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Você não precisa ler o que escrevo a seguir.

Nem tenho nada a dizer que lhe seja imprescindível.

Até porque venho percebendo que as coisas diante dos olhos são as mais difíceis de serem vistas e as coisas mais significativas, quase impronunciáveis.

O que mais importa e é mais difícil de abraçar dispensa as palavras: o óbvio, o comum, o que todos sentem e, às vezes, nem sabem que sabem.

Também não acredito nos conhecimentos pretensamente imprescindíveis. Com frequência, discursos que se revestem de urgência e relevância são assim feitos à medida de sua fragilidade. Quanto menos são, mais retóricos e impositivos.

Se você chegou até aqui, temos um encontro. Na insignificância. Na irrelevância. No que pode nos salvar do inferno dos poderes que concorrem por nossa atenção, por nosso compromisso, por nossa fé.

Não quero sua adesão. Por favor, não curta a postagem. Deixe-a escorrer desimportante entre algoritmos. Quero a liberdade da ignorância. Não temos que saber um do outro, nem seguirmos o perfil um do outro, nem aprovar o que pensamos.

Se ainda não perdi sua leitura, estamos lado a lado, sorrindo com o olhar, fruindo a leveza de ombros com menos expectativas e mãos com mais ternura.

O escritor do Eclesiastes na Bíblia é um desiludido. Assim como nós dois. Também ele passou a duvidar das grandes realizações da vida, da busca por riquezas, da ufania de uma vida excepcional, da panaceia de um mundo controlado por um Deus ou determinado por uma lei; ele a tudo considerou “vapor de nada”. E apenas a partir daqui se sentiu livre o bastante para amar, sob o conselho: “coma o teu pão com prazer, beba o teu vinho com satisfação e alegra-te com a tua mulher.”

Se ainda estamos juntos, reunimos as condições de Jesus e seus amigos. Leio a narrativa dos Evangelhos e sinto um líder se desmanchando em decepções. Quanto mais desencantado, mais Jesus se torna e mais amigos os poucos seguidores se revelam.

Descobriu-se mais à vontade entre os renegados da sua religião; para ser feliz, come e bebe com quem não tem reputação a zelar. Sente-se mais inteiro longe da massa; quanto mais seguidores, mais donos do seu destino, vontade e voz ele tem; escorrega para a solitude como uma lagarta deixa o casulo.

Percebo-o se desligando dos grandes projetos, das salvações cósmicas, das reformas pretensiosas da velha religião e seus antigos costumes. Aos poucos, abandona os grandes discursos pelas pequenas histórias, os rasbiscos no chão, as crianças no colo, as conversas mastigadas com pães e molhos, os valores regados a vinho, os afetos com menos palavras e mais cheiros e sabores e toques e olhares.

João também se perdeu das grandes expectativas e filosofias e se encontrou recostado no peito do amigo. Ao relatar o último dos encontros, descreveu o mestre como um anfitrião à beira mar. Foi servindo peixe e pão preparados na brasa que conversou com o que vem antes das palavras, o idioma das origens, a linguagem do amor. Alguém disse que ninguém ali ousava cobrar explicações. Ao falastrão deu a chance de suas almas conversarem. Perguntado sobre amor por três vezes, finalmente Pedro disse menos e bastante, com os olhos nos olhos do amigo, suspirou: você sabe de tudo, sabe que te amo.

Se resistimos juntos depois de desfiar o que poderia ser um texto, revelo a você os gostos que renovo no novo ano: cercar-me de gente com quem consiga dizer e mostrar o que sinto e sou; orar instantes silenciosos; abraçar e rir com meus amores; ler na companhia de um bom vinho; cultivar o amor por ser quem sou; correr sem pressa pensando em nada; encontrar amigas e amigos entre cheiros, sabores, olhares e ouvidos fáceis; escutar sem juízos e conselhos; conduzir reflexões cheias de poesia e delicadezas em minha comunidade de fé; encantar-me com belezas feito quem vê o próprio Deus; encontrar-me com o divino ao estender a mão ao que me pede ajuda; chorar minhas faltas sem rancor e gritar bem alto: Fora, Bolsonaro!


Dos olhos ao olhar foi a travessia da qual desisti. Perigosa e frustrante como o caminho que se percorre entre Jericó e Jerusalém. Neste, parei à beira da correria, e nunca mais fui a uma, nem voltei a outra. Uns diziam que eu vivia à saída de Jericó; outros, à entrada. Restei ali, nem partindo nem chegando, no ponto cego do mundo, na invisibilidade do desprezo, no sem-lugar de um homem.

Já tive olhos arregalados, gulosos de compreensão e valor. Olhava para me ver no mundo, para saber de mim nos olhos de toda a gente. Olhar bem é cruzar olhares.

Não nasci cego, fui desistindo de ver e não ser visto; sendo convencido da minha transparência, a de quem está ali, mas não importa.

Desconfio porquê. Meu pai tinha o nome do nosso infortúnio, Timeu, o Contaminado*; vivia sob a desgraça que fez dele um matável. Tinha a doença da pele, a lepra. Ele era um impuro de cuja vida se deve abrir mão para a paz de todos.

Perdi meu pai de vista, nunca mais soube dele, degredado de Jericó; a maldição da pele o transformou em um intocável, alguém que se deve manter longe. Morreu em vida. Expurgado, tornou-se indigno do luto. Que importância terá a morte de quem já é um nada?

Fui descobrindo que Bartimeu, o Filho do Contaminado, foi o nome que deram a minha desimportância. A pobreza da nossa família confirmava a contaminação do meu pai, sem trabalho, sem oportunidade, sem dinheiro, sem comida; com a família endividada, vi meus irmãos e, finalmente, minha mãe, um a um, sendo tomados como escravos em pagamento das promissórias. Sobrei com a estranha doença nos olhos que me livrou do trabalho escravo.

Quanto menos me via nos olhos de todos, mais fechavam os meus e a minha fé e as minhas queixas e o meu mundo; meus olhos ardiam e coçavam e uma lágrima viscosa e com cheiro de morte escorria, se insistisse em mantê-los abertos; mas sossegavam quando os fechava cansados e sujos. Não lembro quando, mas uma crosta foi definitiva, fechou minhas vistas e me convenceu de que não valia mais a pena abri-las.

No ponto cego, resta a sobrevivência, uma vida nua, despida de desejos; a vida mendicante de quem sequer tem a força da angústia para se matar. Alguém assim aceita comer o que resta dos que vivem de verdade, cobrir-se dos trapos que não vestem mais uma vida boa e abençoar esmolas para que os demais sigam em frente.

No ponto cego, no entanto, quanto mais se é ignorado, mais se sabe de tudo; ouço o barulho que a todos ensurdece, os ruídos da vida apressada demais para prestar atenção, os cheiros desenham o cenário de vidas esgotadas, as vozes entonam pavores e ambições, desgostos e ânsias.

