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Lá em casa, a gente comemora aniversários e dias especiais acordando o homenageado com música e café da manhã. Damos os presentes e tomamos o café aninhados na cama ainda quente e amarrotada da noite de sono. Amor pra mim tem cheiro de café, a cara inchada de quem acordou cedo para amar e o barulho feliz das crianças curiosas com os presentes a serem abertos. Foi assim na comemoração dos meus 45. Entre desenhos e presentes da Gabriela, Clara e Bete, o Thales toca o violão e canta a música que fez para mim, do jeito dele, singularmente maravilhoso. No primeiro verso, a genialidade que parece ingenuamente ignorar: “Pai, você é bem mais que Elienai, você é meu companheiro”.

Sequer ouso explicar seu poema de amor e nem preciso dizer da emoção. Mas é encantador que a poesia lhe dê a chance de abrir uma janela de possibilidades, um acontecimento estético. Ninguém ouve que é mais que o seu nome costuma significar e permanece distraído ou o mesmo. O menino nem imagina o quanto fragilizou o homem a quem ama.

Seu carinho poético me fez cafuné nas ideias o dia todo, dormi atravessado por tudo o que ser mais que Elienai pode representar. Para ele, talvez, mais que as atividades da minha profissão, as responsabilidades de ser pai ou os compromissos vários e repetitivos a que assiste diariamente, sou seu “companheiro”, alguém que gosta de estar ao seu lado, escuta seus medos e compartilha seus interesses. E isso sozinho já é muito.

Mas quem faz poesia nunca alcança todo o repertório de sentimentos, imagens e possibilidades que principia, filho querido. O poeta é o meio do caminho, o entroncamento incalculável de vias, um ser atravessado por mundos, os vividos e os por viver. E assim, amarga nunca ser o ponto original de suas próprias palavras, apenas alguém, à beira do rio, que se curvou com sensibilidade e desprendimento para juntar um pouco da fugidia água, que desliza multiforme rio a baixo. E em seguida, consciente do dilúvio em suas mãos, deixa-a escoar pulverizada pela brisa e prismando os raios de sol. Ignora o poeta as fronteiras do evento que lhe atravessou com palavras e sons. Toca o intangível e deixa ir e tocando mundos e almas.

Seu poema permanecerá difuso conversando e multiplicando acontecimentos. Em mim, libertou-me, por um instante que seja, de ser eu mesmo, o Elienai. Meu nome não é quem sou, mas a fresta do caleidoscópio; por ela assisto à dança de formas, linhas, cores, conjuntos e desordens que me desenham.
Uma pessoa é o imponderável, uma multiplicidade de ideias, ruidosa polifonia, mosaico aleatório de gostos e amores. Qualquer nome é um aleph, a letra pela qual se vê mundos incalculáveis. O entrecruzamento de afetos, amigos, rivais, companheiros desavisados, parceiros oportunistas, anônimos imprescindíveis, o filho rebelde, a esposa infeliz, a filha acolhedora, o pai narcisista, a vó tolerante, a mãe exigente, o patrão sádico, a professora sensível, o sacerdote culposo. Somos cifras e enigmas. Poema.

Sartre avisou-nos que somos condenados à liberdade, expostos que estamos às contingências e às incontornáveis escolhas; talvez pela mesma razão afirmo que somos condenados ao amor. Suscetíveis a todos que passaram e passarão por nossas vidas, nada em nós é puro ou original; nada nos pertence por natureza ou essência, somos sucessivos encontros, históricos e casuais, provisórios e promissores. Bem mais que podemos nomear. Mais que Elienai, Thales, Gabriela, José, Maria, Jesus, Deus.

Nos meus 45, meu filho desvelou minha promissora liberdade, minha escandalosa amorosidade. Restam-me a modéstia de sugerir belezas e sabedorias ao mesmo mundo com quem já lutei por mesquinharias; a leveza de não precisar ser tudo o que tantos idealizam do macho brasileiro religioso; a pretensiosa imaginação de quantos futuros forem necessários para não desistir de viver; a arriscada e por isso mesmo agridoce aventura de me cercar de amigas e amigos; a liberdade de não estar obrigado a deixar uma marca original na vida e a memória sonora do verso infante e gentil que me avisa que sou “mais que Elienai”.

