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Depois de mais um importante dia,destes que a testa franzida não endireita mais,
que os olhos ardem mas não se fecham,

que o sol se põe, 

mas as palavras insistem acesas,

e de que a vida dói nem se esquecem

nem se calam.
Depois de tanta queixa, tanto medo, tanta dúvida,

em que os doentes se vão,

os moços acenam,

os velhos dizem adeus,

as mulheres dão as costas,

toda gente séria se vai,

mas ficam suas sombras,

pesadas,

duras,

tristes.
Depois de toda demanda,

toda palavra,

todo gesto,

todavia

ele suspira só.

 Em casa, mas sem pátria;

no chão, mas fora do mundo.

Sentado numa pedra, voa,

voam os pensamentos.

E por um instante duvida,

ignora as razões,

esquece o sentido,

não sabe ao certo o que o trouxe até ali.
Ouve-se o grito estridente da garotada.

Pelo som aflito, correm.

Afoitas e soltas,

intensas, lépidas.

Com os olhos esbugalhados, engolem mundos;

não respiram, ofegam.

Aproximam-se entre descuidos e cansaços,

os lapsos da tarefa,

destes que nos livram 

das certezas e seus zelos,

do empenho pétreo do trabalho sem fim.
Feito uma coluna militar,

adulta, austera, briosa,

os discípulos protegem o Mestre

da distração,

do destrambelho,

da molecagem,

da inutilidade dos brincantes.

Garantem que a vida siga 

produtiva

e onerosa 

e séria

e só.
E como quem se sente roubado,

aflito e revoltoso,

Cristo repreende a ordem,

suspende o juízo,

desorganiza a salvação

e entra na ciranda.

Perde o fôlego e o equilíbrio,

roda e gargalha feliz.

Não deixa que não o deixem rir.

E antes que termine de dizer que “não impeçam as criancinhas”,

é com cócegas que a menininha o devolve ao Reino.
Entre toques e canções,

afagos e risos

e um menino no colo.

Olha em seus olhos

e se espelha encantado;

se vê criança,

aquela que dormia esquecida,

o filho de um novo dia, 

que se deu como um bebê se dá;

inteiro, de tão frágil,

intenso, de tão faminto,

pleno de tanto futuro,

ao colo de tantos dramas.
O menino tem o hálito de tâmaras maduras,

o cheiro de doces memórias,

 da voz de Maria contando histórias pra dormir.

A dos visionários pastores,

dos presentes dos magos,

do colo inquieto de Simeão, 

das danças de Isabel 

e do falante silêncio de Zacarias.

Histórias de quem partiu de grandes sinais,

mas chegou a um mínimo bebê.

E chegou aonde tudo começa.

Que sem luz irradiou graça.

Que sua fraqueza suscitou reverência.

Que sem nada dizer, liderou sonhos.

Nada fez, mas tudo significou.
E antes que a brincadeira acabasse,

a poucos instantes da meninada partir,

afirmou aos discípulos o que nunca disse,

feito um escândalo,

uma heresia,

uma reviravolta,

a lição que nunca poderia ter esquecido,

quem quisesse por os pés no Reino dos Céus

teria que seguir os passos da criança,

a que brinca e sorri,

que por nada troca os afetos,

incalculável,

imprevisível,

inoportuna,

extemporânea,

livremente inútil,

a criança que Deus é.

a-traicao-de-judas

Ele era incontornável. Seus olhos faiscavam desejosos. Sabia-se da obstinação em brigar pela liberdade. Admiravam-no ao mesmo tempo que o temiam. Judas tinha uma presença agridoce, fazia gravitar expectativas em torno de si, mas era conhecido como Iscariotes, porque já fora visto com os rebeldes empunhando facas.

Aproximou-se faminto de sonhos. Grudou seus olhos em mim com tanto apetite que não pude não retribuir-lhe com um sorriso acolhedor. Estávamos ali pela mesma razão, tínhamos uma só alma e ela era inquieta e esperançosa. Chamei-o pelo nome e ele arregalou os olhos surpreso por eu já saber quem ele era. Gastei dias entre os amigos colhendo nomes de gente que tivesse algo melhor que boa reputação; em busca de discípulos, queria cercar-me de perguntas, de atrevimentos, de desejos, de incômodos; fissuras em um mundo enfadonho, réstias em um reino de trevas. Desde que me contaram de Judas, esperei por ele como um agricultor aguarda as trovoadas de um tempo chuvoso.

Encontrá-lo fez bem a minha esperança. O moço era um acontecimento. Vocação nervosa. Ávido como a ideia que pulsava em mim.

Sem formalidades, perguntou-me pelo que se tornaria em seguida minha pregação mais pretensiosa, você acredita em um novo Reino? E que ele está entre nós. Mas todos têm medo e escolhem se esconder dos confrontos. Não vim trazer paz, mas espada e guerra. Sonhos sem conflitos adormecem. Chego como o ladrão no meio da noite, não quero acalentar dormências, quero acordar coragens. Toda coragem é incidental. O novo reino chegou, mas não para os covardes. Toda covardia é previsível. Seu olhar divagou, do jeito que acontece quando arregalamos os olhos para dentro da imaginação.

