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MEDO DE VIVER

 A música composta por Gainsbourg pode ser uma redentora desmistificação do suicídio e da loucura, marcas fortes do nosso desespero. Ambas ideias vizinhas, suicídio e loucura, por serem muito temidas. O suicida é um desconhecido, um totalmente outro; quem tenta se suicidar não é suicida, só o é aquele que já está morto, logo não pode mais ser, portanto, um desconhecido. O louco, também; o outro da nossa racionalidade, a racionalidade normalizada. Também o louco nos aflige, pois se o conhecemos já não é mais tão louco assim, ou nós o somos e já não podemos mais traduzi-lo à razão “normal”. No show de Ana Carolina e Seu Jorge, parece ser uma catarse, uma confissão coletiva do que nos apavora. E nada alivia mais o peso de um medo que falar sobre e com o deboche, desmistificá-lo. Veja:

Chatterton

(Serge Gainsbourg)

Chatterton, suicidou

Kurt Cobain, suicidou

Vargas, suicidou

Nietzsche, enloqueceu

E eu, não vou nada bem

Chatterton, suicidou

Cléopatra, suicidou

Isocrátes, suicidou

Goya, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

Chatterton, suicidou

Marc-Antoine, suicidou

Van Gogh, suicidou

Schumann, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

O suicídio parece ser o mais radical ato humano. Afinal, implica em um encerramento definitivo dado pelo próprio indivíduo a sua vida. Até o suicídio, a vida é inevitável e a morte, um destino ineludível. Com o suicídio, somos obrigados a assumir a vida e administrar o evento da morte. Mas a palavra vem carregada de moralismo. Seja o religioso, seja o moralismo triunfalista do nosso tempo. E todo moralismo é fuga de uma angústia.

Repelimos o suicídio talvez porque seja o gesto do outro que enfraquece o nosso. Alguém desistiu da vida, a ponto de abreviá-la ou antecipar a morte. E isso enfraquece nossa valorização da vida. A religião moraliza o discurso com o dogma do pecado e tenta frear o medo de viver com o medo de morrer. Já que a morte do pecador é a porta de entrada para um eterno inferno. Nenhum moralismo é eficiente sem uma promessa de céu e uma ameaça de inferno.

André Comte-Sponville, em seu Bom dia, angústia, nos ajuda a desmistificar o suicídio e aponta alguns caminhos de reflexão para o enfrentamento do medo e da angústia. Para o filósofo francês, o suicídio não pode ser visto como uma morte voluntária, afinal, todos estamos obrigados a morrer. Veja o que diz:

A expressão “morte voluntária” é equívoca. O suicida não escolher morrer (é uma escolha que não se faz: cumprirá morrer de qualquer maneira), mas morrer agora. Quantos fariam essa escolha, se pudessem escapar ao nada? Quantos adiantariam a hora de sua morte, se pudessem jamais morrer? Lucrécio já havia percebido – antes, talvez, de suicidar-se ele mesmo – que é a assustadora certeza do falecimento que deixa a vida odiosa a muitos, a tal ponto, às vezes, que eles se matam para escapar afinal à angústia que ela lhes inspira… [1]

            Mas antes de percorrer o caminho do suicídio em busca dos dramas escondidos sob a cortina da melancolia, dos acontecimentos e suas condições de possibilidade da escolha por antecipar a morte, também é Sponville que nos ajuda a olhar para o suicídio sem a roupagem moralista. Para Sponville, usando o pensamento de Epicuro, o suicídio é necessário para que a vida seja boa, para que a vida valha a pena. Afinal, eu não posso escolher não nascer nem não morrer, mas posso escolher continuar vivo, não adiantando a própria morte.

Se o suicídio é uma possibilidade, a minha vida passa a ser minha responsabilidade. A possibilidade do suicídio é a potencialização da minha liberdade. Não escolhi nascer nem os pais e a carga genética que deles recebi. Não optei pelas condições sócio-políticas nem pela língua com a qual cheguei ao mundo. Não fui educado segundo minha vontade. E tudo isso que não escolhi se combinou aleatoriamente para forjar muito de quem eu sou, desejos, medos, cosmovisão, cultura, gostos. Faço, sinto, reajo, desejo, temo um monte de coisas de um modo que contraria o que eu chamo de minha vontade. Sobra-me muito pouco para decidir, liames, réstias, fiapos de vontade. Por que me considerar responsável pela vida? Por que concluir que a vida que eu tenho é a minha vida? O suicídio é uma das razões, enquanto possibilidade. Nunca como realização.

Se não me suicido, vivo. Se vivo é porque poderia me suicidar, mas escolhi continuar vivo. O suicídio é uma possibilidade que intensifica a minha vida. Uma porta aberta que me faz responsável por continuar dentro da casa. Mas para o filósofo francês, uma possibilidade que não é sábio acessar, porque acessar é o remédio errado para a angústia.

Para Epicuro, nada justifica o suicídio, senão a decisão corajosa de antecipar a morte. Para ele, a vida oferece possibilidades de prazer maiores que as de infortúnio e bastantes para que a angústia a torne insuportável. Mas sabemos que existem outros acontecimentos em torno da depressão e do suicídio que precisamos conceber com cuidado.

Há na depressão e na angústia um nível de gravidade possível, que a intervenção profissional de medicamentos é necessária. Mas há também camadas e camadas de ignorância e distorção que precisam ser cavadas com reflexão para chegarmos à melhor compreensão do que aflige nossa existência, de nossas angústias.

Para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, “a angústia é vertigem da liberdade”. Somos expostos tão radicalmente às diversas possibilidades de viver, sem qualquer garantia de qualquer delas, sob o risco do infortúnio ou do desperdício, sob a pressão de escolher a melhor delas, que a angústia é o seu sintoma mais evidente.

Sartre repete o conceito kierkegaardiano em seu O existencialismo é também um humanismo. Para o filósofo existencialista francês, nada determina completamente quem nos tornamos, fazemos escolhas necessariamente. Estamos “condenados à liberdade”. Se nos distraímos, escolhemos. Se não optamos, também escolhemos. Se exercemos o poder de escolha ou se nos omitimos, escolheremos sempre. A angústia é assim um índice dessa condição existencial; para Heiddeger, estamos jogados no mundo, portanto, expostos e vulneráveis, eis o que nos aflige.

Nascer é uma angústia e morrer também, afirma André Comte-Sponville. A angústia de nascer é a do estranhamento do mundo e já a percepção do que nos ameaça, a morte. Imediatamente após nascermos enfrentamos a morte. A cada perda, conflito, doença, fome, cansaço, saudade, insegurança, desencontro são experiências com a morte, com a finitude. A morte pontua nossa insuperável finitude e isso nos apavora. Viver é ter medo. Ter medo, logo, não é o nosso problemas, talvez até a nossa solução, à medida que indica o quão a sério levamos a vida. Nossa crise é quando temos medo do medo, angústia pela angústias que viveremos.

É Lenine quem canta bem a nossa angústia, ou se preferir, o nosso medo de medos. “Medo que dá medo do medo que dá”. Certamente está aqui o nosso adoecimento, ou a nossa crise, medo do medo. Angústia pela angústia.

