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Sinto saudade de ter saudade.

Não sei ao certo quando meu corpo desistiu de me manter de pé. Mas sei que fui deixando de lado lentamente a capacidade de acreditar no trabalho, no dia, nas pessoas, nos amores, nos caminhos a seguir.

Foi devagar que a dor dos pensamentos migrou para os ossos, para os joelhos, tornozelos, cotovelos, para tudo que faz mexer uma vida. Fui parando porque tudo doía.

Escutar o barulho das crianças doía. Assistir às leituras da Lei e dos Profetas doía. O sabor da comida, o vento na pele, a pergunta dos curiosos, o conselho dos sábios, as receitas dos médicos, as broncas dos amigos, as pálidas soluções de sempre doíam.

O tom de voz piedoso doía. Os olhares, cenhos franzidos, gestos, lamentos; a misericórdia doía. A oração, a sinagoga, o fariseu, o mestre, a fé doía.

A dor empedrou meus desejos.

Deitei porque nunca mais dormi em paz.

Parei.

Nasci em Cafarnaum. Meus pais não. Chegaram aqui trazendo esperanças. O grande lago prometia ser um mar de prosperidade. O Galileia tinha cheiro de vida nova, de peixe, de saciedade. Foi a sua margem que erguemos as primeiras casas, pavimentamos as primeiras ruas. A sinagoga não demorou muito para ser construída. Era lá que garantíamos nossa salvação, a lei conhecida deveria encharcar as mentes dos meninos e pastorear gostos, decisões, os hábitos dos adultos. Lá recebi a fé que emoldurou meu mundo, que Deus dá a cada um o que merece.

Os primeiros anos contaram com o apoio dos romanos, ganhamos um Centurião, homem sério, mas generoso. O pão não faltava, o vinho era trazido de longe, material para fabricar os barcos e as redes era uma cortesia do Império. Ocupar a terra interessava aos poderosos.

Não demorou para chegarem mais estrangeiros, negociantes, mestres de novas disciplinas, gente de fé. Com eles vieram a alfândega e os coletores de impostos. Falava-se de muito dinheiro. E os que chegaram ricos, mais ricos ficaram. E os que trouxeram sua pobreza, foram desistindo da prosperidade que nunca acontecia. Vi meus pais murcharem aos poucos, feito tâmaras maduras. Cansaram aos 30, morreram não muito depois.

Acho que ganhei do meu pai o jeito luminoso de acreditar em coisas boas. Mas sinto em mim também a sombra que angustiava a alma da minha mãe. Eu oscilava entre o deslumbre de construir uma vida boa e a desconfiança lúgubre de que não era digno. Acostumei-me aos picos de entusiasmo seguidos por vales de desânimo, cada vez mais profundos e demorados.

Tornei-me um pescador, de dia, ofício do meu pai. E um sombrio notívago a desfiar melancolias noite a dentro, ofício secreto da minha mãe.

Entrava no lago com o barco cheio de fé, desembarcava repleto de peixe, mas chegava em casa com um punhado de dinheiro, que mal dava para o trigo e o leite. Cansado desde o começo, sempre duvidei do meu valor. Mas nada tentava deixar parecer à mulher com quem casei e às duas meninas sorridentes e carinhosas, filhas do meu amor. Depois que elas dormiam, chorava lágrimas ardidas. Sentia-me um fraco. Repetia a tragédia dos meus pais. Parece não haver lugar para gente como nós.

Cafarnaum era acelerada. Inclemente. Lugar para o sucesso inesperado e o fracasso imediato. Não havia tempo para a brisa fresca que vinha no fim do dia. Nada de conversas descontraídas, rodas de música, anedotas, risos. Todos tinham mais trabalho que tempo. Parar era pecado.

A sinagoga demarcava o espaço dos que triunfavam e o dos que fracassavam. O que pode tornar razoável a má sorte? Como explicar o fracasso? Era lá que as questões da vida infeliz ganhavam respostas que emudeciam vozes aflitas.

A impureza.

O demérito.

A transgressão.

Na casa da Lei chegava inquieto e partia culpado.

Não há benção para os que fraquejam na Torá, pecadores sob a ira de Deus. A pobreza em uma terra de ricos vira fácil nome de maldição, sinal de danação, fracasso na fé. Foi quando leram a história de Acã que aceitei minha desgraça. Nele se escondeu o pecado que a todos amaldiçoou. E calava um pouco. E morria um tanto.

Os muitos pecados que cometi desfilam na minha memória o tempo todo; tanto, que pecado é o que pareço ser. E na companhia das transgressões, choro amargo a culpa de não ser bom o bastante.

O êxito dos outros me acusa. Os olhares dos que assistem a minha pobreza confirmam a condição. Na Sinagoga, restam-me os últimos lugares. Tenho vergonha das meninas e de Marta, a quem já amei com uma força que há muito foi embora.

