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Sinto saudade de ter saudade.

Não sei ao certo quando meu corpo desistiu de me manter de pé. Mas sei que fui deixando de lado lentamente a capacidade de acreditar no trabalho, no dia, nas pessoas, nos amores, nos caminhos a seguir.

Foi devagar que a dor dos pensamentos migrou para os ossos, para os joelhos, tornozelos, cotovelos, para tudo que faz mexer uma vida. Fui parando porque tudo doía.

Escutar o barulho das crianças doía. Assistir às leituras da Lei e dos Profetas doía. O sabor da comida, o vento na pele, a pergunta dos curiosos, o conselho dos sábios, as receitas dos médicos, as broncas dos amigos, as pálidas soluções de sempre doíam.

O tom de voz piedoso doía. Os olhares, cenhos franzidos, gestos, lamentos; a misericórdia doía. A oração, a sinagoga, o fariseu, o mestre, a fé doía.

A dor empedrou meus desejos.

Deitei porque nunca mais dormi em paz.

Parei.

Nasci em Cafarnaum. Meus pais não. Chegaram aqui trazendo esperanças. O grande lago prometia ser um mar de prosperidade. O Galileia tinha cheiro de vida nova, de peixe, de saciedade. Foi a sua margem que erguemos as primeiras casas, pavimentamos as primeiras ruas. A sinagoga não demorou muito para ser construída. Era lá que garantíamos nossa salvação, a lei conhecida deveria encharcar as mentes dos meninos e pastorear gostos, decisões, os hábitos dos adultos. Lá recebi a fé que emoldurou meu mundo, que Deus dá a cada um o que merece.

Os primeiros anos contaram com o apoio dos romanos, ganhamos um Centurião, homem sério, mas generoso. O pão não faltava, o vinho era trazido de longe, material para fabricar os barcos e as redes era uma cortesia do Império. Ocupar a terra interessava aos poderosos.

Não demorou para chegarem mais estrangeiros, negociantes, mestres de novas disciplinas, gente de fé. Com eles vieram a alfândega e os coletores de impostos. Falava-se de muito dinheiro. E os que chegaram ricos, mais ricos ficaram. E os que trouxeram sua pobreza, foram desistindo da prosperidade que nunca acontecia. Vi meus pais murcharem aos poucos, feito tâmaras maduras. Cansaram aos 30, morreram não muito depois.

Acho que ganhei do meu pai o jeito luminoso de acreditar em coisas boas. Mas sinto em mim também a sombra que angustiava a alma da minha mãe. Eu oscilava entre o deslumbre de construir uma vida boa e a desconfiança lúgubre de que não era digno. Acostumei-me aos picos de entusiasmo seguidos por vales de desânimo, cada vez mais profundos e demorados.

Tornei-me um pescador, de dia, ofício do meu pai. E um sombrio notívago a desfiar melancolias noite a dentro, ofício secreto da minha mãe.

Entrava no lago com o barco cheio de fé, desembarcava repleto de peixe, mas chegava em casa com um punhado de dinheiro, que mal dava para o trigo e o leite. Cansado desde o começo, sempre duvidei do meu valor. Mas nada tentava deixar parecer à mulher com quem casei e às duas meninas sorridentes e carinhosas, filhas do meu amor. Depois que elas dormiam, chorava lágrimas ardidas. Sentia-me um fraco. Repetia a tragédia dos meus pais. Parece não haver lugar para gente como nós.

Cafarnaum era acelerada. Inclemente. Lugar para o sucesso inesperado e o fracasso imediato. Não havia tempo para a brisa fresca que vinha no fim do dia. Nada de conversas descontraídas, rodas de música, anedotas, risos. Todos tinham mais trabalho que tempo. Parar era pecado.

A sinagoga demarcava o espaço dos que triunfavam e o dos que fracassavam. O que pode tornar razoável a má sorte? Como explicar o fracasso? Era lá que as questões da vida infeliz ganhavam respostas que emudeciam vozes aflitas.

A impureza.

O demérito.

A transgressão.

Na casa da Lei chegava inquieto e partia culpado.

Não há benção para os que fraquejam na Torá, pecadores sob a ira de Deus. A pobreza em uma terra de ricos vira fácil nome de maldição, sinal de danação, fracasso na fé. Foi quando leram a história de Acã que aceitei minha desgraça. Nele se escondeu o pecado que a todos amaldiçoou. E calava um pouco. E morria um tanto.

Os muitos pecados que cometi desfilam na minha memória o tempo todo; tanto, que pecado é o que pareço ser. E na companhia das transgressões, choro amargo a culpa de não ser bom o bastante.

O êxito dos outros me acusa. Os olhares dos que assistem a minha pobreza confirmam a condição. Na Sinagoga, restam-me os últimos lugares. Tenho vergonha das meninas e de Marta, a quem já amei com uma força que há muito foi embora.

As noites tristes invadiram os dias. A culpa de existir sem êxito sequestrou qualquer energia. E o que era o cansaço ao fim do dia, de pescar, de não conseguir tanto peixe quanto se precisava; o cansaço de fazer mais do que podia e menos do que precisava virou um cansaço de viver. E de tanto parar enfraquecido sem poder carregar minha dor, foi a cama que me arrastou para o tombo do qual nunca mais me levantei.

Os médicos se revezaram tentando expulsar meus demônios. Os amigos se esforçaram nas explicações. Leram Jó. Recitaram os salmos. Eu só lembrava de Acã.

Foi quando falaram da febre da sogra do Pedro, pescador com quem sangrei o mar em busca de peixe. Contaram do escravo do Centurião. Ambos curados pelo ilustre galileu. Disseram que estava na cidade, em casa, e que todos correram para lá. Queriam me levar também. E o que fiz? Nada. Nem pensei nem me opus nem sorri nem murmurei. Permaneci jogado na cama que me restou.

Carregaram-me como a um defunto, de tão amortecido. Mas do cemitério para as ruas. Do fim para o começo. Foi o cortejo do desenterro. A bondade dos amigos queria virar do avesso minha tragédia. Chegando à casa, não havia janela pela qual olhar, menos ainda porta por onde entrar, tudo estava cheio com todos. O filho ilustre da Galileia é uma centelha de esperança na palha seca de miséria do povo. Gente demais. Você está com pena de mim? Sabe o que passou pela minha cabeça? Nada. Não havia mais tristeza possível.

Mas a generosidade dos amigos abre passagens surpreendentes. Ergueram-me até o teto. Destelharam a casa e impuseram-me a Jesus, descendo-me diante do mestre que nada mais dizia, boquiaberto. Olhei para ele e sabe o que eu vi em seus olhos? Nada. Ouvi o murmúrio inquieto de todos.

O cheiro azedo de tantas bocas respirando o mesmo e ansioso ar se multiplicou. Dava para escutar nas discussões e sentenças, a palavra que se repetia monótona e paralisante: pecador. Acho que ele também ouviu e ali entendeu o que me paralisava. Sabe o que disse o médico da sogra de Pedro? Nada. Muitos falavam, ele se calava. O silêncio dele usinava novidades; o meu silêncio seguia desistindo de tudo.

Alguns poucos minutos se passaram, mas parecem uma vida. E eu permaneço aqui, alheio, esvaziado, inerte. Um estorvo no meio da sala. O silêncio se mantém além do suportável. Inquietante. Mesmo eu, vazio e paralisado, fico incomodado. Não digo, mas tenho vontade. Fale qualquer coisa, penso. Ele me olha diferente agora. Parece ter algo a dizer. Todos percebem e silenciam.

Você está perdoado dos seus pecados.

Meus olhos lacrimejam e meus pés formigam. Senti na pele a palavra dita. Ainda não dei conta do que falou, mas sinto que meu corpo ouviu tudo o que precisava para acordar. Uma onda de calor percorre minhas pernas e braços. Suas palavras parecem mãos que me tocam.

Não me conformo com o labirinto de crenças em que todos entraram. Alguém lembra que só Deus perdoa pecados. Acusam-no de blasfemo e tenho medo. Porque sinto vontade de me levantar. Mas é melhor esperar um pouco.

Talvez apenas uma blasfêmia fosse capaz de contrariar a culpa que me paralisou. Parece que seu remédio é tirar de mim a fé que me exauriu. Será que só um blasfemo pode resistir ao poder culposo que controla e paralisa gente como eu?

Passa pela minha cabeça que parei de andar porque não há mais para onde ir, se Deus é do jeito que me disseram, aquele que me explica culpando. Só um blasfemo para apontar outra andança.

Estranho os que o condenam por me perdoar. Não se incomodavam com um homem paralítico e carregado de culpa. Mas têm escrúpulos com um homem sem culpa que pode carregar o próprio destino.

Olho para Jesus e sabe o que vejo? Nada. Nada do que esperava. Ele ri. Não vou dizer, mas penso ver o próprio Deus e ele gargalha. Como uma criança que ri de felicidade porque pregou uma peça nas demais. Muitos reclamam e eu continuo deitado, receio me levantar e causar ainda mais problemas.

Levanta, pega a sua cama e anda. Não seria o mesmo que dizer ‘você não tem culpa’? Ele diz essas coisas com a boca torta de quem acha graça.

Ai, ai. Chega. É o que vou fazer, é pelo que clama meu devolvido corpo, antes que a confusão me impeça. Estou com vontade de rir também. Olha a cara dos meus amigos. Mal conseguem esconder o riso.