Miedo

Lenine

Tenho medo de gente e de solidão

Tenho medo da vida e medo de morrer

Tenho medo de ficar e medo de escapulir

Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar

Tenho medo de esperar e medo de partir

Tenho medo de correr e medo de cair

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo

O medo é uma casa aonde ninguém vai

O medo é como um laço que se aperta em nós

O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar

Tenho medo de amarrar e medo de quebrar

Tenho medo de exigir e medo de deixar

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia

O medo é uma armadilha que pegou o amor

O medo é uma chave, que apagou a vida

O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo

Medo de dobrar a esquina

Medo de ficar no escuro

De passar em branco, de cruzar a linha

Medo de se achar sozinho

De perder a rédea, a pose e o prumo

Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão

O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo

É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina

O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara

Medo de encarar

Medo de calar a boca

Medo de escutar

Medo de passar a perna

Medo de cair

Medo de fazer de conta

Medo de dormir

Medo de se arrepender

Medo de deixar por fazer

Medo de se amargurar pelo que não se fez

Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H

Medo de morrer na praia depois de beber o mar

Medo… que dá medo do medo que dá

Medo… que dá medo do medo que dá

            A entrevista de Pascal Bruckner[2] à Folha de São Paulo, em outubro de 2014, por ocasião de uma palestra sua no Fronteiras do saber, o filósofo francês fala sobre a sociedade da felicidade que vira também a do desespero e da angústia. Separei dois trechos da boa conversa que teve o filósofo em solo brasileiro:

Em Fracassou O Casamento por Amor?, o senhor diz que a expectativa atual do amor perfeito mina as relações conjugais tanto quanto, no passado, matrimônios arranjados solapavam sentimentos. Ainda se idealiza tanto o amor?

Pascal Bruckner: Vivemos uma mistura de romantismo agudo e consumismo sexual exacerbado, uma era em que amamos a ideia do amor acima de tudo. Cobra-se que a mulher seja uma amante ensandecida mas também exemplar mãe de família, profissional bem-sucedida, culta, sadia. E o homem deve ser igualmente um virtuose do sexo, bom no trabalho, pai amoroso, sujeito engraçado. É óbvio que isso conduz a um esgotamento, porque o amor é submetido ao regime da performance.

Esse amor do amor faz com que abandonemos uns aos outros assim que advém qualquer decepção. Esquece-se que amar é aceitar as fraquezas do outro e as nossas próprias, construir algo ao longo do tempo, à base de falhas, oscilações, mudanças de intensidade do sentimento. Pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exigência passional. Submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto, um deus implacável. Isso é desumano.

Em A Euforia Perpétua, o senhor afirma que a promessa de felicidade terrena inaugurada pelo Iluminismo foi deturpada nos anos 1960. Por quê?

Pascal Bruckner: A felicidade virou não mais um direito, mas um dever. Os anos 1960 e sua revolução individualista estenderam as regras de mercado a setores até então impermeáveis a elas: a intimidade, a sexualidade, a espiritualidade, o bem-estar. Essa incitação à felicidade nos fez seres extremamente ansiosos. Temos medo de não estar à altura dos ideais que fixamos para nós. A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia.

Deveríamos então nos contentar com pequenos prazeres e alegrias efêmeras, como o senhor diz no livro?

Pascal Bruckner: É preciso fazer com que as pessoas se sintam menos culpadas por não serem felizes o tempo todo. Para substituir essa obrigação, proponho o reinado da paixão. Felicidade, como dizia Charles Fourier [filósofo francês, 1772-1837], é ter várias paixões e diversos meios para saciá-las. A felicidade é da ordem da graça, e não da do trabalho. Essa incompreensão é a base da neurose americana. Nesse sentido, se há uma sabedoria europeia, ela reside justamente no ceticismo, no entendimento dos limites do homem, o que não impede que se viva uma cultura de prazeres.

Vivemos em uma cultura em que a felicidade deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação moral. O novo moralismo, e todo moralismo é desastroso. O moralismo hedonista, nele, parecer feliz é uma imposição social. Não temos o direito da infelicidade. O infeliz é um fraco. O moralismo da felicidade.

Dentro desse novo moralismo, Elisabeth Roudinesco[3] fala sobre o paradigma da depressão e a cultura dos antidepressivos. Tudo é depressão e é tratado com antidepressivo. Obesidade. TPM. Irritabilidade. Insônia. Medo. Agitação. Problemas de aprendizagem. Numa cultura assim, não estamos preparados para lidar com as incontáveis fraquezas.

No moralismo da felicidade, ser (parecer) forte é uma obrigação. Por isso somos medidos o tempo todo pela produtividade, desempenho, posse, consumo, prestígio, poder e prazer. Gente que não produz é imoral. Gente fraca é indigna.

Mas qual a crise? É que somos medo e fraqueza. E qualquer movimento e negação dessas condições é uma usina de deprimidos e suicidas, seja a religião, ou a cultura dos antiansiolíticos e antidepressivos, ou a cultura do sexo e do álcool.

Gosto de pensar o amor não como virtude. Se é virtude, perde-se na oposição ao poder ou ao egoísmo. Penso o amor como uma condição existencial. Somos amor, à medida que o amor é esta abertura nervosa ao outro, somos suscetíveis, permeáveis, carentes. O que acontece no mundo nos afeta sempre. Quem o outro é me toca. O olhar do outro importa no olhar que tenho de mim. O amor é uma fraqueza, pois não sou sozinho; porque o outro me perturba; porque sofro no mundo.

A sociedade do moralismo da felicidade se torna um fardo cruel. Sob a idealização de uma pessoa, de um amor, de uma carreira que nunca alcanço, desenvolvo a angústia desnecessária e fatal, a angústia pela angústia. O medo do medo. Afinal, o moralismo da felicidade faz do prestígio e da independência o ideal de humanidade, mas eu me sinto com frequência solitário e desamparado. Fantasia que o homem forte sabe que é, mas me sinto vazio e despreparado algumas vezes. Sugere que pessoas felizes tem relações e conquistas duradouras, mas sinto que tudo é impermanente e muitas vez perco e fracasso.

A resposta mais sábia sempre será o enfrentamento da realidade. E o ponto de partida é o reconhecimento da ilusão. O próximo passo será o acolhimento das possibilidades. E aqui reside o perigo. De subestimarmos as possibilidades com uma preguiça entreguista, com um covardia passiva e negativa. A alternativa é o acolhimento criativo. Ou o acolhimento gracioso. A partir da aceitação realista de que sou fraco, que possibilidades posso inventar para viver?

A fraqueza pode ser prodigiosa e criativa. E essa é uma concepção da Graça mais que do trabalho. O trabalho pode sugerir a fantasia de que tudo é feito pela força. A graça, ao contrário, sabe que nada é feito por força, mas a partir da fraqueza. Para o cristianismo, “quando estou fraco é que sou forte, e quando sou forte, fraco”.

É possível pensar na fraqueza não como um ponto final, mas uma vírgula. Não como um substantivo, mas uma conjunção adversativa, um porém, um entretanto, todavia. A fraqueza pode ser abertura para a novidade. A fraqueza pode ser flexibilidade.