Depois dos ensinamentos, avisaram-me que faltavam ouvidos a Judas, disperso e apressado, parecia mais disposto a agir que a escutar. Desdenhei. Quem ouve o barulho da revolução por vir ensurdece um pouco para outros acontecimentos. Difícil ouvir ponderações quando se tem o grito da urgência ecoando na alma.

Enquanto todos dormiam, eu e Judas acordávamos sonhos em conversas intermináveis. Fez-me entender seu afastamento dos Sicários. Sentia que careciam da habilidade de reunir e inflamar o povo. Na última revolta, foi o que lhes faltou para o êxito, explicou. Depois de todo o sangue derramado, olharam para trás e estavam sozinhos. Não há revolta que perdure sem o envolvimento da multidão. Fez-me acreditar que eu reunia todas as possibilidades. Juntava as multidões e incendiava as mentes. Era amado pelo povo e temido pelos poderosos. Ouvido pela turba, meu evangelho assombrava o sinédrio e as sinagogas. Curava as gentes todas e adoecia de inveja os saudáveis piedosos e suas vidas cheias de exclusividades. Abraçar àqueles a quem ninguém tocava era um murro na pureza dos fariseus e sacerdotes. Seguido pelo povo, poderia esvaziar o templo e deslocar poderes. Acreditamos na reviravolta, quando a alvorada introduziu suas pálidas luzes no quarto. Judas apontou a estrela D’alva que piscava na janela, sorriu, apertou minha mão e sussurrou, é você.

O primeiro a chegar, o último a sair. Pragmático, calculava os gastos de cada jornada. Íntimos, molhávamos os bocados de pão no mesmo prato. Ao precisarmos escolher quem cuidasse do dinheiro, ninguém duvidou de que fosse ele o mais indicado. Nenhum de nós parecia tão comprometido com o custo da missão e a não desperdiçar cada oportunidade de juntar adeptos. Nenhum dos discípulos demorou tanto a entender porque preferi estar só e dispersei a multidão depois de alimentá-la no deserto. Sua paixão tornava urgente e guloso cada encontro com o povo.

Minha alma se afastou de Judas bem antes que ele desistisse de mim. Não demorou muito para descobrir-me outro. Para desencantar-me com aquele que viam em mim. Entediado, não queria mais ser o homem com quem todos vinham se empolgando, poderoso, multiplicador do pão e senhor dos milagres. Reli o Êxodo e os profetas e percebi que prodígios e entusiasmo não fizeram amigos para Deus e desconfiei do Messias da multidão. Passei a cultivar o prazer do anonimato e dos encontros discretos. Se outrora acreditei na revolução pelo poder político, se fiz da popularidade o sinal da salvação, agora duvidava de que outro reino pudesse ser realmente novo usando as mesmas armas dos que dominam as almas. Cada vez mais crente em uma nova humanidade, senti-me incrédulo com seus poderes, prédios e ajuntamentos. Mudei. E abandonei o homem a quem todos insistiam em seguir, o líder com quem Judas contava para tomar o poder com a força de quem ressuscita mortos e ajunta multidões. Os adeptos e o poder que os reúne são algemas e quem pensa ter a força de movê-los é escravizado sob o encanto de que lhe chamam de senhor.

Eu fui meu primeiro traidor.

Todos se escandalizaram, mas ninguém sofreu mais que Judas quando dispensei novos seguidores. Quando despedi para suas casas aqueles que socorri, ele não entendeu que queria para eles a liberdade que as multidões tiravam de mim. Vi seus olhos outrora intensos tornarem-se opacos e fugidios. E quem sentava-se ao meu lado passou a se esgueirar pelos cantos mais sombrios. Foi a Pedro que chamei de pedra de tropeço quando tentei explicar quem eu não queria ser e também a ele que chamei de diabo e pedi que se afastasse de mim, mas foi Judas quem baixou a cabeça. Sua presença tornou-se uma ausência.

Em um dia de exótica beleza assisti a sua vulgaridade. Quando o amor de Maria desnudou a frieza de todos. Eu precisava falar sobre a trama urdida para a minha morte e todos preferiam tergiversar sobre banalidades. Ela invadiu a sobriedade cosmética dos homens, parecia dançar, quebrou o caríssimo vaso doado pelas mulheres ricas de Betânia e derramou todo o perfume sobre minha cabeça. E eu deixei e os homens se constrangeram e Judas perdeu-me de vista. Suas palavras, tão sensatas e piedosas soavam secas e desalmadas. Lamentou sem sentir tristeza pelos pobres que poderíamos socorrer com o dinheiro do perfume, mas foi a mim que barateou com sua indiferença. Eu não estava mais ali. Olhou-me, mas nossos olhos não se encontraram mais. Eu já havia morrido para Judas. Então compreendi que Maria embalsamava-me porque me via morto naquela sala.

