenientes sacerdotes engasgarem. A multidão conhecia a violência de Barrabás, mas da blasfêmia do anônimo nada sabiam que fizesse valer a pena.

Aqui está o poder, ínfimo, quase desprezível. Mas é aqui onde o mundo começa. Aqui o poder usina, faz dobras na realidade, produz pessoas, domina os corpos. Aqui, onde tudo é tão pouco e tão visível que se torna transparente.

Invisível, de tão visível, o poder a tudo e todos envolve.

Eis a onipotência, tão pouco, o poder espalha-se fluido e irresistível nas relações. Costura pactos. Feito fios que tecem as tramas da rede de um pescador. Um detalhe. Um afeto. Um medo. Uma ameaça. Um desejo. O outro que tem o que tanto quero. As disputas na Sinagoga. A segurança de ter o pão sobre a mesa. O prestígio do escravo com seu senhor.

Jesus de Nazaré não saía da cabeça provinciana dos chefes dos sacerdotes. Ele era uma ameaça. Gente antes dócil e servil, agora tinha esperança. Viviam recontando as histórias e lições do mestre galileu. E pessoas assim, que acreditam em outras versões para a vida, resistem aos que a querem sempre do mesmo jeito. A ameaça? Gente que imagina faz vibrar a mais resistente rede de controle.

Encontraram entre os seus discípulos, amedrontados e fragilizados com as ameaças vindas do Templo, a fenda pela qual ferir Jesus. Há sempre trincas em um muro feito de gente, nossos assustados amores. Não precisaram de mais que um punhado de dinheiro para desmoronar a fortaleza idealizada dos amigos. A princípio, apostaram que seria o assustado falastrão, Pedro, ou os Filhos do Trovão, tão desejosos de expressão. Mas foi o impaciente Iscariotes, de tal forma confiado às facas, prontificou-se a precipitar a guerra, a empurrar o líder para a luta.

Sem traição, o poder nada realiza. Nele, precisam ficar pelo caminho tantos quantos custarem a autoperpetuação. Não se trai por Roma nem por Jerusalém. Trai-se para ter razão. Para não sentir-se um fracasso. Pelo gosto infantil de superar um concorrente. Para fugir do próprio pecado. Para calar o medo mais íntimo. Para quebrar o espelho à frente.

Nenhum dos amigos queria o mestre lá, preso e humilhado. Pedro não suportou olhar nos seus olhos, quando por azar se cruzaram. Tudo parecia dizer que também não era o plano de Judas, a guerra que queria não começou, mesmo com o Mestre encurralado pelo exército de Caifás. Jesus decepcionou a lógica do embate, resistiu ao poder negando-se as mesmas armas dos opressores. Preteriu a violência e Judas não suportou continuar vivo.

O corpo de quem faz os pobres sonharem com a dignidade tem que ser humilhado e macerado até o último fôlego. Nada é mais odioso que tentar tirar debaixo dos pés a gente pobre e maldita que pavimenta o caminho dos homens ricos. A violência que sofre Jesus é do tamanho do insulto que ele foi aos donos do tesouro do templo. A ViaCrucisé a epifania do poder. O espetáculo da tragédia humana.

Jesus é arrastado violentamente até o templo, de lá ao Palácio de Herodes, para enfim curvá-lo a Pilatos em seu Pretório. A engrenagem que mói a carne de quem ousa lutar pelos pobres e esquecidos é quase sempre a mesma, do sacerdote ao rei, do rei ao juiz, do tribunal à morte.

Não precisaram andar muito, de Herodes até Pilatos, o Pretório ficava no mesmo palácio. Ambos os governantes estavam em Jerusalém por causa da festa, por isso enchiam a cidade de soldados e deixavam a imagem de força bem polida.

O cortejo atravessou pátios, percorreu luxuosos corredores. E tudo era pétreo e frio como uma mentira mal contada. Jesus, vestido de rei, era o bobo da corte. O rosto deformado pelas bofetadas, os cabelos ensanguentados e colados na cabeça, ele tinha o cheiro azedo das longas torturas. O nazareno arrastou-se feio e indigno pelos lustrosos pisos palacianos. A porta orgulhosa se abriu e ele caminhou claudicante até Pilatos. Ficaram sós. E o inusitado aconteceu, nenhum dos dois parecia estar ali. Um encontro de ausências.

À parte dos sacerdotes e seus soldados, que permaneceram do lado de fora do Pretório, porque se pisassem ali, ficariam impuros para os ritos da Páscoa, Pilatos e Jesus respiram outros ares. A pureza dos religiosos é a ficção que fica para trás.

O romano não tem a quem mostrar-se poderoso, e o judeu fica livre para não responder às perguntas que já traziam sentenças. Pilatos desdenhava as razões e o mundo dos judeus e via diante de si a carne barata de um inocente desafortunado. E Jesus, ele não encenava a ficção que começara na casa de Caifás.

Pilatos olha longa e profundamente para o prisioneiro. Ali, longe da pureza dos piedosos e dos interesses inconfessos dos poderosos, ele não consegue ver o criminoso, enxerga o corpo frágil e carente. E aparece o homem.

Jesus não vê o Governador, vê se desmanchar o gigantismo de que a tolice humana é capaz. E aparece alguém com dúvidas.

A verdade surge.

Pilatos conversa com Jesus. E se eles se escutam é porque se ausentam das brigas, das acusações virulentas dos sacerdotes, dos gritos ensandecidos da multidão. Conversam em um intervalo de tempo, na narrativa suspensa. Quando as engrenagens da máquina descansam, os encontros se tornam possíveis.

Você é um rei, pergunta o duvidoso Governador. As palavras são suas, desliza Jesus. Mas depois de ofertar a Herodes um silêncio subversivo, as escorregadias palavras eram ali o mais credível ponto de contato. Nada é tão verdadeiro quanto a dúvida e a suspeita.

Toca-se a verdade quando se resiste aos insólitos jogos de poder.

Não faço parte desse mundo, meu reino é outro; não falo a língua dos inquéritos, não me distraio com retóricas, já morri para o grande simulacro que reúne essa multidão. Sou rei de um reino em que dominar pessoas e usar seus corpos é a pior mentira. Meu testemunho é da verdade, a que experimentam aqueles que não temem perder a própria vida, que não fazem de uma imagem de sucesso o seu maior amor, que não se importam em serem confundidos com os impuros e malditos, que aceitam a rejeição como prêmio e o ódio dos poderosos como sinal de confirmação. Eis a verdade de quem ama, encerrou Jesus.

Nesse instante, os seus olhos se perderam nos vãos das enormes janelas que circundavam o salão, por onde entrava o grito por crucificação, para em seguida encontrarem com clemência os de Pilatos, que mergulhara inerte em um longo silêncio.

O que é a verdade, Pilatos perguntou sem esperar resposta. Seu rosto caíra desalentado. O que é a verdade para uma multidão que vive de se empanturrar com imagens de força? O que é a verdade para esses sacerdotes que nada temem mais que as ameaças à arrecadação do templo? O que é a verdade para aqueles que preferem expiar suas culpas inventando vilões? O que é a verdade para quem faz do medo uma arma de dominação dos corpos? O que é a verdade para alguém como eu, o que é a verdade para um covarde, o que é a verdade para quem não consegue saber quem é sem essa patética farsa?

Pilatos deu as costas a Jesus, olhou com nojo as próprias mãos. E antes de voltar ao pátio e à multidão, pediu uma bacia com água e berrou impotente, o que é a verdade?

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Sinto saudade de ter saudade.

Não sei ao certo quando meu corpo desistiu de me manter de pé. Mas sei que fui deixando de lado lentamente a capacidade de acreditar no trabalho, no dia, nas pessoas, nos amores, nos caminhos a seguir.

Foi devagar que a dor dos pensamentos migrou para os ossos, para os joelhos, tornozelos, cotovelos, para tudo que faz mexer uma vida. Fui parando porque tudo doía.

Escutar o barulho das crianças doía. Assistir às leituras da Lei e dos Profetas doía. O sabor da comida, o vento na pele, a pergunta dos curiosos, o conselho dos sábios, as receitas dos médicos, as broncas dos amigos, as pálidas soluções de sempre doíam.

O tom de voz piedoso doía. Os olhares, cenhos franzidos, gestos, lamentos; a misericórdia doía. A oração, a sinagoga, o fariseu, o mestre, a fé doía.

A dor empedrou meus desejos.

Deitei porque nunca mais dormi em paz.

Parei.

Nasci em Cafarnaum. Meus pais não. Chegaram aqui trazendo esperanças. O grande lago prometia ser um mar de prosperidade. O Galileia tinha cheiro de vida nova, de peixe, de saciedade. Foi a sua margem que erguemos as primeiras casas, pavimentamos as primeiras ruas. A sinagoga não demorou muito para ser construída. Era lá que garantíamos nossa salvação, a lei conhecida deveria encharcar as mentes dos meninos e pastorear gostos, decisões, os hábitos dos adultos. Lá recebi a fé que emoldurou meu mundo, que Deus dá a cada um o que merece.