A fraqueza também pode ser um niilismo positivo. É de Nietzsche a ideia do niilismo, tantas vezes mal interpretada. Do latim nihil, nada. O niilismo é um processo de descoberta do vazio, da precariedade, da fraqueza. Mas um vazio que potencializa, um vazio para a potência da vontade. Desistir das expectativas, desarmando a infelicidade. Diria Nietzsche, esperar menos, amar mais.

A fraqueza inventiva e graciosa é a chance de não termos medo do medo, porque o reconhecemos como um princípio de validação da própria vida. A vida é pra valer, por isso tememos. A chance de não termos angústia pela angústia, porque desistimos de uma existência sem dor, sem decepção, sem fraqueza, sem perda. Desistimos da invulnerabilidade e descobrimos que as perdas podem ser ganhos, “entretantos” que ampliam as possibilidades.

Assumir a fraqueza é não se angustiar por ter angústias, não ter medo de ter medo. Não sofrer por sofrer. A fraqueza dá ocasião ao improviso corajoso. Talvez aqui, uma chance maior de não sucumbir às frustrações com a vida que podemos viver.

(Palestra proferida para a turma de Direito e Filosofia, na FANOR Devry, em 17/06/2016)

[1] COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Pág. 79.

[2] Pascal Bruckner: “A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia”

por Folha de S.Paulo/Lucas Neves – 12.10.2014 | Pascal Bruckner | #Filosofia , #Sociedade

 

[3] ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Pág. 17.

(Palestra proferida na Semana do Direito da FANOR/DEVRY, 21/10/2015)

Pensar o ódio religioso exige buscar entender o fenômeno do ódio em si, ou da violência, ou ainda, da intolerância como anterior e mais abrangente que a religião. O ódio, tão escandaloso no espaço da religião, não é privilégio dela. Sabemos do ódio e da violência, atrelada inclusive ao sagrado, desde sempre e em todas as culturas de que se tem notícia.

A política brasileira recente e sua polarização é um exemplo de que o ódio não é uma característica nem exclusiva nem predominante da religião, mas das relações sociais e seus movimentos utópicos, místicos e idealistas.

René Girard[1]e sua antropologia da violência oferece uma interpretação da história humana, tanto quanto da história das religiões, como uma história da violência. A formação, mudança e desaparecimento de comunidades são catalisadas pelos processos de violência e no espaço sagrado. Somos violentos desde que se tem notícia das relações humanas. E assim o pensador nega a utopia da modernidade e sua concepção de que somos naturalmente bons e inocentes, sendo as relações sociais que nos pervertem. (Girard destoa do pensamento de Freud, Lévi-Strauss e Marx, o que faz dele uma figura controversa no circuito intelectual.)

Girard pode nos ajudar com o tema, à medida que desvela a violência e desmistifica o ódio social. Tratar o ódio religioso como um fenômeno outro é se livrar da complexidade e amplitude do problema.

Para compreender o pensamento de Girard, precisamos de sua teoria do Bode Expiatório e o desejo rivalístico, ou a rivalidade mimética. Não somos maus porque nascemos em pecado, como pretende o pessimismo antropológico de origem agostiniana, na doutrina do Pecado Original. O mau que nos constitui é perpassado por nossa condição contingencial e faz de nós “naturalmente”(biologicamente?) egoístas; suscetíveis, precários, finitos, carecemos da afirmação diante do outro.

Para esta constatação, Girard desenvolve a teoria do desejo rivalístico, ou do desejo mimético. Não desejamos as coisas ou os atributos, desejamos os desejos dos outros, daqueles a quem admiramos. Desejamos ser felizes, ou tão bem sucedidos quanto parecem aqueles a quem admiramos e facilmente concluímos que aquilo que os torna assim, admiráveis, são as coisas que buscam, os seus desejos. É o desejo mimético.

Imitamos desejos. E a violência, o ódio e a intolerância são o seu resultado incontornável. Há muito mais pessoas desejando as mesmas coisas, as mesmas vidas admiráveis, as conquistas dos mesmos prestígios e sucessos do que é possível ser. Logo, poucos conseguem ter e se tornar o que muitos desejam. Esta desproporção gera frustração e um forte sentido de inadequação. A partir dela, inveja, intriga, pequenas rupturas comprometem a comunidade, ou a unidade social.

O desejo mimético é a origem do sentimento de inadequação que cumulará a todos de uma crescente violência. O que fazer com essa violência que nos habita e compromete a integridade de nossas comunidades? Precisaremos encontrar um bode expiatório, alguém ou algo cuja maldade ou maldição ou ameaça simbólica ou mística explique porque sofremos e desprenda, ao ser castigada, a violência represada. Socialmente, acreditamos que a culpa pelo nosso sofrimento está naquela pessoa. O bode expiatório só desempenhará com eficiência o seu papel se todos, inclusive ele, acreditarem em sua culpa.

O bode expiatório é todo processo de desprendimento destas pequenas e grandes violências e rupturas represadas nas relações. A vítima é o remendo no tecido social.

Girard estuda diversos casos da história, que vão da caça às bruxas, a perseguição dos ciganos até o antissemitismo. Cada bruxa que queimava nas fogueiras, cada cristão que era devorado nas arenas, cada limpeza étnica, além dos lucros políticos e econômicos eventuais, servia para atenuar revoltas, reconciliar as comunidades, acalmar inquietações.

Mas a verdade é que o ódio e a violência e os bodes expiatórios se reproduzem em pequenos recortes da vida social. No bullying entre crianças e adolescentes. Nas intrigas entre vizinhos de um condomínio. Na vilanização da ovelha negra da família.

Vilanizar pessoas e grupos resolve os problemas com menos custos. É útil, fácil e producente para os mecanismos de poder encontrar um inimigo em comum, alguém sobre quem despender ódio e a violência que as frustrações de viver represam em nós.

Na religião, não é diferente.

Mia Couto, em seu romance O outro pé da sereia, põe na boca do clérigo em crise de fé, a bordo de uma embarcação missionária para a África, no séc. XVI, a percepção de quão perversa pode se tornar a religião, quando a serviço do poder:

“O padre Antunes sentia medo em regressar ao velho assunto. Agora, a meio caminho entre a Índia e África, ele perdia certezas como um corpo perde o pé nas fundas águas. O sacerdote espreitou por entre as colunas do chapitéu, perscrutou o horizonte e perguntou:

– Sabe, D.Gonçalo, o que levamos no porão das naus?

– Sei, são mercadorias.

– Nada disso, D. Gonçalo. Nós carregamos é o Diabo.

– Cruz credo, padre Antunes. Tenha tento nas palavras.

– É isso mesmo. É assim que fazemos nas conquistas: primeiro, segue o Diabo; só mais tarde é que enviamos Deus.

– As suas palavras são pecaminosas, meu filho.

– Desça lá baixo e veja com seus olhos,”

A gente pode concluir que no cerne do ódio e da violência está o projeto do poder. E dizer, a princípio, que os nossos melhores projetos tropeçam nas próprias pernas. Somos condenados a dar um tiro no pé. Inclusive na religião. Por que?

Porque o passo seguinte de um projeto é a busca de perpetuação. Organizamos, ritualizamos, hierarquizamos, regramos para que ideias e experiências que estimamos não se percam no esquecimento, para que não morram. O nome destas ações de perpetuação é poder. E no projeto de poder é que o bode expiatório se torna incontornável.