As pessoas me contam histórias porque não vejo e eu imagino nas mesmas histórias o que elas deixaram de ver.

Às vezes acho que enxergo mais e melhor. Às vezes acho que vejo o que ninguém consegue ver. Às vezes acho que só o cego, do ponto cego, pode ver o que realmente está acontecendo.

Das histórias que ouvi, as do Nazareno eram as que mais ocupavam minha mente. Nunca disse a ninguém, mas sempre que pensava em um Messias, um filho de Davi, ungido para salvar a nossa pele, pensava em alguém que faz o que ninguém faz, que discorda do que todos pensam; um filho de Deus não poderia ser a confirmação do que essa gente convicta de tão ressentida acredita. Teria que ser um susto. Se não, eu permaneceria ali, condenado à inexistência.

Contavam da multidão que ele alimentou no deserto; do amigo em Betânia que tirou de dentro do sepulcro; do vinho de melhor qualidade que serviu na festa, quando todos achavam que só restara água. Mas para a patética decepção da maioria, ele era flagrado em más companhias. Publicanos, samaritanos e prostitutas, gente de quem um cidadão de bem não chegaria perto, ele se divertia em suas casas, comendo e bebendo com eles. Certo dia, um fariseu insinuou com voz maldosa, você divide a mesa com quem sente prazer, ninguém ficaria tão à vontade perto dessa gente se não se parecesse com eles.

Não bastasse ganhar a fama de fanfarrão, contaram que um fariseu testemunhou uma cena escandalosa com uma mulher mal falada. Ela teria se despedido de Jesus com favores que uma prostituta só oferece a clientes muito especiais, derramando um perfume valioso sobre ele, dançando e acariciando sua pele com os cabelos. Há quem afirme que ela é o grande amor da sua vida.

O escriba disse outro dia que o tal do novo rabi também era um contaminado, que tocava e se deixava tocar por leprosos e por mulheres que nunca param de sangrar. E as mulheres dessa terra nunca param de sangrar. Disse também que seus discípulos eram estimulados a comer no dia do jejum e, esfomeados, ignoravam a purificação antes dos alimentos. E o pior, ele teria ensinado que a reunião alegre de amigos é mais santa que o sábado dos piedosos e a santificação é feita pelo prazer, não por sua renúncia.

Contavam essas histórias e eu me arrepiava. Eu amava o que eles odiavam. Alguém assim seria a pessoa mais divina que eu poderia conhecer. Vendo os que ninguém vê, ouvindo aos que ninguém ouve, tocando os desprezados como eu. Alguém que veio trazer um reino onde o que contamina a vida não é uma pessoa e seus fracassos, mas o olhar que aprisiona o outro no nojo. No reino do meu rei, do Filho de Davi conforme imagino, impuro é tratar a desigualdade entre pessoas com piedosa normalidade.

Eles descreviam um escândalo, eu imaginava uma salvação; eles descriam dos milagres por causa das suas subversões, eu tinha esperança porque para mim o único milagre que pode mudar o mundo é importar-se com os esquecidos; eles o viam cercado pelo inferno, eu, o cego, o imaginava com o céu debaixo dos pés.

Com suspeitas, eles só viam um nazareno, mas eu iludia a passagem dos dias sonhando que ele era o Filho de Davi e que a qualquer dia desses eu o encontraria e lhe diria tudo o que um cego consegue perceber.

Minha pele estava quente do sol de um dia inteiro, na boca um gosto de sangue de quem tem que gritar para se fazer ver; quem tinha que chegar ou partir não passava mais, os poucos atrasados apressavam os passos e no lugar das esmolas deixavam um bocado de poeira.

Uma pessoinha se aproximou e ficou em silêncio. Com voz de mãe, uma mulher apavorada pedia que a filha não me tocasse. A menininha colocou na minha mão uma cuia com o leite mais doce que já tomei na vida. Agradeci, enquanto pude, pois já a arrastavam irritados com a criancice. Mas ainda a ouvi dizer, ele está com fome. Pensei que ela se parecia comigo, via o que todos desaprenderam a enxergar. Suspirei contente.

O chão começou a trepidar e o barulho de tropel das multidões avisou o inesperado. Alguém especial estava se aproximando. Em poucos minutos muita gente de Jericó voltou à estrada e outros tantos pareciam vir de Jerusalém e se misturaram ali. Agarrei as pernas de um dos apressados e implorei para saber quem era esse que passava. Para se livrar de mim, menosprezou, o Nazareno. O nome desdenhoso que davam a quem eu imaginava feito um Deus. A quem, em segredo, eu chamava de Ungido, de Filho de Davi.

Não dava para saber onde ele estava, se longe ou perto, à esquerda ou à direita. Eu só precisei gritar uma vez para que aqueles que nunca me ouviam prestassem atenção. Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Não lembro a última vez que me tocaram, mas dessa, foi tentando tapar a minha boca. E me advertiram que não dissesse uma coisa insana daquelas. Alguém xingou, você é cego, não louco. Outro resmungou e riu pela contradição, não vê que é só o Nazareno? Sacudi a cabeça e me livrei das mãos que pediam o meu silêncio.

Eu dizia o que eles não queriam ver.

A cada vez que teimava em gritar, pensava aleatoriedades.

Filho de Davi!

É difícil enxergar o que aprendemos a não ver para seguir em paz.

Filho de Davi!

Algumas coisas ficam invisíveis, de tão visíveis.

Filho de Davi!

Como ver o divino em alguém demasiado humano?

Gritei pela última vez e antes que me chamasse e eu fosse levado até ele, concluí, eu sou a ironia, o cego que enxerga o que todos aprenderam a não ver.

O tempo parou e os espaços se rearrumaram. Eu gritei e fiz aparecer quem ele nunca deixou de ser. Ele me viu e eu voltei à existência. Ele pediu e fui levado até ele.

Do ponto cego ao ponto da questão.

Tão perto, meu corpo todo o imaginava. Senti seu hálito e o cheiro era de sangue, como o meu, também ele tinha que falar muito e mesmo assim não ser visto. Também ele estava no ponto cego, entre o messias milagroso e o homem de dores. Entre o rei poderoso e o servo sofredor.

Sua pergunta foi tão retórica quanto irônico foi o nosso encontro. O que você quer que eu te faça?

A menininha reapareceu. Outra cuia com leite nas mãos. Ele a tomou no colo e ela insistiu docemente para mim, não vai responder?

Minha resposta foi o clamor que estava nos olhos de todos ali.

Voltar a ver.

(*Bartimeu, filho de Timeu, como O Evangelho Segundo Marcos informa. O nome pode ter origem no aramaico timai, “contaminado” – André Chouraqui, A Bíblia, Marcos).

Acordei meio século depois de tudo, com a festa de sempre. A Bete com a bandeja do café da manhã, as crianças cantando os parabéns e o cachorro latindo e pulando na cama. Divertido ver que o cachorro já sabe e entra na festa sempre. É assim que a gente faz aqui em casa a cada comemoração. Adoro.