É preferível matar no coração aquele que se recusa a ser o esperado.

É preciso matar no coração aquele a quem se pretende dar as costas.

Judas foi visto na casa de Caifás. Contaram-me que tramara com os chefes religiosos me entregar aos soldados do Templo. Eis a mais amarga experiência, tornar-se repulsivo para quem um dia se foi amável. Judas culpou-me por ser outro. Demonizou-me para desistir em paz. Era como se fizesse a coisa certa; se não uma vingança, a justiça. O Diabo esconde-se em justas medidas.

Porque traí suas expectativas, ele traiu minha liberdade. Porque traí o seu sonho de poder, Judas traiu o que restou de nós, o amor.

Reuni os amigos para sobreviver à angústia. As horas pareceram dias até que nos juntamos todos à mesa. Judas sentou-se ao meu lado sem perceber que repetia o hábito de um amor que não mais havia, mostrou-se deslocado. Mas com olhos convictos de tão diabólicos. João e Tiago discutiam seus poderes em um Reino que jamais existiria e pareciam resistir ao único no qual poderiam me encontrar, o das desimportâncias, o dos que desistem das aparências para escolher os afetos. Tentei inútil tirar-lhes o peso das exigências, avisei que nenhum de nós estava pronto para a dor da derrota, que se perderiam de tão frágeis, para se encontrarem depois, quem sabe, mais inteiros. Pedro preferiu esconder-se em promessas e falsas esperanças, dizia ser o único a não me trair. Segurei suas mãos, olhei em seus olhos e avisei-lhe que o amor também cansa e se confunde, que suas promessas de fidelidade não acordariam junto com o galo.

Não me espantei ao descobrir que havia ali mais diabos que um Judas pudesse dar conta. Ao denunciar que estava entre eles aquele que me traíra e por quem seria entregue nas mãos dos poderosos, todos se entreolharam sinalizando culpas, pareciam tentar verificar se já haviam sido descobertos.

O diabo mora na pessoa que tememos que todos descubram que somos.

Judas aparentava lutar com as próprias ideias. Pude ouvi-lo tentar consolar Tomé desmantelado com a proximidade dos soldados. Dizia acreditar que minha prisão poderia ser uma amarga solução, que o povo acordaria com tamanha injustiça e se rebelaria; neste instante, vi que me olhou rapidamente e sussurrou algo que só depois Tomé me contou, que eu também despertaria da minha covardia para assumir meu papel de Messias.

A traição torna-se perversa quando não desiste de uma fé que desistiu do amor.

Entre diabos, era preciso exorcizar a mesa. Avisei que aquele que me vendera aos chefes religiosos dividia sonhos comigo como quem divide o mesmo prato. Neste momento, Judas mergulhava um pedaço de pão no meu prato cheio de molho. Apressou o bocado à boca e desvelou sua trágica insaciedade. Abandonou a mesa e encheu-nos do vazio que jamais conseguiremos superar. O desespero de quem ama é nunca cicatrizar a ferida, o absurdo sempre sangra, sempre fere.

Saí de lá há algumas horas e o seu olhar não saiu de mim. Pai, sinto-me terrivelmente só. Parece não haver os amigos a quem confiei minha alma. Não ter sido quem queriam foi imperdoável. Não consigo condenar o obstinado Judas, nem a Pedro, João e Tiago que dormem para não despertar o ressentimento. Rogo-te por eles. Também nós traímos sua fé. Também eu traí o sonho de Judas. Traímos nossos traidores para que o amor fosse possível e sua atordoante e ingrata liberdade.

Pai, não me sinto menos confuso que Judas. Nem menos instável que Pedro. Resistirão a essa dor que nem eu consigo suportar? Quem sabe, se fosse possível, também eu fugiria desta aflição que queima dentro de mim? Já posso ouvir os passos dos que me levarão. Se a tua vontade é esta ardida liberdade, que seja feita e que venha o amor e todas as suas salvações.

Judas? Não esperava te ver mais uma vez. Com um beijo, amigo? Espere, aonde você vai? Não corra. Não desista. Eu não desisti.

Pedro, orei por você para que também não desista. Confirme meu amor por Judas. Alguém lhe diga antes que seja tarde, também eu o traí.

nebula

O mundo não é uma casa nem uma celebração de solidariedade. Nele, somos afligidos com frequência.

Incerteza.

Acidente.

Hostilidade.

Insegurança.

Deve vir de fora o sentido que nos salva, me explica o mago a quem revelo a tragédia até aqui oculta, tornei-me incrédulo em pleno ofício da magia. Dos astros do céu, do distante e misterioso brilho orquestrado pelo firmamento vêm nossas razões, ele completa. Ando desconfiado de tudo. Desde o fracasso das últimas previsões, o céu deixou de ser o mapa que me guia, as estrelas não me confortam mais.