É útil, fácil e produtivo para qualquer projeto de poder utilizar os ingredientes do bode expiatório: vilanização, culpabilização, sacrifício. E aqui também tropeça a religião. Marli Cunha, em seu artigo em O Globo, de 01/10/2015, trata do ódio religioso e nos oferta alguns exemplos de comentários a uma postagem em que enaltece exemplos cristãos que pregam a tolerância às diferenças e a convivência plural com religiões, grupos políticos e outras sexualidades[2]:

“Marxistas (ateus) disfarçados de evangélicos… Se não respeitam a família tradicional, terão seu lugar reservado no inferno quando Jesus voltar… Não são evangélicos, só um bando querendo aparecer… Tenho certeza absoluta de que não são evangélicos… São idiotas querendo fazer média para agradar gregos e troianos… Lobos em pele de ovelha. Devem estar ganhando alguma grana para isso… São uma vergonha para os cristãos… Bando de esquerdistas que rezam mais para Che Guevara do que para Jesus… Na verdade são pessoas com distúrbios usando o nome da religião e dos cristãos… Esses caras nunca leram a Bíblia… É o fim do mundo! Volta logo, Jesus! Este é o lixo da Missão Integral… São verdadeiros demônios em busca de dinheiro e poder! Que p… de crente é esse? Eles pregam o inferno gospel? Essa corja de f… não são cristãos nem aqui nem no inferno. Não tenho dúvidas de que não passam de chupadores de PT, comunismo, Paulo Freire e Leonardo Boff, são, portanto, inimigos!”

Vale dizer que a religião cristã parece ser particularmente apropriada para o fenômeno do bode expiatório. A sua linguagem e lógica do sacrifício vitimador, ou da morte redentora, que perpetua a lógica primitiva da religião, presente no Antigo Testamento. Com um Deus cuja justiça apenas é satisfeita com a morte de alguém, cuja justiça só propicia redenção se alguém derramar sangue, em um ambiente religioso com essa cultura de vitimização salvadora, o ódio e a violência se tornam profícuos e legítimos.

Mas para René Girard, a grandeza do cristianismo está em negar a lógica do sacrifício na morte de Jesus. Sua morte não foi expiatória, para o antropólogo. Sua morte foi a negação do bode expiatório. James Allison, teólogo e clérigo católico, gay e ativista assumido, além de um comentarista de René Girard, pode nos ajudar na entrevista concedida à revista eletrônica do Instituto Humanitas[3]:

Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

O cristianismo é a religião cuja fundação é um grito de protesto contra a lógica do sacrifício, Jesus não foi o bode expiatório porque nunca reconheceu-se culpado e cujos seguidores denunciaram seu assassinato político. O seu sacrifício não foi para a perpetuação do poder, mas foi para o desmantelamento do poder. Jesus não foi um sacrifício que remendou o velho tecido social, remendado desde sempre pelos processos de violência sagrada, mas que rasgou o tecido com o convite anárquico e anti-poder do amor.

Na pretensão do poder é que a religião, cristã ou não, se desvirtua em ódio e intolerância. E a lógica do sacrifício se reafirma. O fundamentalismo e a intolerância religiosa são ingredientes do poder. De uma religião que pretende se afirmar em detrimento de outras. Fundamentalismo é jogo de poder. Não há fundamentalismo sem pluralismo religioso.

Outro pensador imprescindível para iluminar o ódio religioso é Gianni Vattimo[4]. O filósofo italiano, membro da Igreja Evangélica Valdense, na política foi o primeiro parlamentar italiano a assumir a homossexualidade; comentador da obra de Nietzsche e Heidegger, desconstrucionistas e anti-metafísicos, Vattimo nos brinda com uma interpretação inusitada de suas obras. Para o pensador italiano, ambos os filósofos, tidos por opositores do cristianismo, são, na verdade, aliados importantes.

Para Vattimo, a morte de Deus de Nietzsche e o enfraquecimento do ser de Heidegger são a nova kenosis, palavra grega que significa esvaziamento, usada no texto do Apóstolo Paulo, na Bíblia, para afirmar que a humanidade radical de Jesus foi a encarnação de um Deus esvaziado. Em Jesus, Deus não se afirmou em poder e glória. Para o cristianismo paulino, Deus abriu mão de força, se enfraqueceu para amar. Tornando-se um de nós. Mais que um de nós. O mais frágil e humilhado e mortal de nós. O mais radical humano de que temos notícia.

Para Vattimo, o cristianismo tem na secularização, e por que não dizer no pluralismo religioso e secular, a chance de renovar a kenosis. Sua contribuição é se tornar irrelevante. Modesto. Portador de um pensamento débil. A fragilidade do seu discurso é a salvação da humanidade, porque é a ocasião para o amor e a negação do poder.

Estamos em uma bifurcação. Diante do pluralismo e sua sanha por relevância e força mercadológica, podemos ou optar pela via do poder e sua intolerância e ódio incontornáveis, ou escolher o caminho do Calvário e se enfraquecer para amar.

O ódio religioso e o ódio à religião são crias de um cristianismo que se perdeu de si mesmo. Para Richard Rorty, filósofo americano e neopragmático, no debate com Gianni Vattimo, publicado no livro O futuro da religião, a religião precisa abrir mão do projeto público e voltar ao privado; apenas assim retornará a sua vocação primeira para a charitas, para o amor. Precisa abandonar a arena e voltar aos afetos.

Dostoiéviski, no seu romance O idiota, em um discurso febril do Príncipe Michkin, afirma que o ateísmo é filho do cristianismo e suas pretensões de dominação humana. Portanto, cabe aos cristãos e é sugestivo a todos os religiosos seguir os passos do Cristo e esvaziarem-se novamente, abandonando quaisquer arenas, negando a lógica do sacrifício, dissolvendo pretensões de força, seja no discurso ou na representação política, e “voltando ao primeiro amor”, já preconizado pelo Apóstolo João no Apocalipse.

[1] (Avinhão, 25 de dezembro de 1923) é um filósofo, historiador e filólogo francês.

Atualmente, Girard é professor de literatura comparada na Universidade de Palo Alto, Califórnia, EUA.

[2] http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/sinal-dos-tempos-17657071#ixzz3pCuByNBA

[3]http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4444&secao=393 (O grifo é meu)

[4] Gianteresio (Gianni) Vattimo (Turim, 4 de janeiro de 1936) é um filósofo e político italiano, um dos expoentes do pós-modernismo europeu.

Nossos rumos são decididos na prece. Ela nos antecede. Orienta. Gesta nossos compromissos. Pendula nossas paixões.

Mas para os que já se decepcionam com o que parece ser uma recrudescência piedosa, meu escape: não qualquer renovação, mas uma que me potencializa a vida. Eu que não sabia mais o que fazer com a oração, tenho-na de volta, melhor e poderosa. Porque acordei para o que sempre esteve diante dos olhos. Orar é atravessar conflitos de imaginação. A tensão que nos lidera.

É muita ingenuidade a nossa continuar a crer que a vida é decidida, no que pode ser decidida, no instante. Nada nele se resolve. O instante apenas encena fugidio o que a imaginação ensaia à exaustão.

Nossas impaciências, acessos raivosos, medos, prazeres, tolerâncias, resiliências, atrações, repulsas, docilidades, cada uma de nossas mais humanas reações são constituídas em nossas preces.