As noites tristes invadiram os dias. A culpa de existir sem êxito sequestrou qualquer energia. E o que era o cansaço ao fim do dia, de pescar, de não conseguir tanto peixe quanto se precisava; o cansaço de fazer mais do que podia e menos do que precisava virou um cansaço de viver. E de tanto parar enfraquecido sem poder carregar minha dor, foi a cama que me arrastou para o tombo do qual nunca mais me levantei.

Os médicos se revezaram tentando expulsar meus demônios. Os amigos se esforçaram nas explicações. Leram Jó. Recitaram os salmos. Eu só lembrava de Acã.

Foi quando falaram da febre da sogra do Pedro, pescador com quem sangrei o mar em busca de peixe. Contaram do escravo do Centurião. Ambos curados pelo ilustre galileu. Disseram que estava na cidade, em casa, e que todos correram para lá. Queriam me levar também. E o que fiz? Nada. Nem pensei nem me opus nem sorri nem murmurei. Permaneci jogado na cama que me restou.

Carregaram-me como a um defunto, de tão amortecido. Mas do cemitério para as ruas. Do fim para o começo. Foi o cortejo do desenterro. A bondade dos amigos queria virar do avesso minha tragédia. Chegando à casa, não havia janela pela qual olhar, menos ainda porta por onde entrar, tudo estava cheio com todos. O filho ilustre da Galileia é uma centelha de esperança na palha seca de miséria do povo. Gente demais. Você está com pena de mim? Sabe o que passou pela minha cabeça? Nada. Não havia mais tristeza possível.

Mas a generosidade dos amigos abre passagens surpreendentes. Ergueram-me até o teto. Destelharam a casa e impuseram-me a Jesus, descendo-me diante do mestre que nada mais dizia, boquiaberto. Olhei para ele e sabe o que eu vi em seus olhos? Nada. Ouvi o murmúrio inquieto de todos.

O cheiro azedo de tantas bocas respirando o mesmo e ansioso ar se multiplicou. Dava para escutar nas discussões e sentenças, a palavra que se repetia monótona e paralisante: pecador. Acho que ele também ouviu e ali entendeu o que me paralisava. Sabe o que disse o médico da sogra de Pedro? Nada. Muitos falavam, ele se calava. O silêncio dele usinava novidades; o meu silêncio seguia desistindo de tudo.

Alguns poucos minutos se passaram, mas parecem uma vida. E eu permaneço aqui, alheio, esvaziado, inerte. Um estorvo no meio da sala. O silêncio se mantém além do suportável. Inquietante. Mesmo eu, vazio e paralisado, fico incomodado. Não digo, mas tenho vontade. Fale qualquer coisa, penso. Ele me olha diferente agora. Parece ter algo a dizer. Todos percebem e silenciam.

Você está perdoado dos seus pecados.

Meus olhos lacrimejam e meus pés formigam. Senti na pele a palavra dita. Ainda não dei conta do que falou, mas sinto que meu corpo ouviu tudo o que precisava para acordar. Uma onda de calor percorre minhas pernas e braços. Suas palavras parecem mãos que me tocam.

Não me conformo com o labirinto de crenças em que todos entraram. Alguém lembra que só Deus perdoa pecados. Acusam-no de blasfemo e tenho medo. Porque sinto vontade de me levantar. Mas é melhor esperar um pouco.

Talvez apenas uma blasfêmia fosse capaz de contrariar a culpa que me paralisou. Parece que seu remédio é tirar de mim a fé que me exauriu. Será que só um blasfemo pode resistir ao poder culposo que controla e paralisa gente como eu?

Passa pela minha cabeça que parei de andar porque não há mais para onde ir, se Deus é do jeito que me disseram, aquele que me explica culpando. Só um blasfemo para apontar outra andança.

Estranho os que o condenam por me perdoar. Não se incomodavam com um homem paralítico e carregado de culpa. Mas têm escrúpulos com um homem sem culpa que pode carregar o próprio destino.

Olho para Jesus e sabe o que vejo? Nada. Nada do que esperava. Ele ri. Não vou dizer, mas penso ver o próprio Deus e ele gargalha. Como uma criança que ri de felicidade porque pregou uma peça nas demais. Muitos reclamam e eu continuo deitado, receio me levantar e causar ainda mais problemas.

Levanta, pega a sua cama e anda. Não seria o mesmo que dizer ‘você não tem culpa’? Ele diz essas coisas com a boca torta de quem acha graça.

Ai, ai. Chega. É o que vou fazer, é pelo que clama meu devolvido corpo, antes que a confusão me impeça. Estou com vontade de rir também. Olha a cara dos meus amigos. Mal conseguem esconder o riso.

A casa está dividida.

Há os que riem e os que preferem chamar a salvação de blasfêmia.

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