Assim que todos seguiram sua rotina, o silêncio trouxe a imagem e a voz da minha mãe, ela gostava de contar que no dia que fez 50 anos, entrou debaixo do chuveiro e tomou um longo e ritual banho, enquanto as mulheres da igreja aguardavam na copa para as homenagens. Ela dizia devagar e suave, tomei um banho demorado, não deixei ninguém interromper a despedida. Fiz o mesmo.

Deixei a água escorrer generosa no meu corpo de 50, despedindo-me de quem não consegui ser e seus tolos ressentimentos; deixei ir pelo ralo o luto narcíseo que teimava desde os 40, a pressa de ser que me atropelou nos 30, o deslumbre juvenil de recomeçar do zero todos os malfeitos da humanidade nos 20, os medos que ainda me assombram desde os 10, o desespero de me afirmar desde que sei de mim.

Enquanto me enxugava da despedida, olhei-me nu refletido no espelho. Fiz isso por longos e contemplativos minutos. Admirei a obra do tempo. Achei-me bonito. Por favor, nem precisaria dizer que falo de uma beleza que nada tem a ver com a estética da moda, de um corpo malhado na academia, barriga tanquinho e bíceps torneados. Óbvio que não. Reverenciei o que foi feito de mim. Vi a força da genética que reproduziu bastante do meu velho, ombros estreitos, braços finos, a formação do peito não muito peludo; a despeito de ter 15 centímetros a mais de altura e uma barriga que a prática da corrida não deixa crescer muito; pernas pouco musculosas, os cerzidos da pele pelos tombos de menino, as caneladas do futebol; pés proporcionais ao tamanho, o calo de sangue que denuncia a pisada desequilibrada nas passadas dascorridas de rua. O corpo da minha história, o divino acontecimento de existir.

No corpo nu, vi o que venho fazendo com o que fizeram de mim. O corpo que sou. Ele é o que venho improvisando, ora para sobreviver, ora para existir com mais graça; nele minha vida foi desenhada, feita em linhas oblíquas e surpreendentes, dobras da resiliência, marcas do que encontrei e perdi e amei, os termos do mundo em mim.

A pele enruga de tanto que resistiu, que tensionou na dor e no medo, mas distendeu nos prazeres e felicidades; rompeu nas quedas e pancadas, cicatrizou, escamoteou, arrepiou-se, suou, ressecou-se, inundou-se em tantos mares e rios; acolheu amores, tateou mistérios, afligiu-se, ressentiu-se, cedeu, descansou; depois de chuvas, sóis, ventanias e brisas, beijos, apertos, abraços, frios e calores, trabalhos e conquistas, saudades. Mundos chegaram a mim pela pele, essa que vi ali, mal refletida.

A cicatriz debaixo do braço, na altura do sovaco esquerdo, cresceu comigo desde o evento dos 6 anos de idade, na estripulia de subir nos muros proibidos da vizinhança, escorreguei de um e fiquei pendurado na lança de ferro da cerca; nas mãos, as costas dos dedos guardam pequenas cicatrizes, do velocípede que empurrava ladeira acima e virou sobre mim, aos 4 ou 5 anos. A catapora também espalhou seu rastro nos meus 13.  Queimaduras e cortes da cozinha que amo, mas segue desajeitada. O tempo cerziu as marcas dos acontecimentos e narra as desventuras e os imprescindíveis erros para chegar até aqui; somos feitos de feridas, tombos, esbarrões, acidentes que não nos deixam esquecer que a vida é pra valer e o destino,incerto, acidental, mas sempre inédito e desafiador.

Entretanto, a pele guarda também íntimas e invisíveis verdades; gostos, cheiros, toques do que aprendi a fruir na vida; abraços que encerraram mágoas e desencontros, prazeres que celebraram amores; os arrepios e alegrias e choros de uma maratona concluída; o colo e o carinho que me ninou menino e me acalmou adulto e não mais terei; minha mãe, que deu o seu último fôlego de vida há quase 3 anos, respira ainda em mim e anima em segredo minha vida, sobrevivo das memórias que trago da Arézia; um corpo é feito de despedidas e saudades, sou também a presença de ausências.

Ainda à frente do espelho, contemplo o sacramento da vida, a minha eucaristia; não me pertenço, sou muitos e outros e tantos a perder de vista, mas que sovaram meu corpo feito um pão e encharcaram minha vida feito vinho. Não sou para mim, condenado ao amor, à imagem do Deus de Jesus, este é o meu corpo e eu o dou a vocês.

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O amor não (se) aprende.

Não é coisa para ser medido.

Nem ideia para abstrair platonices.

Amor é o que deixei de ser,

de saber de mim,

dos bons planos,

dos antigos desejos,

depois que te vi.

Nada conclui, tudo muda.

Vendia livros, pinceis, lápis e folhas

e contava os dias para a Pin-da-mo-nhan-ga-ba,

destino com nome grande,

do tamanho da certeza.

Tudo entre as margens, 

o rumo certo para o que viria,

seminário, estudos, vocação.

Meu mundo arranjado,

a véspera e o dia seguinte.

Então você chegou com uma força delicada,

a voz despretensiosa e tão suave e tão menina e tão outra,

passos lentos de quem tem pressa de não tropeçar,

olhos amendoados e cheios 

de caminhos que nunca vi

e sempre quis.

Eu te olhei para não mais saber de mim,

você veio como a onda do mar,

que derrete suave e irresistível o castelo do menino,

e nem adianta se queixar.

Desaprendizagem é o nome do amor.

nem substantivo faz, 

adverbia o inesperado.

Adjunta o provisório, 

um nervoso entretanto.

Não cabe sequer na frase,

entredito, 

desconcertante, 

tumultua.

Você era o que eu não vinha dizendo,

mas queria tanto.

Sobre o que falamos ali? 

Nem lembro nem nunca importou.

Sentados no banquinho do Conjunto Nacional,

o dito estava nos olhos, 

não nas palavras.

Conhecê-la condenou-me a seguir obstante,

de juízos suspensos.

Indomável adversativo é o amor.

Porém, 

não sentença.

Amar nada responde, 

é a próxima pergunta.

Uma dúvida cada vez maior.

A convicção é desacompanhada, 

solitária calmaria,

tédio absoluto e sereno,

de tão segura.

Que pena de quem por ela se deixa persuadir!

Porque se solidão é fechamento 

tranquilo,

a abertura que a tudo perturba é casamento.

Na noite quente de Sobradinho,

quase quatros anos depois daquele dia,

nos vinte e cinco dias do mês de julho do ano de mil e novecentos e noventa e dois.

Um segundo antes da eternidade,

os meus olhos se desencontraram

de tudo,

de todos,

se perderam nos seus,

você ainda desfilava,

toda noiva,

o tempo e os rostos congelaram

no incontável tempo do amor,

Casamos ali, 

entre quânticos parêntesis, 

entre o desejo e o aceite,

entre a imagem e a palavra.