Mas para os que começam a se empolgar com o que parece ser minha mão à palmatória, meu lamento: não qualquer oração, não o rito em busca de ascese, mas a oração que todos fazemos sempre ao transcender o que está aí, aspirando ao que pode estar lá. Nossa espiritualidade profunda é a vida de oração, a imaginação que nos liberta momentaneamente do curso irresistível do tempo e o antecede nos sonhos. A imaginação é a oração inexorável da alma.

Talvez aqui comecemos a melhor entender o prefácio diabólico da história de Jesus. Ou a tentação do deserto. Tão importante quanto a gestação do Filho de Deus no ventre humano de Maria foi a gestação do Filho do Homem no chão desértico da imaginação. O Espírito que o entretece em Maria, o inspira para a jornada de oração no deserto. Do ventre mariano nasce o menino. Do deserto da imaginação, o homem. Das contrações do útero à luz mundana. Das tensões do deserto à lucidez humana. “E o Espírito o levou para ser tentado no deserto.”

A narrativa indica os lugares virtuais em que os fatos se deram. Jesus freqüentou lugares para além do deserto em cada uma das três tentações do Diabo. Tudo o que ali aconteceu teve na imaginação de Jesus o espaço mais decisivo. A pedra nunca virou pão, mas bem que poderia. Ninguém enxerga todos os reinos e a glória deste mundo, muito menos os possui em um instante, mas pode imaginá-los seus. Jesus nunca deixou o deserto para viajar ao templo e escalar seu pináculo, mas sentiu a vertigem do lugar mais alto da Casa do Senhor sem nela ter posto os pés. Numa sucessão de tensões de mundos imaginados, Jesus escolheu de que vida ser ator.

O destino de Jesus não foi definido no Caveira, mas em um conflito de imagens no deserto de suas orações. A cruz foi o fim de uma trajetória seguida após a bifurcação dos caminhos da imaginação.

No deserto, Jesus enfrentou nossas mais graves e diabólicas imaginações. Quero pensar o “diabólico” no sentido de Leonardo Boff. O oposto do “sim-bólico”, que agrega, ou torna um mesmo é o “dia-bólico”, que separa em dois distintos. Abro mão de discutir o elemento mitológico ou não da figura do Diabo, para apenas divagar sobre o sentido óbvio do conflito, por isso “dia-bólico” da experiência de Jesus na tentação do deserto. Ali mundos possíveis se conflitaram na alma de Jesus.

Orar é transcender o mundo como está na tensão de mundos possíveis. A guerra espiritual que antecipa a história humana.

No deserto, portanto, talvez assistamos ao conflito de dois mundos possíveis. Um mundo excepcionalmente organizado para o benefício do eleito. E o mundo originariamente desorganizado para o benefício de qualquer um. O mundo dos controles ou mundo das liberdades. O mundo da providência para poucos ou o mundo das contingências para quem quer que seja.

No mundo dos eleitos, a despeito de todos os que já padeceram de fome, o pão é excepcional, até a pedra do deserto que a todos embrutece, aos abençoados alimenta. E Jesus parece nem precisar tanto assim de pão, o que carece mesmo o Diabo advinha. Confirmar que é bom o bastante, que é Filho de Deus. Só deseja que pedra vire pão quem quer afirmar-se a todo custo. “Se tu és Filho de Deus…”

No mundo das exceções, as políticas não se dispersam para o bem de muitos, mas convergem para o bem de poucos. A força do poder está em descobrir quem eu posso ser a despeito dos demais.

No mundo das providências nem nossas leviandades tem valor. É o mundo dos irresponsáveis. Joga-se do pináculo abaixo porque a vida não é pra valer. Deve haver anjos, gênios e milagres sempre a nos blindar contra o curso impessoal dos acontecimentos.

No diabólico jogo da imaginação, Jesus recusa o pão que para alimentá-lo tem que ser pedra para muitos. Despreza os poderes que ao servirem-no também prostram sua consciência. Desmerece qualquer promessa que tape seus olhos para a tragédia de uma vida irresponsável.

Não foi por acaso que Jesus enfrentou a morte na cruz bravamente. Que foi o mais humano dos humanos. Foi porque fez a prece com a consciência ampla de seu poder. Porque entendeu que imaginação não é brincadeira. Que imaginar é um poder ser. É decidir. Salvar.

Elienai Cabral Junior

Conversando com alguns pastores em uma reunião, fiz uma afirmação, um insight, que reverbera com insitência em mim. Deus é o único absoluto, a única liberdade absoluta de que se tem notícia, ou de que se pode deduzir. Mas sendo o único absoluto, relativizou-se por amor, por decisão própria. O único ser livre absolutamente, relativizou sua liberdade. O único que poderia ser verdadeiramente “um totalmente outro”, expressão predileta dos calvinistas, parcializou-se.

Deus poderia manter-se fora de nossas contingências (os imprevistos, o inesperado, os acidentes, as surpresas, os fatores aleatórios), mas não quis. Se nossa humanidade sofre, Deus escolheu sofrer junto.

Creio que para entendermos a história relacionalmente, precisamos aprofundar nossa teologia da empatia divina, a paixão de Deus não o ‘deixa’ de fora de nosso mundo. É a experiência de Hagar, a escrava de Sara e Abraão. Fugindo pelo deserto do desamparo, o deserto da desigualdade de chances, o deserto da injustiça humana, é surpreendida pelo “Deus que vive e vê”. Na sua segunda viagem pelo mesmo deserto, não mais fugindo, mas agora exilada, ouve do mesmo Deus que ele ouviu o choro da criança. Deus está na história. Ele participa de suas incongruências.

Mas como não entender a encarnação de Deus como sua relativização radical? Sendo Deus, sendo absoluto, “esvaziou-se” de seus absolutos, relativizou-se a nós por amor. Se ele podia ser atemporal, escolheu não ser. Não depois, mas antes de tudo. Por isso diz o escritor do Apocalipse que o cordeiro está morto desde a fundação dos tempos.

O amor só é possível se é relativo ao próximo, aos outros.

O amor só é possível no tempo. Se é história.

Páro por aqui, a família chama para o almoço e nem minha empolgação com o assunto pode fazer de mim um absoluto…(rs rs rs)

Um abração,

Elienai

O MISTICISMO CONFUNDE O ESPÍRITO SANTO COM PODER E OS DONS COM OPORTUNIDADES DE DESEMPENHO. 

            Inquestionavelmente, o movimento pentecostal revigorou a percepção do Espírito Santo e a busca por uma espiritualidade experencial. Redescobriu-se em Deus sua presença intensa e perceptiva. A adoração deixou de ser didática, um culto sobre Deus, para ser relacional, um culto jubiloso e afetivo com Deus. No culto, o falar de Deus deixou de ser apenas reflexivo e indireto na exposição das Escrituras, o “Castelo Forte é o nosso Deus” e passou a ser uma manifestação vívida na 1ª pessoa do singular, o “Eu te amo e adoro”. As curas deixaram de ser um exemplo do passado, ou mesmo uma alegoria ilustrativa do poder de Deus, para tornarem-se possibilidades do presente. Não por acaso o mapa da atual expansão do cristianismo tem no pentecostalismo sua maior legenda.