Os primeiros anos contaram com o apoio dos romanos, ganhamos um Centurião, homem sério, mas generoso. O pão não faltava, o vinho era trazido de longe, material para fabricar os barcos e as redes era uma cortesia do Império. Ocupar a terra interessava aos poderosos.

Não demorou para chegarem mais estrangeiros, negociantes, mestres de novas disciplinas, gente de fé. Com eles vieram a alfândega e os coletores de impostos. Falava-se de muito dinheiro. E os que chegaram ricos, mais ricos ficaram. E os que trouxeram sua pobreza, foram desistindo da prosperidade que nunca acontecia. Vi meus pais murcharem aos poucos, feito tâmaras maduras. Cansaram aos 30, morreram não muito depois.

Acho que ganhei do meu pai o jeito luminoso de acreditar em coisas boas. Mas sinto em mim também a sombra que angustiava a alma da minha mãe. Eu oscilava entre o deslumbre de construir uma vida boa e a desconfiança lúgubre de que não era digno. Acostumei-me aos picos de entusiasmo seguidos por vales de desânimo, cada vez mais profundos e demorados.

Tornei-me um pescador, de dia, ofício do meu pai. E um sombrio notívago a desfiar melancolias noite a dentro, ofício secreto da minha mãe.

Entrava no lago com o barco cheio de fé, desembarcava repleto de peixe, mas chegava em casa com um punhado de dinheiro, que mal dava para o trigo e o leite. Cansado desde o começo, sempre duvidei do meu valor. Mas nada tentava deixar parecer à mulher com quem casei e às duas meninas sorridentes e carinhosas, filhas do meu amor. Depois que elas dormiam, chorava lágrimas ardidas. Sentia-me um fraco. Repetia a tragédia dos meus pais. Parece não haver lugar para gente como nós.

Cafarnaum era acelerada. Inclemente. Lugar para o sucesso inesperado e o fracasso imediato. Não havia tempo para a brisa fresca que vinha no fim do dia. Nada de conversas descontraídas, rodas de música, anedotas, risos. Todos tinham mais trabalho que tempo. Parar era pecado.

A sinagoga demarcava o espaço dos que triunfavam e o dos que fracassavam. O que pode tornar razoável a má sorte? Como explicar o fracasso? Era lá que as questões da vida infeliz ganhavam respostas que emudeciam vozes aflitas.

A impureza.

O demérito.

A transgressão.

Na casa da Lei chegava inquieto e partia culpado.

Não há benção para os que fraquejam na Torá, pecadores sob a ira de Deus. A pobreza em uma terra de ricos vira fácil nome de maldição, sinal de danação, fracasso na fé. Foi quando leram a história de Acã que aceitei minha desgraça. Nele se escondeu o pecado que a todos amaldiçoou. E calava um pouco. E morria um tanto.

Os muitos pecados que cometi desfilam na minha memória o tempo todo; tanto, que pecado é o que pareço ser. E na companhia das transgressões, choro amargo a culpa de não ser bom o bastante.

O êxito dos outros me acusa. Os olhares dos que assistem a minha pobreza confirmam a condição. Na Sinagoga, restam-me os últimos lugares. Tenho vergonha das meninas e de Marta, a quem já amei com uma força que há muito foi embora.

As noites tristes invadiram os dias. A culpa de existir sem êxito sequestrou qualquer energia. E o que era o cansaço ao fim do dia, de pescar, de não conseguir tanto peixe quanto se precisava; o cansaço de fazer mais do que podia e menos do que precisava virou um cansaço de viver. E de tanto parar enfraquecido sem poder carregar minha dor, foi a cama que me arrastou para o tombo do qual nunca mais me levantei.

Os médicos se revezaram tentando expulsar meus demônios. Os amigos se esforçaram nas explicações. Leram Jó. Recitaram os salmos. Eu só lembrava de Acã.

Foi quando falaram da febre da sogra do Pedro, pescador com quem sangrei o mar em busca de peixe. Contaram do escravo do Centurião. Ambos curados pelo ilustre galileu. Disseram que estava na cidade, em casa, e que todos correram para lá. Queriam me levar também. E o que fiz? Nada. Nem pensei nem me opus nem sorri nem murmurei. Permaneci jogado na cama que me restou.

Carregaram-me como a um defunto, de tão amortecido. Mas do cemitério para as ruas. Do fim para o começo. Foi o cortejo do desenterro. A bondade dos amigos queria virar do avesso minha tragédia. Chegando à casa, não havia janela pela qual olhar, menos ainda porta por onde entrar, tudo estava cheio com todos. O filho ilustre da Galileia é uma centelha de esperança na palha seca de miséria do povo. Gente demais. Você está com pena de mim? Sabe o que passou pela minha cabeça? Nada. Não havia mais tristeza possível.

Mas a generosidade dos amigos abre passagens surpreendentes. Ergueram-me até o teto. Destelharam a casa e impuseram-me a Jesus, descendo-me diante do mestre que nada mais dizia, boquiaberto. Olhei para ele e sabe o que eu vi em seus olhos? Nada. Ouvi o murmúrio inquieto de todos.

O cheiro azedo de tantas bocas respirando o mesmo e ansioso ar se multiplicou. Dava para escutar nas discussões e sentenças, a palavra que se repetia monótona e paralisante: pecador. Acho que ele também ouviu e ali entendeu o que me paralisava. Sabe o que disse o médico da sogra de Pedro? Nada. Muitos falavam, ele se calava. O silêncio dele usinava novidades; o meu silêncio seguia desistindo de tudo.

Alguns poucos minutos se passaram, mas parecem uma vida. E eu permaneço aqui, alheio, esvaziado, inerte. Um estorvo no meio da sala. O silêncio se mantém além do suportável. Inquietante. Mesmo eu, vazio e paralisado, fico incomodado. Não digo, mas tenho vontade. Fale qualquer coisa, penso. Ele me olha diferente agora. Parece ter algo a dizer. Todos percebem e silenciam.

Você está perdoado dos seus pecados.

Meus olhos lacrimejam e meus pés formigam. Senti na pele a palavra dita. Ainda não dei conta do que falou, mas sinto que meu corpo ouviu tudo o que precisava para acordar. Uma onda de calor percorre minhas pernas e braços. Suas palavras parecem mãos que me tocam.

Não me conformo com o labirinto de crenças em que todos entraram. Alguém lembra que só Deus perdoa pecados. Acusam-no de blasfemo e tenho medo. Porque sinto vontade de me levantar. Mas é melhor esperar um pouco.

Talvez apenas uma blasfêmia fosse capaz de contrariar a culpa que me paralisou. Parece que seu remédio é tirar de mim a fé que me exauriu. Será que só um blasfemo pode resistir ao poder culposo que controla e paralisa gente como eu?

Passa pela minha cabeça que parei de andar porque não há mais para onde ir, se Deus é do jeito que me disseram, aquele que me explica culpando. Só um blasfemo para apontar outra andança.

Estranho os que o condenam por me perdoar. Não se incomodavam com um homem paralítico e carregado de culpa. Mas têm escrúpulos com um homem sem culpa que pode carregar o próprio destino.

Olho para Jesus e sabe o que vejo? Nada. Nada do que esperava. Ele ri. Não vou dizer, mas penso ver o próprio Deus e ele gargalha. Como uma criança que ri de felicidade porque pregou uma peça nas demais. Muitos reclamam e eu continuo deitado, receio me levantar e causar ainda mais problemas.

Levanta, pega a sua cama e anda. Não seria o mesmo que dizer ‘você não tem culpa’? Ele diz essas coisas com a boca torta de quem acha graça.

Ai, ai. Chega. É o que vou fazer, é pelo que clama meu devolvido corpo, antes que a confusão me impeça. Estou com vontade de rir também. Olha a cara dos meus amigos. Mal conseguem esconder o riso.

A casa está dividida.

Há os que riem e os que preferem chamar a salvação de blasfêmia.

a-traicao-de-judas

Ele era incontornável. Seus olhos faiscavam desejosos. Sabia-se da obstinação em brigar pela liberdade. Admiravam-no ao mesmo tempo que o temiam. Judas tinha uma presença agridoce, fazia gravitar expectativas em torno de si, mas era conhecido como Iscariotes, porque já fora visto com os rebeldes empunhando facas.

Aproximou-se faminto de sonhos. Grudou seus olhos em mim com tanto apetite que não pude não retribuir-lhe com um sorriso acolhedor. Estávamos ali pela mesma razão, tínhamos uma só alma e ela era inquieta e esperançosa. Chamei-o pelo nome e ele arregalou os olhos surpreso por eu já saber quem ele era. Gastei dias entre os amigos colhendo nomes de gente que tivesse algo melhor que boa reputação; em busca de discípulos, queria cercar-me de perguntas, de atrevimentos, de desejos, de incômodos; fissuras em um mundo enfadonho, réstias em um reino de trevas. Desde que me contaram de Judas, esperei por ele como um agricultor aguarda as trovoadas de um tempo chuvoso.