Buscamos explicação no céu, porque entre nós tudo parou de dizer, toda esperança se esgotou, as coisas do nosso mundo se tornaram inconciliáveis e as pessoas, opacas e vazias. Essas aparentes desordens daqui devem ter razões celestes. Alguma coisa que aconteça lá deve dizer o que ocorre aqui, emendou outro mago; aquele que suspirava entre as frases, tamanha era a fé nos astros. Ele insistiu na explicação, quanto mais apagado de esperança nos parece o mundo, mais brilho no longínquo céu procuramos. E isso me soou mais vício que virtude. Chorei sem lágrimas.

Tornei-me um mago sem magia e o que antes era pretensiosa sabedoria, agora se tornou um ácido desencanto. Suspeito que o deslumbre com o céu não seja mais que fuga, uma sangria de almas aflitas. Porque tudo aqui é impermanente e sombrio, erguemos os olhos de desespero. Mas insisto em seguir com os magos. Eu que perdi a fé sobrevivo do ardor dos que podem crer.

Naquela noite, o céu era um luzeiro piscante. Sob a sinfonia de grilos e outros bichos, sem o cobertor das nuvens, o frio queimava a pele e os rostos pareciam apagar de tão obscuros e acendiam o espaço infinito tal qual um palco iluminado. O céu fez-se a ribalta onde tudo parecia encenar o destino do mundo. Mas eu duvidava.

Os olhos dos magos estavam vidrados nas estrelas e seus brilhos. Apressada, uma delas interessou a todos, movia-se como quem se rebela, abandonando o céu em sofreguidão. Rasgou o espaço infinito e mergulhou num inóspito chão. Apontava o inesperado caminho para a terra dos judeus. Uma estrela não deixa o céu se não for para iluminar caminhos, um deus não chega entre nós se não for destinado ao trono e para governar com luz na terra das sombras. Incrédulo, a estrela rebelde adoçou meu amargo coração.

Os demais videntes fizeram planos de seguir o rastro luminoso. Decidi rápido que acompanharia o grupo. Reuniram dinheiro, comida e roupas para a peregrinação e os presentes para aquele que deveria ser um rei entre os judeus. Jerusalém é para onde se vai, se é por um poderoso judeu que se procura.

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão[1]”, tantos foram os dias viajados, não se podia desperdiçar fôlego e tempo. Em Jerusalém, procuramos pela casa mais honrada, pelo endereço do poder, a residência de Herodes. Batemos à porta do palácio e anunciamos o motivo da peregrinação, um bebê recém nascido e herdeiro do trono. Ele não estava lá. Mas um poderoso é a pessoa mais desesperada, vive da impossível certeza de que nada e ninguém importam mais que ela, concluí.

Ao ouvir de um bebê eleito pelos astros para reinar, a face escondida do poder apareceu em seu rosto, mas disfarçou-se nas palavras polidas e interessadas do estranho governador. O incrédulo é alguém que desistiu do que aparece, porque aprendeu que é na vida secreta das palavras, que as gentes dissimulam seus medos e paixões. Por isso, também duvidei de Herodes e seu piedoso tom de voz. Uma onda amarga inundou minhas entranhas novamente. Senti-me jogado no mundo, incrédulo com o céu e com os palácios.

Herodes reuniu seus sábios, consultou seus livros e falou-nos da profecia que indicava uma aldeia, Belém. Nosso destino.

Os magos mal disfarçavam a decepção. Esperavam por um palácio. Agora seguiam para Belém. A noite chegou e se escurece o chão, brilham mais uma vez o céu e suas esperanças. Todos tão arregalados e atentos aos astros, enquanto fecho os olhos de tristeza. Entreguei-me as minhas trevas e dormi resignado. Despertei com os comentários e agitação. Todos gritaram ao ver aquela que seria a rebelde e promissora estrela mais uma vez. Acordei tarde demais para querer mais que o testemunho dos meus crentes amigos. O rastro da rebeldia era o nosso caminho.

O amanhecer devolveu-nos à trilha. As estradas se cruzavam e os caminhos de outros se juntavam em direção à aldeia, ganhamos a companhia de gente ferida e sem fôlego, fugiam para sobreviver. Perderam casas, amigos e familiares. Deixaram para trás as ruínas de uma vida esmagada pela guerra. Poderosos conquistaram suas cidades e sequestraram sua memória. O que pode assaltar mais o futuro que a perda das lembranças de quem somos? Como lembrar de quem podemos ser, se quem éramos foi feito em farelos? Nas faces, o tom cinzento de quem não tem para onde ir, a não ser para longe da morte. Para nós, Belém deveria ser o berço de uma nova época, para eles, apenas um entreposto entre o caos e a incerteza. Os magos, acostumados à leitura do céu, pareciam nada entender dos dizeres da terra.