            No entanto, junto ao pentecostalismo, e sua cria indesejada, o neopentecostalismo, percebemos o misticismo mágico. A diferença entre a experiência mística no Espírito e a relação mágica com o Espírito é que no segundo, a pessoa de Deus é substituída pelo ego humano e suas projeções inconscientes e irracionais.

No misticismo mágico, o Espírito Santo não é desejado pelo relacionamento com Deus a que ele nos apresenta, mas pelo brilho que a manipulação do sobrenatural acrescenta ao ego. Foi esta a busca de Simão, o mágico em Samaria(At 8.9-24). Um homem habituado a “impressionar” a cidade com as práticas da feitiçaria, se autoproclamava “importante” e conseguiu ser chamado pelo povo de “o Grande Poder”. Adere ao evangelho pregado por Felipe, envolve-se com o novo culto. Agora, perceba a armadilha do misticismo. Em nenhum momento o texto suspeita da adesão de Simão, o mágico. Nem ele esconde qualquer realidade interior. Ao ver Pedro e João impondo as mãos sobre os crentes samaritanos e algo verificável acontecendo para que se entendesse que recebiam o Espírito Santo, Simão, sem mostrar qualquer escrúpulo, oferece dinheiro para manipular aquele “poder” e sobre quem ele impusesse as mãos “recebessem o Espírito Santo”. Em seguida, ele é duramente advertido pelos apóstolos, que revelam que “seu coração não é reto diante do Senhor” e percebem que ele “está cheio de amargura e preso pelo pecado”. O misticismo fantasiou seu egoísmo. Simão não via no Espírito Santo o relacionamento pessoal com Deus, místico e, portanto, inapreensível. Via no Espírito Santo o grande poder que, manipulado por ele, lhe encheria de prestígio. Os dons do Espírito, Simão via como desempenhos individualizantes. Não enxergou que os dons do Espírito eram um exercício de serviço ao outro, mas como algo que feito por ele o tornaria capaz de realização. O misticismo perpetua o egoísmo. Manipular o sobrenatural é fascinante porque me faz sentir-me divino.

            Jesus fala da fantasia do misticismo quando retrata a mentira dos que o procurarem em um dia de prestação de contas, alegando conhecerem-no porque estão cercados de pretensos prodígios espirituais(Mt 7.22-23): “Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” O misticismo impede o verdadeiro conhecimento de Jesus, pois é um desvio do olhar pessoal para o Iesus Kyrios revelado pelo Espírito Santo.

            Outro exemplo importante de denuncia da fantasia do misticismo está no retorno dos 70 da missão bem sucedida. Estavam todos empolgados não pelas vidas que conduziram a Deus, mas porque, em nome de Jesus, expulsavam demônios. Estavam fascinados com o desempenho pessoal de manipular o sobrenatural. Jesus dá uma ducha de água fria no misticismo empolgado deles e os recoloca na realidade da vida espiritual (Lc 10.20-23): “Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus“. Naquela hora Jesus, exultando no Espírito Santo, disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar“. Então ele se voltou para os seus discípulos e lhes disse em particular: “Felizes são os olhos que vêem o que vocês vêem”. Jesus, exultando no Espírito, revela o verdadeiro sentido da vida espiritual: intimidade com o Pai e com o Filho. A alegria espiritual é fruto do que os meus olhos vêem pela revelação do Espírito Santo.

O MISTICISMO É INCUBADOR DO AMOR AO PODER. 

            A relação que confunde o Espírito Santo com poder perde de vista que o poder que o Espírito Santo traz é proporcional à nossa fraqueza. Não é poder de se impor ao outro. Nem poder de manipular. Não é poder de manobrar caprichos.  É o poder do amor. Que se enfraquece com o frágil. O poder de Deus é enfraquecer-se em nossa fragilidade. Mas o fato é que o misticismo, movimento disfarçado do egoísmo, busca o poder a despeito do que significa a presença pessoal do Espírito Santo em nós.

            É reveladora de desvio a imposição doutrinária no pentecostalismo tradicional de uma experiência do falar em línguas, como evidência do recebimento da segunda benção ou do batismo com o Espírito Santo, para ocupar funções de liderança. Que terminam não sendo outra coisa senão espaços de poder. As línguas estranhas, que são uma evidência primeira de nossa fraqueza, para então ser uma evidência do poder de Deus em nós, são buscadas para alçar ao poder eclesiástico homens e mulheres.

            O fato é que o ambiente que confunde a presença do Espírito Santo e os dons por ele manifestados com poder e desempenho transforma-se em um incubador de amor ao poder e não à pessoa de Deus. Daí encontrarmos nestes ambientes tanto envolvimento com a pior política, seja na briga pelo poder das instituições internas da igreja, seja na briga por espaço político na vida secular. Como também o amor aos títulos e cargos. Nos corredores da igreja, expressões do tipo: “-Se você não mostrar a cara nunca vai crescer.” Ou então: – “Agora eu estou andando com os grandes.” – “Fulano é ‘assim’ com o homem. (friccionando os dois dedos indicadores, sinalizando proximidade)”

            Outro exemplo de misticismo incubador do amor ao poder e ao desempenho é o movimento neopentecostal. A teologia da prosperidade traduz a presença do Espírito Santo na condição privilegiada de bens de consumo e de espaços de poder ocupados pelos “mais ungidos”. Desde o funcionário estimulado a reivindicar o lugar do seu superior porque é “cabeça e não calda”, ao empresário ensinado a orar a Deus para tirar do “ímpio” e dar ao “justo”(que por acaso é ele!?) É também neste ambiente que a busca por reconhecimento de poder cresce incontrolavelmente. Quem antes era pastor, passou a bispo (mesmo sem supervisão), que passou a apóstolo, e agora, o que mais virá?

            Não sem razão encontramos estes líderes brigando politicamente, participando de negociatas vergonhosas, loteando os votos dos membros da igreja em troca de poder político e favores à instituição. A incubadora de tudo isso, desconfio, foi a busca equivocada pelo poder espiritual, o misticismo.

            Paulo nos ensina o caminho do poder espiritual como um caminho de fraqueza. Carregando uma revelação mística indizível, o apóstolo identifica no “espinho” que o acompanha, uma oportunidade misteriosa de não sucumbir à vaidade. Confessa que tentou livrar-se de sua fraqueza por uma oração de forte apelo. Por três vezes pediu a Jesus que o livrasse daquilo que o enfraquecia. A resposta que obteve foi uma só(2Co 12.9-10): “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse
em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.”

            Espiritualidade é acolher o Espírito Santo com delicadeza correspondente à de Deus, que o enviou a nós para visitar-nos em nossa corporeidade. Em nossa humanidade permeável. Suscetível. Poros dilatados de simplicidade e verdade. Apenas assim recebemos o Espírito da Promessa. E assim já somos gente de novo. Redenção, vida no Espírito. Espiritualidade que humaniza. Como Jesus, que cheio do Espírito foi batizado em nossa humanidade em um deserto de fraquezas.

Se já compreendemos a espiritualidade cristã como uma vivência no Espírito Santo, precisamos, sucintamente, discernir o trabalho da pessoa do Espírito Santo em nossas vidas. O Espírito Santo é o dom de doação de Deus. Ele é Deus presente em nós. É por si só tudo o que Deus tem a nos oferecer. Toda a compreensão, todo o sentimento, toda a realidade, todo o gênesis da vida em comunhão com Deus é o Espírito de Deus.