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Filha,

nem direi mais que daria tudo para assisti-la desfilando seus sonhos, despedidas e expectativas nas passarelas de logo mais. Esses graúdos olhos enxergam a vida com gula. Gosto de observá-la engulindo o mundo com sua fome de viver, de fazer amigos, de mexer na história ao seu modo. Lembre aos teus admiradores que não desgrudem os olhos dos teus olhos, eles serão o palco mais lustroso dessa noite de gala. O paraninfo mais eloquente não será o professor mais querido, mas teu olhar reluzente. Peça à mamãe que fotografe teus olhos, preciso deles para insistir nos meus horizontes. Teu olhar me faz ver o divino.

Formar-se é uma tentativa de chamar um evento que tenta congelar o tempo. Pense comigo, que vivo forma-se por fim, senão na morte? Esta noite é apenas um retrato. Devia chamar-se ‘retratatura’. Porque é apenas a captura desesperada de uma cena. Graças a Deus ninguém nunca se forma enquanto vivo. A vida é uma linda informatura.

Ao desfilar na direção da mesa de professores, todos te olharão famintos de sua fome. Porque o sumo da vida é a fome, esta ânsia de experimentar o inédito, o inaudito, o imprevisível. Tome o ‘canudo’, erga-o, engula o auditório com teus olhos. Se vierem as lágrimas, lembre-se que vêem para embaçar sua visão imediata das coisas, o que lhe capacitará a enxergar pela imaginação todos os mundos por conquistar, todas as vidas por degustar, todos os abraços e amores, todo o prazer de existir em um mundo da informatura. Se quiser, enxugue as lágrimas, mas não pare de imaginar seu mundo no mundo que está aí. Traga o canudo ao peito, aperte-o e como uma sacerdotiza em um ritual, lembre-se dessas palavras: viverei para amar e ser feliz. Muitas formaturas virão. Mas as informaturas é que importam. As informaturas falam do que na vida não termina jamais. Meu amor por você é a informatura que hoje lhe dedico, ninguém diploma o que sinto, Clarinha, nem eu.

Quando der certo, qualquer coisa, você terá meus abraços e alegria. E quando não der, terá meu colo e companhia. O curso do meu amor não terá jamais formatura.Pode ir, linda e gulosa de viver, colecione diplomas, porque você já é amada de antemão e para sempre. Meu beijo nesta noite de (in)formatura.

Papai

Não sei se você é mais meu amigo. Hoje, dia de lembrar que não dá pra esquecê-lo, duvidei de você, ou do que tenho te chamado. Amigo. De repente já não aceito mais sua amizade. Já chamei gente demais de amiga. Gente por quem passei. Falo com dor. Passei por tanta gente boa que não posso deixar de chamá-los de amigos. Passei por suas lembranças, doces e queridas, mas muitas já quase apagadas. Retratos de uma passagem, flagrantes do que não é mais. Imagens doces, mas imprecisas. Que pena! São meus amigos aqueles que o tempo borrou suas imagens. Desenho de uma saudade que não mais tenho.

O que importa agora é que você deixou de ser meu amigo. Não sei quando e é isto que me cura. Chamo de amigas as pessoas de quem sinto uma estranha saudade por não mais sentir falta, apenas saudade. Mas estas, basta bater a poeira das parcas memórias, sei exatamente quando se tornaram minhas amigas. Foi no dia em que nos despedimos e eu, de novo, passei por elas. Meu desconforto neste dia que não deveria existir no seu caso, já que estas datas são coisas de amigos, gente que precisa se lembrar do que se importar, é de que sei exatamente quando e onde fui impedido de chamá-lo de amigo. Curioso! Também em uma despedida. Ali eu já duvidava do que só hoje descobri, jamais seríamos amigos.