Casaram-se os olhares antes de tudo.

O acontecimento antes do evento.

O gozo antes do gozo.

Perdoem-me as núpcias.

Por que você sabia que nos seus olhos eu me perdia?

Chorava sem saber o que fazer com tanta boniteza.

Por que eu sabia o que diziam os seus olhos?

Seus passos se descompassaram,

sôfregos,

pareciam com pressa de te deitarem em mim.

Tudo seria calma, paz além da conta,

Conversa com espelhos, 

lúgubre límpida loucura.

Sanidade é outra coisa,

é a angústia de falar

 e você ouvir meus olhos.

De apontar o caminho 

e você ver o dedo que treme.

De você dizer vamos

e eu saber que quer ficar.

Casar também não é caminho, 

é todavia,

o caminho dos descaminhos.

Família nada tem a ver com o amor,

mas com os amores,

a perder a conta,

a cabeça

e o que restou de bobeira e paz.

Vários, 

atravessados, 

misturados.

E tudo fica tanto que nada mais importa.

O amor não soma, 

multiplica e esparrama.

Cinco? Em uma casa? Uma multidão.

A Bete, o Elienai, a Clara, a Gabriela e o Thales.

E antes que esqueça do peludo, o Hug.

Nunca fomos pontos alinhados e estimáveis,

mas linhas 

entrecruzadas no imponderável 

tecido da vida.

Cada um do seu viés conecta-se ao outro,

e cada dupla aos demais,

e cada trio aos que restam,

o quádruplo ou o quíntuplo

se fia ao que ficou só,

indo e voltando,

infinito emaranhado,

de fios,

de fiança,

a rede em que deitamos medos

e alegrias,

em que descansamos desejos

 e perdas,

onde embalamos desesperos,

até que cochilem as dores.

Família boa é feita de nós.

O amor nunca chega, 

é sempre partida,

despedida sem fim.

O amor é por onde se peregrina,

incurável aprendiz.

E aqui, agora, vinte e cinco anos depois,

tantos lapsos após,

a um instante de tanto,

prometo continuar

despedindo-me

do que teimoso achar que sei.

Aceito seguir

desaprendendo

o que por distração concluir.

E te convido a assumir o compromisso mais solene desse amor,

de ouvir

 os meus olhos,

não o que eu digo

e perder-se

das sentenças e seus ressentimentos.

De nunca deixar de nos reinventar

nas ardentes entrelinhas,

onde as palavras pouco dizem,

mas afetam o tom, 

o timbre

e a imaginação.

E o olhar arrepia a pele antes de ser tocada,

e amada 

dilata os poros e a pupila,

 o senso e o sexo.

Ali nas entrelinhas é que tecemos nossos amores,

onde a incerteza abre os braços 

outrora tímidos 

ou fadigados

e acolhe fraquezas,

abriga anseios

e não para de insinuar,

de fazer sonhar

e de fermentar gostos e gozos

e todos os outros amores que ainda chegarão

e graciosamente perdidos, 

se fizerem nós.


Depois de mais um importante dia,destes que a testa franzida não endireita mais,
que os olhos ardem mas não se fecham,

que o sol se põe, 

mas as palavras insistem acesas,

e de que a vida dói nem se esquecem

nem se calam.
Depois de tanta queixa, tanto medo, tanta dúvida,

em que os doentes se vão,

os moços acenam,

os velhos dizem adeus,

as mulheres dão as costas,

toda gente séria se vai,

mas ficam suas sombras,

pesadas,

duras,

tristes.
Depois de toda demanda,

toda palavra,

todo gesto,

todavia

ele suspira só.

 Em casa, mas sem pátria;

no chão, mas fora do mundo.

Sentado numa pedra, voa,

voam os pensamentos.

E por um instante duvida,

ignora as razões,

esquece o sentido,

não sabe ao certo o que o trouxe até ali.
Ouve-se o grito estridente da garotada.

Pelo som aflito, correm.

Afoitas e soltas,

intensas, lépidas.

Com os olhos esbugalhados, engolem mundos;

não respiram, ofegam.

Aproximam-se entre descuidos e cansaços,

os lapsos da tarefa,

destes que nos livram 

das certezas e seus zelos,

do empenho pétreo do trabalho sem fim.
Feito uma coluna militar,

adulta, austera, briosa,

os discípulos protegem o Mestre

da distração,

do destrambelho,

da molecagem,

da inutilidade dos brincantes.

Garantem que a vida siga 

produtiva

e onerosa 

e séria

e só.
E como quem se sente roubado,

aflito e revoltoso,

Cristo repreende a ordem,

suspende o juízo,

desorganiza a salvação

e entra na ciranda.

Perde o fôlego e o equilíbrio,

roda e gargalha feliz.

Não deixa que não o deixem rir.

E antes que termine de dizer que “não impeçam as criancinhas”,

é com cócegas que a menininha o devolve ao Reino.
Entre toques e canções,

afagos e risos

e um menino no colo.

Olha em seus olhos

e se espelha encantado;

se vê criança,

aquela que dormia esquecida,

o filho de um novo dia, 

que se deu como um bebê se dá;

inteiro, de tão frágil,

intenso, de tão faminto,

pleno de tanto futuro,

ao colo de tantos dramas.
O menino tem o hálito de tâmaras maduras,

o cheiro de doces memórias,

 da voz de Maria contando histórias pra dormir.

A dos visionários pastores,

dos presentes dos magos,

do colo inquieto de Simeão, 

das danças de Isabel 

e do falante silêncio de Zacarias.

Histórias de quem partiu de grandes sinais,

mas chegou a um mínimo bebê.

E chegou aonde tudo começa.

Que sem luz irradiou graça.

Que sua fraqueza suscitou reverência.

Que sem nada dizer, liderou sonhos.

Nada fez, mas tudo significou.
E antes que a brincadeira acabasse,

a poucos instantes da meninada partir,

afirmou aos discípulos o que nunca disse,

feito um escândalo,

uma heresia,

uma reviravolta,

a lição que nunca poderia ter esquecido,

quem quisesse por os pés no Reino dos Céus

teria que seguir os passos da criança,

a que brinca e sorri,

que por nada troca os afetos,

incalculável,

imprevisível,

inoportuna,

extemporânea,

livremente inútil,

a criança que Deus é.

a-traicao-de-judas

Ele era incontornável. Seus olhos faiscavam desejosos. Sabia-se da obstinação em brigar pela liberdade. Admiravam-no ao mesmo tempo que o temiam. Judas tinha uma presença agridoce, fazia gravitar expectativas em torno de si, mas era conhecido como Iscariotes, porque já fora visto com os rebeldes empunhando facas.

