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A incredulidade de São Tomé, Caravaggio.

Foi a angústia que nos aproximou, segui a dúvida quando aceitei o convite para me juntar aos discípulos de Jesus. Eu sou um homem feito de perguntas e muita aflição.

Não lembro de mim sem o sofrimento de quem sufoca o que grita na alma. Carregava a vergonha de ser um estranho, alguém sem o fervor dos crentes; o que todos tratavam como óbvio, a mim parecia vago.

Sentia-me uma farsa nos jejuns sabáticos e suas purificações; a autocomiseração dos devotos não me descia pela garganta. O que em todos provocava culpa e arrependimento, em mim era revolta e ódio. Não aceitava que as legiões romanas pudessem ser instrumentos da justiça divina, não conseguia acreditar que éramos tão transgressores que a opressão tornara-se o nosso castigo. Se os tiranos que nos afligem são uma providência de Deus, o que fazer com a ira que sinto por tanta destruição e ruindade?

Um Deus que usa maldosos para realizar a sua vontade não é ainda mais perverso? Quem é esse Todo-Poderoso que eu preciso convencer de ser justo e bom? Sou melhor que ele? Preciso mostrar-me indigno para que ele de mim sinta dó? É o meu sofrimento que o torna favorável? Então ele é pior que o meus inimigos? Esse Deus não nos ama. Ele nos odeia. E eu a ele. Sentia. Mas nada podia dizer. Havia uma ruptura dentro de mim.

Eu existia do lado de fora, mas ninguém podia saber. O corpo dentro, o sentimento fora. Cada vez que entrava na sinagoga, a sinagoga saia de mim. Enquanto liam os Profetas, não dava para não ver as testas piedosamente franzidas dos mesmos que há pouco ignoraram o faminto à porta. Não queria acreditar que esse mundo precisasse ser sem Deus para ser bom, e isso me atormentava; mas me incomodava muito mais que pessoas tivessem tanto de Deus e fossem tão más.

Sentia-me exilado de mim mesmo. Não conseguia hospedar o estranho que me tornei.

Pelo meu nome ninguém nunca me chamou, Judas. Chamam-me pelo nome do meu triste silêncio, Gêmeo. Os judeus não satisfeitos com o Tomé da língua do povo, acrescentam a língua dos gregos, Dídimo. Para que ninguém esqueça que sou gêmeo. Da minha perda. De uma ausência.

Lísia era a minha irmã, nascemos na mesma gravidez. Dividimos o corpo da nossa mãe, sugamos os mesmos peitos, disputamos a atenção do mesmo pai e espalhamos brincadeiras pelas ruas da Galiléia. Repartimos a mesma alegria de viver.

Ainda criança, acompanhei nosso pai para aprender o ofício da sobrevivência, no entanto, pescar era ficar longe dela e das brincadeiras e das estripulias e dos segredos de nossa gêmea infância. Mas ao voltar, nossos encontros eram cheios de histórias para contar; a luz dos seus olhos admirados ainda brilha na minha saudade.

Um dia, voltamos e a aldeia estava revirada. Enquanto pescávamos, os soldados do império invadiram nossas casas, violentaram as mulheres e sequestraram a minha alma. Paralisei à porta, diante do corpo morto de minha mãe, minhas palavras e lágrimas foram sugadas pelo horror; imaginava o que os sobreviventes contavam, os gritos desesperados por socorro, o clamor delas para que Deus tivesse misericórdia e as ajudasse. Lísia foi levada para servir na casa de algum centurião. Nunca mais soube dela.

Foi nesse dia que me desencontrei de Deus.

A cada oração comunitária, minha tristeza tornava-se mais profunda e calada. O que dizer a um Deus que domina sobre tudo e nada acontece sem que ele queira, até mesmo a violência dos que nos humilham? Onde estava o livramento prometido aos justos quando os romanos esmagaram nossa dignidade e nos proibiram de viver?

As feridas da nossa gente eram as pegadas de um Deus que tinha me dado as costas. Se existe, pensava, ele é meu inimigo.

Não podia dizer não creio sem que isso parecesse um ruído. Então fazia inoportunas perguntas, estragava os prazeres da piedade irrefletida. Alguém dizia, Deus me chamou, eu perguntava, quem mais ouviu? Outro tentava consolar, Deus sabe o que faz, então foi ele que matou? Mas Deus é bom, é mundo é mau por quê? Deus curou, então por que deixou adoecer? E um dia, um velho saduceu delirou, se eu morrer, Deus vai me ressuscitar; com ou sem rugas? Amargo, também conseguia rir.