Não quero nunca mais chamá-lo de amigo. Também o proíbo, já que não o é, de que assim me chame. Não gosto do que penso quando a alguém chamo de amigo. Melhor, quando chamá-lo não lhe darei nomes. Apenas direi seu nome e calarei. Faça o mesmo. Beberemos e comeremos juntos. Falaremos de nossos amores e de quantos amores nos deram. Jogaremos ping-pong e sinuca. Correremos. Oraremos nossas poesias. Cantaremos nossas prosas. Depois, quando tivermos que nos chamar de alguma coisa, ficaremos em silêncio e eu reverenciarei aquele por quem não passei. Graças a Deus! Já tava na hora! Despedi-me à toa de alguém. Não há flagrantes embaçados. Nem de fotos precisamos. São insuficientes as imagens e os nomes. Tenho você na alma. Os amigos, tenho nas fotos. Ah! Também não tirarei mais fotos suas.

Parabéns pelo dia que não preciso para lembrar de você.

Elienai

O templo pode se tornar o lugar de seu maior desencontro e a comunhão mais legítima, uma violência inadiável.

Dias antes ele viera a um lugar que há muito não estava lá, aquela ‘Casa de Oração’ esquecida sob camadas de mentiras. Porque são necessárias muitas paredes para se esconder com eficiência uma grande mentira. Um grande templo para uma grande religião.

Os barulhos e os cheiros da procissão desembocando na cidade são familiares, homens e mulheres arrastando ofertas e expectativas. As músicas se revezam no embalo final dos que chegam ao lugar decisivo, à morada do Deus que não regateia seus rigores. E um Deus assim, tão inegociável, sempre cria filhos que aprendem a pechinchar à sombra de suas imperfeições.

Os olhos cansados esbugalham em rostos bronzeados pelo sol de tantos dias, andam-se muitos caminhos para se chegar a um templo. Olhares aflitos se destacam em faces ressecadas, cruzam-se desertos para que o templo cumpra seu papel. Gastam-se corpos, afetos, até a fé. O caminho que leva ao templo exaure forças, é epopéia de cansaços, senda de claudicantes. E toda fadiga termina se tornando um grande negócio.

E os que negociam já estão lá, como garantia de que o enorme esforço será triunfante. São mercadores mediando a grande utopia. Nenhuma fadiga, qualquer distância, incidente que seja pode ser tão imprevisível, tão suficientemente contingencial para assaltar a vitória do crente. O templo não pode ser comprometido com as precariedades do caminho.

O custo de um templo assim é alto, mas ninguém garante ofertas à altura de um Deus terrível sem pagar um preço elevado. A demanda é enorme, mas sempre haverá pombas, cabritos, bois e tudo o mais de que carecer o culto. Tudo para que Deus não seja frustrado pelo triste caminho que separa os humanos da glória.

O culto não para. Ninguém para. Nada pode estancar uma ordem que cumpre tão prodigioso papel: garantir um acerto glorioso com o divino. O templo realiza sua vocação à medida que sublima a vida dos imperfeitos. Tudo funciona lá dentro a despeito de tudo o que não funciona lá fora.

O barulho incessante empolga os guardiães do templo. É muito feliz a sensação de assistir à coreografia ininterrupta dos que chegam com tantas expectativas. E que partem já antecipando o dia em que voltarão. Nada é mais lindo aos olhos do sacerdote que o vai-e-vem inexorável da multitude encantada.

Mas um rito subversivo é urdido à margem do templo. E como todo rito é uma trama. Uma dramatização de anseios. Uma usina de novidades. Alguém costura o inusitado, fabrica uma revolta.

A primeira fabricação de um instrumento ultrasônico, aquele capaz de ultrapassar a barreira do som, foi um chicote. Isto porque o movimento da chicotada é mais veloz que o som por ela produzido. E o que direi agora pode ser a descrição mais profana que já se fez de um homem. Um nazareno reuniu todas as iras que a religião do templo lhe provocou em cada tira de corda costurada. Ele mesmo fez o chicote que interromperia o barulho do ajuntamento em transe. O slasch viria depois da dor. Eis o rito mais subversivo. Nada mais apropriado para acordar gente encantada que o som da idéia chegar depois do estrago já feito.

E foi assim. Um homem enfurecido ziguezagueou pelo pátio chicoteando com poucos critérios os que ainda negociavam. A princípio, imaginou-se serem soldados romanos descontentes pelas comissões. Houve quem afirmasse, enquanto corria, que era um endemoniado. O som do chicote e as mesas viradas dos cambistas fizeram a voz do reclamante se multiplicar em tantas que nem imaginamos quem pudesse ser, até o pátio em pandemônio dar lugar ao silêncio estupefato dos que ali permaneceram. E sozinho, resfolegante, restava com a arma ainda empunhada, Jesus.