Aproximou-se faminto de sonhos. Grudou seus olhos em mim com tanto apetite que não pude não retribuir-lhe com um sorriso acolhedor. Estávamos ali pela mesma razão, tínhamos uma só alma e ela era inquieta e esperançosa. Chamei-o pelo nome e ele arregalou os olhos surpreso por eu já saber quem ele era. Gastei dias entre os amigos colhendo nomes de gente que tivesse algo melhor que boa reputação; em busca de discípulos, queria cercar-me de perguntas, de atrevimentos, de desejos, de incômodos; fissuras em um mundo enfadonho, réstias em um reino de trevas. Desde que me contaram de Judas, esperei por ele como um agricultor aguarda as trovoadas de um tempo chuvoso.

Encontrá-lo fez bem a minha esperança. O moço era um acontecimento. Vocação nervosa. Ávido como a ideia que pulsava em mim.

Sem formalidades, perguntou-me pelo que se tornaria em seguida minha pregação mais pretensiosa, você acredita em um novo Reino? E que ele está entre nós. Mas todos têm medo e escolhem se esconder dos confrontos. Não vim trazer paz, mas espada e guerra. Sonhos sem conflitos adormecem. Chego como o ladrão no meio da noite, não quero acalentar dormências, quero acordar coragens. Toda coragem é incidental. O novo reino chegou, mas não para os covardes. Toda covardia é previsível. Seu olhar divagou, do jeito que acontece quando arregalamos os olhos para dentro da imaginação.

Depois dos ensinamentos, avisaram-me que faltavam ouvidos a Judas, disperso e apressado, parecia mais disposto a agir que a escutar. Desdenhei. Quem ouve o barulho da revolução por vir ensurdece um pouco para outros acontecimentos. Difícil ouvir ponderações quando se tem o grito da urgência ecoando na alma.

Enquanto todos dormiam, eu e Judas acordávamos sonhos em conversas intermináveis. Fez-me entender seu afastamento dos Sicários. Sentia que careciam da habilidade de reunir e inflamar o povo. Na última revolta, foi o que lhes faltou para o êxito, explicou. Depois de todo o sangue derramado, olharam para trás e estavam sozinhos. Não há revolta que perdure sem o envolvimento da multidão. Fez-me acreditar que eu reunia todas as possibilidades. Juntava as multidões e incendiava as mentes. Era amado pelo povo e temido pelos poderosos. Ouvido pela turba, meu evangelho assombrava o sinédrio e as sinagogas. Curava as gentes todas e adoecia de inveja os saudáveis piedosos e suas vidas cheias de exclusividades. Abraçar àqueles a quem ninguém tocava era um murro na pureza dos fariseus e sacerdotes. Seguido pelo povo, poderia esvaziar o templo e deslocar poderes. Acreditamos na reviravolta, quando a alvorada introduziu suas pálidas luzes no quarto. Judas apontou a estrela D’alva que piscava na janela, sorriu, apertou minha mão e sussurrou, é você.

O primeiro a chegar, o último a sair. Pragmático, calculava os gastos de cada jornada. Íntimos, molhávamos os bocados de pão no mesmo prato. Ao precisarmos escolher quem cuidasse do dinheiro, ninguém duvidou de que fosse ele o mais indicado. Nenhum de nós parecia tão comprometido com o custo da missão e a não desperdiçar cada oportunidade de juntar adeptos. Nenhum dos discípulos demorou tanto a entender porque preferi estar só e dispersei a multidão depois de alimentá-la no deserto. Sua paixão tornava urgente e guloso cada encontro com o povo.

Minha alma se afastou de Judas bem antes que ele desistisse de mim. Não demorou muito para descobrir-me outro. Para desencantar-me com aquele que viam em mim. Entediado, não queria mais ser o homem com quem todos vinham se empolgando, poderoso, multiplicador do pão e senhor dos milagres. Reli o Êxodo e os profetas e percebi que prodígios e entusiasmo não fizeram amigos para Deus e desconfiei do Messias da multidão. Passei a cultivar o prazer do anonimato e dos encontros discretos. Se outrora acreditei na revolução pelo poder político, se fiz da popularidade o sinal da salvação, agora duvidava de que outro reino pudesse ser realmente novo usando as mesmas armas dos que dominam as almas. Cada vez mais crente em uma nova humanidade, senti-me incrédulo com seus poderes, prédios e ajuntamentos. Mudei. E abandonei o homem a quem todos insistiam em seguir, o líder com quem Judas contava para tomar o poder com a força de quem ressuscita mortos e ajunta multidões. Os adeptos e o poder que os reúne são algemas e quem pensa ter a força de movê-los é escravizado sob o encanto de que lhe chamam de senhor.

Eu fui meu primeiro traidor.

Todos se escandalizaram, mas ninguém sofreu mais que Judas quando dispensei novos seguidores. Quando despedi para suas casas aqueles que socorri, ele não entendeu que queria para eles a liberdade que as multidões tiravam de mim. Vi seus olhos outrora intensos tornarem-se opacos e fugidios. E quem sentava-se ao meu lado passou a se esgueirar pelos cantos mais sombrios. Foi a Pedro que chamei de pedra de tropeço quando tentei explicar quem eu não queria ser e também a ele que chamei de diabo e pedi que se afastasse de mim, mas foi Judas quem baixou a cabeça. Sua presença tornou-se uma ausência.

Em um dia de exótica beleza assisti a sua vulgaridade. Quando o amor de Maria desnudou a frieza de todos. Eu precisava falar sobre a trama urdida para a minha morte e todos preferiam tergiversar sobre banalidades. Ela invadiu a sobriedade cosmética dos homens, parecia dançar, quebrou o caríssimo vaso doado pelas mulheres ricas de Betânia e derramou todo o perfume sobre minha cabeça. E eu deixei e os homens se constrangeram e Judas perdeu-me de vista. Suas palavras, tão sensatas e piedosas soavam secas e desalmadas. Lamentou sem sentir tristeza pelos pobres que poderíamos socorrer com o dinheiro do perfume, mas foi a mim que barateou com sua indiferença. Eu não estava mais ali. Olhou-me, mas nossos olhos não se encontraram mais. Eu já havia morrido para Judas. Então compreendi que Maria embalsamava-me porque me via morto naquela sala.

É preferível matar no coração aquele que se recusa a ser o esperado.

É preciso matar no coração aquele a quem se pretende dar as costas.

Judas foi visto na casa de Caifás. Contaram-me que tramara com os chefes religiosos me entregar aos soldados do Templo. Eis a mais amarga experiência, tornar-se repulsivo para quem um dia se foi amável. Judas culpou-me por ser outro. Demonizou-me para desistir em paz. Era como se fizesse a coisa certa; se não uma vingança, a justiça. O Diabo esconde-se em justas medidas.

Porque traí suas expectativas, ele traiu minha liberdade. Porque traí o seu sonho de poder, Judas traiu o que restou de nós, o amor.