A casa está dividida.

Há os que riem e os que preferem chamar a salvação de blasfêmia.

a-traicao-de-judas

Ele era incontornável. Seus olhos faiscavam desejosos. Sabia-se da obstinação em brigar pela liberdade. Admiravam-no ao mesmo tempo que o temiam. Judas tinha uma presença agridoce, fazia gravitar expectativas em torno de si, mas era conhecido como Iscariotes, porque já fora visto com os rebeldes empunhando facas.

Aproximou-se faminto de sonhos. Grudou seus olhos em mim com tanto apetite que não pude não retribuir-lhe com um sorriso acolhedor. Estávamos ali pela mesma razão, tínhamos uma só alma e ela era inquieta e esperançosa. Chamei-o pelo nome e ele arregalou os olhos surpreso por eu já saber quem ele era. Gastei dias entre os amigos colhendo nomes de gente que tivesse algo melhor que boa reputação; em busca de discípulos, queria cercar-me de perguntas, de atrevimentos, de desejos, de incômodos; fissuras em um mundo enfadonho, réstias em um reino de trevas. Desde que me contaram de Judas, esperei por ele como um agricultor aguarda as trovoadas de um tempo chuvoso.

Encontrá-lo fez bem a minha esperança. O moço era um acontecimento. Vocação nervosa. Ávido como a ideia que pulsava em mim.

Sem formalidades, perguntou-me pelo que se tornaria em seguida minha pregação mais pretensiosa, você acredita em um novo Reino? E que ele está entre nós. Mas todos têm medo e escolhem se esconder dos confrontos. Não vim trazer paz, mas espada e guerra. Sonhos sem conflitos adormecem. Chego como o ladrão no meio da noite, não quero acalentar dormências, quero acordar coragens. Toda coragem é incidental. O novo reino chegou, mas não para os covardes. Toda covardia é previsível. Seu olhar divagou, do jeito que acontece quando arregalamos os olhos para dentro da imaginação.

Depois dos ensinamentos, avisaram-me que faltavam ouvidos a Judas, disperso e apressado, parecia mais disposto a agir que a escutar. Desdenhei. Quem ouve o barulho da revolução por vir ensurdece um pouco para outros acontecimentos. Difícil ouvir ponderações quando se tem o grito da urgência ecoando na alma.

Enquanto todos dormiam, eu e Judas acordávamos sonhos em conversas intermináveis. Fez-me entender seu afastamento dos Sicários. Sentia que careciam da habilidade de reunir e inflamar o povo. Na última revolta, foi o que lhes faltou para o êxito, explicou. Depois de todo o sangue derramado, olharam para trás e estavam sozinhos. Não há revolta que perdure sem o envolvimento da multidão. Fez-me acreditar que eu reunia todas as possibilidades. Juntava as multidões e incendiava as mentes. Era amado pelo povo e temido pelos poderosos. Ouvido pela turba, meu evangelho assombrava o sinédrio e as sinagogas. Curava as gentes todas e adoecia de inveja os saudáveis piedosos e suas vidas cheias de exclusividades. Abraçar àqueles a quem ninguém tocava era um murro na pureza dos fariseus e sacerdotes. Seguido pelo povo, poderia esvaziar o templo e deslocar poderes. Acreditamos na reviravolta, quando a alvorada introduziu suas pálidas luzes no quarto. Judas apontou a estrela D’alva que piscava na janela, sorriu, apertou minha mão e sussurrou, é você.

O primeiro a chegar, o último a sair. Pragmático, calculava os gastos de cada jornada. Íntimos, molhávamos os bocados de pão no mesmo prato. Ao precisarmos escolher quem cuidasse do dinheiro, ninguém duvidou de que fosse ele o mais indicado. Nenhum de nós parecia tão comprometido com o custo da missão e a não desperdiçar cada oportunidade de juntar adeptos. Nenhum dos discípulos demorou tanto a entender porque preferi estar só e dispersei a multidão depois de alimentá-la no deserto. Sua paixão tornava urgente e guloso cada encontro com o povo.

Minha alma se afastou de Judas bem antes que ele desistisse de mim. Não demorou muito para descobrir-me outro. Para desencantar-me com aquele que viam em mim. Entediado, não queria mais ser o homem com quem todos vinham se empolgando, poderoso, multiplicador do pão e senhor dos milagres. Reli o Êxodo e os profetas e percebi que prodígios e entusiasmo não fizeram amigos para Deus e desconfiei do Messias da multidão. Passei a cultivar o prazer do anonimato e dos encontros discretos. Se outrora acreditei na revolução pelo poder político, se fiz da popularidade o sinal da salvação, agora duvidava de que outro reino pudesse ser realmente novo usando as mesmas armas dos que dominam as almas. Cada vez mais crente em uma nova humanidade, senti-me incrédulo com seus poderes, prédios e ajuntamentos. Mudei. E abandonei o homem a quem todos insistiam em seguir, o líder com quem Judas contava para tomar o poder com a força de quem ressuscita mortos e ajunta multidões. Os adeptos e o poder que os reúne são algemas e quem pensa ter a força de movê-los é escravizado sob o encanto de que lhe chamam de senhor.

Eu fui meu primeiro traidor.

Todos se escandalizaram, mas ninguém sofreu mais que Judas quando dispensei novos seguidores. Quando despedi para suas casas aqueles que socorri, ele não entendeu que queria para eles a liberdade que as multidões tiravam de mim. Vi seus olhos outrora intensos tornarem-se opacos e fugidios. E quem sentava-se ao meu lado passou a se esgueirar pelos cantos mais sombrios. Foi a Pedro que chamei de pedra de tropeço quando tentei explicar quem eu não queria ser e também a ele que chamei de diabo e pedi que se afastasse de mim, mas foi Judas quem baixou a cabeça. Sua presença tornou-se uma ausência.

Em um dia de exótica beleza assisti a sua vulgaridade. Quando o amor de Maria desnudou a frieza de todos. Eu precisava falar sobre a trama urdida para a minha morte e todos preferiam tergiversar sobre banalidades. Ela invadiu a sobriedade cosmética dos homens, parecia dançar, quebrou o caríssimo vaso doado pelas mulheres ricas de Betânia e derramou todo o perfume sobre minha cabeça. E eu deixei e os homens se constrangeram e Judas perdeu-me de vista. Suas palavras, tão sensatas e piedosas soavam secas e desalmadas. Lamentou sem sentir tristeza pelos pobres que poderíamos socorrer com o dinheiro do perfume, mas foi a mim que barateou com sua indiferença. Eu não estava mais ali. Olhou-me, mas nossos olhos não se encontraram mais. Eu já havia morrido para Judas. Então compreendi que Maria embalsamava-me porque me via morto naquela sala.

É preferível matar no coração aquele que se recusa a ser o esperado.

É preciso matar no coração aquele a quem se pretende dar as costas.

Judas foi visto na casa de Caifás. Contaram-me que tramara com os chefes religiosos me entregar aos soldados do Templo. Eis a mais amarga experiência, tornar-se repulsivo para quem um dia se foi amável. Judas culpou-me por ser outro. Demonizou-me para desistir em paz. Era como se fizesse a coisa certa; se não uma vingança, a justiça. O Diabo esconde-se em justas medidas.

Porque traí suas expectativas, ele traiu minha liberdade. Porque traí o seu sonho de poder, Judas traiu o que restou de nós, o amor.

Reuni os amigos para sobreviver à angústia. As horas pareceram dias até que nos juntamos todos à mesa. Judas sentou-se ao meu lado sem perceber que repetia o hábito de um amor que não mais havia, mostrou-se deslocado. Mas com olhos convictos de tão diabólicos. João e Tiago discutiam seus poderes em um Reino que jamais existiria e pareciam resistir ao único no qual poderiam me encontrar, o das desimportâncias, o dos que desistem das aparências para escolher os afetos. Tentei inútil tirar-lhes o peso das exigências, avisei que nenhum de nós estava pronto para a dor da derrota, que se perderiam de tão frágeis, para se encontrarem depois, quem sabe, mais inteiros. Pedro preferiu esconder-se em promessas e falsas esperanças, dizia ser o único a não me trair. Segurei suas mãos, olhei em seus olhos e avisei-lhe que o amor também cansa e se confunde, que suas promessas de fidelidade não acordariam junto com o galo.

Não me espantei ao descobrir que havia ali mais diabos que um Judas pudesse dar conta. Ao denunciar que estava entre eles aquele que me traíra e por quem seria entregue nas mãos dos poderosos, todos se entreolharam sinalizando culpas, pareciam tentar verificar se já haviam sido descobertos.

O diabo mora na pessoa que tememos que todos descubram que somos.

Judas aparentava lutar com as próprias ideias. Pude ouvi-lo tentar consolar Tomé desmantelado com a proximidade dos soldados. Dizia acreditar que minha prisão poderia ser uma amarga solução, que o povo acordaria com tamanha injustiça e se rebelaria; neste instante, vi que me olhou rapidamente e sussurrou algo que só depois Tomé me contou, que eu também despertaria da minha covardia para assumir meu papel de Messias.

A traição torna-se perversa quando não desiste de uma fé que desistiu do amor.