Já eram várias noites de frustração. Precisávamos que a pesca tivesse sido boa. Mas só juntamos rasgos e sujeiras nas redes. Na manhã do grande dia, as esperanças anoiteceram mais uma vez. A boca salgada pela maresia, as costas surradas pelas tempestades, nossos sonhos esfarelados na areia da praia. Eu evitava levantar a cabeça e ter que olhar para tantos rostos vazios. Pedro ainda tentou animar, amanhã o Senhor dará os peixes. E o que mata a fome hoje? Importunei, sem tirar os olhos do chão.

As manhãs costumam ser muito frias à beira do lago. O sol ainda tímido sequer aquece a pele, os ossos gelam e doem. A gente se movimenta com exagero e bate as mãos nas redes para que caiam as algas e esquentem um pouco o corpo.

Não faltava muito para terminar os consertos, quando uma gente aflita se juntou e empurrou o novo rabi contra a praia, os barcos e o nosso desânimo. Ele nos observou breve, mas com interesse. Percebeu nosso cansaço e o vazio dos barcos. Viu nossa vergonha. Eu desviei o olhar. Em seguida, pediu emprestado o barco de Pedro. Afastou-o um pouco da praia, flutuando solene nas águas mortas do lago. E muito à vontade, falou às pessoas que permaneciam atentas. Contou histórias do mar e do campo, narrou medos e coragens. Sem pedir licença, entrou na nossa imaginação e sugeriu outra vida. Uma em que somos bem-aventurados e nossas lágrimas sinalizam o consolo por vir; em que nossa fome de pão é de justiça e será saciada; em que a perseguição dos nossos algozes confirma que a mudança desejada é digna; e, para o meu susto, que Deus tem lado, o dos empobrecidos e sofre e chora e clama com eles por outro reino.

Jesus entrou na minha vida através das minhas feridas.

O que era o lugar do nosso sofrimento se tornou por instantes o do anúncio de uma nova humanidade. De uma cara nunca vista no divino. Falou de dentro da nossa angústia. Não deixou com o fracasso a última palavra. E uma inusitada fé flutuava no lago e dançava na sua voz.

De dentro de um reencantado barco, pescou-nos de nossos vazios. Mandou-nos jogar as redes mais uma vez, um pouco além do costume. Pedro não queria, mas foi. Eu nem queria nem fui. Fiquei de longe, da praia, de soslaio com o inaudito. Alguém o provocou em voz baixa, só eu ouvi, você quer ensinar pescadores a pescar? Ele respondeu, mais que isso, quero pescar neles outra fé, a simples coragem de não desistirem.

De repente, o grito esganiçado de Pedro, de quem parecia não saber o que fazer com o que precisava ser dito. Pedia ajuda. Tinha mais peixes nas redes que palavras em sua boca. Outros barcos precisaram socorrer. O amor é quando o espanto é pesado demais para um homem só.

Pensei sem deslumbre, os peixes estavam à distância de mais uma tentativa. Fixei os olhos em Jesus querendo flagrá-lo aproveitando a sorte para inventar-se divino. A frustração do meu melindre, ele gargalhava feito os demais, divertindo-se e mostrando-se desavergonhadamente também surpreso. Olhou para quem o provocara e emendou um aliviado “por que não?”

De volta à areia, ninguém sabia o que fazer com a vida quando ela é boa. Pedro se encolheu prostrado e todos reagimos com a vergonha de sempre. Ele nos olhou com a fé que eu só vi devotada pelos crentes a um Deus. Acreditou em nós. Pescou dignidade no farrapo, o belo no desumanizado, a vida boa no que era só sobrevivência. Pediu-nos para nos reinventar, propôs fazer conosco o que ele se tornou para nós, pescadores de humanidade.

Segui-lo devolveu-me ao lado de dentro; a cada ensinamento, a fé bailava com as minhas perguntas. As palavras cirandavam promissoras; sua fé era dançarina e nossas dúvidas davam o ritmo do próximo passo.

Ele não acreditava a despeito dos que sofriam, mas a partir deles. Nunca falou do divino de costas para os pobres. Ele deslocou Deus do céu às encruzilhadas, do templo aos guetos, da letra fria da lei à pele dos esquecidos. Um Deus à flor da terra.

Minha dúvida também se deslocou. O milagre foi tornar o leproso saudável, ou dar à pele maldita o toque de quem se importa? O cego que o chamara de Filho de Davi via mais que os observadores escandalizados? O prodígio era uma multidão saciada com inexplicáveis pães ou a multiplicação de gestos generosos? A hemorragia da mulher foi estancada para mostrar poder, ou deixar-se tocar por uma maldita é perder poder para estancar o desamor?

Minhas dúvidas abriram lugar para um mundo que valia a pena. Pavimentaram o caminho onde Deus passou a andar ao meu lado. Observando Jesus, vi que Deus está naquele que desperta meus afetos, que acorda minha sensibilidade, que ressuscita minha compaixão e me coloca no mundo como a pergunta que dá voz aos emudecidos.