Assim chegamos ao destino, com a sensação de que ali não se podia viver, menos ainda nascer. Não havia lugar para belezas, Belém era para se abandonar, não para se chegar. A aldeia tinha cheiro de miséria, pelas ruelas corriam o esgoto e as crianças; resvalavam os que chegavam e os que partiam. E nós éramos um desencanto só. Os magos se olharam e só viram o vazio nos olhos uns dos outros. Reticentes, pararam no meio do nada. Mas eu segui em frente, porque essa é a hora de quem em nada crê. Assim faço a tanto tempo, sigo porque não tenho o que esperar. Os magos vieram comigo.

Passei a fazer aquela que parecia ser a mais tola das perguntas, por um bebê recém nascido. Eu nada dizia das estrelas, mas os magos não se continham, talvez de vergonha, e completavam avisando que uma estrela os guiara até ali, onde um bebê que seria rei havia nascido. Alguns riam. Outros ignoravam e continuavam o seu caminho. Procurando o que seria um grão no areal, minha cabeça se encheu de pensamentos mais uma vez. Imaginei que se há um Deus entre nós, não podia ser nos palácios o seu lugar, ali os mesquinhos forjam aparências e vivem a despeito do mundo. Mas ele deveria viver entre as vítimas dos palácios, na periferia do poder mora a verdade, é lá que pulsa o mundo que sofre e apela aos afetos e nos reivindica. Pensei de novo e tive medo da loucura, se há um Deus, ele tem que ser uma criança, porque é de recomeço que precisa quem assistiu ao fim de tudo a vida toda.

Uma mulher parou e fez cara de que tinha algo a dizer sobre o que perguntávamos. Contou-nos de um casal que aceitara passar a noite no estábulo, já que na sua casa não havia qualquer quarto vago. Um dos magos cochichou sua suspeita, enquanto seguíamos com ela, achava que a moça debochava de nós. Eu me perdi de novo entre os pensamentos, imaginei que em um mundo tão estranho, não poderia haver lugar para um Deus e que a sua casa entre nós só poderia ser o mais inadequado dos lugares. E na contramão dos crentes, acreditei.

Alguma coisa realmente diferente está para acontecer quando os crentes duvidam e o cético crê. Mas uma revolução nos espera, quando quem lidera os magos duvidou do céu e suas mágicas estrelas e confiou na terra e seus débeis bebês.

Fomos levados até o improvisado abrigo da família de refugiados. Um homem maduro nos recebeu, chamava-se José; com a pele envelhecida de quem há muito trabalha, mas nos olhos, o brilho das estrelas de quem desdenha a dor, de tanto que sonha. Vi os magos olhando para o seu rosto com a mesma atenção que liam os astros. Ele era o pai e deixou-nos chegar perto da mãe e do bebê. Era uma jovem assustada e insegura, a criança sugava-lhe os peitos faminta. Todos emudecemos reverentes. A imagem era tão singela e tão bastante, tão simples e tão promissora; tivemos vergonha dos presentes; a mirra, o ouro e os perfumes pareceram dispensáveis. Diante de nós, o flagrante do berço da vida. E estava por aí o tempo todo. Longe do céu, no colo da jovem. Deus é um bebê. Deus é o recomeço inesperado. No fim, o começo. Deus.

No mesmo dia voltamos para casa, mas nunca mais voltamos para quem éramos. A criança esvaziara o céu. Deixamos de procurar pelos astros, não conseguíamos mais tirar os olhos dos rostos. Os mais comuns, os mais sofridos, os mais humanos, o convite ao ofício de seguir em frente. Teimosamente. Neles, o mapa que nos devolve ao caminho, a magia da insignificância.

[1] Nos bailes da vida, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento.

Gadamer, em seu Verdade e Método, deu-nos uma daquelas frases coringas da filosofia com a qual se pode dizer muitas e distintas coisas, sem, no entanto, contradizer nem esgotar sua idéia. “Tudo o que existe é linguagem”. As coisas existem em nosso mundo de sentidos à medida que as temos nas palavras. As coisas existem, mas são as palavras que as colocam na vida. Uma coisa é existir, outra é se relacionar.

Uma criança, ávida por viver, põe-se no mundo enquanto descobre os signos da vida. Logo descobre que falar é mais intenso que apontar com o dedo. Palavras indicam movimentos no mundo. Dedos, apenas as coisas do mundo.

As palavras movimentam. Nas palavras, o Gênesis do mundo e da vida.

Deus cria tudo dizendo, menos o homem e a mulher. Para as coisas, Deus disse “haja”, para a humanidade, desdisse as coisas: proibiu o fruto. Um incontornável convite a fazer com uma coisa algo mais. Um movimento, uma idéia, um significado. Palavra é a transgressão da coisa e Deus transgrediu o fruto quando fez dele outra coisa além de fruto. Fruto proibido é bem mais que fruto. É uma discussão.