Entre diabos, era preciso exorcizar a mesa. Avisei que aquele que me vendera aos chefes religiosos dividia sonhos comigo como quem divide o mesmo prato. Neste momento, Judas mergulhava um pedaço de pão no meu prato cheio de molho. Apressou o bocado à boca e desvelou sua trágica insaciedade. Abandonou a mesa e encheu-nos do vazio que jamais conseguiremos superar. O desespero de quem ama é nunca cicatrizar a ferida, o absurdo sempre sangra, sempre fere.

Saí de lá há algumas horas e o seu olhar não saiu de mim. Pai, sinto-me terrivelmente só. Parece não haver os amigos a quem confiei minha alma. Não ter sido quem queriam foi imperdoável. Não consigo condenar o obstinado Judas, nem a Pedro, João e Tiago que dormem para não despertar o ressentimento. Rogo-te por eles. Também nós traímos sua fé. Também eu traí o sonho de Judas. Traímos nossos traidores para que o amor fosse possível e sua atordoante e ingrata liberdade.

Pai, não me sinto menos confuso que Judas. Nem menos instável que Pedro. Resistirão a essa dor que nem eu consigo suportar? Quem sabe, se fosse possível, também eu fugiria desta aflição que queima dentro de mim? Já posso ouvir os passos dos que me levarão. Se a tua vontade é esta ardida liberdade, que seja feita e que venha o amor e todas as suas salvações.

Judas? Não esperava te ver mais uma vez. Com um beijo, amigo? Espere, aonde você vai? Não corra. Não desista. Eu não desisti.

Pedro, orei por você para que também não desista. Confirme meu amor por Judas. Alguém lhe diga antes que seja tarde, também eu o traí.

A cara da poesia

A poesia não é uma arte nem um ofício, é um olhar. Aliás, um outro olhar para o que sempre foi visto, mas pouco percebido. Primeiro você vê como quem ama, só depois, poesia.

Os poetas gregos sempre mexeram comigo. Poucas vezes ouvi seus poemas, mas suas odisseias cheias de heróis, suas frases repletas de lógica provocavam em mim um estranho desejo, ainda que fossem quase que incompreensíveis para um pescador. O som das palavras combinavam como as danças das mulheres. O modo como eram ditas fazia parecer uma canção, descrevendo amores e tragédias, guerras e bravuras, mulheres muito amadas, homens de que nada pareciam sentir medo. Mas tanta beleza dava-me sempre a sensação de distância. Sentia-me indigno, um estranho.

Até que a palavra chegou perto. Uma aparição. Quando a palavra acontece, todas as demais parecem sumir, como as águas encolhem na maré anunciando a inundação. O silêncio é o recuo de quem se espanta e não consegue capturar tanta graça.

Ele era um mestre. Há muito se falava dele e de suas doutrinas ensinadas em prosa. Aproximou-se como um poeta que procura novos versos, com o olhar de quem busca outras versões. Meu irmão explicou, o rabino está atrás de discípulos. A hora era feia, estávamos exaustos e frustrados. Pescamos à toa toda a noite e nas redes só algas e liquens, as mortalhas do velho Galileia. O sol que nascia morria nossas esperanças. Olhou-nos como quem tem a notícia mais aguardada e não viu nosso cansaço nem nosso pavor de trabalhar em vão. Não viu a fronteira de nossas incredulidades, mas o início da surpresa. No fim, viu nosso começo.

Disse a Pedro com o tom de quem sabe para onde vai. Lancem as redes para o outro lado. E apontou sem sequer conferir nosso desprezo pela ideia. Pedro, casmurro, resmungou amarguras. Lanço porque obedeço. Pensei que era um desafio, desses exercícios de obediência incondicional dos escribas do deserto. Puxei a rede com desdém e quase sou puxado para o mar. Fizemos força juntos, um esforço que há muito não fazíamos, tão pesada e promissora ficou a rede, foi quando deu pra ver os peixes cintilando à luz do sol. Meus olhos embaçaram e tudo brilhava como em uma visão. Nada era, tudo dizia. Ouvia longe as vozes de todos. Não via mais o velho lago, nem os peixes, nem os barcos e seus pescadores. Eu via um sonho. Eu imaginava uma vocação. Eu desejava um mundo.

Voltamos à praia e Pedro se largou prostrado aos seus pés. Ele o ergueu com ternura e compreensão. Desdisse nosso tédio, rearranjou as palavras da nossa sina, falou que nos queria como pescadores, mas de gente. As palavras podem dizer tudo do mesmo modo, ou insinuar novos e incontroláveis sentidos.

Desde ali não desperdiçava mais suas conversas. Sabia que a cada vez que ele abria sua boca, eu poderia estar diante de novos acontecimentos. Ele não perdia tempo com explicações sem fim, preferia deixar-nos com perguntas a acalmar-nos com sentenças. Se o cercávamos com problemas, espalhava nossa imaginação com histórias e enigmas de tirar o sono.

Ainda hoje preciso me empenhar para lembrar o que aconteceu mesmo e o que foi só uma história contada pelo Mestre. Ele contava as histórias que vivíamos, nossos casamentos, pescas e semeaduras, dívidas e perdões, temperos e ceias; cada experiência nossa, opaca e insignificante, muda e rotineira, ganhava palavras, voz, cor; a cozinha da boleira anunciava a revolução do Reino, e no bolo, o amor é o fermento que transforma invisível a vida, de dentro para fora; a semente descuidada no chão duro da estrada, desperdiçada no mato, mas jogada no solo adubado, desenhava o retrato de uma graça que de ninguém desiste, para um dia florescer.

Foi proseando nossas vidas que ele rompeu as fortalezas desumanas da religião, se a história é de amor, o detestado samaritano é seu protagonista inusitado e para desnudar a mentira da fé, flagrava religiosos ocupados demais com o templo para ao aflito perceber no chão áspero da estrada.

Ainda sinto vergonha dos fariseus quando ele descreveu a oração que encontra o divino; lado a lado, o pomposo fariseu e o culpado publicano já seguiam com suas sentenças, todos pareciam já saber o fim da prosa, mas para o poeta o que é não é para a maioria das pessoas e o que todos negam pode ser a mais tocante afirmação. Do piedoso fariseu desnudou sua mentira na oração que para sentir-se no céu ao publicano jogou no inferno. E o coletor de impostos, listado entre bandidos, vergonha da nação, desmantelou-se humilhado, mas seu desespero mostrou-se humildade e coragem e quem foi a Deus carregando o inferno, desceu do templo com o céu sob os pés.

Seus gestos palavreavam sangrando mentes e corações. Se os mestres da Lei traziam a dura escrita e com ela esmagavam a mulher esfarrapada em seus erros, ele se agachava preguiçoso e rabiscava desimportâncias no chão. A vida não cabe em escrita alguma. Ela é o texto, frágil traçado; não o escrito, mas o ainda por escrever, indômitas letras do porvir. Se reclamam uma sentença, ele sugere uma dúvida, a mais atordoante: quem nunca errou que tenha a inclemência da primeira pedra. Como é fácil juntar pedras nas mãos quando se tem a lei no lugar de uma alma. Como é fácil caírem as pedras das mãos quando se tem uma alma no lugar da lei. Deu para ouvir a vergonha das pedras despencando suadas das mãos de todos. Eu ouvi o mestre perguntar à mulher pelos acusadores como quem convida quem fora cego a olhar o mundo pela primeira vez. A mulher engasgou com tantas palavras que poderia dizer, mas que nada explicavam. Como é bela a poesia de quem se cala porque as palavras se tornam impotentes.

Foi tocando a pele esquecida do leproso que o poeta contou a versão mais inesperada da vida. Aquele homem esquecido do lado de fora do mundo, para que a ninguém lembrasse que a vida também fede, que existir também é fadiga e doença, o Mestre fez mais que ouvi-lo, muito antes de curar seu corpo das purulentas feridas, ele o curou do esquecimento de todos, ele o tocou. Seu toque foi a inversão da letra. Desde aquele dia, impuros não são os que não podem ser tocados, mas as mãos de quem desiste de amar.

Em Jerusalém, descobrimos que a poesia não mora na opulência nem nos espaços privilegiados; que o realmente belo está nas ruas, do lado de fora dos palácios e do templo. Mal entrávamos na cidade santa e o cheiro azedo do sangue já embrulhava o estômago, eram milhares de bois, bodes, ovelhas e aves que eram mortos e sacrificados no grande Templo de Herodes; e o generoso Rei construíra um prédio, dizem, quatro vezes maior que o de Salomão. O Templo parecia uma cidade dentro da cidade. O exército de levitas bem armados protegia as portas para que ali não entrassem desvalidos, defeituosos, nem crianças, nem velhos, nem mulheres, letras mortas para o texto da lei. Todos os homens de bem corriam para lá, menos o poeta.