Encontrá-lo fez bem a minha esperança. O moço era um acontecimento. Vocação nervosa. Ávido como a ideia que pulsava em mim.

Sem formalidades, perguntou-me pelo que se tornaria em seguida minha pregação mais pretensiosa, você acredita em um novo Reino? E que ele está entre nós. Mas todos têm medo e escolhem se esconder dos confrontos. Não vim trazer paz, mas espada e guerra. Sonhos sem conflitos adormecem. Chego como o ladrão no meio da noite, não quero acalentar dormências, quero acordar coragens. Toda coragem é incidental. O novo reino chegou, mas não para os covardes. Toda covardia é previsível. Seu olhar divagou, do jeito que acontece quando arregalamos os olhos para dentro da imaginação.

Depois dos ensinamentos, avisaram-me que faltavam ouvidos a Judas, disperso e apressado, parecia mais disposto a agir que a escutar. Desdenhei. Quem ouve o barulho da revolução por vir ensurdece um pouco para outros acontecimentos. Difícil ouvir ponderações quando se tem o grito da urgência ecoando na alma.

Enquanto todos dormiam, eu e Judas acordávamos sonhos em conversas intermináveis. Fez-me entender seu afastamento dos Sicários. Sentia que careciam da habilidade de reunir e inflamar o povo. Na última revolta, foi o que lhes faltou para o êxito, explicou. Depois de todo o sangue derramado, olharam para trás e estavam sozinhos. Não há revolta que perdure sem o envolvimento da multidão. Fez-me acreditar que eu reunia todas as possibilidades. Juntava as multidões e incendiava as mentes. Era amado pelo povo e temido pelos poderosos. Ouvido pela turba, meu evangelho assombrava o sinédrio e as sinagogas. Curava as gentes todas e adoecia de inveja os saudáveis piedosos e suas vidas cheias de exclusividades. Abraçar àqueles a quem ninguém tocava era um murro na pureza dos fariseus e sacerdotes. Seguido pelo povo, poderia esvaziar o templo e deslocar poderes. Acreditamos na reviravolta, quando a alvorada introduziu suas pálidas luzes no quarto. Judas apontou a estrela D’alva que piscava na janela, sorriu, apertou minha mão e sussurrou, é você.

O primeiro a chegar, o último a sair. Pragmático, calculava os gastos de cada jornada. Íntimos, molhávamos os bocados de pão no mesmo prato. Ao precisarmos escolher quem cuidasse do dinheiro, ninguém duvidou de que fosse ele o mais indicado. Nenhum de nós parecia tão comprometido com o custo da missão e a não desperdiçar cada oportunidade de juntar adeptos. Nenhum dos discípulos demorou tanto a entender porque preferi estar só e dispersei a multidão depois de alimentá-la no deserto. Sua paixão tornava urgente e guloso cada encontro com o povo.

Minha alma se afastou de Judas bem antes que ele desistisse de mim. Não demorou muito para descobrir-me outro. Para desencantar-me com aquele que viam em mim. Entediado, não queria mais ser o homem com quem todos vinham se empolgando, poderoso, multiplicador do pão e senhor dos milagres. Reli o Êxodo e os profetas e percebi que prodígios e entusiasmo não fizeram amigos para Deus e desconfiei do Messias da multidão. Passei a cultivar o prazer do anonimato e dos encontros discretos. Se outrora acreditei na revolução pelo poder político, se fiz da popularidade o sinal da salvação, agora duvidava de que outro reino pudesse ser realmente novo usando as mesmas armas dos que dominam as almas. Cada vez mais crente em uma nova humanidade, senti-me incrédulo com seus poderes, prédios e ajuntamentos. Mudei. E abandonei o homem a quem todos insistiam em seguir, o líder com quem Judas contava para tomar o poder com a força de quem ressuscita mortos e ajunta multidões. Os adeptos e o poder que os reúne são algemas e quem pensa ter a força de movê-los é escravizado sob o encanto de que lhe chamam de senhor.

Eu fui meu primeiro traidor.

Todos se escandalizaram, mas ninguém sofreu mais que Judas quando dispensei novos seguidores. Quando despedi para suas casas aqueles que socorri, ele não entendeu que queria para eles a liberdade que as multidões tiravam de mim. Vi seus olhos outrora intensos tornarem-se opacos e fugidios. E quem sentava-se ao meu lado passou a se esgueirar pelos cantos mais sombrios. Foi a Pedro que chamei de pedra de tropeço quando tentei explicar quem eu não queria ser e também a ele que chamei de diabo e pedi que se afastasse de mim, mas foi Judas quem baixou a cabeça. Sua presença tornou-se uma ausência.

Em um dia de exótica beleza assisti a sua vulgaridade. Quando o amor de Maria desnudou a frieza de todos. Eu precisava falar sobre a trama urdida para a minha morte e todos preferiam tergiversar sobre banalidades. Ela invadiu a sobriedade cosmética dos homens, parecia dançar, quebrou o caríssimo vaso doado pelas mulheres ricas de Betânia e derramou todo o perfume sobre minha cabeça. E eu deixei e os homens se constrangeram e Judas perdeu-me de vista. Suas palavras, tão sensatas e piedosas soavam secas e desalmadas. Lamentou sem sentir tristeza pelos pobres que poderíamos socorrer com o dinheiro do perfume, mas foi a mim que barateou com sua indiferença. Eu não estava mais ali. Olhou-me, mas nossos olhos não se encontraram mais. Eu já havia morrido para Judas. Então compreendi que Maria embalsamava-me porque me via morto naquela sala.

É preferível matar no coração aquele que se recusa a ser o esperado.

É preciso matar no coração aquele a quem se pretende dar as costas.

Judas foi visto na casa de Caifás. Contaram-me que tramara com os chefes religiosos me entregar aos soldados do Templo. Eis a mais amarga experiência, tornar-se repulsivo para quem um dia se foi amável. Judas culpou-me por ser outro. Demonizou-me para desistir em paz. Era como se fizesse a coisa certa; se não uma vingança, a justiça. O Diabo esconde-se em justas medidas.

Porque traí suas expectativas, ele traiu minha liberdade. Porque traí o seu sonho de poder, Judas traiu o que restou de nós, o amor.

Reuni os amigos para sobreviver à angústia. As horas pareceram dias até que nos juntamos todos à mesa. Judas sentou-se ao meu lado sem perceber que repetia o hábito de um amor que não mais havia, mostrou-se deslocado. Mas com olhos convictos de tão diabólicos. João e Tiago discutiam seus poderes em um Reino que jamais existiria e pareciam resistir ao único no qual poderiam me encontrar, o das desimportâncias, o dos que desistem das aparências para escolher os afetos. Tentei inútil tirar-lhes o peso das exigências, avisei que nenhum de nós estava pronto para a dor da derrota, que se perderiam de tão frágeis, para se encontrarem depois, quem sabe, mais inteiros. Pedro preferiu esconder-se em promessas e falsas esperanças, dizia ser o único a não me trair. Segurei suas mãos, olhei em seus olhos e avisei-lhe que o amor também cansa e se confunde, que suas promessas de fidelidade não acordariam junto com o galo.

Não me espantei ao descobrir que havia ali mais diabos que um Judas pudesse dar conta. Ao denunciar que estava entre eles aquele que me traíra e por quem seria entregue nas mãos dos poderosos, todos se entreolharam sinalizando culpas, pareciam tentar verificar se já haviam sido descobertos.

O diabo mora na pessoa que tememos que todos descubram que somos.

Judas aparentava lutar com as próprias ideias. Pude ouvi-lo tentar consolar Tomé desmantelado com a proximidade dos soldados. Dizia acreditar que minha prisão poderia ser uma amarga solução, que o povo acordaria com tamanha injustiça e se rebelaria; neste instante, vi que me olhou rapidamente e sussurrou algo que só depois Tomé me contou, que eu também despertaria da minha covardia para assumir meu papel de Messias.

A traição torna-se perversa quando não desiste de uma fé que desistiu do amor.

Entre diabos, era preciso exorcizar a mesa. Avisei que aquele que me vendera aos chefes religiosos dividia sonhos comigo como quem divide o mesmo prato. Neste momento, Judas mergulhava um pedaço de pão no meu prato cheio de molho. Apressou o bocado à boca e desvelou sua trágica insaciedade. Abandonou a mesa e encheu-nos do vazio que jamais conseguiremos superar. O desespero de quem ama é nunca cicatrizar a ferida, o absurdo sempre sangra, sempre fere.

