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[1]          O Apóstolo Paulo, buscando legitimidade diante da igreja de Roma, não se coloca atrás de seu currículo, nem de seu desempenho, mas do evangelho. “Na verdade, eu não me envergonho do evangelho: ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego.”(Rm 1.16) Barth, em seu comentário da Carta aos Romanos afirma que o evangelho não se coloca em polêmica com nenhuma doutrina contrária, não disputa credibilidade com teorias, ou descobertas científicas: “o evangelho não é uma verdade ao lado de outras verdades, mas é a verdade que questiona todas as demais verdades. O evangelho é a dobradiça e não a folha da porta.” Ou seja, o evangelho não tem que ser colocado no palco, não está carente de voz. Deus não está atrás de marketeiros para o seu evangelho. A igreja não é uma agência de publicidade contratada por Deus para tornar o evangelho vendável, ou mesmo assimilável.O evangelho não precisa ser defendido. Não precisa de apologistas. Porque o evangelho é a força de Deus. Um evangelho que propõe salvação vinda de Deus, mas depende da habilidade comunicativa, ou da ciência persuasiva de quem quer que seja é um evangelho vergonhoso. Barth novamente: “O evangelho não precisa ser defendido nem suportado ou carregado: É ele que defende e suporta aos que o proclamam.”

            O nosso evangelho atual é vergonhoso. Preocupo-me com grandes movimentos cristãos fincados na mídia eletrônica, ou mesmo em uma metodologia de divulgação como um “marketing de rede”. Merece confiança a expansão de um evangelho dependente de estratégias de comunicação? Este evangelho é vergonhoso porque já nasce fadado ao fracasso. Um evangelho sujeito à lógica de mercado, que apenas tem êxito se articulado com as ferramentas mercadológicas está fatalmente em desvantagem. Um evangelho sem o poder de Deus é opaco, moralista, sem graça, morno, insosso. Não tem chance de ser real se colocado em disputa com as religiões, teorias e entretenimentos da vida “aquém ressurreição”(Barth), todos forjados para a satisfação de um indivíduo insaciável. A evangelização com um Deus forte tem que ser fraca. Despretensiosa. Um evangelização explosiva e forte termina, cedo ou tarde, com um deus pálido.

            O apóstolo deixa claro que seu orgulho pelo evangelho que proclama se deve ao que é em essência: ressurreição, o poder de Deus interceptando a história humana com salvação. A adrenalina do evangelho não se origina no carisma ou recursos tecnológicos capazes de superventilar as pessoas. Mas está na manifestação poderosa de Deus em Jesus, através do seu Espírito derramado sobre todo o que crê. Vivenciar o fato do evangelho a despeito de métodos é tudo o que Deus espera de nós.

           Um evangelho midiático e tecnologizado que deixou, portanto, de ser sustentador da vida humana para ser por ela sustentado, desvirtua seus propósitos. Na ânsia de juntar adeptos, espalha-se, mas encolhe a glória de Deus. Fortalece instituições cristãs, mas empalidece o deus que revela. Este evangelho vergonhoso cria uma geração subnutrida e o pior, alimenta vigorosamente um não cristianismo. O secularismo não é a maior religião sem razão, mas porque se alimenta deste evangelho em que Deus é mero detalhe, ou a mercadoria empacotada pelas estratégias de difusão. Não é chamativo que não haja registros importantes dos sem-religião, de movimentos de negação da existência de divindades, tão intenso quanto nas sociedades cristãs?


[1] BARTH, p.39.

[2] Idem ib.

 

Ao criar a humanidade, Deus criou uma necessidade. Porque sendo amor, movimenta-se na direção do outro-necessário. Quem ama faz o outro importante, dá ao outro o estatuto de legitimador da felicidade plena. Só se é feliz completamente se o objeto de amor, inteiro, integra-se.

            O que Deus faz ao criar a pessoa humana como pessoa livre é exatamente movimentar-se amorosamente: faz do outro tão importante (necessário) que faz falta. A criação da humanidade é a invenção divina de um outro sujeito de afetação. O que a pessoa humana faz, o jeito como vive, a maneira como reage diante da vida, mas principalmente, o que faz com a sua liberdade de dar as costas ou voltar-se ao divino, afeta o coração de Deus: ira-se, entristece-se, arrepende-se, compadece-se. As más escolhas humanas o incomodam. Deus aceitou, ao criar-nos, a possibilidade do “mal estar”, na mesma intensidade que o alternativo deleite de ser amado exclusivamente.

            O amor, aprendemos com Deus na história bíblica, é uma aposta contra si mesmo, porque o amor faz o outro livre – único amor que sacia a alma amante. O outro se torna, no amor criativo, um outro imprevisível.

            Insisto, ao criar a humanidade, apenas por amor, Deus criou uma necessidade. A sua única necessidade. Espantoso: Deus precisa do homem!? Não como fundamento, Deus não se faz menos nem mais Deus a partir de mim, ou seja, para ele ser Deus sou absolutamente dispensável. Para ele agir como Deus, sou completamente desnecessário. Mas para que o seu ato criativo seja feliz, Deus aceitou fazer-me necessário.

            Não foi na encarnação que Deus mais se humilhou por amor. Mera continuidade. Aconteceu na criação humana o mais desgastante gesto divino de amar. Humilhou-se ao risco de criar um ser tão amado e livre que se tornou sua única necessidade. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)

 

Elienai Cabral Junior 

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