Achávamos estranho, mas ele se inspirava na periferia de Jerusalém, os arredores do templo tinham mais graça e com aqueles de quem os poderosos tinha desistido, ele compunha a mais surpreendente canção. Chegamos ao Betesda, o nome já era feio de cara, Casa de Miseráveis. Era um dos tanques de água que alimentava um sofisticado sistema hídrico. Ao redor se juntavam todos os malditos que ao Templo não podiam ir. Suas águas se moviam a cada ciclo de tempo, quando eram impulsionadas para o tanque seguinte. As águas passavam por ali em direção ao lugar onde nenhum daqueles homens e mulheres poderiam por os pés. Mas seu desespero criou uma crença, e toda crença filha de um pavor produz perversidade ainda maior. Acreditavam as aflitas almas que as águas se moviam porque um anjo as mexia. E quem dos miseráveis fosse o menos miserável, o miserável mais rápido, o miserável mais sortudo e se jogasse primeiro nas águas, era curado, criam. Adivinha. Ninguém sabia nunca quem primeiro chegava e nunca ninguém saía dali, esperando que o milagre um dia lhes encontrasse. Ele se misturou àquela gente. Descobriu um que já nem se lembrava há quanto tempo estava ali. Um paralítico. Perguntou se ele queria ficar bom. Mas o homem também estava paralisado pela crença, repetiu a ladainha do anjo e reafirmou sua má sorte de nunca chegar a tempo nas águas. E nem percebeu que um novo tempo estava sendo anunciado. O mestre o levantou do chão como quem junta palavras gastas para contar uma história nunca contada. E o texto da esperança saltou para a vida até perder de vista quem escreveu o primeiro verso.

Todavia, ninguém desdiz a versão de sempre sem pagar um alto preço. Sua vida foi Deus dito de outro modo. Seus passos foram a gramática de outra humanidade possível. Ele não interpretou a lei, ele a transcendeu, foi além das letras de sempre, experimentou suas entrelinhas e virou a fé ao avesso. Ele encarnou o que nunca ninguém teve coragem de dizer. Julgaram-no porque é mais fácil chamar de blasfêmia que seguir as palavras que sopram ávidas pela novidade. Surraram-no porque não suportaram a violência de quem inverte mundos com a força da beleza. Prenderam-no porque sua liberdade ameaçava revelar a prisão de alma dos que se acovardaram diante da vida. Mataram-no porque esqueceram que as palavras são sementes, como o grão de trigo, que uma vez mortas viram tantas outras palavras, e possibilidades, e versões, e vidas, muitas vidas.

Agora ele está aí, o mais infame dos homens, erguido na maldita cruz dos romanos. E eu aqui lembrando de tudo isso, numa mistura de dor inconsolável e estranha gratidão. Ao meu lado, essas mulheres a quem tanto amou gritam, gemem e choram, não sabem o que fazer com a perda. E eu estou escandalizado comigo mesmo. Porque o que vejo é mais que um corpo que morre, mas um texto que sangra, de quem viveu como a mais vertiginosa poesia escrita entre humanos. E tenho a mesma sensação que ele me deu em outros tempos estranhos, de que há muito mais por dizer, de que o não dito está por acontecer. Será isso então o Reino de Deus? O ainda por contar? O belo é o inaudito? O inédito é graça?

 

Eu vejo o Filho de Deus. Eu vejo a palavra que sangra. Eu vejo a vida que verte.

“Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra. A Palavra era Deus, desde o princípio à disposição de Deus. A Palavra tornou-se carne e sangue, e veio viver perto de nós. Nós vimos a glória com nossos olhos, uma glória única: o Filho é como o Pai, Sempre generoso, autêntico do início ao fim.” (Jo 1.1-3,14)

 

nebula

O mundo não é uma casa nem uma celebração de solidariedade. Nele, somos afligidos com frequência.

Incerteza.

Acidente.

Hostilidade.

Insegurança.

Deve vir de fora o sentido que nos salva, me explica o mago a quem revelo a tragédia até aqui oculta, tornei-me incrédulo em pleno ofício da magia. Dos astros do céu, do distante e misterioso brilho orquestrado pelo firmamento vêm nossas razões, ele completa. Ando desconfiado de tudo. Desde o fracasso das últimas previsões, o céu deixou de ser o mapa que me guia, as estrelas não me confortam mais.

Buscamos explicação no céu, porque entre nós tudo parou de dizer, toda esperança se esgotou, as coisas do nosso mundo se tornaram inconciliáveis e as pessoas, opacas e vazias. Essas aparentes desordens daqui devem ter razões celestes. Alguma coisa que aconteça lá deve dizer o que ocorre aqui, emendou outro mago; aquele que suspirava entre as frases, tamanha era a fé nos astros. Ele insistiu na explicação, quanto mais apagado de esperança nos parece o mundo, mais brilho no longínquo céu procuramos. E isso me soou mais vício que virtude. Chorei sem lágrimas.

Tornei-me um mago sem magia e o que antes era pretensiosa sabedoria, agora se tornou um ácido desencanto. Suspeito que o deslumbre com o céu não seja mais que fuga, uma sangria de almas aflitas. Porque tudo aqui é impermanente e sombrio, erguemos os olhos de desespero. Mas insisto em seguir com os magos. Eu que perdi a fé sobrevivo do ardor dos que podem crer.

Naquela noite, o céu era um luzeiro piscante. Sob a sinfonia de grilos e outros bichos, sem o cobertor das nuvens, o frio queimava a pele e os rostos pareciam apagar de tão obscuros e acendiam o espaço infinito tal qual um palco iluminado. O céu fez-se a ribalta onde tudo parecia encenar o destino do mundo. Mas eu duvidava.

Os olhos dos magos estavam vidrados nas estrelas e seus brilhos. Apressada, uma delas interessou a todos, movia-se como quem se rebela, abandonando o céu em sofreguidão. Rasgou o espaço infinito e mergulhou num inóspito chão. Apontava o inesperado caminho para a terra dos judeus. Uma estrela não deixa o céu se não for para iluminar caminhos, um deus não chega entre nós se não for destinado ao trono e para governar com luz na terra das sombras. Incrédulo, a estrela rebelde adoçou meu amargo coração.

Os demais videntes fizeram planos de seguir o rastro luminoso. Decidi rápido que acompanharia o grupo. Reuniram dinheiro, comida e roupas para a peregrinação e os presentes para aquele que deveria ser um rei entre os judeus. Jerusalém é para onde se vai, se é por um poderoso judeu que se procura.

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão[1]”, tantos foram os dias viajados, não se podia desperdiçar fôlego e tempo. Em Jerusalém, procuramos pela casa mais honrada, pelo endereço do poder, a residência de Herodes. Batemos à porta do palácio e anunciamos o motivo da peregrinação, um bebê recém nascido e herdeiro do trono. Ele não estava lá. Mas um poderoso é a pessoa mais desesperada, vive da impossível certeza de que nada e ninguém importam mais que ela, concluí.

Ao ouvir de um bebê eleito pelos astros para reinar, a face escondida do poder apareceu em seu rosto, mas disfarçou-se nas palavras polidas e interessadas do estranho governador. O incrédulo é alguém que desistiu do que aparece, porque aprendeu que é na vida secreta das palavras, que as gentes dissimulam seus medos e paixões. Por isso, também duvidei de Herodes e seu piedoso tom de voz. Uma onda amarga inundou minhas entranhas novamente. Senti-me jogado no mundo, incrédulo com o céu e com os palácios.

Herodes reuniu seus sábios, consultou seus livros e falou-nos da profecia que indicava uma aldeia, Belém. Nosso destino.

Os magos mal disfarçavam a decepção. Esperavam por um palácio. Agora seguiam para Belém. A noite chegou e se escurece o chão, brilham mais uma vez o céu e suas esperanças. Todos tão arregalados e atentos aos astros, enquanto fecho os olhos de tristeza. Entreguei-me as minhas trevas e dormi resignado. Despertei com os comentários e agitação. Todos gritaram ao ver aquela que seria a rebelde e promissora estrela mais uma vez. Acordei tarde demais para querer mais que o testemunho dos meus crentes amigos. O rastro da rebeldia era o nosso caminho.

O amanhecer devolveu-nos à trilha. As estradas se cruzavam e os caminhos de outros se juntavam em direção à aldeia, ganhamos a companhia de gente ferida e sem fôlego, fugiam para sobreviver. Perderam casas, amigos e familiares. Deixaram para trás as ruínas de uma vida esmagada pela guerra. Poderosos conquistaram suas cidades e sequestraram sua memória. O que pode assaltar mais o futuro que a perda das lembranças de quem somos? Como lembrar de quem podemos ser, se quem éramos foi feito em farelos? Nas faces, o tom cinzento de quem não tem para onde ir, a não ser para longe da morte. Para nós, Belém deveria ser o berço de uma nova época, para eles, apenas um entreposto entre o caos e a incerteza. Os magos, acostumados à leitura do céu, pareciam nada entender dos dizeres da terra.

Assim chegamos ao destino, com a sensação de que ali não se podia viver, menos ainda nascer. Não havia lugar para belezas, Belém era para se abandonar, não para se chegar. A aldeia tinha cheiro de miséria, pelas ruelas corriam o esgoto e as crianças; resvalavam os que chegavam e os que partiam. E nós éramos um desencanto só. Os magos se olharam e só viram o vazio nos olhos uns dos outros. Reticentes, pararam no meio do nada. Mas eu segui em frente, porque essa é a hora de quem em nada crê. Assim faço a tanto tempo, sigo porque não tenho o que esperar. Os magos vieram comigo.

Passei a fazer aquela que parecia ser a mais tola das perguntas, por um bebê recém nascido. Eu nada dizia das estrelas, mas os magos não se continham, talvez de vergonha, e completavam avisando que uma estrela os guiara até ali, onde um bebê que seria rei havia nascido. Alguns riam. Outros ignoravam e continuavam o seu caminho. Procurando o que seria um grão no areal, minha cabeça se encheu de pensamentos mais uma vez. Imaginei que se há um Deus entre nós, não podia ser nos palácios o seu lugar, ali os mesquinhos forjam aparências e vivem a despeito do mundo. Mas ele deveria viver entre as vítimas dos palácios, na periferia do poder mora a verdade, é lá que pulsa o mundo que sofre e apela aos afetos e nos reivindica. Pensei de novo e tive medo da loucura, se há um Deus, ele tem que ser uma criança, porque é de recomeço que precisa quem assistiu ao fim de tudo a vida toda.