Saí de lá há algumas horas e o seu olhar não saiu de mim. Pai, sinto-me terrivelmente só. Parece não haver os amigos a quem confiei minha alma. Não ter sido quem queriam foi imperdoável. Não consigo condenar o obstinado Judas, nem a Pedro, João e Tiago que dormem para não despertar o ressentimento. Rogo-te por eles. Também nós traímos sua fé. Também eu traí o sonho de Judas. Traímos nossos traidores para que o amor fosse possível e sua atordoante e ingrata liberdade.

Pai, não me sinto menos confuso que Judas. Nem menos instável que Pedro. Resistirão a essa dor que nem eu consigo suportar? Quem sabe, se fosse possível, também eu fugiria desta aflição que queima dentro de mim? Já posso ouvir os passos dos que me levarão. Se a tua vontade é esta ardida liberdade, que seja feita e que venha o amor e todas as suas salvações.

Judas? Não esperava te ver mais uma vez. Com um beijo, amigo? Espere, aonde você vai? Não corra. Não desista. Eu não desisti.

Pedro, orei por você para que também não desista. Confirme meu amor por Judas. Alguém lhe diga antes que seja tarde, também eu o traí.

A cara da poesia

A poesia não é uma arte nem um ofício, é um olhar. Aliás, um outro olhar para o que sempre foi visto, mas pouco percebido. Primeiro você vê como quem ama, só depois, poesia.

Os poetas gregos sempre mexeram comigo. Poucas vezes ouvi seus poemas, mas suas odisseias cheias de heróis, suas frases repletas de lógica provocavam em mim um estranho desejo, ainda que fossem quase que incompreensíveis para um pescador. O som das palavras combinavam como as danças das mulheres. O modo como eram ditas fazia parecer uma canção, descrevendo amores e tragédias, guerras e bravuras, mulheres muito amadas, homens de que nada pareciam sentir medo. Mas tanta beleza dava-me sempre a sensação de distância. Sentia-me indigno, um estranho.

Até que a palavra chegou perto. Uma aparição. Quando a palavra acontece, todas as demais parecem sumir, como as águas encolhem na maré anunciando a inundação. O silêncio é o recuo de quem se espanta e não consegue capturar tanta graça.

Ele era um mestre. Há muito se falava dele e de suas doutrinas ensinadas em prosa. Aproximou-se como um poeta que procura novos versos, com o olhar de quem busca outras versões. Meu irmão explicou, o rabino está atrás de discípulos. A hora era feia, estávamos exaustos e frustrados. Pescamos à toa toda a noite e nas redes só algas e liquens, as mortalhas do velho Galileia. O sol que nascia morria nossas esperanças. Olhou-nos como quem tem a notícia mais aguardada e não viu nosso cansaço nem nosso pavor de trabalhar em vão. Não viu a fronteira de nossas incredulidades, mas o início da surpresa. No fim, viu nosso começo.

Disse a Pedro com o tom de quem sabe para onde vai. Lancem as redes para o outro lado. E apontou sem sequer conferir nosso desprezo pela ideia. Pedro, casmurro, resmungou amarguras. Lanço porque obedeço. Pensei que era um desafio, desses exercícios de obediência incondicional dos escribas do deserto. Puxei a rede com desdém e quase sou puxado para o mar. Fizemos força juntos, um esforço que há muito não fazíamos, tão pesada e promissora ficou a rede, foi quando deu pra ver os peixes cintilando à luz do sol. Meus olhos embaçaram e tudo brilhava como em uma visão. Nada era, tudo dizia. Ouvia longe as vozes de todos. Não via mais o velho lago, nem os peixes, nem os barcos e seus pescadores. Eu via um sonho. Eu imaginava uma vocação. Eu desejava um mundo.

Voltamos à praia e Pedro se largou prostrado aos seus pés. Ele o ergueu com ternura e compreensão. Desdisse nosso tédio, rearranjou as palavras da nossa sina, falou que nos queria como pescadores, mas de gente. As palavras podem dizer tudo do mesmo modo, ou insinuar novos e incontroláveis sentidos.

Desde ali não desperdiçava mais suas conversas. Sabia que a cada vez que ele abria sua boca, eu poderia estar diante de novos acontecimentos. Ele não perdia tempo com explicações sem fim, preferia deixar-nos com perguntas a acalmar-nos com sentenças. Se o cercávamos com problemas, espalhava nossa imaginação com histórias e enigmas de tirar o sono.

Ainda hoje preciso me empenhar para lembrar o que aconteceu mesmo e o que foi só uma história contada pelo Mestre. Ele contava as histórias que vivíamos, nossos casamentos, pescas e semeaduras, dívidas e perdões, temperos e ceias; cada experiência nossa, opaca e insignificante, muda e rotineira, ganhava palavras, voz, cor; a cozinha da boleira anunciava a revolução do Reino, e no bolo, o amor é o fermento que transforma invisível a vida, de dentro para fora; a semente descuidada no chão duro da estrada, desperdiçada no mato, mas jogada no solo adubado, desenhava o retrato de uma graça que de ninguém desiste, para um dia florescer.

Foi proseando nossas vidas que ele rompeu as fortalezas desumanas da religião, se a história é de amor, o detestado samaritano é seu protagonista inusitado e para desnudar a mentira da fé, flagrava religiosos ocupados demais com o templo para ao aflito perceber no chão áspero da estrada.

Ainda sinto vergonha dos fariseus quando ele descreveu a oração que encontra o divino; lado a lado, o pomposo fariseu e o culpado publicano já seguiam com suas sentenças, todos pareciam já saber o fim da prosa, mas para o poeta o que é não é para a maioria das pessoas e o que todos negam pode ser a mais tocante afirmação. Do piedoso fariseu desnudou sua mentira na oração que para sentir-se no céu ao publicano jogou no inferno. E o coletor de impostos, listado entre bandidos, vergonha da nação, desmantelou-se humilhado, mas seu desespero mostrou-se humildade e coragem e quem foi a Deus carregando o inferno, desceu do templo com o céu sob os pés.

Seus gestos palavreavam sangrando mentes e corações. Se os mestres da Lei traziam a dura escrita e com ela esmagavam a mulher esfarrapada em seus erros, ele se agachava preguiçoso e rabiscava desimportâncias no chão. A vida não cabe em escrita alguma. Ela é o texto, frágil traçado; não o escrito, mas o ainda por escrever, indômitas letras do porvir. Se reclamam uma sentença, ele sugere uma dúvida, a mais atordoante: quem nunca errou que tenha a inclemência da primeira pedra. Como é fácil juntar pedras nas mãos quando se tem a lei no lugar de uma alma. Como é fácil caírem as pedras das mãos quando se tem uma alma no lugar da lei. Deu para ouvir a vergonha das pedras despencando suadas das mãos de todos. Eu ouvi o mestre perguntar à mulher pelos acusadores como quem convida quem fora cego a olhar o mundo pela primeira vez. A mulher engasgou com tantas palavras que poderia dizer, mas que nada explicavam. Como é bela a poesia de quem se cala porque as palavras se tornam impotentes.

Foi tocando a pele esquecida do leproso que o poeta contou a versão mais inesperada da vida. Aquele homem esquecido do lado de fora do mundo, para que a ninguém lembrasse que a vida também fede, que existir também é fadiga e doença, o Mestre fez mais que ouvi-lo, muito antes de curar seu corpo das purulentas feridas, ele o curou do esquecimento de todos, ele o tocou. Seu toque foi a inversão da letra. Desde aquele dia, impuros não são os que não podem ser tocados, mas as mãos de quem desiste de amar.

Em Jerusalém, descobrimos que a poesia não mora na opulência nem nos espaços privilegiados; que o realmente belo está nas ruas, do lado de fora dos palácios e do templo. Mal entrávamos na cidade santa e o cheiro azedo do sangue já embrulhava o estômago, eram milhares de bois, bodes, ovelhas e aves que eram mortos e sacrificados no grande Templo de Herodes; e o generoso Rei construíra um prédio, dizem, quatro vezes maior que o de Salomão. O Templo parecia uma cidade dentro da cidade. O exército de levitas bem armados protegia as portas para que ali não entrassem desvalidos, defeituosos, nem crianças, nem velhos, nem mulheres, letras mortas para o texto da lei. Todos os homens de bem corriam para lá, menos o poeta.