Um homem só deixa de ser um boneco de barro vivente quando também transgride, quando as coisas a sua volta tornam-se outras coisas. Interpretação.

A humanidade só começa a existir quando, à imagem de Deus, se inicia no jogo da linguagem. Dialética. Quando aceita o convite imagético da serpente para levar a sério o exemplo divino de fazer outras coisas com as coisas. Comer o fruto não era apenas comer o fruto. Era transgredir, à semelhança de Deus, o fruto. Era, finalmente, ser à imagem de Deus. Ser que transgride as coisas criando mundos pela palavra.

Não mais apenas Deus diz e movimenta o mundo, também o fazem homem e mulher. “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal.” Agora está criada a humanidade. Deus desdisse o vazio e colocou em movimento o mundo, criação. A humanidade desdisse a mesmice e colocou em movimento a consciência, história.

Com a palavra nada mais é uma coisa, tudo pode ser sempre outra. E por isso sofremos, porque com a palavra tudo é instável. O imprevisível cria e se diverte: tudo havia ficado muito bom, mas o incerto também aflige e dói. E para deixar clara a opção criativa de Deus pelo movimento, a humanidade é expulsa da pior de todas as tentações: por medo do aleatório movimento da vida, da dor de parir, do suor de trabalhar, da incerteza dos frutos que nunca mais serão apenas frutos, o homem e a mulher tentem coisificar as palavras no Reino previsível das eternas certezas. Regressão.

Expulsão é exposição à dinâmica da vida.

Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o SENHOR Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.

Eis o que é a certeza, a vaga lembrança de uma tentação.

Chegamos a um mundo pronto.
Carregamos forças que nos ultrapassam, genéticas e culturais, que nem de longe escolhemos (ou escolheríamos).
Tudo já significa, vale e condiciona.
E se quisermos o mínimo de contentamento, aprenderemos a indócil arte de nos adaptar ao que está aí.
E alguém ainda diz que somos livres?
Sim. Livres.
Porque o futuro está vertiginosamente aberto.
Escancarado.
Por mais forças alheias a nós que se combinem para escrevê-lo; ele mantém-se tão inédito quanto as páginas do livro que ainda escreverei.
Livres, sim. Porque o menor descuido, ou o desejo mais insistente.
A resposta mais demorada, ou precipitada.
O assombro que nos convenceu de impotência, ou o arroubo que nos fez ir a despeito de nossa covardia.
O rompante criativo de um argumento, ou a anuência passiva com o que sempre se disse sobre qualquer coisa.
A convicção desesperada ou a dúvida angustiante.
Uma réstia incerta de esperança.
Qualquer cisco nos olhos pode iniciar a revolução.
Como o fez aquele teimoso e incerto espermatozóide, alcançando o irresistível óvulo e o infinito corpo de possibilidades se jogou na existência.
Livres, sim, e maravilhosa e violenta e irresistivelmente.
Livres sim, sartreanamente condenados!
Insisto. Livres.
De tanta verdade que pulsa e lateja e arde,
desejante,
apaixonada.
Faminta de sentido e graça e amor.
E o atordoante Galileu bem que disse:
um conhecimento assim não nos permite ignorar o quão verdadeiramente somos livres.
Livres assim,
ai dos que resistirem aos abraços,
às mãos que se dão,
aos afetos,
aos amores!
Livres assim,
Deus é a amizade(não me deixa esquecer um amigo, mesmo que de longe, Paulo Brabo).

 

O Natal não é uma história fácil de ser contada, a despeito de ser a mais linda narração de todos os tempos.

Se parecer fácil, não é o Natal dos Evangelhos e nem tão bela. É difícil, porque é feita de estranhas contradições. De irônicos e graciosos espetáculos, de um lado. E de discretíssimos e opacos acontecimentos, do outro.

De um lado, luzes, corais de anjos, estrela guia, arrebatadoras revelações. Do outro, na multidão dos sem-rostos, no labirinto sombrio de vias infindas, no alvoroço ruidoso daqueles que quanto menos voz têm, mais barulho fazem, assiste-se a um delicado e quieto sinal.

Da banda de lá, a promessa eloquente e luminosa do Filho de Deus, Messias esperado, nascido entre nós. Da banda de cá, o silêncio feminino, de uma ressabiada mãe, guardando despretensiosa as altaneiras palavras, os inquietos semblantes, os curiosos olhares, os ansiosos tons de voz, sinais e arrepios de um Deus inesperadamente presente.

Do lado de lá, pastores ouvem um coro celeste e a voz do imponente Gabriel, a promessa gigante do Messias, tudo junto em um menino-deus. Do lado de cá, na incômoda estrebaria, no improvisado berço de uma manjedoura, apenas um bebê, embrulhado nos pobres panos que a todos os infantes plebeus envolve.

Entre a promessa cintilante e alvissareira e o seu pretenso cumprimento, uma viagem, uma despedida, um abandono e a salvação.