Uma mulher parou e fez cara de que tinha algo a dizer sobre o que perguntávamos. Contou-nos de um casal que aceitara passar a noite no estábulo, já que na sua casa não havia qualquer quarto vago. Um dos magos cochichou sua suspeita, enquanto seguíamos com ela, achava que a moça debochava de nós. Eu me perdi de novo entre os pensamentos, imaginei que em um mundo tão estranho, não poderia haver lugar para um Deus e que a sua casa entre nós só poderia ser o mais inadequado dos lugares. E na contramão dos crentes, acreditei.

Alguma coisa realmente diferente está para acontecer quando os crentes duvidam e o cético crê. Mas uma revolução nos espera, quando quem lidera os magos duvidou do céu e suas mágicas estrelas e confiou na terra e seus débeis bebês.

Fomos levados até o improvisado abrigo da família de refugiados. Um homem maduro nos recebeu, chamava-se José; com a pele envelhecida de quem há muito trabalha, mas nos olhos, o brilho das estrelas de quem desdenha a dor, de tanto que sonha. Vi os magos olhando para o seu rosto com a mesma atenção que liam os astros. Ele era o pai e deixou-nos chegar perto da mãe e do bebê. Era uma jovem assustada e insegura, a criança sugava-lhe os peitos faminta. Todos emudecemos reverentes. A imagem era tão singela e tão bastante, tão simples e tão promissora; tivemos vergonha dos presentes; a mirra, o ouro e os perfumes pareceram dispensáveis. Diante de nós, o flagrante do berço da vida. E estava por aí o tempo todo. Longe do céu, no colo da jovem. Deus é um bebê. Deus é o recomeço inesperado. No fim, o começo. Deus.

No mesmo dia voltamos para casa, mas nunca mais voltamos para quem éramos. A criança esvaziara o céu. Deixamos de procurar pelos astros, não conseguíamos mais tirar os olhos dos rostos. Os mais comuns, os mais sofridos, os mais humanos, o convite ao ofício de seguir em frente. Teimosamente. Neles, o mapa que nos devolve ao caminho, a magia da insignificância.

[1] Nos bailes da vida, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento.

imageSó existe palavra porque há amor,

abertura nervosa para o mundo.

Se falamos é porque o outro nos afeta,

a vida nos fere,

o mundo nos reivindica.
A palavra é incontornável.
Viver é dizer.

Falamos tanto que o silêncio palavreia,

os gestos dizem,

os olhares brigam,

o toque sussurra poesia na pele.

Se sonhamos,

é porque antes de soltar-se na vida,

a palavra é imaginação.
Antes de nos tirar o fôlego e dizer que Deus é amor, João nos surpreende,

afirma que desde sempre Deus é palavra,

logos,

revelação,

manifestação,

testemunho,

sua glória é dizer-se entre nós.
Foi assim. Cleopas e seu amigo tiveram sonhos nunca sonhados. Largaram a aldeia, onde os dias se repetiam tão monótonos que hoje parecia ontem e o amanhã era a mais estéril das expectativas. Ele chegou contando histórias e acendendo dúvidas. As mais libertadoras dúvidas. Então, o que sempre foi poderia não ser mais o que sempre seria.

Outras versões para o mundo são possíveis quando a palavra acorda. Acorda-nos.

Um rosto comum, uma origem boba, um nazareno. Até que começou a falar. Despertou desejos outrora adormecidos. Suscitou imaginações. Anoiteceu medos. Amanheceu gostos. Os acanhados gargalharam. Os esquecidos apareceram. Os tímidos se aventuraram. Perfumes perderam frascos. Tocadas e amadas, as mulheres o batizaram com lágrimas.

Deus.

Palavra.

Amor.

O céu à flor da pele.

A palavra é o milagre. Cegos viram? Paralíticos andaram? Leprosos foram purificados? Mortos revividos? Surdos ouviram? Pobres tiveram pão? Não, muito mais que isso. Cegos foram enxergados. Surdos foram ouvidos. Os leprosos descobriram que impuras são as mãos que não os tocavam. E mortos eram aqueles que abandonaram a imaginação. Mas o Reino… Vocês não vão acreditar! O Reino não é dos que mandam. É dos pobres.

Ele falava e me virava do avesso. Pôs de cabeça para baixo o que da vida eu sabia. O que era primeiro fez-se último. E eu, que me sentia o derradeiro, vi-me principiando mundos. Disse o amigo a Cleopas, enquanto lembravam o que os tirou de Emaús e os levou a Jerusalém.

Na estrada, voltavam para casa. Mas os afetos, na contramão, regressavam teimosos para a Jerusalém que não mais existia. Desde a grande humilhação. Desde seu último fôlego na maldita cruz romana. Lá onde a substantiva esperança definhou em um verbo conjugado no passado.

Um homem se aproximou e logo se viram seus desavisos. Estranhou a conversa aflita entre Cleopas e o amigo, pareceu ignorar o desacontecimentos do Calvário. Mostrou-se inconformado com os ditos. Descreu na sombria versão da cruz. Recusou o ponto final e retomou o assunto. E o que era um descaminho entre a nostalgia e a revolta tornou-se uma estrada para o ainda não compreendido. O companheiro inusitado pavimentou aquela trilha com as palavras do texto sagrado. Lutou com as crenças. Cavoucou as memórias. Pastoreou as palavras.

Cleopas não teve coragem de dizer, mas o estranho, de repente, lhe pareceu íntimo. Aqueceu seu coração enquanto discursava. Suas palavras eram como brasas nas entranhas. Por um instante, elas pareciam ressuscitar Jesus.

Anoitecia quando a despedida se impôs. À entrada da casa, o estranho encerrou o texto, mas insistiu nas entrelinhas. Insinuou partir feito um sedutor atiçando desejos, queria que o quisessem. E assim foi. Convidado, aceitou ligeiro anoitecer ali e seguir o caminho no dia seguinte.

O misterioso já era um de casa, ainda que anônimo. Ganhou a honra de agradecer e repartir o pão. De sua oração ninguém se lembra, mas a imagem do homem erguendo o pão e depois o repartindo atravessou almas e memórias como uma flecha. E o que era um estranho íntimo desvelou-se o próprio Jesus. A palavra de carne e sangue. Taquicardia. Mãos suadas. Os sonhos no arrepio da pele mais uma vez. A vida de novo. Jerusalém em Emaús.

A vista vertiginosa do Cristo foi embaçando nas lágrimas dos amigos. E antes que acabassem de esfregar os olhos para melhor verem, ele não estava mais. Mas nunca esteve tão ali. As palavras que borboleteiam na alma era o Cristo que neles agora vivia. A palavra se fez corpo em Jesus. E agora, seu corpo se fez palavra nos discípulos. Cristo nunca foi tão vivo quanto depois de morto.

O Deus que viveu entre nós pastoreou as palavras para salvar a vida, comentou Cléopas, enquanto arrumava as coisas para voltar aos outros discípulos e anunciar que um pastor das palavras nunca abandona suas ovelhas.

 


(Ao meu pai, meu amigo e homem admirável, em seus 50 anos de ministério deixou de ser apenas o pregador do Evangelho e se fez a própria mensagem entre nós.
Obrigado, meu pastor das palavras!)

As vozes ressentidas não lembravam a imponência e sublimidade de outras reuniões do Conselho. A certeza de sempre não combinava com o tom tíbio dos sacerdotes e escribas que agora se revezavam no empenho de salvar os preceitos da fé. Impossível manter em pé uma crença quando se esparrama no chão duro de uma tragédia.

As Legiões Romanas impingiam dor e vergonha ao povo. Cada dia se contavam menos homens, dizimados em combates desiguais. E mais mulheres, desfilando vergonha e dor pelas ruas, tantas delas estupradas por soldados invasores, em sinal de posse e dominação.

A tradição não abria mão de que apenas crianças nascidas de um pai judeu podiam ser consideradas legítimas herdeiras de Abraão. O que já fora um preceito cheio de viço e orgulho tornou-se uma vexaminosa marca sobre meninas e meninos, nascidos da violência. A lei que se arrogava divina e afirmadora de uma nação, agora repetia a violência e confirmava bastardos.

Deus, assim, tornou-se um diabo. E a vida piedosa, um inferno.

Já eram uma multidão os sombrios despertencidos.

Um jovem sacerdote, amigo próximo de Elazar, rabino que ensinava no deserto, rompeu a vergonha e gaguejou o que todos precisavam que fosse proposto, mas sem a coragem de dizer sequer as primeiras palavras da outrora infâmia. Não se deveria mais impor a esmagadora carga de considerar bastardos os filhos de mães judias sem pais judeus, com o risco de sequestrar o futuro dos filhos de Abraão. Alguém confirmou com a voz embargada, não bastasse serem estupradas as nossas mulheres, nossos filhos são abandonados por aqueles que lhes deveriam acolher.