Reuni os amigos para sobreviver à angústia. As horas pareceram dias até que nos juntamos todos à mesa. Judas sentou-se ao meu lado sem perceber que repetia o hábito de um amor que não mais havia, mostrou-se deslocado. Mas com olhos convictos de tão diabólicos. João e Tiago discutiam seus poderes em um Reino que jamais existiria e pareciam resistir ao único no qual poderiam me encontrar, o das desimportâncias, o dos que desistem das aparências para escolher os afetos. Tentei inútil tirar-lhes o peso das exigências, avisei que nenhum de nós estava pronto para a dor da derrota, que se perderiam de tão frágeis, para se encontrarem depois, quem sabe, mais inteiros. Pedro preferiu esconder-se em promessas e falsas esperanças, dizia ser o único a não me trair. Segurei suas mãos, olhei em seus olhos e avisei-lhe que o amor também cansa e se confunde, que suas promessas de fidelidade não acordariam junto com o galo.

Não me espantei ao descobrir que havia ali mais diabos que um Judas pudesse dar conta. Ao denunciar que estava entre eles aquele que me traíra e por quem seria entregue nas mãos dos poderosos, todos se entreolharam sinalizando culpas, pareciam tentar verificar se já haviam sido descobertos.

O diabo mora na pessoa que tememos que todos descubram que somos.

Judas aparentava lutar com as próprias ideias. Pude ouvi-lo tentar consolar Tomé desmantelado com a proximidade dos soldados. Dizia acreditar que minha prisão poderia ser uma amarga solução, que o povo acordaria com tamanha injustiça e se rebelaria; neste instante, vi que me olhou rapidamente e sussurrou algo que só depois Tomé me contou, que eu também despertaria da minha covardia para assumir meu papel de Messias.

A traição torna-se perversa quando não desiste de uma fé que desistiu do amor.

Entre diabos, era preciso exorcizar a mesa. Avisei que aquele que me vendera aos chefes religiosos dividia sonhos comigo como quem divide o mesmo prato. Neste momento, Judas mergulhava um pedaço de pão no meu prato cheio de molho. Apressou o bocado à boca e desvelou sua trágica insaciedade. Abandonou a mesa e encheu-nos do vazio que jamais conseguiremos superar. O desespero de quem ama é nunca cicatrizar a ferida, o absurdo sempre sangra, sempre fere.

Saí de lá há algumas horas e o seu olhar não saiu de mim. Pai, sinto-me terrivelmente só. Parece não haver os amigos a quem confiei minha alma. Não ter sido quem queriam foi imperdoável. Não consigo condenar o obstinado Judas, nem a Pedro, João e Tiago que dormem para não despertar o ressentimento. Rogo-te por eles. Também nós traímos sua fé. Também eu traí o sonho de Judas. Traímos nossos traidores para que o amor fosse possível e sua atordoante e ingrata liberdade.

Pai, não me sinto menos confuso que Judas. Nem menos instável que Pedro. Resistirão a essa dor que nem eu consigo suportar? Quem sabe, se fosse possível, também eu fugiria desta aflição que queima dentro de mim? Já posso ouvir os passos dos que me levarão. Se a tua vontade é esta ardida liberdade, que seja feita e que venha o amor e todas as suas salvações.

Judas? Não esperava te ver mais uma vez. Com um beijo, amigo? Espere, aonde você vai? Não corra. Não desista. Eu não desisti.

Pedro, orei por você para que também não desista. Confirme meu amor por Judas. Alguém lhe diga antes que seja tarde, também eu o traí.

nebula

O mundo não é uma casa nem uma celebração de solidariedade. Nele, somos afligidos com frequência.

Incerteza.

Acidente.

Hostilidade.

Insegurança.

Deve vir de fora o sentido que nos salva, me explica o mago a quem revelo a tragédia até aqui oculta, tornei-me incrédulo em pleno ofício da magia. Dos astros do céu, do distante e misterioso brilho orquestrado pelo firmamento vêm nossas razões, ele completa. Ando desconfiado de tudo. Desde o fracasso das últimas previsões, o céu deixou de ser o mapa que me guia, as estrelas não me confortam mais.

Buscamos explicação no céu, porque entre nós tudo parou de dizer, toda esperança se esgotou, as coisas do nosso mundo se tornaram inconciliáveis e as pessoas, opacas e vazias. Essas aparentes desordens daqui devem ter razões celestes. Alguma coisa que aconteça lá deve dizer o que ocorre aqui, emendou outro mago; aquele que suspirava entre as frases, tamanha era a fé nos astros. Ele insistiu na explicação, quanto mais apagado de esperança nos parece o mundo, mais brilho no longínquo céu procuramos. E isso me soou mais vício que virtude. Chorei sem lágrimas.

Tornei-me um mago sem magia e o que antes era pretensiosa sabedoria, agora se tornou um ácido desencanto. Suspeito que o deslumbre com o céu não seja mais que fuga, uma sangria de almas aflitas. Porque tudo aqui é impermanente e sombrio, erguemos os olhos de desespero. Mas insisto em seguir com os magos. Eu que perdi a fé sobrevivo do ardor dos que podem crer.

Naquela noite, o céu era um luzeiro piscante. Sob a sinfonia de grilos e outros bichos, sem o cobertor das nuvens, o frio queimava a pele e os rostos pareciam apagar de tão obscuros e acendiam o espaço infinito tal qual um palco iluminado. O céu fez-se a ribalta onde tudo parecia encenar o destino do mundo. Mas eu duvidava.

Os olhos dos magos estavam vidrados nas estrelas e seus brilhos. Apressada, uma delas interessou a todos, movia-se como quem se rebela, abandonando o céu em sofreguidão. Rasgou o espaço infinito e mergulhou num inóspito chão. Apontava o inesperado caminho para a terra dos judeus. Uma estrela não deixa o céu se não for para iluminar caminhos, um deus não chega entre nós se não for destinado ao trono e para governar com luz na terra das sombras. Incrédulo, a estrela rebelde adoçou meu amargo coração.

Os demais videntes fizeram planos de seguir o rastro luminoso. Decidi rápido que acompanharia o grupo. Reuniram dinheiro, comida e roupas para a peregrinação e os presentes para aquele que deveria ser um rei entre os judeus. Jerusalém é para onde se vai, se é por um poderoso judeu que se procura.

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão[1]”, tantos foram os dias viajados, não se podia desperdiçar fôlego e tempo. Em Jerusalém, procuramos pela casa mais honrada, pelo endereço do poder, a residência de Herodes. Batemos à porta do palácio e anunciamos o motivo da peregrinação, um bebê recém nascido e herdeiro do trono. Ele não estava lá. Mas um poderoso é a pessoa mais desesperada, vive da impossível certeza de que nada e ninguém importam mais que ela, concluí.

Ao ouvir de um bebê eleito pelos astros para reinar, a face escondida do poder apareceu em seu rosto, mas disfarçou-se nas palavras polidas e interessadas do estranho governador. O incrédulo é alguém que desistiu do que aparece, porque aprendeu que é na vida secreta das palavras, que as gentes dissimulam seus medos e paixões. Por isso, também duvidei de Herodes e seu piedoso tom de voz. Uma onda amarga inundou minhas entranhas novamente. Senti-me jogado no mundo, incrédulo com o céu e com os palácios.