Sejam os sábios magos, ou os discriminados pastores, é preciso desnudar a esperança de trajes vultuosos, de expectativas de majestosos eventos. Importa esquecer o desejo crédulo de um potente Deus, ou de um irresistível Titan. O bebê é apenas mais um bruguelo. Chora estridente. Sorri gracioso. Suja fraldas. Esbaforido, suga os peitos maternos. Tão frágil, ao colo, suscita cuidado e reverência com a delicada vida.

Indispensável que seja apenas um bebê. Um nenê sem adjetivos, de tão imprescindível.

Deus de fraldas é de tirar o fôlego.

Quem quiser ver o prometido Filho de Deus, terá que desembaçar os olhos, superar o nervoso pigarro na garganta, respirar fundo e olhar de novo. Falar bem pouco, ou quem sabe se calar. E se converter aos pobres, aos esquecidos, aos sem-lugar, aos simples, àquele que não é mais do que o que menos é entre nós. Ele é um de nós. E esta é a sua glória. E esta é a nossa salvação.

Nunca mais o divino se confundirá com uma ficção. Não mais será um Deus refém de nossas abstrações e seus tédios e suas lonjuras e suas estéreis doutrinas; que quanto mais falam, menos dizem. Tanto descrevem, tanto escondem.

Um Deus nascido entre nós é um novo Deus.

Um Deus inesperado.

Maravilhosamente próximo.

Generosamente semelhante.

Graciosamente comum.

Ponderável.

Presumível.

Imitável.

Tão aqui.

Tão nosso.

Tão íntimo.

A criança é a mensagem.

Um Deus que entra em nossa vida desde a meninice é o mais crente de nós.

Acredita em recomeços.

Tem fé nos reinícios.

Adere aos nossos renascimentos.

O bebê é Deus dizendo: Faça como eu, recomece sempre que um novo início for a salvação.

Ele não é o outro que vem a nós.

É o menino que vimos crescer.

Não chega. Nasce.

Não se impõe. Entrega-se.

Não reivindica. Serve.

Não esmaga. Mistura-se.

Conta histórias para contar-se entre nós.

Não intima. Seduz.

E se assusta. É porque não contávamos que a salvação, a graça, o amor, a esperança estivessem logo ali, no berço pobre, na louca e hostil cidade, na outra esquina, ao alcance dos olhos, dos ouvidos, do colo.

Em um de nós.

Elienai Jr.

Lançamento do livro em Fortaleza

            Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista. Ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é. Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais, lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida, e uma abertura despojada e generosa ao outro e à sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, eu pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor: assistir pessoas em cerimônias fúnebres, sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. Atendendo a um pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali, então, um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações a partir da leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da jovem falecida, disparou cruelmente:  “Eu disse a ela: se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!” Sua mãe, um ano antes, pelo motivo, também falecera. Deixaram ambas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz da mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandado as dores da despedida. Alguém me pediu que cedesse um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, eis as palavras que se congelaram em minha mente:  “Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima”. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, atentou às desajeitadas palavras do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se ao pai, em prantos ainda mais sofridos. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência inconsolável do pai, amigo e provedor. Um Deus injusto? Narcisista? Impassível? Assassino? Revoltei-me em meu coração.

Cenas como essas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas sem reflexão, pelas razões que forem: comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos adoecerão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia assim, tão existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa, a mistificação da vida, a alienação e malignização da humanidade; herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos. Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar. Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo. Veio em carne, insiste o apóstolo.

Assim concebi este livro, com desejos pretensiosos, mas modestas proposições. Reuni insights, réstias que pudessem iluminar um pouco a nossa fé e libertá-la dos fungos da irreflexão que, protegidos da luz, espalham mofo e focos de infecção em sua conexão com a vida. A imagem é boa, porque é assim que acontece aos crentes quando fogem do enfrentamento de sua realidade. Adiam a reflexão e enfermam suas relações.

Dividi a exposição dos ensaios em três movimentos, que apesar disso não deixam de estar entrelaçados em conceitos que se repetirão teimosa, mas didaticamente. Na primeira parte, reuni ensaios que pretendem se livrar de práticas que considero vícios nocivos a uma espiritualidade lúcida, como a sublimação da realidade, o medo e a preguiça de enfrentar questões difíceis, a fobia à dúvida, a fantasia de relações e conceitos absolutos e organizados por propósitos divinos, as gigantes expectativas sobre as igrejas e suas organizações e programas doutrinários, mas também o estranho menosprezo pela poesia e outras expressões de beleza.

O segundo movimento deseja abrir janelas de compreensão sobre a Bíblia, o texto que funda a fé cristã e organiza seu culto, moralidade e expectativas sobre a vida. Nestes ensaios, convidei filósofos e teólogos para breves e promissoras conversas sobre o que podemos esperar do texto bíblico: Gadamer, Nietzsche , Rorty e Vattimo sugerem ideias ao lado de Segundo, Queiruga, Ricardo Gondim e Rubem Alves. Acredito que desmistificar a Bíblia é potencializar sua capacidade de abençoar a vida humana.