As vozes engasgadas não disfarçavam a palidez do rosto e o olhar disperso. Ninguém nunca soube ao certo quem pronunciou a frágil sentença, que uma vez dita, contou com o silencioso assento de todos, também do Sumo Sacerdote. Se a mãe judia se ressente de um pai judeu para o filho que cresce em seu ventre, Deus, o misericordioso, é o pai que ao filho falta.[1]

E a fraqueza da regra pode ter sido a fresta para a vida ressurgir.

A notícia da reunião foi ouvida como uma boa nova, um alívio, uma esperança. Um sopro de inesperada dignidade correu vielas e arejou almas angustiadas.

Maria nunca se livrou do pesadelo. O cheiro azedo do homem que invadiu seu corpo e violou sua alma ainda era uma lembrança que lhe assaltava inclemente. Mais ainda agora, que um fruto amargo era gestado em seu ventre. Chegou a pensar que nem fosse verdade. De tanto que queria que tudo fosse diferente. Desde então evitou o noivo, José. Sua bondosa companhia e a insistência em fazer planos para o futuro eram uma tortura para quem já se sentia assim indigna.

Maria, tão calada, preocupava a todos. Era vista pelos cantos. Estaria infeliz pelo casamento? Não, sonhava acordada para acalmar os pensamentos Divagava na doce fantasia de que o bebê não era filho do asqueroso inimigo. Não, no seu sonho, tudo era outramente belo. Porque bebês eram feitos divinos e o seu chegara ao ventre soprado por Deus, consolava-se. Chegou a ver um anjo, como aquele que visitou Ló e o levou embora do caos. No seu desejo encantado, quase dormindo, mas o bastante acordada para guiar a imaginação, o ser luminoso lhe dizia que não estranhasse a gravidez. Deus era o pai da criança. E dormia para não acordar amarguras.

A notícia entrou pela porta e despertou Maria, que cochilava suas tristezas. Sua prima, Isabel, aos berros, ora segurava sua barriga, que ainda disfarçava o feto, ora agarrava seu rosto e, atrapalhada, misturava as falas com gritos quase insanos. Salvas. O Salvador. Ele é o Filho de Deus! Jeová é pai. E antes que Maria deixasse claro que nada entendia, Isabel contou as novidades do Sinédrio. Maria se agarrou à Isabel e chorou. Até dormir novamente.

Ao acordar, as lembranças do dia anterior estavam incertas. Havia o rosto excitado de Isabel, a história da nova doutrina e a doce e inconfessa fantasia de um filho digno em vez do bastardo.

Não precisou de um delírio para imaginar que sua tragédia bem podia ser o sinal de um grande evento. Uma salvação. E quando pensou assim, sentou-se na cama e o olhar se perdeu pelo quarto que já estava iluminado pela manhã. O coração bateu forte e descompassado. É isso. Tanta tristeza podia ser como a dor de parto que em breve sentiria, a gestação de um santo, o nascimento de um homem distinto. Um profeta, talvez. Um guerreiro. Quem sabe?

Afinal, se a salvação de Deus tem que virar do avesso o mundo e sua injustiça, nenhum começo seria mais apropriado que o mais maldito e sofrido dos mortais.

É do ponto cego, dos esquecidos, das desgraçadas invisibilidades, que o mundo se desvela em suas verdades. Ali, de onde ninguém é visto, que tudo se evidencia.

Passou pela cabeça o gileadita Jefté, filho de uma prostituta, que depois de expulso e envergonhado, foi trazido para liderar sua gente à vitória sobre os opressores. Lembrou do Profeta Isaías e o prometido que nasceria inglório. Com meio sorriso, até sussurrou as Escrituras, “uma muda mirrada, uma planta ressecada.” Impossível não associar. Desprezado por todos, sem beleza. E o que era profunda angústia explodiu feito revelação. Cheio de dores, seria a cura para o mais terrível sofrimento; banhado de vergonha, o fim da culpa; açoitado por doenças, o remédio para as enfermidades. Chorou de novo, mas desta vez, era a esperança que molhava seu rosto. Como as águas correntes do rio dissolvem as manchas das roupas.

Alguém lhe avisou que seu noivo a aguardava na entrada da casa. Estranhou a hora do dia para a visita. Teve medo e por um momento desistiu de tudo o que vinha pensando. Suspirou triste e lacrimejou. A sombra da tragédia acenava mais uma vez para a sua realidade. Arrastou os passos até a porta e encontrou José, que a olhava como quem já tivesse sido avisado da desgraça e de mais alguma coisa.

O silêncio que se seguiu pareceu um recuo do tempo, um intervalo nas horas. O mundo parou. Estava um diante do outro e tudo o mais inexistia. Nenhum dos dois conseguia dizer nada. Os olhares se curvaram, para se erguerem em seguida e se reencontrarem reticentes.

Os olhos conversam para salvar-nos do cansaço das palavras.

Tanto a dizer e o silêncio engoliu as frases ensaiadas do homem e desdenhou o pedido inaudito de clemência da moça. José emitiu alguns sons, tentativas indecifráveis de iniciar qualquer palavra e, despedindo-se dos discursos, se aproximou de Maria, bem quando ela tentava inútil desengasgar. E a abraçou com tanta força que entre os corpos não restou lugar para qualquer conversa.

[1] BONDER, Nilton. A alma immoral. Editora Rocco. São Paulo, 2007. O Rabino Bonder, entre tantas histórias que conta para ilustrar como a alma transgride, ou trai a tradição para salvar a vida, sugere que Jesus bem poderia ter sido fruto do estupro de Maria por um soldado romano, prática comum à época. Conta da tradição revista pelas autoridades para determinar a ascendência judaica, em que apenas filhos de pais judeus poderiam ser condiserados judeus. Passou-se a considerar bastante que a criança tivesse a mãe judia para que fosse considerada judia. Bonder completa dizendo que se a criança não tinha um pai judeu, Deus seria seu pai.

Tomei aqui a idéia do Rabino para construir uma ficção, mas que seria uma linda verdade, se verdade fosse.

Uma reunião de seguidores nunca é incólume nem vítima, ainda que digna de compaixão.

Uma vez que se preste a legitimar um líder, impõe-se sobre ele. As múltiplas e difusas expectativas obrigam o herói à invisibilidade, a estranha solidão de cercar-se de tantos ao custo de quase não existir; ele que tem que ser tudo, acaba sendo um nada.

A multidão de tantos não se reúne sem a solidão de alguns.

Dias sem nem comer direito, ocupados com as seguidas tarefas, o Mestre e os discípulos viajam para longe de todos e seus problemas e suas demandas e suas expectativas sem fim. Procuram a distância e o descanso. Mas do lado de lá do grande lago, a imagem ainda imprecisa já tumultua o barco e amarga a viagem. Mais uma multidão. De gente sem graça, sem destino, sem pastor, sussurra Jesus com os olhos marejados de afeto. Mas um dia saberá que é também uma multidão sem alma.

Jesus desembarca entusiasmado, cheio de vontade de ajudar e cuidar de todos. Os discípulos? Anestesiados de tão exaustos.

Ele não se dá desprotegido à turba, nem se oferta ingênuo aos famigerados. Não responde às questões, suscita outras dúvidas; não acalma angústias, desperta sensibilidades; não indica caminhos, suscita revoltas; cada história que conta é uma atordoante distração. Jesus dispersa convicções para suscitar novos cenários.

A multidão quer se alimentar de quem espera que ele signifique, mas sua saciedade não é o que quer o Nazareno. Jesus a quer faminta. Bem-aventurada a fome que a todos libertará.

Um menino brinca entre os cenhos franzidos. Flutua desconexo de todos os interesses e medos. Além dos comentários de incerteza diante de tudo o que o novo profeta dizia, ouve os primeiros murmúrios sobre a tarde que chegara ligeira e o problema novo da comida que todos precisariam, mas ninguém parecia ter. Longe de tudo. Gente demais. Nenhuma organização. Todos tensos, menos a criança. Ela se distrai com as pedrinhas, cantarola histórias. Vez ou outra, ergue a cabeça e percebe a agitação dos adultos.

O menino desliza lépido pelos corredores de gente. Um labirinto de angústias para os famintos, um jogo curioso para a criança. Sua leveza o deixa um pouco de fora, alheio e estranhamente feliz.

Enquanto toca as pessoas aflitas e trata suas dores, Jesus conta histórias e encadeia perguntas intermináveis; para os austeros homens da lei, um labirinto escandaloso; para o Nazareno, pensam alguns, parece um jogo.

Todos se afligem e ele parece se divertir e brincar com comparações e poemas, lamenta um dos discípulos mais próximos. Razão para acordá-lo do sonho e fazê-lo enxergar a enrascada em que a todos colocou. Hora de mandar embora a multidão para que encontre o que comer pelo caminho. Fome não é brincadeira.

De onde virá a comida? Inquire o porta voz dos incomodados discípulos.

A pergunta ressoa entre todos. A incerteza enfraquece a obstinação que a todos reuniu ruidosos. E o que antes juntou como que encantados, agora os fragmenta silentes e desprotegidos. Gente demais, solução alguma.

A solução está entre vocês. É tudo o que Jesus diz, antes de voltar à parábola que deixara inconclusa. A ordem também ecoa no meio do povo. Metálica e aflita.

O silêncio.

Os olhares.

O vazio.