Achávamos estranho, mas ele se inspirava na periferia de Jerusalém, os arredores do templo tinham mais graça e com aqueles de quem os poderosos tinha desistido, ele compunha a mais surpreendente canção. Chegamos ao Betesda, o nome já era feio de cara, Casa de Miseráveis. Era um dos tanques de água que alimentava um sofisticado sistema hídrico. Ao redor se juntavam todos os malditos que ao Templo não podiam ir. Suas águas se moviam a cada ciclo de tempo, quando eram impulsionadas para o tanque seguinte. As águas passavam por ali em direção ao lugar onde nenhum daqueles homens e mulheres poderiam por os pés. Mas seu desespero criou uma crença, e toda crença filha de um pavor produz perversidade ainda maior. Acreditavam as aflitas almas que as águas se moviam porque um anjo as mexia. E quem dos miseráveis fosse o menos miserável, o miserável mais rápido, o miserável mais sortudo e se jogasse primeiro nas águas, era curado, criam. Adivinha. Ninguém sabia nunca quem primeiro chegava e nunca ninguém saía dali, esperando que o milagre um dia lhes encontrasse. Ele se misturou àquela gente. Descobriu um que já nem se lembrava há quanto tempo estava ali. Um paralítico. Perguntou se ele queria ficar bom. Mas o homem também estava paralisado pela crença, repetiu a ladainha do anjo e reafirmou sua má sorte de nunca chegar a tempo nas águas. E nem percebeu que um novo tempo estava sendo anunciado. O mestre o levantou do chão como quem junta palavras gastas para contar uma história nunca contada. E o texto da esperança saltou para a vida até perder de vista quem escreveu o primeiro verso.

Todavia, ninguém desdiz a versão de sempre sem pagar um alto preço. Sua vida foi Deus dito de outro modo. Seus passos foram a gramática de outra humanidade possível. Ele não interpretou a lei, ele a transcendeu, foi além das letras de sempre, experimentou suas entrelinhas e virou a fé ao avesso. Ele encarnou o que nunca ninguém teve coragem de dizer. Julgaram-no porque é mais fácil chamar de blasfêmia que seguir as palavras que sopram ávidas pela novidade. Surraram-no porque não suportaram a violência de quem inverte mundos com a força da beleza. Prenderam-no porque sua liberdade ameaçava revelar a prisão de alma dos que se acovardaram diante da vida. Mataram-no porque esqueceram que as palavras são sementes, como o grão de trigo, que uma vez mortas viram tantas outras palavras, e possibilidades, e versões, e vidas, muitas vidas.

Agora ele está aí, o mais infame dos homens, erguido na maldita cruz dos romanos. E eu aqui lembrando de tudo isso, numa mistura de dor inconsolável e estranha gratidão. Ao meu lado, essas mulheres a quem tanto amou gritam, gemem e choram, não sabem o que fazer com a perda. E eu estou escandalizado comigo mesmo. Porque o que vejo é mais que um corpo que morre, mas um texto que sangra, de quem viveu como a mais vertiginosa poesia escrita entre humanos. E tenho a mesma sensação que ele me deu em outros tempos estranhos, de que há muito mais por dizer, de que o não dito está por acontecer. Será isso então o Reino de Deus? O ainda por contar? O belo é o inaudito? O inédito é graça?

 

Eu vejo o Filho de Deus. Eu vejo a palavra que sangra. Eu vejo a vida que verte.

“Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra. A Palavra era Deus, desde o princípio à disposição de Deus. A Palavra tornou-se carne e sangue, e veio viver perto de nós. Nós vimos a glória com nossos olhos, uma glória única: o Filho é como o Pai, Sempre generoso, autêntico do início ao fim.” (Jo 1.1-3,14)

 

nebula

O mundo não é uma casa nem uma celebração de solidariedade. Nele, somos afligidos com frequência.

Incerteza.

Acidente.

Hostilidade.

Insegurança.

Deve vir de fora o sentido que nos salva, me explica o mago a quem revelo a tragédia até aqui oculta, tornei-me incrédulo em pleno ofício da magia. Dos astros do céu, do distante e misterioso brilho orquestrado pelo firmamento vêm nossas razões, ele completa. Ando desconfiado de tudo. Desde o fracasso das últimas previsões, o céu deixou de ser o mapa que me guia, as estrelas não me confortam mais.

Buscamos explicação no céu, porque entre nós tudo parou de dizer, toda esperança se esgotou, as coisas do nosso mundo se tornaram inconciliáveis e as pessoas, opacas e vazias. Essas aparentes desordens daqui devem ter razões celestes. Alguma coisa que aconteça lá deve dizer o que ocorre aqui, emendou outro mago; aquele que suspirava entre as frases, tamanha era a fé nos astros. Ele insistiu na explicação, quanto mais apagado de esperança nos parece o mundo, mais brilho no longínquo céu procuramos. E isso me soou mais vício que virtude. Chorei sem lágrimas.

Tornei-me um mago sem magia e o que antes era pretensiosa sabedoria, agora se tornou um ácido desencanto. Suspeito que o deslumbre com o céu não seja mais que fuga, uma sangria de almas aflitas. Porque tudo aqui é impermanente e sombrio, erguemos os olhos de desespero. Mas insisto em seguir com os magos. Eu que perdi a fé sobrevivo do ardor dos que podem crer.

Naquela noite, o céu era um luzeiro piscante. Sob a sinfonia de grilos e outros bichos, sem o cobertor das nuvens, o frio queimava a pele e os rostos pareciam apagar de tão obscuros e acendiam o espaço infinito tal qual um palco iluminado. O céu fez-se a ribalta onde tudo parecia encenar o destino do mundo. Mas eu duvidava.

Os olhos dos magos estavam vidrados nas estrelas e seus brilhos. Apressada, uma delas interessou a todos, movia-se como quem se rebela, abandonando o céu em sofreguidão. Rasgou o espaço infinito e mergulhou num inóspito chão. Apontava o inesperado caminho para a terra dos judeus. Uma estrela não deixa o céu se não for para iluminar caminhos, um deus não chega entre nós se não for destinado ao trono e para governar com luz na terra das sombras. Incrédulo, a estrela rebelde adoçou meu amargo coração.

Os demais videntes fizeram planos de seguir o rastro luminoso. Decidi rápido que acompanharia o grupo. Reuniram dinheiro, comida e roupas para a peregrinação e os presentes para aquele que deveria ser um rei entre os judeus. Jerusalém é para onde se vai, se é por um poderoso judeu que se procura.

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão[1]”, tantos foram os dias viajados, não se podia desperdiçar fôlego e tempo. Em Jerusalém, procuramos pela casa mais honrada, pelo endereço do poder, a residência de Herodes. Batemos à porta do palácio e anunciamos o motivo da peregrinação, um bebê recém nascido e herdeiro do trono. Ele não estava lá. Mas um poderoso é a pessoa mais desesperada, vive da impossível certeza de que nada e ninguém importam mais que ela, concluí.

Ao ouvir de um bebê eleito pelos astros para reinar, a face escondida do poder apareceu em seu rosto, mas disfarçou-se nas palavras polidas e interessadas do estranho governador. O incrédulo é alguém que desistiu do que aparece, porque aprendeu que é na vida secreta das palavras, que as gentes dissimulam seus medos e paixões. Por isso, também duvidei de Herodes e seu piedoso tom de voz. Uma onda amarga inundou minhas entranhas novamente. Senti-me jogado no mundo, incrédulo com o céu e com os palácios.

Herodes reuniu seus sábios, consultou seus livros e falou-nos da profecia que indicava uma aldeia, Belém. Nosso destino.

Os magos mal disfarçavam a decepção. Esperavam por um palácio. Agora seguiam para Belém. A noite chegou e se escurece o chão, brilham mais uma vez o céu e suas esperanças. Todos tão arregalados e atentos aos astros, enquanto fecho os olhos de tristeza. Entreguei-me as minhas trevas e dormi resignado. Despertei com os comentários e agitação. Todos gritaram ao ver aquela que seria a rebelde e promissora estrela mais uma vez. Acordei tarde demais para querer mais que o testemunho dos meus crentes amigos. O rastro da rebeldia era o nosso caminho.

O amanhecer devolveu-nos à trilha. As estradas se cruzavam e os caminhos de outros se juntavam em direção à aldeia, ganhamos a companhia de gente ferida e sem fôlego, fugiam para sobreviver. Perderam casas, amigos e familiares. Deixaram para trás as ruínas de uma vida esmagada pela guerra. Poderosos conquistaram suas cidades e sequestraram sua memória. O que pode assaltar mais o futuro que a perda das lembranças de quem somos? Como lembrar de quem podemos ser, se quem éramos foi feito em farelos? Nas faces, o tom cinzento de quem não tem para onde ir, a não ser para longe da morte. Para nós, Belém deveria ser o berço de uma nova época, para eles, apenas um entreposto entre o caos e a incerteza. Os magos, acostumados à leitura do céu, pareciam nada entender dos dizeres da terra.

Assim chegamos ao destino, com a sensação de que ali não se podia viver, menos ainda nascer. Não havia lugar para belezas, Belém era para se abandonar, não para se chegar. A aldeia tinha cheiro de miséria, pelas ruelas corriam o esgoto e as crianças; resvalavam os que chegavam e os que partiam. E nós éramos um desencanto só. Os magos se olharam e só viram o vazio nos olhos uns dos outros. Reticentes, pararam no meio do nada. Mas eu segui em frente, porque essa é a hora de quem em nada crê. Assim faço a tanto tempo, sigo porque não tenho o que esperar. Os magos vieram comigo.