O amor assusta ao fazer-se ódio. Desvela-se em tensão, revolta e ruptura. Sombrio e violento, mas amor.

Com câimbras na mão e a voz já rouca, vaticina pela última vez: vocês transformaram este lugar em um covil de ladrões. E pensar que um dia já foi uma Casa de Oração. A família, distante, desconfia de sua sanidade. Os discípulos, sem coragem de se aproximar, lembram do profeta. O zelo por sua casa me consumirá.

Dispersos os mercadores, uma gente, que ninguém vê há tanto tempo por ali, aparece vinda de todos os cantos, e nada os impede agora, são os cegos e os mancos. O chicote, quente e trêmulo, despenca teatral da mão de Jesus, tão lentamente quanto a compaixão que agora o envolve. Um Deus assim, tão improvável, sempre junta os filhos dos quais o templo se esqueceu.

As crianças, que tem no mundo um lugar de imaginação, a continuidade das histórias ouvidas antes de dormir, olham a cena e enxergam o que ninguém vê. Apenas continuam a história preferida. De um Davizinho que derrubava gigantes com uma atiradeira na mão, mas curava a tristeza de reis com harpas e poesia. Agora ele tinha um filho, que expulsa gigantes com um chicote, mas toca os doentes como Davi dedilhava sua harpa.

E começaram a se divertir com a mais nova brincadeira, e viam quem gritava mais alto: Hosana ao Filho de Davi!

Há um limite para a convivência das expectativas da multidão e a linguagem lúdica de um sonhador. Pode se manter muita gente por perto, bastante tempo, contando histórias. Respondendo com novas e escorregadias perguntas, distraindo com meias palavras, usando as mesmas figuras para indicar outras imagens. O Reino de Deus, invisível. Fermento para o bolo. Um grão de mostarda. A luz no candeeiro. O sal. Um casamento surpreendente. Outra coisa com as mesmas palavras. Parábolas que postergam os julgamentos, que iludem a ilusão (Kierkegaard).

Mas há um ponto de fervura em toda esperança adiada. Um prazo estreito para o encantamento popular, quando a violência adormecida de todos acorda. Parece que é o que está acontecendo. Ninguém pede mais sinais. Nenhuma nova pergunta é feita e sequer mais uma história é tolerada. Antes, cercado por demandas, agora, rodeado por suspeitas.

Se o apetite por poder não é saciado, aquele que a todos distraiu, de quem nunca se deixou de esperar a mais vulgar e velada satisfação, deve ser consumido nas aspirações desapontadas da turba. Se Jesus não é o Cristo que se reivindica, Barrabás.

Um ídolo não tem o direito de não ser.

Não dá para não trair alguém que tinha tudo para ser o que todos esperavam. Não dá para não repudiar aquele com quem se decepcionou nas mais doces fantasias. Não dá para não condenar aquele que não consentiu com mais uma ilusão.

Um ídolo não tem o direito de se mover.

Todo líder é constituído em um jogo erótico. E toda intriga é uma pornografia. Ninguém toca no assunto, mas todos esperam secretamente que ele seja o que ninguém consegue ser. Este é o segredo que excita os ajuntamentos. Mas, se alguém acende a luz e frustra o fetiche coletivo, retomam-se as sombras, agora para destruir. Odeia-se quem não se deixou amar com máscara. Este é o segredo que perpetua as taras para os próximos ajuntamentos.

Por isso o insinuante beijo de Judas virá. Estalará como um tapa, cheio de um estranho sadismo. A primeira e mais ardida bofetada que o Filho do homem terá recebido.

As palavras de Jesus estão gastas. O prazo se esgotou. Tudo o que diz, desde então nada fala. As multidões atraídas por ele, agora o repelem. Resta o lugar de poucos, o espaço dos amigos. Quem sabe? Jesus se faz anfitrião e põe a mesa. Oferece pão, ainda que ninguém aparente chegar à saciedade. Enche as taças, que insistem em parecer vazias. Cheios estão os corações, mas de diabos. Sente-se sozinho também em casa.