O menino que encontrara outras crianças longe dos pais ouviu a pergunta e a resposta. Estranhou o silêncio e não gostou da sensação dos adultos inseguros. Maneou a cabeça, rindo de que ninguém soubesse responder. Apenas sua voz era ouvida. Corria e berrava para todos que tinha a comida. Chegou rápido aos pais, como se fizesse aquele caminho todos os dias. Agarrou a cesta do jantar trazida pela família, então escondida entre panos. E antes que os pais pudessem impedir, saltou à frente dos discípulos e apresentou sorridente a solução.

O que era silêncio se tornou estridentes risos. Os discípulos boquiabertos sequer tiveram força para receber a oferta. Até que um deles, constrangido, tomou a cesta e conferiu o óbvio. Cinco pães e dois peixes é bastante para o menino e sua família, mas impossível para saciar a multidão.

Ninguém mais ria. Exceto o menino e Jesus, que em um movimento surpreendente e coreográfico, repetiu o gesto infante. Colocando os discípulos em roda, devolveu-lhes a comida. Estes, meio sem graça, enquanto pediam a todos que fizessem o mesmo, reunindo grupos em roda, repetiram o gesto de Jesus. E antes que se pudesse fazer contas, outros pequenos e escondidos cestos, com poucos e inesperados pães e peixes, deslizaram em festa no meio do povo. O menino. Jesus. Os discípulos. As rodas de amigas e amigos.

O pão sobra quando o gesto é farto.

Jesus e o menino sumiram no meio da algazarra, de tanto que se sentiram em casa. E as fraternas rodas substituíram os labirintos de solitários e insaciáveis crentes.

Depois de muito tempo, contou-se uma história um pouco diferente. De um milagre assombroso e heroico de multiplicação de pães. Mas entre os discípulos, sempre se soube que antes do pão, o gesto se multiplicou. E que o milagre veio da mão de uma criança.

Aproximar-se de alguém a quem se reputa grandeza e exceção é como poder tocar o inatingível. E para isso fazem-se perversas as pessoas, desprezam o humano porque para outra coisa não é bom que sirva, além de ídolo, de simulacro da vida que ninguém tem. Mas eu só queria tocar quem me devolvesse aos abraços e amores.

Quem me tocou? Intima.

Ele marchava com a urgência dos poderosos, o homem que manda na sinagoga tem uma filha que, de tão doente, e dizem que já morreu, faz do forte fraco demais para que alguém com o mínimo juízo não corra em socorro.

Ela, à beira da morte, tem de vida o que eu tenho de morte, à beira da vida. Doze anos, muito curtos para ela, intermináveis para mim.

São doze anos exilada do amor. Impedida do toque, confesso, aprendi a tocar sem ser percebida. Pelo mísero prazer de sentir de qualquer um, um trisco que seja de importância. Fico por horas saboreando o formigamento nas pontas dos dedos, ou na superfície dos braços, ou das pernas; a memória fugidia de que existo; fluida sensação sobre a pele, que me remete às mãos que já me tocaram como se jamais fossem me largar, ao prazer que já me fez arder em brasa, aos abraços e beijos que, de tanta querença, pareciam sugar-me a alma. E agora, resvalo anônima mendigando afeto.

Ser mulher é estar sob o ciclo da maldição, a cada época em que meu corpo avisa que não serviu para parir, também indica que não valho para existir. Impureza inclemente, danação insuperável. A menina de Jairo já deve saber o gosto amargo de ser, vez ou outra, estranhada por todos. Seu corpinho é tenro, mas a regra da religião é maldição antiga que lhe pesará implacável.

No entanto, minha maldição se sobrepôs à dela, sangro sem parar, esvaio-me de dignidade e sem fim. Hemorragia de esperança, sangria de futuro. Talvez, ela, que aos doze descobre a morte precoce, tenha a sorte de morrer abreviada; eu, que a descubro tardia, tenho a sina de viver adiada. Invejo os moribundos e sua angústia pela vida que se vai, porque eu que nunca morro, diviso a vida que nunca vem.

Vez ou outra, perseguem-me os pensamentos feito demônios indômitos. Fico achando estranho que o sangue do sexo, este que junta os corpos em uma só carne de amor e gozo, seja assim impuro. E a pureza sacramentada no templo seja apartamento de afetos, deportação de mulheres. Justo elas que emprestam seus corpos ao prazer pródigo dos que mandam na benção. Também estranho que a sanha por pureza seja assim tão mórbida, estéril e frígida. E se purificar é matar em vida, penso despudorada, talvez viver seja a experiência dos impuros que aos puros desprezam.

Quem me tocou? Pergunta aquele que pode ser meu próximo algoz. Certamente. Assim me expurgaram e maldisseram os últimos com os quais fracassei em meu desgraçado ofício de discrição. Fiz com ele o que com tantos tentei, roubar a virtude de um toque e nela, mesmo que tão breve, a sensação pobre de existir. Sendo ele o Cristo que todos suspeitam, apenas toquei-lhe os babados que a um bom religioso credenciam. Ousei sentir na pele sua fé, já que tão diferente, bem poderia ser ela o fim do meu sofrimento.

Sua insistência em querer me descobrir assusta. Mas o que é isso? Ele diz que dele saiu virtude, mas eu sinto que o que de mim saía estancou. Já conferi meu sexo. O sangue parece ter parado. Agora o que não para é o tremor do meu corpo. De tanto pavor, temo até ter conseguido o que me trouxe aqui.

Responde indignado aos que tentam convencê-lo que todos lhe tocam. Diz-lhes que dele saiu poder. E isso me acalma um pouco. Afinal, sempre que meu toque por alguém foi percebido, ganhou fôlego seu poder de me execrar. Tocar alguém sempre evidenciou sua força e confirmou minha fraqueza. Agora que me sinto mais forte, ele diz que perdeu poder. Quem sabe isto seja amor. Enfraquecer-se até sentir-se tocado. Talvez porque o poder que nunca se perde, anestesie a pele, e o amor que a pele inflama, doa mais, sofra mais, sinta mais. A salvação seria fazê-lo por mim sentir-se tocado?

As mãos fremem cada vez que seus olhos me procuram. Aprendi a temer o olhar dos que me descobrem. Nada me humilha mais que me ver nos olhos dos que me cercam, tão menos do que acho que valho. Levanto minha mão para confessar o blasfemo toque. Tremo tanto que todos já devem ter percebido minha culpa. Ele está pedindo para que eu me aproxime? Já disse que estou apavorada. Mulher, a tua fé é a tua salvação. E ele diz com olhos que me admiram. E neste instante, avisa a todos que me vejam diferente, e se viam com condenação meu destino cruel, agora veem com surpresa minha inusitada fé. Resta-me acolher silente suas palavras, ele chama de fé aquilo que há pouco me enchia de culpa. O que todos chamariam de transgressão, ele dá outro nome. Fé. Pasmo com a surpreendente graça, já consigo pensar na sangria que estancou. Sinto-me devolvida ao mundo dos que são vistos e tocados e amados.

Agora ele seguirá com Jairo. Tomara que consiga ajudar à menina. Esqueci de lhe dizer meu nome. Mas se minha transgressão para ele foi fé, meu atrevimento em entrar na história que não tinha meu nome bem que poderia se chamar pureza.

ImagemPelas ruas nunca se cantou tanto os versos triunfais do salmista: Bendito o que vem em nome do Senhor! Fácil. O Nazareno pôs em pé um morto sepultado há dias, porá em pé a cadavérica nação de Israel.

Dia desses, perambulou por aqui. Escorregou pelos becos, foi visto tenso e irrequieto no templo. Não tinha boa aparência. Discutiu com cambistas. Interrogou mulheres e perguntou pelas crianças. Juram que balbuciou palavras e parecia maquinar algo. Talvez uma revolução. Depois de Lázaro, parece não haver muito mais o que esperar. Um milagre assim não pode esfriar suas utilidades. Argumento forte é discurso oportuno.

Não há outro assunto entre o povo. Jesus fala de um reino que virá, faz verem os cegos, multiplica pães e sacia os famintos, limpa os imundos leprosos e agora reanima defuntos. O Reino deve estar por um triz.

Alguns dos discípulos avisam eufóricos o Mestre, que anda fraquejando no ânimo. Queixa-se de incompreensão. Duvida até dos mais próximos. Mestre, o povo acredita. As mulheres cantarolam bendizendo o Messias. Os velhos lembram as histórias dos profetas, contam às crianças sobre o poderoso redentor que chegará montado no jumentinho. Ele arqueia as sobrancelhas e insinua um sorriso. Suspira. Não acompanha o entusiasmo dos demais. Ouve. Mas todos sabem que sempre compreende outra coisa.

Ninguém pergunta mais nada. Todas as últimas questões suscitaram poesias, contos, comparações. Tanto mais estranho o Cristo, mais prosador. Sua poesia é a distância que a todos aflige.

Continua a falar do Reino vindouro, mas sempre contando histórias e propondo dispendiosos enigmas. Diz que só veremos se não enxergarmos; só ouviremos se não escutarmos; só saberemos se não compreendermos. O que precisamos saber que nosso entendimento impeça? Que visões temos que nos tapam os olhos? Que ruídos escutamos que nos ensurdecem? O que cremos que possa nos atrapalhar o pensamento?

Não provoque o poeta.

Faz poesia o que duvida da regra, consola os demais o pensativo Tomé. Conta histórias quem procura por ouvidos, emenda João, sapiencial. Pedro, meio sem entender, diz qualquer coisa: eu prefiro as espadas. Doem menos.