O Espírito Santo faz encontrarem-se nossas paixões, gostos, individualidades, valores, habilidades e a proposta divina de fazer de nós pessoas melhores, a medida em que nos parecemos com o seu Filho, plenitude de Deus e plenitude de gente. O nome desse encontro poderíamos chamar de igreja. O nome desse trabalho de fazer encontrarem-se nossas verdades e as verdades do céu poderíamos chamar de dons espirituais.

           Yves Congar refere-se ao Espírito Santo como a pessoa sem rosto. Nas palavras de Jesus, o Espírito é aquele que vem para falar do Cristo e não de si mesmo (Jo 16) Isto significa que o papel do Espírito é imprimir em nós o rosto de Cristo e não o seu mesmo. Cristo o chama de parákleto, traduzido por Consolador ou Conselheiro, mas que literalmente significa o que está ao lado, como um advogado de defesa, ou um médico. O trabalho do Espírito Santo é conduzir-nos a viver à imagem de Jesus, ou ainda, contribuir para o nosso crescimento na direção da pessoa de Cristo. Paulo explica aos Efésios a função dos dons na igreja (Ef 4.12-13): com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.”

           O Espírito anuncia as palavras de Cristo, lembra as verdades do evangelho de Cristo, convence do pecado, da justiça e do juízo(Jo 14.26; 16.5-16). Paulo, aos Corintios, afirma que ninguém diz que Jesus é Senhor se não for pelo Espírito(1Co 12.3). Aos Romanos, ensina que o Espírito confirma a paternidade de Deus(Rm 8.1-17) Iesus Kyrios e Abba são revelações do Espírito Santo. O Espírito revela-nos o senhorio de Cristo e a paternidade de Deus. O Espírito Santo é a pessoa da trindade que nos conduz para o relacionamento pessoal com o Pai e o Filho. O Espírito Santo é o dom de Deus que nos apresenta à intimidade do Deus trino.Isto significa que a espiritualidade cristã é um exercício de submissão ao trabalho do Espírito Santo em nós. Espiritualidade é o resultado de uma vida que, guiada pelo Espírito, encontra-se com a pessoa do Pai e do Filho. Encontro que nos imprime a identidade do Filho, que nos transforma à imagem de Jesus. E esta é uma experiência mística e racional. É o milagre da Graça que nos faz filhos de Deus; são os milagres dos dons, com os quais nos edificamos mutuamente. É o esforço de compreender os propósitos de Deus revelados em Jesus.O misticismo e o racionalismo são na prática humana de viver no Espírito desvios do olhar. Ambos impedem-nos de desenvolver o relacionamento pessoal com o Pai e com o Filho. Sobre isso, o Dr. James Houston afirma:

“A erudição a respeito de Deus, ou a religiosidade no nome de Deus, podem, sutilmente, tornar-se substitutos de uma relação pessoal com Deus.”[2]

            O fato é que o relacionamento pessoal com Deus é uma experiência que, antes de ser aconchegante e agradável, é desgastante. Toda relação pessoal implica em descoberta de si mesmo. Tornar-se íntimo de alguém significa entrar em contato consigo mesmo, seus pecados e verdades mais profundos. Qualquer tentativa de se esquivar do encontro íntimo inviabiliza o verdadeiro relacionamento. Esta foi a dificuldade de Pedro quando avisado por Jesus, com os demais discípulos, de que todos se dispersariam ao ser ferido o “Pastor”. O impulso de Pedro de negar a realidade da vida íntima, de fingir não ser e agir como desnudado por Jesus, o levou a um desgaste ainda maior. Seu fracasso interior foi trazido à tona por Jesus com o sinal altissonante do canto do galo. Cristo volta, ressurreto, vai tratar com Pedro de sua intimidade doída. A tríplice repetição da pergunta: “Pedro, tu me amas?”, também implicou em desgaste, a ponto de Pedro entristecer-se pela insistência de Jesus. O resultado do desgaste do ufanismo, das manias de conveniência, do vício da superficialidade, da auto-confiança infantil foi um Pedro reafirmado, na intimidade, agora pelo seu Senhor, é Jesus que vai dizer que tem uma fidelidade que durará até à morte.

O desgaste que sofremos no relacionamento pessoal pode ser chamado de santificação, em que os traços do pecado são desgastados para que surjam em nós outros traços, vestígios da santidade de Deus. São as manias, apetites, o egoísmo do pecado que se desgastam na experiência da adoração, do olhar pessoal para o Pai e o Filho. Paulo ensina aos Efésios(4.22-25) e aos Colossenses(3.8-10):

 

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem http://, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. Portanto, cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de um mesmo corpo. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem http://com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador. 

            Outro exemplo deste desgaste no relacionamento pessoal com Deus está na Carta à igreja de Laodicéia, no Apocalipse. Jesus revela a esta igreja todo o seu descontentamento, é uma igreja que deixa Deus doente – com vontade de vomitá-la. Laodicéia se acha auto-suficiente, Jesus denuncia sua nudez, pobreza e cegueira, e aconselha que compre dele ouro refinado no fogo, roupas brancas e colírio, na ironia de Jesus, um convite à mudança. Mas este desgaste espiritual, que fará dela uma igreja verdadeiramente rica, vestida de santidade e com uma visão saudável, acontece em uma resposta de amor propondo na intimidade de uma refeição compartilhada (Ap 3.19-20): Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.”

            O relacionamento pessoal com Deus, promovido pelo Espírito Santo, desgasta em nós a força embrutecedora do pecado, o egoísmo. A tentação humana de resguardar o egoísmo cria fantasias, máscaras, escamas para fugir ao desgaste. Na Carta aos Romanos(1.18-32), Paulo denuncia as fantasias do egoísmo. Deus colocou a pessoa humana em um mundo repleto de vestígios de sua presença, “pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou”. O mundo da criação é um “mundo enigmático” (Karl Barth), um mundo com vestígios de um Criador. Um mundo que impõe um enigma, uma questão para a mente humana: quem está por trás de tudo isso que é tão maior do que eu? No entanto, mesmo conhecendo o enigma, negaram a pessoa do Criador através de artifícios, ou, fantasias do egoísmo. Paulo parece sugerir ao menos duas: o racionalismo (“mas os seus pensamentos se tornaram fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se”, 21b.) e a idolatria, ou misticismo (“trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador”, 25).

            O misticismo e o racionalismo substituem o relacionamento pessoal. O misticismo o faz no superaquecimento das emoções e forças do inconsciente. O racionalismo o faz no congelamento dos afetos e afastamento da experiência pessoal. Ambos realizam, por mecanismos distintos, o mesmo movimento do egoísmo, substituem o trabalho do Espírito Santo pelo trabalho do espírito humano. Terminam sendo fantasias com as quais escondemos nosso egoísmo, evitando o desgaste do relacionamento pessoal com Deus.

            Uma boa espiritualidade transcende às fantasias do egoísmo. Encara o outro e acolhe o desgaste.


[1] CONGAR, Yves. I Believe in the Holy Spirit. Citado por Tom Smail
em A Pessoa do Espírito Santo. Edições Loyola, São Paulo. Pág. 33.