Herodes reuniu seus sábios, consultou seus livros e falou-nos da profecia que indicava uma aldeia, Belém. Nosso destino.

Os magos mal disfarçavam a decepção. Esperavam por um palácio. Agora seguiam para Belém. A noite chegou e se escurece o chão, brilham mais uma vez o céu e suas esperanças. Todos tão arregalados e atentos aos astros, enquanto fecho os olhos de tristeza. Entreguei-me as minhas trevas e dormi resignado. Despertei com os comentários e agitação. Todos gritaram ao ver aquela que seria a rebelde e promissora estrela mais uma vez. Acordei tarde demais para querer mais que o testemunho dos meus crentes amigos. O rastro da rebeldia era o nosso caminho.

O amanhecer devolveu-nos à trilha. As estradas se cruzavam e os caminhos de outros se juntavam em direção à aldeia, ganhamos a companhia de gente ferida e sem fôlego, fugiam para sobreviver. Perderam casas, amigos e familiares. Deixaram para trás as ruínas de uma vida esmagada pela guerra. Poderosos conquistaram suas cidades e sequestraram sua memória. O que pode assaltar mais o futuro que a perda das lembranças de quem somos? Como lembrar de quem podemos ser, se quem éramos foi feito em farelos? Nas faces, o tom cinzento de quem não tem para onde ir, a não ser para longe da morte. Para nós, Belém deveria ser o berço de uma nova época, para eles, apenas um entreposto entre o caos e a incerteza. Os magos, acostumados à leitura do céu, pareciam nada entender dos dizeres da terra.

Assim chegamos ao destino, com a sensação de que ali não se podia viver, menos ainda nascer. Não havia lugar para belezas, Belém era para se abandonar, não para se chegar. A aldeia tinha cheiro de miséria, pelas ruelas corriam o esgoto e as crianças; resvalavam os que chegavam e os que partiam. E nós éramos um desencanto só. Os magos se olharam e só viram o vazio nos olhos uns dos outros. Reticentes, pararam no meio do nada. Mas eu segui em frente, porque essa é a hora de quem em nada crê. Assim faço a tanto tempo, sigo porque não tenho o que esperar. Os magos vieram comigo.

Passei a fazer aquela que parecia ser a mais tola das perguntas, por um bebê recém nascido. Eu nada dizia das estrelas, mas os magos não se continham, talvez de vergonha, e completavam avisando que uma estrela os guiara até ali, onde um bebê que seria rei havia nascido. Alguns riam. Outros ignoravam e continuavam o seu caminho. Procurando o que seria um grão no areal, minha cabeça se encheu de pensamentos mais uma vez. Imaginei que se há um Deus entre nós, não podia ser nos palácios o seu lugar, ali os mesquinhos forjam aparências e vivem a despeito do mundo. Mas ele deveria viver entre as vítimas dos palácios, na periferia do poder mora a verdade, é lá que pulsa o mundo que sofre e apela aos afetos e nos reivindica. Pensei de novo e tive medo da loucura, se há um Deus, ele tem que ser uma criança, porque é de recomeço que precisa quem assistiu ao fim de tudo a vida toda.

Uma mulher parou e fez cara de que tinha algo a dizer sobre o que perguntávamos. Contou-nos de um casal que aceitara passar a noite no estábulo, já que na sua casa não havia qualquer quarto vago. Um dos magos cochichou sua suspeita, enquanto seguíamos com ela, achava que a moça debochava de nós. Eu me perdi de novo entre os pensamentos, imaginei que em um mundo tão estranho, não poderia haver lugar para um Deus e que a sua casa entre nós só poderia ser o mais inadequado dos lugares. E na contramão dos crentes, acreditei.

Alguma coisa realmente diferente está para acontecer quando os crentes duvidam e o cético crê. Mas uma revolução nos espera, quando quem lidera os magos duvidou do céu e suas mágicas estrelas e confiou na terra e seus débeis bebês.

Fomos levados até o improvisado abrigo da família de refugiados. Um homem maduro nos recebeu, chamava-se José; com a pele envelhecida de quem há muito trabalha, mas nos olhos, o brilho das estrelas de quem desdenha a dor, de tanto que sonha. Vi os magos olhando para o seu rosto com a mesma atenção que liam os astros. Ele era o pai e deixou-nos chegar perto da mãe e do bebê. Era uma jovem assustada e insegura, a criança sugava-lhe os peitos faminta. Todos emudecemos reverentes. A imagem era tão singela e tão bastante, tão simples e tão promissora; tivemos vergonha dos presentes; a mirra, o ouro e os perfumes pareceram dispensáveis. Diante de nós, o flagrante do berço da vida. E estava por aí o tempo todo. Longe do céu, no colo da jovem. Deus é um bebê. Deus é o recomeço inesperado. No fim, o começo. Deus.

No mesmo dia voltamos para casa, mas nunca mais voltamos para quem éramos. A criança esvaziara o céu. Deixamos de procurar pelos astros, não conseguíamos mais tirar os olhos dos rostos. Os mais comuns, os mais sofridos, os mais humanos, o convite ao ofício de seguir em frente. Teimosamente. Neles, o mapa que nos devolve ao caminho, a magia da insignificância.

[1] Nos bailes da vida, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento.

Gadamer, em seu Verdade e Método, deu-nos uma daquelas frases coringas da filosofia com a qual se pode dizer muitas e distintas coisas, sem, no entanto, contradizer nem esgotar sua idéia. “Tudo o que existe é linguagem”. As coisas existem em nosso mundo de sentidos à medida que as temos nas palavras. As coisas existem, mas são as palavras que as colocam na vida. Uma coisa é existir, outra é se relacionar.

Uma criança, ávida por viver, põe-se no mundo enquanto descobre os signos da vida. Logo descobre que falar é mais intenso que apontar com o dedo. Palavras indicam movimentos no mundo. Dedos, apenas as coisas do mundo.

As palavras movimentam. Nas palavras, o Gênesis do mundo e da vida.

Deus cria tudo dizendo, menos o homem e a mulher. Para as coisas, Deus disse “haja”, para a humanidade, desdisse as coisas: proibiu o fruto. Um incontornável convite a fazer com uma coisa algo mais. Um movimento, uma idéia, um significado. Palavra é a transgressão da coisa e Deus transgrediu o fruto quando fez dele outra coisa além de fruto. Fruto proibido é bem mais que fruto. É uma discussão.

Um homem só deixa de ser um boneco de barro vivente quando também transgride, quando as coisas a sua volta tornam-se outras coisas. Interpretação.

A humanidade só começa a existir quando, à imagem de Deus, se inicia no jogo da linguagem. Dialética. Quando aceita o convite imagético da serpente para levar a sério o exemplo divino de fazer outras coisas com as coisas. Comer o fruto não era apenas comer o fruto. Era transgredir, à semelhança de Deus, o fruto. Era, finalmente, ser à imagem de Deus. Ser que transgride as coisas criando mundos pela palavra.