O terceiro momento deste trabalho quer ofertar algumas sugestões de compreensão da relação da fé com as nossas expectativas para a vida concreta, e algumas insinuações de caminhos a seguir em nossa espiritualidade. Deixei para esse instante um ensaio muito precioso para a minha trajetória, Meu pentecostalismo revisitado, texto autobiográfico, sem deixar de ser ensaístico. Publiquei-o pela primeira vez em 2002, e retomá-lo foi terapêutico e enriquecedor; o meu leitor, que já o conhecia, perceberá as novidades que felizmente pude lhe acrescentar. Acredito sim em uma pentecostalidade como ingrediente afetivo e catalisador da espiritualidade cristã.

Já me confessei pretensioso com o livro e a reunião de filósofos e teólogos que vêm iluminando meu caminho, mas quero incentivá-lo na leitura, antecipando que também participaram desta aventura alguns poetas e romancistas imprenscindíveis para a construção da minha fé. Entraram na roda Dostoievski, Muriel Barbery, Pascal Mercier, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Lenine, Gilberto Gil e Jorge Luis Borges. Ninguém melhor que o poeta para insinuar versões possíveis para a vida, e não apenas, mas também provocar a imaginação, esta modalidade espiritual tão esquecida entre religiosos, no entanto tão importante para uma vida luminosa e aquecida por esperança.

Boa leitura!

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Descubro aos 39 que uma história são muitas e que a narrativa reivindica ser recontada sempre e nunca em definitivo. Parece que o modo como vínhamos contando quem somos, no que cremos ou não mais, o que esperamos e do que desistimos, porque chegamos aqui, não conseguisse mais nos narrar. Entediados com os contos de nossa história, angustiados pela desconfiança de que um outro era uma vez precise ser arriscado, redescrevemo-nos.

Não consigo contar a minha história como vinha contando. Minha filha me perguntou em um dia desses: por que você é assim, diferente? Engasguei nas primeiras sílabas da história que sempre narrei para dizer quem sou. Não era mais. Não contava mais. Instantes novos, pessoas distintas, perguntas outrora adiadas, respostas blasfemas, fantasmas desvelados mudaram quem venho sendo desde o era uma vez. Não falo de capítulos novos de uma novela antiga. Mas de fatos novos que recontam a história toda. Uma narrativa é uma verdade que nunca chega, uma identidade sempre a caminho.

Talvez por isso Jesus nada tenha escrito. A palavra escrita finge que disse o que nunca deixará de ser. Talvez por isso, a única vez em que escreveu o fez na areia. Para que a brisa, essa velha contingência, tratasse de desescrever. Foi a escrita fugidia na areia que obrigou os contadores de uma história só, a que junta pedras nas mãos, a recontarem-se. Quem não tiver pecado que conte uma única história. À mulher, que repetia pela última vez a história de sempre, impôs a tarefa de olhar-se de novo e narrar-se de novo e tentar ser de novo: onde estão as pedras, memórias mortas de quem é você? Restou o vácuo criativo das versões que se foram. Eu também não sei mais quem é você. Vá e conte de novo. Era uma vez uma mulher que queria amar.

Engasgado nas primeiras sílabas da história que sempre contei, mas que não me conta mais, perguntei, curioso, como se quisesse saber como de fato foi: o que você acha? Seu olhar irônico e juvenil, sobrancelhas franzidas, maneando a cabeça, era Jesus sugerindo redescrever-me. Esse que vou deixando de ser.

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O Thales da gente

Thales sem a gente é sem “h”

A vida sem beleza é só letra com som,

a fonética da mesmice

É o que se diz que todo mundo diz

O Thales da gente é com “h”.

É o que se vê e a boca não fala,

só abre, calada e feliz

É o “h” do Thales,

Letra sem fonema, beleza indizível.

Lá em casa é assim,

a gente tem essa mania de inventar

A gente vive inventando beleza

Tá tudo bom, tudo já bonito.

Mas a gente inventa um “h”

Éramos eu e ela,

Afeto sem feto.

Tanta gente e só a gente.

E a gente inventou a Clara,

Inventou a ternura no que já era delicadeza.

Éramos eu, Bete e Clara

E não faltava mais nada.

E a gente inventou a Gabriela,

Inventou a alegria no que já era felicidade.

Éramos eu, Bete, Cacá e Bibi

E gente inventou o Thales,

Inventou o amor no que já era… amor mesmo,

inventou o “h” do Thales.

É isso o que o Thales é,

Invenção de beleza.

É isso o que a gente é,

O “h” do Thales

Elienai, o phai do Thales.

  ABC e festa junina 003

27 de janeiro de 2005, algum tempo depois das 8:51 h. do dia 25/01, quando o Thales conheceu a luz. Madrugada, entre um choro e outro, Maternidade do Hospital São Luiz, São Paulo.