Descobri que transcender é ter misericórdia. Sair de seu desesperado egoísmo, expandir a consciência e ver-se melhor nos olhos do outro. Estar com Jesus revirou a minha incredulidade, o que era descrença jogou-me na exuberante presença de um Deus feito gente. Reencontrei a fé no cuidado com os feridos do mundo.

A compaixão tornou-se a minha fé.

Os dias foram ficando cada vez mais nervosos. Os poderosos passaram a olhar para Jesus com incômodo. Não gostavam de quem fazia o povo crer sem sacrifícios. Temiam quem preferia os que o Templo desprezou. Tinham nojo de quem festejava a vida com os transgressores. Aquele que levava esperança às margens também fazia o povo dar as costas ao Palácio.

Já se falava em conspiração para matá-lo; as conversas foram se tornando emboscadas; temíamos um apedrejamento a cada multidão; em Jerusalém e nos arredores, dizia-se que o nosso mestre era uma ameaça à família e à nação, um blasfemo subversivo.

A notícia da morte de seu amigo Lázaro chegou feito um furacão. Desacomodou o mestre como eu nunca tinha visto. E o fez fechar os olhos para o risco de ir a Betânia, casa de seus amores, vizinha da perigosa Jerusalém. Sabíamos que era um lugar hostil e uma séria ameaça a sua vida. Mas ele fez trocadilhos, disse que o amigo dormia e iria acordá-lo, provocou a nossa lealdade e insinuou a absurda ressurreição. Alguém comentou que ele não suportava a ideia de Maria estar desesperada e longe dos seus braços.

Avisamos que seria morto se pusesse os pés no vilarejo. Mas ele manteve a decisão intacta. A promessa de uma ressurreição entendi como mais uma parábola, outro provocativo enigma para uma vida tão precária quanto carente de recomeços. Alguns o viram alucinar ao prometer o impossível e discutiram a doutrina e os antigos debates dos saduceus. Não. Ali não vi um delirante nem um herege nem um teimoso, vi um amor mais forte que a morte. Ali a fé transbordou em mim depois de uma inundação de sentidos. Coloquei-me em pé e fiz o que seria a declaração do que creio: Vamos juntos para morrer com ele! A minha crença roubou o fôlego de todos. Eu não acreditava em ressurreição. Eu acreditava no amor.

Em Betânia, as cenas se sucederam velozes, quase impossível não se perder. Marta o recebeu com instruções e prognósticos. Maria perdeu-se em seu colo, chorou e o culpou por não estar lá e impedir a morte do irmão. E o mestre, até então cheio de certeza, se desmanchou vulnerável como nunca antes. Chorou. Depois disso outras cenas vieram, mas eu fiquei imerso em suas lágrimas. Mergulhei no coração de Deus através de suas dores.

Tudo o mais pareceu um detalhe. Jesus mandar remover a pedra que encerrava o Lázaro tido como morto e gritar pelo seu nome feito quem acorda o doente de um sono profundo. Não me comoveu Lázaro aos olhos de todos. Permaneci submerso na fragilidade de Jesus como no dia que fui batizado no Jordão. Na minha mente, o choro de Jesus foi o que de mais divino aconteceu em Betânia. Mas a multidão e os demais pareciam se desviar do homem que ali se revelava, afirmar uma milagrosa ressurreição era meio-caminho para o trono. Sentiam-se ao lado do Todo-poderoso. E eu só via o Todo-amante.

Aqui se formou a encruzilhada que o levou à cruz e os discípulos à grande decepção. Para os poderosos, livrar-se de alguém com a fama de ressuscitar pessoas era urgente. Para os discípulos, tomar o poder dos romanos era um delírio religioso. Para mim, ninguém tinha entendido nada.

Quando o mal caiu sobre nós, o meu sofrimento não foi o mesmo dos demais. O nosso mundo desmoronou em cascata. A traição pelo íntimo e confiável Judas Iscariotes. A Captura do imbatível e promissor rei igual a um colibri indefeso. A humilhação e tortura aplaudidas pela multidão que passou a ver nele um demônio. A absurda preferência do povo pela violência de Barrabás à ternura de Jesus. Os inescrupulosos chefes do Templo mentindo para salvar suas verdades. A indiferença de Pilatos que ignorava tanto o réu quanto os acusadores.

Pedro não sabia o que fazer com a fraqueza de Jesus; menos ainda com a fanfarrice de uma fé que fecha os olhos para o fracasso. João e Tiago não puderam mais trovejar planos de conquista. Judas descobriu tarde demais que seguiu o homem certo pelo motivo errado.