Não mais apenas Deus diz e movimenta o mundo, também o fazem homem e mulher. “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal.” Agora está criada a humanidade. Deus desdisse o vazio e colocou em movimento o mundo, criação. A humanidade desdisse a mesmice e colocou em movimento a consciência, história.

Com a palavra nada mais é uma coisa, tudo pode ser sempre outra. E por isso sofremos, porque com a palavra tudo é instável. O imprevisível cria e se diverte: tudo havia ficado muito bom, mas o incerto também aflige e dói. E para deixar clara a opção criativa de Deus pelo movimento, a humanidade é expulsa da pior de todas as tentações: por medo do aleatório movimento da vida, da dor de parir, do suor de trabalhar, da incerteza dos frutos que nunca mais serão apenas frutos, o homem e a mulher tentem coisificar as palavras no Reino previsível das eternas certezas. Regressão.

Expulsão é exposição à dinâmica da vida.

Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o SENHOR Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.

Eis o que é a certeza, a vaga lembrança de uma tentação.

Chegamos a um mundo pronto.
Carregamos forças que nos ultrapassam, genéticas e culturais, que nem de longe escolhemos (ou escolheríamos).
Tudo já significa, vale e condiciona.
E se quisermos o mínimo de contentamento, aprenderemos a indócil arte de nos adaptar ao que está aí.
E alguém ainda diz que somos livres?
Sim. Livres.
Porque o futuro está vertiginosamente aberto.
Escancarado.
Por mais forças alheias a nós que se combinem para escrevê-lo; ele mantém-se tão inédito quanto as páginas do livro que ainda escreverei.
Livres, sim. Porque o menor descuido, ou o desejo mais insistente.
A resposta mais demorada, ou precipitada.
O assombro que nos convenceu de impotência, ou o arroubo que nos fez ir a despeito de nossa covardia.
O rompante criativo de um argumento, ou a anuência passiva com o que sempre se disse sobre qualquer coisa.
A convicção desesperada ou a dúvida angustiante.
Uma réstia incerta de esperança.
Qualquer cisco nos olhos pode iniciar a revolução.
Como o fez aquele teimoso e incerto espermatozóide, alcançando o irresistível óvulo e o infinito corpo de possibilidades se jogou na existência.
Livres, sim, e maravilhosa e violenta e irresistivelmente.
Livres sim, sartreanamente condenados!
Insisto. Livres.
De tanta verdade que pulsa e lateja e arde,
desejante,
apaixonada.
Faminta de sentido e graça e amor.
E o atordoante Galileu bem que disse:
um conhecimento assim não nos permite ignorar o quão verdadeiramente somos livres.
Livres assim,
ai dos que resistirem aos abraços,
às mãos que se dão,
aos afetos,
aos amores!
Livres assim,
Deus é a amizade(não me deixa esquecer um amigo, mesmo que de longe, Paulo Brabo).

 

O Natal não é uma história fácil de ser contada, a despeito de ser a mais linda narração de todos os tempos.

Se parecer fácil, não é o Natal dos Evangelhos e nem tão bela. É difícil, porque é feita de estranhas contradições. De irônicos e graciosos espetáculos, de um lado. E de discretíssimos e opacos acontecimentos, do outro.

De um lado, luzes, corais de anjos, estrela guia, arrebatadoras revelações. Do outro, na multidão dos sem-rostos, no labirinto sombrio de vias infindas, no alvoroço ruidoso daqueles que quanto menos voz têm, mais barulho fazem, assiste-se a um delicado e quieto sinal.

Da banda de lá, a promessa eloquente e luminosa do Filho de Deus, Messias esperado, nascido entre nós. Da banda de cá, o silêncio feminino, de uma ressabiada mãe, guardando despretensiosa as altaneiras palavras, os inquietos semblantes, os curiosos olhares, os ansiosos tons de voz, sinais e arrepios de um Deus inesperadamente presente.

Do lado de lá, pastores ouvem um coro celeste e a voz do imponente Gabriel, a promessa gigante do Messias, tudo junto em um menino-deus. Do lado de cá, na incômoda estrebaria, no improvisado berço de uma manjedoura, apenas um bebê, embrulhado nos pobres panos que a todos os infantes plebeus envolve.

Entre a promessa cintilante e alvissareira e o seu pretenso cumprimento, uma viagem, uma despedida, um abandono e a salvação.

Sejam os sábios magos, ou os discriminados pastores, é preciso desnudar a esperança de trajes vultuosos, de expectativas de majestosos eventos. Importa esquecer o desejo crédulo de um potente Deus, ou de um irresistível Titan. O bebê é apenas mais um bruguelo. Chora estridente. Sorri gracioso. Suja fraldas. Esbaforido, suga os peitos maternos. Tão frágil, ao colo, suscita cuidado e reverência com a delicada vida.

Indispensável que seja apenas um bebê. Um nenê sem adjetivos, de tão imprescindível.

Deus de fraldas é de tirar o fôlego.

Quem quiser ver o prometido Filho de Deus, terá que desembaçar os olhos, superar o nervoso pigarro na garganta, respirar fundo e olhar de novo. Falar bem pouco, ou quem sabe se calar. E se converter aos pobres, aos esquecidos, aos sem-lugar, aos simples, àquele que não é mais do que o que menos é entre nós. Ele é um de nós. E esta é a sua glória. E esta é a nossa salvação.

Nunca mais o divino se confundirá com uma ficção. Não mais será um Deus refém de nossas abstrações e seus tédios e suas lonjuras e suas estéreis doutrinas; que quanto mais falam, menos dizem. Tanto descrevem, tanto escondem.

Um Deus nascido entre nós é um novo Deus.

Um Deus inesperado.

Maravilhosamente próximo.

Generosamente semelhante.

Graciosamente comum.

Ponderável.

Presumível.

Imitável.

Tão aqui.

Tão nosso.

Tão íntimo.

A criança é a mensagem.

Um Deus que entra em nossa vida desde a meninice é o mais crente de nós.

Acredita em recomeços.

Tem fé nos reinícios.

Adere aos nossos renascimentos.

O bebê é Deus dizendo: Faça como eu, recomece sempre que um novo início for a salvação.

Ele não é o outro que vem a nós.

É o menino que vimos crescer.

Não chega. Nasce.

Não se impõe. Entrega-se.

Não reivindica. Serve.

Não esmaga. Mistura-se.

Conta histórias para contar-se entre nós.

Não intima. Seduz.

E se assusta. É porque não contávamos que a salvação, a graça, o amor, a esperança estivessem logo ali, no berço pobre, na louca e hostil cidade, na outra esquina, ao alcance dos olhos, dos ouvidos, do colo.

Em um de nós.

Elienai Jr.

Quem me segue que também eu não o siga?

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