You are currently browsing the tag archive for the ‘jardim’ tag.

A gente se descobriu em um jardim,

ele passeava como quem ora e orava como quem passeia. Entre oliveiras e figueiras,

vi nele o semblante de quem reza mais com os olhos que com os lábios,

seus passos eram de um jardineiro reverenciando a vida.

Parecia procurar o coração entre as folhagens e a própria fé, como um fruto selvagem escondido em arbustos.

Seu olhar flutuava imaginando um mundo ainda por florescer.

Assim como eu, aqui, debaixo dessa figueira.

Aqui, fujo dos olhares que, se não me ignoram, me condenam;

aqui, estou mais perto de mim; a fuga cessa e a culpa silencia.

Aqui, a vida insurge contra a morte.

Os olhos daquele homem encontraram os meus, tive medo e desviei o olhar, eles me viram como ninguém jamais me olhou. Medo do encontro? Do reconhecimento? Da verdade? Do mistério? Do amor?

Dias depois, o convite deslumbrado de um companheiro de buscas, Felipe, fez tudo ter sentido, o jardineiro misterioso era um novo mestre a procura de discípulos. Fui levado até ele, queria muito ir e queria muito fugir; seu olhar misterioso ainda queimava nos meus olhos.

Ao chegarmos, ele não precisou de muitas palavras: “Natanael, eu te vi debaixo da figueira”.

Só eu sabia o que ele quis dizer, mesmo sem falar; disse como nossos silêncios conversaram no jardim.

Disse que precisamos cuidar de nossos desejos como um jardineiro cuida dos seus amores.

Disse como o jardim nos fez irmãos.

Disse o que apenas os seus olhos me falaram: eu acredito em você!

Ousei imaginar: se Deus aparecesse nesse momento, ele deveria ser aquele homem, Jesus, meu companheiro de Jardim! Estar perto dele era divino. Por isso, prostrei-me e declarei para o susto de todos: esse homem é o “Filho de Deus, o Rei de Israel!”

Seguindo após ele, vendo-o curar doentes, comer e beber com gente que a religião desprezou, escutando-o contar histórias para iluminar um novo Reino, ouvi os tantos nomes que lhe deram: De Mestre a filho de Belzebu; de Filho do Homem a blasfemador; de Filho de Davi a comilão e beberrão; de Messias a embusteiro; de Filho de José e Maria a Filho do Deus Vivo. Eu o chamava secretamente de Jardineiro.

Vê-lo como um jardineiro ajudou a resolver o impasse da minha fé:

De Deus sempre pensei no assustador Senhor dos Exércitos, ou no Terrível Soberano que a todos julga. Sempre que falei no Temível Senhor dos Céus e da Terra, tive medo, ou senti-me devedor, incapaz e sujo.

Quando ia ao templo, voltava de cabeça baixa, desprezando a mim mesmo. Esse Deus estranhamente parecia meu pior inimigo.

Mas estar perto de Jesus não proibia minha humanidade e ela não era má; era promissora e bonita. Ouvi-lo enchia meu peito de dignidade, fazia-me olhar a vida de cabeça erguida, cheio de coragem. Cada vez que ele me olhava, seus olhos diziam: eu amo você. E isso era tão próximo, tão humano, tão libertador e, contraditoriamente, era o que de mais divino me acontecia.

Comer, beber, rir, abraçar, chorar, dar as mãos, lamentar as perdas, sobreviver às traições, tropeçar, recomeçar, acolher os diferentes, amar em vez de odiar, perdoar em vez de se ressentir, era voltar e cultivar o jardim para o qual Adão e Eva deram as costas.

Andamos juntos e em outros jardins o vi cuidar da vida como o próprio Deus plantou o jardim no começo de tudo.

Digo baixo, porque parece uma blasfêmia. Jesus é Deus entre nós. O mais humano. O mais divino.

No Jardim do Getsêmani, as oliveiras testemunharam o divino amor de um homem que se deu por todas e todos. Vi Jesus chorar e sofrer e só não desistir por muito amar suas irmãs e irmãos; cercado por traidores, poderosos cheios de ganância e soldados furiosos, ele recusou tomar a espada nas mãos e escolheu semear a si mesmo nos nossos corações, como um jardineiro da vida lança sementes de gentileza e bondade no mundo.

Prenderam meu jardineiro. Torturaram o próprio Deus. Assassinaram mais uma vítima da injustiça no mundo. Mas eles não sabiam o que eu sei. A vida de Jesus foi a semente de uma nova humanidade. Um jardim para reviver.

João estava do meu lado, quando o prenderam, e apertava a minha mão para me consolar. Perguntei a ele por quê. Aquele que recostava a cabeça no colo de Jesus sussurrou nos meus ouvidos: “porque Deus o mundo amou tanto, que mandou o seu único filho para que todo o que crê não morra, mas tenha a vida eterna.”

Quem me segue que também eu não o siga?

Blog Stats

  • 227.537 hits