O limite das palavras é um convite para os gestos de amor.

As palavras, amordaçadas, descobrem que o amor se expressa a despeito delas. Silenciosamente, Jesus encena o último sermão antes da cruz. Despe-se da capa para ocupar o lugar discretíssimo do servo. O mestre lava os pés dos discípulos. As mãos de um Deus calado conversam com os pés trôpegos da humanidade.

Nunca se olhou tanto para baixo como no dia em que Deus ficou de cócoras. Quem quisesse olhar para o céu a procura de Deus teria que vê-lo refletido nas águas turvas da bacia sobre o chão. E os pés sujos e vacilantes da humanidade, finalmente, imersos no céu gracioso de Deus.

Por um instante, vendo-o prostrado, alguém entre os discípulos, muito constrangido, se lembrou do que ouviu do próprio Jesus. Que um diabo, em um deserto, tentou fazê-lo se prostrar por poder e fama e ele recusou. Assustado, chegou a pensar: não se prostrou diante da fama para ser ouvido, mas se curvou diante de pessoas para amar… E teve medo do futuro. Do que teria que fazer com todos os seus planos.

Elienai Cabral Junior

A morte não é fim. Não é estática. Ela é um vento. E ouso dizer que se move a nosso favor. Que nos salva.

Pulveriza nossas medidas e espalha nossas palavras. Sentir-se por ela envolvido é sugestão de silêncio e temor. Condenam-se ao ridículo os que ousam falar da vida na morte.

Com a morte, só ela sabe da vida.

Por isso descobri no ofício do pastor o lugar de sua mais baixa miséria e mais elevada virtude: a beira de um caixão. É ali que o oficiante experimenta sua redentora contradição: a missão de falar quando nada diz. Reunir as palavras quando são inconciliáveis. Ensinar quando nada se sabe. Falar quando até as palavras silenciam.

Mas, desconcertante, a morte que espalha nossas palavras junta-nos em abraços. Quanto menos na morte conseguimos dizer, mais apertado aos vivos precisamos abraçar. Menos esperança, mais amor.

Ali, nunca deixei de ouvir com tanto alívio qualquer palavra. Ali, nunca vi com igual intensidade tantos abraços. A morte que me cala une mais irmãos que qualquer sermão que já preguei.

A morte que, ao lançar longe toda e qualquer palavra, nos ensina que nada da vida sabemos, agora joga-nos aos braços do que chora para ensinar-nos o que é amor.

O evangelho diz que no princípio Deus era o verbo.

A morte completa: no fim Deus é só o abraço.

Ao Allison, que em vida nos amou com tanta poesia e carinho, agora, não mais vivo, junta-nos em tantos abraços.

Obrigado, amigo.

Dia desses, flagrei-me triste de tão solto. Faz tempo que me incomoda uma leveza ruim. Sinto meus afetos pulverizados por todas as minhas partidas. Não sei o que é viver mais que cinco anos em um mesmo lugar.

Invejo os velhos amigos. Meus velhos já não são tão amigos. Boquiaberto e silente, observo o desconhecido mundo daqueles que convivem desde há muito. Nem tenho sotaque, nem grandes e antigas amizades, nem velhas memórias da mesma história, nem o silêncio da intimidade que prescinde das palavras e nem as conquistas que demandam tempo.

O tempo? Nada dele sei. Sei do espaço. Percorro tantos quanto fôlego precisar para do tempo fugir. Sei do Rio, Fortaleza, São Paulo, Curitiba, Brasília. Mas de ontem eu me esqueci. Não tenho ontem. Tenho somente lugares.

Despedi-me de todos os meus amigos. Sou um Sísifo dos afetos. Ah! Sei tudo de recomeço. Condenei-me a sempre empurrar morro acima minhas novas histórias, amizades e projetos. Quando chego, já estou indo. Se você precisar de conselhos sobre como reiniciar a vida, pergunte-me. Contanto que nada queira saber sobre conclusões. Nada sei sobre os dias seguintes.

Talvez por isso tenha aprendido a amar as corridas de rua. Esporte dos solitários. Daqueles que conseguem ir mesmo que desacompanhados. Daqueles para quem importa mais ir que ficar. Cada corrida é uma despedida e toda chegada é provisória. A alegria da medalha apenas indica a próxima aventura. Somente quem nunca chega o bastante está apto para ser um corredor de rua.

