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Aproximar-se de alguém a quem se reputa grandeza e exceção é como poder tocar o inatingível. E para isso fazem-se perversas as pessoas, desprezam o humano porque para outra coisa não é bom que sirva, além de ídolo, de simulacro da vida que ninguém tem. Mas eu só queria tocar quem me devolvesse aos abraços e amores.

Quem me tocou? Intima.

Ele marchava com a urgência dos poderosos, o homem que manda na sinagoga tem uma filha que, de tão doente, e dizem que já morreu, faz do forte fraco demais para que alguém com o mínimo juízo não corra em socorro.

Ela, à beira da morte, tem de vida o que eu tenho de morte, à beira da vida. Doze anos, muito curtos para ela, intermináveis para mim.

São doze anos exilada do amor. Impedida do toque, confesso, aprendi a tocar sem ser percebida. Pelo mísero prazer de sentir de qualquer um, um trisco que seja de importância. Fico por horas saboreando o formigamento nas pontas dos dedos, ou na superfície dos braços, ou das pernas; a memória fugidia de que existo; fluida sensação sobre a pele, que me remete às mãos que já me tocaram como se jamais fossem me largar, ao prazer que já me fez arder em brasa, aos abraços e beijos que, de tanta querença, pareciam sugar-me a alma. E agora, resvalo anônima mendigando afeto.

Ser mulher é estar sob o ciclo da maldição, a cada época em que meu corpo avisa que não serviu para parir, também indica que não valho para existir. Impureza inclemente, danação insuperável. A menina de Jairo já deve saber o gosto amargo de ser, vez ou outra, estranhada por todos. Seu corpinho é tenro, mas a regra da religião é maldição antiga que lhe pesará implacável.

No entanto, minha maldição se sobrepôs à dela, sangro sem parar, esvaio-me de dignidade e sem fim. Hemorragia de esperança, sangria de futuro. Talvez, ela, que aos doze descobre a morte precoce, tenha a sorte de morrer abreviada; eu, que a descubro tardia, tenho a sina de viver adiada. Invejo os moribundos e sua angústia pela vida que se vai, porque eu que nunca morro, diviso a vida que nunca vem.

Vez ou outra, perseguem-me os pensamentos feito demônios indômitos. Fico achando estranho que o sangue do sexo, este que junta os corpos em uma só carne de amor e gozo, seja assim impuro. E a pureza sacramentada no templo seja apartamento de afetos, deportação de mulheres. Justo elas que emprestam seus corpos ao prazer pródigo dos que mandam na benção. Também estranho que a sanha por pureza seja assim tão mórbida, estéril e frígida. E se purificar é matar em vida, penso despudorada, talvez viver seja a experiência dos impuros que aos puros desprezam.

Quem me tocou? Pergunta aquele que pode ser meu próximo algoz. Certamente. Assim me expurgaram e maldisseram os últimos com os quais fracassei em meu desgraçado ofício de discrição. Fiz com ele o que com tantos tentei, roubar a virtude de um toque e nela, mesmo que tão breve, a sensação pobre de existir. Sendo ele o Cristo que todos suspeitam, apenas toquei-lhe os babados que a um bom religioso credenciam. Ousei sentir na pele sua fé, já que tão diferente, bem poderia ser ela o fim do meu sofrimento.

Sua insistência em querer me descobrir assusta. Mas o que é isso? Ele diz que dele saiu virtude, mas eu sinto que o que de mim saía estancou. Já conferi meu sexo. O sangue parece ter parado. Agora o que não para é o tremor do meu corpo. De tanto pavor, temo até ter conseguido o que me trouxe aqui.

Responde indignado aos que tentam convencê-lo que todos lhe tocam. Diz-lhes que dele saiu poder. E isso me acalma um pouco. Afinal, sempre que meu toque por alguém foi percebido, ganhou fôlego seu poder de me execrar. Tocar alguém sempre evidenciou sua força e confirmou minha fraqueza. Agora que me sinto mais forte, ele diz que perdeu poder. Quem sabe isto seja amor. Enfraquecer-se até sentir-se tocado. Talvez porque o poder que nunca se perde, anestesie a pele, e o amor que a pele inflama, doa mais, sofra mais, sinta mais. A salvação seria fazê-lo por mim sentir-se tocado?

As mãos fremem cada vez que seus olhos me procuram. Aprendi a temer o olhar dos que me descobrem. Nada me humilha mais que me ver nos olhos dos que me cercam, tão menos do que acho que valho. Levanto minha mão para confessar o blasfemo toque. Tremo tanto que todos já devem ter percebido minha culpa. Ele está pedindo para que eu me aproxime? Já disse que estou apavorada. Mulher, a tua fé é a tua salvação. E ele diz com olhos que me admiram. E neste instante, avisa a todos que me vejam diferente, e se viam com condenação meu destino cruel, agora veem com surpresa minha inusitada fé. Resta-me acolher silente suas palavras, ele chama de fé aquilo que há pouco me enchia de culpa. O que todos chamariam de transgressão, ele dá outro nome. Fé. Pasmo com a surpreendente graça, já consigo pensar na sangria que estancou. Sinto-me devolvida ao mundo dos que são vistos e tocados e amados.

Agora ele seguirá com Jairo. Tomara que consiga ajudar à menina. Esqueci de lhe dizer meu nome. Mas se minha transgressão para ele foi fé, meu atrevimento em entrar na história que não tinha meu nome bem que poderia se chamar pureza.

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