Passei a fazer aquela que parecia ser a mais tola das perguntas, por um bebê recém nascido. Eu nada dizia das estrelas, mas os magos não se continham, talvez de vergonha, e completavam avisando que uma estrela os guiara até ali, onde um bebê que seria rei havia nascido. Alguns riam. Outros ignoravam e continuavam o seu caminho. Procurando o que seria um grão no areal, minha cabeça se encheu de pensamentos mais uma vez. Imaginei que se há um Deus entre nós, não podia ser nos palácios o seu lugar, ali os mesquinhos forjam aparências e vivem a despeito do mundo. Mas ele deveria viver entre as vítimas dos palácios, na periferia do poder mora a verdade, é lá que pulsa o mundo que sofre e apela aos afetos e nos reivindica. Pensei de novo e tive medo da loucura, se há um Deus, ele tem que ser uma criança, porque é de recomeço que precisa quem assistiu ao fim de tudo a vida toda.

Uma mulher parou e fez cara de que tinha algo a dizer sobre o que perguntávamos. Contou-nos de um casal que aceitara passar a noite no estábulo, já que na sua casa não havia qualquer quarto vago. Um dos magos cochichou sua suspeita, enquanto seguíamos com ela, achava que a moça debochava de nós. Eu me perdi de novo entre os pensamentos, imaginei que em um mundo tão estranho, não poderia haver lugar para um Deus e que a sua casa entre nós só poderia ser o mais inadequado dos lugares. E na contramão dos crentes, acreditei.

Alguma coisa realmente diferente está para acontecer quando os crentes duvidam e o cético crê. Mas uma revolução nos espera, quando quem lidera os magos duvidou do céu e suas mágicas estrelas e confiou na terra e seus débeis bebês.

Fomos levados até o improvisado abrigo da família de refugiados. Um homem maduro nos recebeu, chamava-se José; com a pele envelhecida de quem há muito trabalha, mas nos olhos, o brilho das estrelas de quem desdenha a dor, de tanto que sonha. Vi os magos olhando para o seu rosto com a mesma atenção que liam os astros. Ele era o pai e deixou-nos chegar perto da mãe e do bebê. Era uma jovem assustada e insegura, a criança sugava-lhe os peitos faminta. Todos emudecemos reverentes. A imagem era tão singela e tão bastante, tão simples e tão promissora; tivemos vergonha dos presentes; a mirra, o ouro e os perfumes pareceram dispensáveis. Diante de nós, o flagrante do berço da vida. E estava por aí o tempo todo. Longe do céu, no colo da jovem. Deus é um bebê. Deus é o recomeço inesperado. No fim, o começo. Deus.

No mesmo dia voltamos para casa, mas nunca mais voltamos para quem éramos. A criança esvaziara o céu. Deixamos de procurar pelos astros, não conseguíamos mais tirar os olhos dos rostos. Os mais comuns, os mais sofridos, os mais humanos, o convite ao ofício de seguir em frente. Teimosamente. Neles, o mapa que nos devolve ao caminho, a magia da insignificância.

[1] Nos bailes da vida, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento.

imageSó existe palavra porque há amor,

abertura nervosa para o mundo.

Se falamos é porque o outro nos afeta,

a vida nos fere,

o mundo nos reivindica.
A palavra é incontornável.
Viver é dizer.

Falamos tanto que o silêncio palavreia,

os gestos dizem,

os olhares brigam,

o toque sussurra poesia na pele.

Se sonhamos,

é porque antes de soltar-se na vida,

a palavra é imaginação.
Antes de nos tirar o fôlego e dizer que Deus é amor, João nos surpreende,

afirma que desde sempre Deus é palavra,

logos,

revelação,

manifestação,

testemunho,

sua glória é dizer-se entre nós.
Foi assim. Cleopas e seu amigo tiveram sonhos nunca sonhados. Largaram a aldeia, onde os dias se repetiam tão monótonos que hoje parecia ontem e o amanhã era a mais estéril das expectativas. Ele chegou contando histórias e acendendo dúvidas. As mais libertadoras dúvidas. Então, o que sempre foi poderia não ser mais o que sempre seria.

Outras versões para o mundo são possíveis quando a palavra acorda. Acorda-nos.

Um rosto comum, uma origem boba, um nazareno. Até que começou a falar. Despertou desejos outrora adormecidos. Suscitou imaginações. Anoiteceu medos. Amanheceu gostos. Os acanhados gargalharam. Os esquecidos apareceram. Os tímidos se aventuraram. Perfumes perderam frascos. Tocadas e amadas, as mulheres o batizaram com lágrimas.

Deus.

Palavra.

Amor.

O céu à flor da pele.

A palavra é o milagre. Cegos viram? Paralíticos andaram? Leprosos foram purificados? Mortos revividos? Surdos ouviram? Pobres tiveram pão? Não, muito mais que isso. Cegos foram enxergados. Surdos foram ouvidos. Os leprosos descobriram que impuras são as mãos que não os tocavam. E mortos eram aqueles que abandonaram a imaginação. Mas o Reino… Vocês não vão acreditar! O Reino não é dos que mandam. É dos pobres.

Ele falava e me virava do avesso. Pôs de cabeça para baixo o que da vida eu sabia. O que era primeiro fez-se último. E eu, que me sentia o derradeiro, vi-me principiando mundos. Disse o amigo a Cleopas, enquanto lembravam o que os tirou de Emaús e os levou a Jerusalém.

Na estrada, voltavam para casa. Mas os afetos, na contramão, regressavam teimosos para a Jerusalém que não mais existia. Desde a grande humilhação. Desde seu último fôlego na maldita cruz romana. Lá onde a substantiva esperança definhou em um verbo conjugado no passado.

Um homem se aproximou e logo se viram seus desavisos. Estranhou a conversa aflita entre Cleopas e o amigo, pareceu ignorar o desacontecimentos do Calvário. Mostrou-se inconformado com os ditos. Descreu na sombria versão da cruz. Recusou o ponto final e retomou o assunto. E o que era um descaminho entre a nostalgia e a revolta tornou-se uma estrada para o ainda não compreendido. O companheiro inusitado pavimentou aquela trilha com as palavras do texto sagrado. Lutou com as crenças. Cavoucou as memórias. Pastoreou as palavras.

Cleopas não teve coragem de dizer, mas o estranho, de repente, lhe pareceu íntimo. Aqueceu seu coração enquanto discursava. Suas palavras eram como brasas nas entranhas. Por um instante, elas pareciam ressuscitar Jesus.

Anoitecia quando a despedida se impôs. À entrada da casa, o estranho encerrou o texto, mas insistiu nas entrelinhas. Insinuou partir feito um sedutor atiçando desejos, queria que o quisessem. E assim foi. Convidado, aceitou ligeiro anoitecer ali e seguir o caminho no dia seguinte.

O misterioso já era um de casa, ainda que anônimo. Ganhou a honra de agradecer e repartir o pão. De sua oração ninguém se lembra, mas a imagem do homem erguendo o pão e depois o repartindo atravessou almas e memórias como uma flecha. E o que era um estranho íntimo desvelou-se o próprio Jesus. A palavra de carne e sangue. Taquicardia. Mãos suadas. Os sonhos no arrepio da pele mais uma vez. A vida de novo. Jerusalém em Emaús.

A vista vertiginosa do Cristo foi embaçando nas lágrimas dos amigos. E antes que acabassem de esfregar os olhos para melhor verem, ele não estava mais. Mas nunca esteve tão ali. As palavras que borboleteiam na alma era o Cristo que neles agora vivia. A palavra se fez corpo em Jesus. E agora, seu corpo se fez palavra nos discípulos. Cristo nunca foi tão vivo quanto depois de morto.

O Deus que viveu entre nós pastoreou as palavras para salvar a vida, comentou Cléopas, enquanto arrumava as coisas para voltar aos outros discípulos e anunciar que um pastor das palavras nunca abandona suas ovelhas.

 


(Ao meu pai, meu amigo e homem admirável, em seus 50 anos de ministério deixou de ser apenas o pregador do Evangelho e se fez a própria mensagem entre nós.
Obrigado, meu pastor das palavras!)

As vozes ressentidas não lembravam a imponência e sublimidade de outras reuniões do Conselho. A certeza de sempre não combinava com o tom tíbio dos sacerdotes e escribas que agora se revezavam no empenho de salvar os preceitos da fé. Impossível manter em pé uma crença quando se esparrama no chão duro de uma tragédia.

As Legiões Romanas impingiam dor e vergonha ao povo. Cada dia se contavam menos homens, dizimados em combates desiguais. E mais mulheres, desfilando vergonha e dor pelas ruas, tantas delas estupradas por soldados invasores, em sinal de posse e dominação.