Sem gaguejar, interrompe as suspeitas de todos e pede para que busquem um jumentinho. Como nas prosas dos velhos com as crianças há pouco relatadas. Entrará em Jerusalém montado no profético bichinho, é o seu plano. Cumprirá as Escrituras tal qual o ator submete-se à dramaturgia. Por quê? Questiona alguém. Porque é preciso que imaginem mais o que veem.

O jumentinho, montado dramaticamente por Jesus, aproxima-se. A chegada é lenta, demora estratégica o bastante para que a notícia se espalhe entre o povo de Jerusalém. E antes de chegar ao templo e às casas dos poderosos, são incontornáveis os pobres, habitantes sempre dos limites da cidade. Risível, não fosse grave. Os últimos a serem ouvidos são os primeiros a deslumbrarem o Messias. Os excluídos do mundo recepcionam o divino. O fôlego da multidão, que encena a mais messiânica das histórias, é a angústia dos que padecem.

É lírico o Cristo de Deus montando imponente o humilde e pacífico jumento. Lirismo eloquente, ninguém duvida do Messias. Os mantos e os  ramos de árvores, arrancadas à beira do caminho, espalham-se pelo chão, como se a multidão e seus deuses há muito ensaiassem o encontro. As mulheres iniciam a cantoria: Hosanas ao que vem em nome do Senhor! Bendito o que vem em nome de Deus. As crianças saracoteiam pelo cortejo, ao reconhecerem o personagem de suas histórias prediletas. Ele também ri. Também festeja. Como é estética a esperança.

Os fariseus, religiosamente ausentes dos afetos, sabem da insanidade coletiva. Do risco que corre Jerusalém. Pedem para que Jesus os repreenda. Uma agitação assim pode indicar insurreições e suscitar toda a repressão das temidas Legiões romanas.

Pode-se até calar a cantoria, reprimir os gestos; mas a imaginação, este movimento de gente embrutecida em busca de graça; com afetos empedrados ansiando por ternas esperanças; ora, se uma boa imagem dá voz às pedras, o que não fará em corações sangrando fé e desejo? Se eles se calarem, as pedras falarão, responde o divino dramaturgo, arrependido dos anos gastos com as sinagogas e suas doutrinas.

O cortejo avança e o horizonte se abre desvelando Jerusalém. Descortinam-se mutuamente o estranho Messias e a patética cidade. Não demora, e os mesmos algozes crucificarão um e depredarão a outra.

E a metáfora cumpre seu papel. Reúne os díspares mundos na mesma imagem. Faz conversar falas tão distintas na mesma cena. Concilia opostos. Justapõe adversos. Dá ao poeta a fugidia sensação de acolhimento, sendo ele o maldito extravagante. O Messias de outra esperança. O Rei de vário governo. O Deus-homem do homem-Deus.

Ausentando-se da grita, os olhos do herói lacrimejam. Nada traduz mais sua agonizante alma que a refração implacável da imagem, caleidoscópio de sentidos e compreensões. O que acende melhor os sentidos que a lúdica encenação? O poeta faz-se vidente, vê mais e além. E quanta dor sente este que habita as fronteiras dos saberes?

Deus mora na metáfora, liame dos mundos. E chora.

Ninguém viu a lágrima nem ouviu o lamento do divino, exceto uma mulher que confidenciou seu segredo ao amigo de Teófilo; de onde estava, jura ter visto o que à multidão ficou incôndito e ouvido o despercebido pela surdez ruidosa do povo. O Cristo lamentou ser a mensagem que ninguém entendeu, a metáfora de um mundo que poderia ser.

De longe já dava para vê-lo sentado ao poço. Preferia que não estivesse lá, como nos outros dias. Venho aprendendo a escolher lugares e horas que me ajudem a ficar só. Aquele poço e sua distância de tudo e todos, aquela hora e seu sol a pino traziam menos desgaste que esbarrar naqueles, quaisquer que fossem, cujos olhares espelhassem o pior de mim.

A aproximação acrescentou um dissabor, não bastasse alguém atrapalhar minha solidão, agora ficava evidente que o homem perto do poço era um judeu. Os babados da sua roupa de bom judeu anunciavam um daqueles que se crêem puros a despeito de nossa impureza. Nada é mais opressor que se enxergar tão estranha e detestável nos olhos de quem quer que seja.

Ao poço, o inusitado mostrou a face. Antes que pudesse deixar nítida minha pressa e indiferença, pediu-me água. Eu sei que a cortesia mínima não rejeita água sequer ao inimigo, mas não soube disfarçar minha amargura. Neguei-lhe e lembrei-lhe o óbvio, era homem e eu, mulher; era judeu e eu, samaritana. Fronteiras fortes o suficiente para que nem a mais sofrida angústia licenciasse o encontro. Nenhum preconceito é tão cruel que não possa servir a uma doentia e útil comodidade.

Ainda assim não me livrei do peregrino. Insistiu, apesar da cara de fadiga e dos lábios ressecados, e advertiu-me de estar desperdiçando uma grande chance. Falou-me da água de um jeito estranho. Não tive certeza se tentava me propor um enigma, como fazem os mestres e profetas, ou se de fato conhecia alguma água com poderes mágicos. Mas ofereceu uma água viva que resolveria a sede de uma vez por todas. Fiquei confusa. Não estou acostumada a esses devaneios, coisas de poetas e profetas, ou insanos. Sempre ali, icei baldes de água que, além de mal saciar minha sede, traziam o enfado de um serviço que nunca finda. Aos meus olhos, balde é balde, água é água, e gente nunca faz muito mais que trazer transtornos.

E mesmo depois de interromper o palavrório mostrando o absurdo de oferecer qualquer que fosse a água sem ter ao menos um balde, continuou a falar de tudo como se nada pudesse ser apenas o que sempre foi. Parecia falar de nada que já antes ouvi, como se tudo pudesse ter outra versão.

E falava como se fosse maior que aquele que cavara o poço, Jacó, nosso pai.

Falava como se palavras cavassem poços e baldeassem saciedade.

Talvez um poeta deslumbrado.

Sendo assim, aceitei a proposta da água viva e entrei na brincadeira. Dei ainda um certo tom de seriedade: ‘apenas para não ter mais o trabalho de ir ao poço’. Um silêncio e de novo aquele olhar insano de quem vê através das coisas e engendra o surpreendente. Eu, que queria não voltar ao poço de água, fui convidada por ele a voltar à origem da minha sede. Mandou-me buscar o marido, esse tipo de gente que primeiro abandona a imaginação, para depois abandonar a esperança e o amor.

A brincadeira perdeu a graça. A guinada da água para o coração causou-me vertigens. Lacônica, disse-lhe não ter marido. E não é que sequer esboçou surpresa? Nem um tom escrupuloso. Sabia de todos os maridos que tive e daquele que me toca, mas não me abraça. Senti meu rosto como um livro que se desenrola diante de um leitor. Seria eu tão evidente? Ou ele, um leitor habilidoso de gestos e olhares? Quem?

Poeta, sim. Louco? Com certeza e daqueles que a gente, atordoada, chama de profeta.

Alguém com versões tão diferentes do que a vida toda ouvi. Que fala estranhamente de tudo, mas com tanta graça. Que transfigura o óbvio e enxerga o avesso do que sempre me enfadou. E, sem pá, explora profundidades e, sem balde, baldeia com as palavras novos sentidos e embebe a vida de significados vários. Alguém assim pode me falar de Deus também com surpresa. Salvou-me da culpa de não ser amada, quem sabe salvará o divino do meu tédio?

Fala de Deus, poeta. Baldeia também o divino de outro poço, profeta. Porque tal como esta água, o que de Deus eu sei me angustia mais que sacia. Os samaritanos falam de um que é mais Deus em nosso templo que naquele de Jerusalém. Deus é só isso? Dos judeus ou dos samaritanos? De Jerusalém ou de Gerisim? Do templo que não me quer, ou que não me cabe? Dos homens e suas vaidades másculas e truculentas? Reiventa, poeta. Redescreve, profeta.

Bem naquela hora, uma brisa boa refrescou nossos rostos e a conversa, já tão tensa e grave. Ele, por um instante, pareceu esperar pelo sopro como um cantor aguarda o acorde da harpa. Como um poeta espera a metáfora que libertará a imaginação. Chamou o divino de vento. Desse que sopra selvagem e solto no deserto; desejado, mas indômito. Para além de qualquer estrutura, imprevisível, tão livre que apenas os que também anseiam pela liberdade podem encontrá-lo. Disse que Deus é vento e procura por quem, ao adorá-lo, também vai além dos edifícios e suas rígidas estruturas, tal qual o indomável e inventivo vento, e só assim o encontra de verdade.

Porque a verdade nunca é o que já se disse, mas o que está por dizer.

A verdade nunca é o que a brisa já deixou desenhado na areia, mas o vento que sempre está por soprar e redesenhar o chão de nossa existência.

Então? Vocês não querem vir e ouvi-lo? Ele (re)contou tudo o que tenho feito. Acho que é o Messias. Certamente não o que esperávamos. Mas o Messias. E eu, nossa! Esqueci meu cântaro lá, de tão lembrada que estou de tudo o que ainda posso ser.

Elienai Cabral Junior

Quem me segue que também eu não o siga?

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