[2] HOUSTON, James. Orar com Deus. Editora Abba Press. Pág. 16.

            Inicio com este tema a tentativa de pensar um pouco a nossa espiritualidade. Mas quero pensá-la no binômio angustiante racionalismo-misticismo. A idéia é tratar o assunto em quatro momentos: Transcender Angústias, Transcender o Medo do Desgaste, Transcender o Desejo de Poder e Transcender Distrações.

Primeiro momento: Transcender angústias

            Quem está preocupado com a verdadeira espiritualidade fatalmente já se deparou com duas angústias. A de perceber que o caminho de investigação e compreensão das verdades espirituais, o caminho das palavras, com muita freqüência descamba em teologia árida, ou mesmo em criticismo cínico, o que aqui chamamos de racionalismo. Por outro lado, também encontramos naqueles que optam pelas veredas místicas, o caminho das intuições espirituais, para encontrarem saciedade espiritual, uma outra angústia, a freqüência com que se tornam histéricos e neurotizantes da vida comum, o que aqui designamos pelo termo misticismo. Não podemos crer, no entanto, que ambos os descaminhos, racionalismo e misticismo, partiram de um pressuposto maléfico. Ao contrário, ambos resultam do mesmo anseio, da sede de Deus que abrigamos no íntimo.

O alarde com que se fala de espiritualidade no mundo moderno sintomatiza o anseio frustrado da alma humana por Deus. Frustração que tem por trás a religião organizada e o mundo tecnologizado. A religião organizada é estéril espiritualmente, visto estar enfocada em sua auto-subsistência, trata as pessoas como adeptos e as educa para ritualizarem a vida. O mundo tecnologizado reduz a vida humana à coisa e à função. As pessoas são treinadas para possuírem coisas e assumirem funções, e a vida é bem mais que isso, o que torna o desejo por Deus ainda mais intenso de tão frustrado.

Neste cenário, a resposta da espiritualidade cristã é angustiada. Cada vez mais pessoas se tornam avessas aos caminhos da racionalidade para se chegar a Deus, o racionalismo, mais freqüentemente presente nas igrejas históricas. Como também outros tantos sentem repulsa pelos modelos do misticismo, mais freqüentemente presente nas igrejas pentecostais e neopentecostais. O desconforto angustiado é fenômeno de decepção, de crise. Mas precisamos enxergar na crise não um beco sem saída, mas a ação do Espírito fermentando uma nova realidade. O Espírito catalisando em nós uma outra e boa espiritualidade.

Tanto a espiritualidade alardeada na busca secular, quanto o desconforto com o racionalismo e misticismo dos ambientes cristãos, indica o anseio por uma espiritualidade que transcenda a esta angústia. Eugene Peterson[1] pensa espiritualidade como desejo por intimidade e transcendência. As pessoas “desejam experimentar o amor, a confiança e as alegrias” das outras pessoas e de Deus. A resposta bíblica para esta busca é a vida no Espírito. A vida no Espírito é a que experimentamos quando nos sujeitamos ao trabalho do Espírito Santo em nós.

Aos Gálatas, em contraposição ao esforço frustrante do trabalho humano, das obras da lei, para viver em comunhão com Deus, Paulo proclama a vida no Espírito. Depois de contrapor as obras da carne ao fruto do Espírito, o apóstolo complementa: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”. O resultado de andar no Espírito é exemplificado pela figura agrária do fruto. O fruto não é resultado do que o homem faz, os processos de constituição do fruto são maiores que o trabalho humano. O que o agricultor faz é harmonizar-se com as leis da natureza para conseguir o melhor fruto. Viver no Espírito é harmonizar-se com a lei do Espírito, com o trabalho que Ele desenvolve em nós, para, então, experimentar um bom fruto.

O desconforto com o racionalismo pode nos conduzir a um emburrecimento da fé, como pretensa espiritualidade. O desconforto com o misticismo pode no conduzir a um sapientismo distraído consigo mesmo, como pretensa maturidade espiritual. O nosso desafio é compreender o místico e o racional na vida no Espírito, e como um e outro podem se tornar desvios espirituais.

Nós precisamos afirmar que a espiritualidade cristã não prescinde do místico para ser racional, nem do racional para ser mística. Se compreendermos que a vida espiritual é mística porque fala de algo que transcende o nosso mundo tangível, isto é, é maior que aquilo que podemos perceber sensorialmente e, portanto, maior do que a nossa capacidade de organizar e classificar intelectualmente, não há como negar que uma verdadeira espiritualidade é mística, pois o nosso Deus ultrapassa-nos sempre. Ainda mais se falamos da enorme tarefa de sermos igreja, o corpo de Cristo na figura paulina, em que interagimos para o bom funcionamento; a incumbência de sermos portadores do evangelho, não apenas na fala, mas existencialmente, é muito maior que a nossa condição limitada e intimidada pelo pecado, portanto, débil. A presença do Espírito compensando nossa debilidade, sendo o Dom de Deus que distribui dons é a condição mística, porque sobrenatural, para cumprirmos nossa missão. Mas também se entendermos que a capacidade humana do pensamento, de abstrair, de imaginar, de organizar é parte fundamental da vida, ou seja, do modo como Deus nos criou à sua imagem e semelhança, não há como viver uma verdadeira espiritualidade sem o exercício racional.

Um primeiro exemplo desta verdade, uma espiritualidade racional ou uma racionalidade espiritual, é a definição de fé na Carta aos Hebreus (11.1): “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. A “certeza” e a “prova” são manifestações racionais, mas que nos remetem a realidades transcendentes à nossa segurança: a “esperança” e “as coisas que não vemos”.

Outro exemplo desta conjugação do místico e do racional é o modo como Paulo ensina os crentes coríntios a administrarem os dons espirituais (1Co 14). O dom de línguas, que não produz resultados racionais, deve ser tratado mais individualmente; isto nos diz que a experiência mística não se confunde com um surto esquizofrênico, pode ser racionalizada. Os dons de revelação devem ser exercidos amplamente, mas de forma organizada, um de cada vez e com uma admoestação: depois de falar o que profetiza, julguem a profecia. Avaliar uma manifestação mística é um trabalho racional.

Outro exemplo importante é o chamado “pentecoste dos gentios”, na casa de Cornélio. Antes de tudo, Pedro tem uma experiência de êxtase seguida de um convite de Deus para repensar suas posições. Depois, na casa de Cornélio, Pedro expõe organizadamente o evangelho, e compõe um exemplo importante do kerigma cristão. Na medida em que prega, o Espírito Santo é derramado sobre os gentios reunidos ali. Alegria, sensação de prazer extático, e línguas estranhas são sinalizações de que o acontecimento entre os gentios é idêntico ao do dia de Pentecostes entre os judeus. A meditação na Palavra é um caminho racional de espiritualidade, ou seria uma racionalidade espiritual, ou ainda, uma teologia espiritual? O racional seguido do místico. O racional que se misticiza. O místico pensante.

Daqui, podemos concluir que a espiritualidade bíblica é um exercício racional e uma vivência mística.

Elienai Cabral Junior


[1] PETERSON, Eugene H. De Volta à Fonte. Encontro Publicações. Curitiba-PR, 2000. Pág. 33.

Quem me segue que também eu não o siga?

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