A tradição não abria mão de que apenas crianças nascidas de um pai judeu podiam ser consideradas legítimas herdeiras de Abraão. O que já fora um preceito cheio de viço e orgulho tornou-se uma vexaminosa marca sobre meninas e meninos, nascidos da violência. A lei que se arrogava divina e afirmadora de uma nação, agora repetia a violência e confirmava bastardos.

Deus, assim, tornou-se um diabo. E a vida piedosa, um inferno.

Já eram uma multidão os sombrios despertencidos.

Um jovem sacerdote, amigo próximo de Elazar, rabino que ensinava no deserto, rompeu a vergonha e gaguejou o que todos precisavam que fosse proposto, mas sem a coragem de dizer sequer as primeiras palavras da outrora infâmia. Não se deveria mais impor a esmagadora carga de considerar bastardos os filhos de mães judias sem pais judeus, com o risco de sequestrar o futuro dos filhos de Abraão. Alguém confirmou com a voz embargada, não bastasse serem estupradas as nossas mulheres, nossos filhos são abandonados por aqueles que lhes deveriam acolher.

As vozes engasgadas não disfarçavam a palidez do rosto e o olhar disperso. Ninguém nunca soube ao certo quem pronunciou a frágil sentença, que uma vez dita, contou com o silencioso assento de todos, também do Sumo Sacerdote. Se a mãe judia se ressente de um pai judeu para o filho que cresce em seu ventre, Deus, o misericordioso, é o pai que ao filho falta.[1]

E a fraqueza da regra pode ter sido a fresta para a vida ressurgir.

A notícia da reunião foi ouvida como uma boa nova, um alívio, uma esperança. Um sopro de inesperada dignidade correu vielas e arejou almas angustiadas.

Maria nunca se livrou do pesadelo. O cheiro azedo do homem que invadiu seu corpo e violou sua alma ainda era uma lembrança que lhe assaltava inclemente. Mais ainda agora, que um fruto amargo era gestado em seu ventre. Chegou a pensar que nem fosse verdade. De tanto que queria que tudo fosse diferente. Desde então evitou o noivo, José. Sua bondosa companhia e a insistência em fazer planos para o futuro eram uma tortura para quem já se sentia assim indigna.

Maria, tão calada, preocupava a todos. Era vista pelos cantos. Estaria infeliz pelo casamento? Não, sonhava acordada para acalmar os pensamentos Divagava na doce fantasia de que o bebê não era filho do asqueroso inimigo. Não, no seu sonho, tudo era outramente belo. Porque bebês eram feitos divinos e o seu chegara ao ventre soprado por Deus, consolava-se. Chegou a ver um anjo, como aquele que visitou Ló e o levou embora do caos. No seu desejo encantado, quase dormindo, mas o bastante acordada para guiar a imaginação, o ser luminoso lhe dizia que não estranhasse a gravidez. Deus era o pai da criança. E dormia para não acordar amarguras.

A notícia entrou pela porta e despertou Maria, que cochilava suas tristezas. Sua prima, Isabel, aos berros, ora segurava sua barriga, que ainda disfarçava o feto, ora agarrava seu rosto e, atrapalhada, misturava as falas com gritos quase insanos. Salvas. O Salvador. Ele é o Filho de Deus! Jeová é pai. E antes que Maria deixasse claro que nada entendia, Isabel contou as novidades do Sinédrio. Maria se agarrou à Isabel e chorou. Até dormir novamente.

Ao acordar, as lembranças do dia anterior estavam incertas. Havia o rosto excitado de Isabel, a história da nova doutrina e a doce e inconfessa fantasia de um filho digno em vez do bastardo.

Não precisou de um delírio para imaginar que sua tragédia bem podia ser o sinal de um grande evento. Uma salvação. E quando pensou assim, sentou-se na cama e o olhar se perdeu pelo quarto que já estava iluminado pela manhã. O coração bateu forte e descompassado. É isso. Tanta tristeza podia ser como a dor de parto que em breve sentiria, a gestação de um santo, o nascimento de um homem distinto. Um profeta, talvez. Um guerreiro. Quem sabe?

Afinal, se a salvação de Deus tem que virar do avesso o mundo e sua injustiça, nenhum começo seria mais apropriado que o mais maldito e sofrido dos mortais.

É do ponto cego, dos esquecidos, das desgraçadas invisibilidades, que o mundo se desvela em suas verdades. Ali, de onde ninguém, vendo, é visto, que tudo se evidencia.

Passou pela cabeça o gileadita Jefté, filho de uma prostituta, que depois de expulso e envergonhado, foi trazido para liderar sua gente à vitória sobre os opressores. Lembrou do Profeta Isaías e o prometido que nasceria inglório. Com meio sorriso, até sussurrou as Escrituras, “uma muda mirrada, uma planta ressecada.” Impossível não associar. Desprezado por todos, sem beleza. E o que era profunda angústia explodiu feito revelação. Cheio de dores, seria a cura para o mais terrível sofrimento; banhado de vergonha, o fim da culpa; açoitado por doenças, o remédio para as enfermidades. Chorou de novo, mas desta vez, era a esperança que molhava seu rosto. Como as águas correntes do rio dissolvem as manchas das roupas.

Alguém lhe avisou que seu noivo a aguardava na entrada da casa. Estranhou a hora do dia para a visita. Teve medo e por um momento desistiu de tudo o que vinha pensando. Suspirou triste e lacrimejou. A sombra da tragédia acenava mais uma vez para a sua realidade. Arrastou os passos até a porta e encontrou José, que a olhava como quem já tivesse sido avisado da desgraça e de mais alguma coisa.

O silêncio que se seguiu pareceu um recuo do tempo, um intervalo nas horas. O mundo parou. Estava um diante do outro e tudo o mais inexistia. Nenhum dos dois conseguia dizer nada. Os olhares se curvaram, para se erguerem em seguida e se reencontrarem reticentes.

Os olhos conversam para salvar-nos do cansaço das palavras.

Tanto a dizer e o silêncio engoliu as frases ensaiadas do homem e desdenhou o pedido inaudito de clemência da moça. José emitiu alguns sons, tentativas indecifráveis de iniciar qualquer palavra e, despedindo-se dos discursos, se aproximou de Maria, bem quando ela tentava inútil desengasgar. E a abraçou com tanta força que entre os corpos não restou lugar para qualquer conversa.

[1] BONDER, Nilton. A alma immoral. Editora Rocco. São Paulo, 2007. O Rabino Bonder, entre tantas histórias que conta para ilustrar como a alma transgride, ou trai a tradição para salvar a vida, sugere que Jesus bem poderia ter sido fruto do estupro de Maria por um soldado romano, prática comum à época. Conta da tradição revista pelas autoridades para determinar a ascendência judaica, em que apenas filhos de pais judeus poderiam ser condiserados judeus. Passou-se a considerar bastante que a criança tivesse a mãe judia para que fosse considerada judia. Bonder completa dizendo que se a criança não tinha um pai judeu, Deus seria seu pai.

Tomei aqui a idéia do Rabino para construir uma ficção, mas que seria uma linda verdade, se verdade fosse.

Uma reunião de seguidores nunca é incólume nem vítima, ainda que digna de compaixão.

Uma vez que se preste a legitimar um líder, impõe-se sobre ele. As múltiplas e difusas expectativas obrigam o herói à invisibilidade, a estranha solidão de cercar-se de tantos ao custo de quase não existir; ele que tem que ser tudo, acaba sendo um nada.

A multidão de tantos não se reúne sem a solidão de alguns.

Dias sem nem comer direito, ocupados com as seguidas tarefas, o Mestre e os discípulos viajam para longe de todos e seus problemas e suas demandas e suas expectativas sem fim. Procuram a distância e o descanso. Mas do lado de lá do grande lago, a imagem ainda imprecisa já tumultua o barco e amarga a viagem. Mais uma multidão. De gente sem graça, sem destino, sem pastor, sussurra Jesus com os olhos marejados de afeto. Mas um dia saberá que é também uma multidão sem alma.

Jesus desembarca entusiasmado, cheio de vontade de ajudar e cuidar de todos. Os discípulos? Anestesiados de tão exaustos.

Ele não se dá desprotegido à turba, nem se oferta ingênuo aos famigerados. Não responde às questões, suscita outras dúvidas; não acalma angústias, desperta sensibilidades; não indica caminhos, suscita revoltas; cada história que conta é uma atordoante distração. Jesus dispersa convicções para suscitar novos cenários.

A multidão quer se alimentar de quem espera que ele signifique, mas sua saciedade não é o que quer o Nazareno. Jesus a quer faminta. Bem-aventurada a fome que a todos libertará.