Mas sou bom de conversa. Tenho muitas histórias para contar, caso aceite minhas várias e avulsas memórias. Mas por favor, como já combinamos, não me pergunte sobre depois. Toda sequência é para mim uma incógnita.

Sinto-me um Don Juan. Aprendi a seduzir, mas não sei não me despedir. Medo de chegar? Medo de nunca chegar? Medo de chegar aonde realmente quero? Talvez. Tais vezes.

O ambiente é dominado pela lógica do tipo masculina, a que aprendemos para nos preservar quando nossa fantasia de machos triunfantes é ameaçada. Tudo organizado para que os afetos não apareçam. O cheiro é de traição, suspeita e morte. Tramam contra o Mestre. Ele vai morrer. Mas ninguém se queixa. Ninguém chora. Ninguém se descontrola e ama.

Dentro da casa, graças à superficialidade, quem sabe mantida pelos grandes temas, sempre tão acima do chão doído da vida, o grito desesperado da alma não é indomável. O heroísmo é a vitória da fleuma e toda indiferença é uma bravura.  Coragem demais para não deixar por menos.

O silêncio dos afetos, tão bem calado pelos grandes, sérios e generalíssimos assuntos, é interrompido pelo ruído desastrado da cerâmica em cacos. Após o som inesperado segue o cheiro doce que queima as narinas. O amor desorganiza. No chão, os cacos, nas mãos afoitas de uma extravagante, o perfume irreversível embalsama o que ainda vive. Há uma Maria cujo maior medo vence todos os demais: de não ter amado muito. Porque todo amor é um grande medo. Medo demais para não viver demais.

Mas a razão moral é a presunção de que se pode restaurar a ordem e recolher os afetos. O que a mulher fez foi um desperdício, uma imoralidade. Todos a repreendem como que se fosse possível juntar os cacos e reverter o perfume derramado. O reverso do reverso. A culpa que mata para que a vida volte a ter ordem.

Jesus, liberto das superfícies lustradas como o perfume da garrafa, sai em socorro de sua redentora. Deixem-na em paz. Ela fez o que pôde. Porque o amor não é o dever dos virtuosos, mas a possibilidade dos fracos. É a vida intensificada pelo desespero. E desesperar é poder não esperar mais.

Amar é tocar com a intensidade de quem o faz pela última vez. Quem ama embalsama em cada toque.

Como no bolero. Besame, besame mucho, como si fuera esta noche la ultima vez. Besame mucho, que tengo miedo perderte, perderte después.(…)Piensa que talvez mañana yo estaré lejos, muy lejos de ti.(Consuelo Velásquez)

Elienai Cabral Junior

Depois dos últimos sinais, fiquei com a impressão de que minha maior ignorância, a mais grave distração, meu esquecimento mais freqüente é de mim.

Ignoro-me, esqueço-me e sigo em frente desprezando quanto custo. Quanto sou o que acabei me tornando. Minha dispersão é o coeficiente de quanto custa ser assim.

Sou perspicaz em descrever as pessoas a minha volta. Qualquer movimento alheio faz soar meus juízos e afetações. O que todos dizem ou ouvem de mim imprime uma memória quase infalível. Mas me dei conta de que tudo o que sei sobre mim sei de longe. Sei acanhado.

Os sinais que recebi poderiam ser mais discretos, mas sutileza apenas convence a face ignorante de minha dor. São ruidosos. Expuseram-me. Estamparam minha impotência. Sinais escatológicos devem ser indiscretos.

Dão-me bom dia as lágrimas. Um choro engasgado de tão profundo e distante. De lá de onde um dia espero ser resgatado.

Choro sem decisão, aos poucos. Espero pelas dez, ou onze. Sempre passa, silencia e me adia. Minha angústia disfarçada pelos cantos é ávida devoradora das minhas manhãs.

Quando, enfim, a mínima tarefa reinicia, reencena, reticências.

Em um dia desses, sem mais sinais, tão temida, a epifania de mim.

Elienai Cabral Junior

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

Quem me segue que também eu não o siga?

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