Meu sofrimento por sua prisão e morte nada teve de decepção. A cruz sempre esteve no horizonte que ninguém quis ver, mas ele nunca deixou de apontar. Olhando-o crucificado, tinha em mente o gesto escandaloso de se inclinar aos nossos pés para os cuidados que cabiam aos escravos. Na cruz, tanto quanto na bacia com água, para encontrar Deus também precisaríamos nos baixar até o ponto em que nossa humanidade não dependesse mais de prepotências.

Vi Deus ferido pela mesma dor que atravessou a minha história e a da minha gente. E acreditei.

Ver o divino Jesus crucificado foi tão triste quanto reconciliador. Eu me vi nele. Como um dia ele se viu em mim. Fui salvo por essa estranha beleza.

Há mais de uma semana falam de sua ressurreição. O que em todos causa euforia, em mim reivindica um pouco mais de escuta. Ouço de Maria que o confundiu com o jardineiro, mas o reconheceu pelo jeito de chamar seu nome. Não lhe diz nada que ao tentar segurá-lo em seus braços, ele tenha se negado e sumido diante de seus olhos? Tê-lo nas mãos como um troféu não seria perdê-lo? Não foi a saudade de quem não deixou de amar que o reviveu?

De Cléopas ouvi que ele e seu amigo viram Jesus em Emaús. Depois de caminharem lado a lado como estranhos, o convidaram para pernoitar, assim que ele deu graças e partiu o pão, viram que era Jesus, ainda que ao tempo de uma piscadela. Também disseram que o coração queimava enquanto o estranho lhes falava no caminho. Não percebem que a fugidia presença é um encontro no coração? Não foi a imagem e o cheiro do pão partido que o fez reviver?

Pedro, João e os demais insistem que Jesus está vivo e que agora nada e ninguém irá impedir o Reino. Contaram que entrou, mas não lembram de lhe abrir a porta; que tinham muito medo quando o viram no meio da sala; o escutaram acalmá-los do mesmo jeito que no barco açoitado pela tempestade e, depois de soprar neles como quem suaviza uma ferida, disse que o mesmo ânimo que o inspirou estava vivo neles. Do jeito que apareceu, não foi mais visto. Ninguém entendeu que não se trata da reanimação de um defunto para uma vingança triunfal? Não será a vida arejada por seu testemunho que sempre o ressuscitará entre nós?

Não quis ficar na casa onde os outros discípulos se escondem. Na verdade, lamento a confusão de ideias e sentimentos. Não sou melhor que eles, mas lamento não terem entendido a estranha beleza das lágrimas e feridas de Jesus. Elas foram aberturas na recalcada humanidade para o coração. É sofrimento, mas é por ele que nossas almas se conectam. As feridas e as lágrimas de qualquer um são as feridas e o choro de Deus. Toca no divino quem cuida das dores de alguém.

Oito dias depois do alvoroço de quem disse ter visto Jesus vivo, cedo e estou aqui com os demais nesse casa de gente assustada. As janelas estão tão trancadas quanto as portas. O calor só não é maior que a pressão deles para eu deixar de duvidar. Pedem para eu crer na ressurreição. Não sei o que lhes dizer. Pedro insiste, você precisa ter fé. Tocar nas feridas de Jesus é a única chance de senti-lo vivo novamente, meu amigo, respondo.

A casa está fechada há dias, se tornou uma masmorra húmida e cheia de gente que só reconheço pela voz e o cochicho amedrontado desde a Páscoa. O azedume de hálitos aflitos tomou conta do ambiente. Sinto-me enjoado como num barco em mar agitado. Estou tonto, mas sair e arejar nem pensar. Não deixariam. Precisam que eu creia no que eles creem.

Quem é este? Parece o mendigo pelo qual passei ainda na rua.

Talvez alguém tenha esquecido a porta mal fechada. E essas mãos estendidas? Ah, quer me convencer a ajudá-lo por causa das feridas.

Por que me olha assim? Este olhar. Esta fragilidade. Aqui estou eu chorando de novo, não bastasse o suor escorrendo no rosto.

Por um instante, pareceu minha irmã pedindo-me um abraço. Deus Amado! Meus olhos estão embaçados e ardem. Não sei o que pensar. Só tenho vontade de chorar e abraçar esse estranho.

Toque aqui, homem, não tenha medo.

Agora é Jesus que vejo? Estou quase desmaiando, vou me ajoelhar. Choro mais que suo.

Deus está aqui. Jesus está aqui. Meu Senhor e meu Deus!

Se não é Jesus, o amor que sinto agora é o mesmo que tenho pelo Mestre.

Ele parece querer dizer algo.

Tem muita gente que não me vê para ser feliz. Você parece aflito, mas só você aqui dentro conseguiu me enxergar.

Seja quem for, é Jesus! Meu Deus e meu Senhor!

Elienai Cabral Junior

Quem me segue que também eu não o siga?

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