Um menino brinca entre os cenhos franzidos. Flutua desconexo de todos os interesses e medos. Além dos comentários de incerteza diante de tudo o que o novo profeta dizia, ouve os primeiros murmúrios sobre a tarde que chegara ligeira e o problema novo da comida que todos precisariam, mas ninguém parecia ter. Longe de tudo. Gente demais. Nenhuma organização. Todos tensos, menos a criança. Ela se distrai com as pedrinhas, cantarola histórias. Vez ou outra, ergue a cabeça e percebe a agitação dos adultos.

O menino desliza lépido pelos corredores de gente. Um labirinto de angústias para os famintos, um jogo curioso para a criança. Sua leveza o deixa um pouco de fora, alheio e estranhamente feliz.

Enquanto toca as pessoas aflitas e trata suas dores, Jesus conta histórias e encadeia perguntas intermináveis; para os austeros homens da lei, um labirinto escandaloso; para o Nazareno, pensam alguns, parece um jogo.

Todos se afligem e ele parece se divertir e brincar com comparações e poemas, lamenta um dos discípulos mais próximos. Razão para acordá-lo do sonho e fazê-lo enxergar a enrascada em que a todos colocou. Hora de mandar embora a multidão para que encontre o que comer pelo caminho. Fome não é brincadeira.

De onde virá a comida? Inquire o porta voz dos incomodados discípulos.

A pergunta ressoa entre todos. A incerteza enfraquece a obstinação que a todos reuniu ruidosos. E o que antes juntou como que encantados, agora os fragmenta silentes e desprotegidos. Gente demais, solução alguma.

A solução está entre vocês. É tudo o que Jesus diz, antes de voltar à parábola que deixara inconclusa. A ordem também ecoa no meio do povo. Metálica e aflita.

O silêncio.

Os olhares.

O vazio.

O menino que encontrara outras crianças longe dos pais ouviu a pergunta e a resposta. Estranhou o silêncio e não gostou da sensação dos adultos inseguros. Maneou a cabeça, rindo de que ninguém soubesse responder. Apenas sua voz era ouvida. Corria e berrava para todos que tinha a comida. Chegou rápido aos pais, como se fizesse aquele caminho todos os dias. Agarrou a cesta do jantar trazida pela família, então escondida entre panos. E antes que os pais pudessem impedir, saltou à frente dos discípulos e apresentou sorridente a solução.

O que era silêncio se tornou estridentes risos. Os discípulos boquiabertos sequer tiveram força para receber a oferta. Até que um deles, constrangido, tomou a cesta e conferiu o óbvio. Cinco pães e dois peixes é bastante para o menino e sua família, mas impossível para saciar a multidão.

Ninguém mais ria. Exceto o menino e Jesus, que em um movimento surpreendente e coreográfico, repetiu o gesto infante. Colocando os discípulos em roda, devolveu-lhes a comida. Estes, meio sem graça, enquanto pediam a todos que fizessem o mesmo, reunindo grupos em roda, repetiram o gesto de Jesus. E antes que se pudesse fazer contas, outros pequenos e escondidos cestos, com poucos e inesperados pães e peixes, deslizaram em festa no meio do povo. O menino. Jesus. Os discípulos. As rodas de amigas e amigos.

O pão sobra quando o gesto é farto.

Jesus e o menino sumiram no meio da algazarra, de tanto que se sentiram em casa. E as fraternas rodas substituíram os labirintos de solitários e insaciáveis crentes.

Depois de muito tempo, contou-se uma história um pouco diferente. De um milagre assombroso e heroico de multiplicação de pães. Mas entre os discípulos, sempre se soube que antes do pão, o gesto se multiplicou. E que o milagre veio da mão de uma criança.

Aproximar-se de alguém a quem se reputa grandeza e exceção é como poder tocar o inatingível. E para isso fazem-se perversas as pessoas, desprezam o humano porque para outra coisa não é bom que sirva, além de ídolo, de simulacro da vida que ninguém tem. Mas eu só queria tocar quem me devolvesse aos abraços e amores.

Quem me tocou? Intima.

Ele marchava com a urgência dos poderosos, o homem que manda na sinagoga tem uma filha que, de tão doente, e dizem que já morreu, faz do forte fraco demais para que alguém com o mínimo juízo não corra em socorro.

Ela, à beira da morte, tem de vida o que eu tenho de morte, à beira da vida. Doze anos, muito curtos para ela, intermináveis para mim.

São doze anos exilada do amor. Impedida do toque, confesso, aprendi a tocar sem ser percebida. Pelo mísero prazer de sentir de qualquer um, um trisco que seja de importância. Fico por horas saboreando o formigamento nas pontas dos dedos, ou na superfície dos braços, ou das pernas; a memória fugidia de que existo; fluida sensação sobre a pele, que me remete às mãos que já me tocaram como se jamais fossem me largar, ao prazer que já me fez arder em brasa, aos abraços e beijos que, de tanta querença, pareciam sugar-me a alma. E agora, resvalo anônima mendigando afeto.

Ser mulher é estar sob o ciclo da maldição, a cada época em que meu corpo avisa que não serviu para parir, também indica que não valho para existir. Impureza inclemente, danação insuperável. A menina de Jairo já deve saber o gosto amargo de ser, vez ou outra, estranhada por todos. Seu corpinho é tenro, mas a regra da religião é maldição antiga que lhe pesará implacável.

No entanto, minha maldição se sobrepôs à dela, sangro sem parar, esvaio-me de dignidade e sem fim. Hemorragia de esperança, sangria de futuro. Talvez, ela, que aos doze descobre a morte precoce, tenha a sorte de morrer abreviada; eu, que a descubro tardia, tenho a sina de viver adiada. Invejo os moribundos e sua angústia pela vida que se vai, porque eu que nunca morro, diviso a vida que nunca vem.

Vez ou outra, perseguem-me os pensamentos feito demônios indômitos. Fico achando estranho que o sangue do sexo, este que junta os corpos em uma só carne de amor e gozo, seja assim impuro. E a pureza sacramentada no templo seja apartamento de afetos, deportação de mulheres. Justo elas que emprestam seus corpos ao prazer pródigo dos que mandam na benção. Também estranho que a sanha por pureza seja assim tão mórbida, estéril e frígida. E se purificar é matar em vida, penso despudorada, talvez viver seja a experiência dos impuros que aos puros desprezam.

Quem me tocou? Pergunta aquele que pode ser meu próximo algoz. Certamente. Assim me expurgaram e maldisseram os últimos com os quais fracassei em meu desgraçado ofício de discrição. Fiz com ele o que com tantos tentei, roubar a virtude de um toque e nela, mesmo que tão breve, a sensação pobre de existir. Sendo ele o Cristo que todos suspeitam, apenas toquei-lhe os babados que a um bom religioso credenciam. Ousei sentir na pele sua fé, já que tão diferente, bem poderia ser ela o fim do meu sofrimento.

Sua insistência em querer me descobrir assusta. Mas o que é isso? Ele diz que dele saiu virtude, mas eu sinto que o que de mim saía estancou. Já conferi meu sexo. O sangue parece ter parado. Agora o que não para é o tremor do meu corpo. De tanto pavor, temo até ter conseguido o que me trouxe aqui.

Responde indignado aos que tentam convencê-lo que todos lhe tocam. Diz-lhes que dele saiu poder. E isso me acalma um pouco. Afinal, sempre que meu toque por alguém foi percebido, ganhou fôlego seu poder de me execrar. Tocar alguém sempre evidenciou sua força e confirmou minha fraqueza. Agora que me sinto mais forte, ele diz que perdeu poder. Quem sabe isto seja amor. Enfraquecer-se até sentir-se tocado. Talvez porque o poder que nunca se perde, anestesie a pele, e o amor que a pele inflama, doa mais, sofra mais, sinta mais. A salvação seria fazê-lo por mim sentir-se tocado?

As mãos fremem cada vez que seus olhos me procuram. Aprendi a temer o olhar dos que me descobrem. Nada me humilha mais que me ver nos olhos dos que me cercam, tão menos do que acho que valho. Levanto minha mão para confessar o blasfemo toque. Tremo tanto que todos já devem ter percebido minha culpa. Ele está pedindo para que eu me aproxime? Já disse que estou apavorada. Mulher, a tua fé é a tua salvação. E ele diz com olhos que me admiram. E neste instante, avisa a todos que me vejam diferente, e se viam com condenação meu destino cruel, agora veem com surpresa minha inusitada fé. Resta-me acolher silente suas palavras, ele chama de fé aquilo que há pouco me enchia de culpa. O que todos chamariam de transgressão, ele dá outro nome. Fé. Pasmo com a surpreendente graça, já consigo pensar na sangria que estancou. Sinto-me devolvida ao mundo dos que são vistos e tocados e amados.

Agora ele seguirá com Jairo. Tomara que consiga ajudar à menina. Esqueci de lhe dizer meu nome. Mas se minha transgressão para ele foi fé, meu atrevimento em entrar na história que não tinha meu nome bem que poderia se chamar pureza.

Quem me segue que também eu não o siga?

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