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imageSó existe palavra porque há amor,

abertura nervosa para o mundo.

Se falamos é porque o outro nos afeta,

a vida nos fere,

o mundo nos reivindica.
A palavra é incontornável.
Viver é dizer.

Falamos tanto que o silêncio palavreia,

os gestos dizem,

os olhares brigam,

o toque sussurra poesia na pele.

Se sonhamos,

é porque antes de soltar-se na vida,

a palavra é imaginação.
Antes de nos tirar o fôlego e dizer que Deus é amor, João nos surpreende,

afirma que desde sempre Deus é palavra,

logos,

revelação,

manifestação,

testemunho,

sua glória é dizer-se entre nós.
Foi assim. Cleopas e seu amigo tiveram sonhos nunca sonhados. Largaram a aldeia, onde os dias se repetiam tão monótonos que hoje parecia ontem e o amanhã era a mais estéril das expectativas. Ele chegou contando histórias e acendendo dúvidas. As mais libertadoras dúvidas. Então, o que sempre foi poderia não ser mais o que sempre seria.

Outras versões para o mundo são possíveis quando a palavra acorda. Acorda-nos.

Um rosto comum, uma origem boba, um nazareno. Até que começou a falar. Despertou desejos outrora adormecidos. Suscitou imaginações. Anoiteceu medos. Amanheceu gostos. Os acanhados gargalharam. Os esquecidos apareceram. Os tímidos se aventuraram. Perfumes perderam frascos. Tocadas e amadas, as mulheres o batizaram com lágrimas.

Deus.

Palavra.

Amor.

O céu à flor da pele.

A palavra é o milagre. Cegos viram? Paralíticos andaram? Leprosos foram purificados? Mortos revividos? Surdos ouviram? Pobres tiveram pão? Não, muito mais que isso. Cegos foram enxergados. Surdos foram ouvidos. Os leprosos descobriram que impuras são as mãos que não os tocavam. E mortos eram aqueles que abandonaram a imaginação. Mas o Reino… Vocês não vão acreditar! O Reino não é dos que mandam. É dos pobres.

Ele falava e me virava do avesso. Pôs de cabeça para baixo o que da vida eu sabia. O que era primeiro fez-se último. E eu, que me sentia o derradeiro, vi-me principiando mundos. Disse o amigo a Cleopas, enquanto lembravam o que os tirou de Emaús e os levou a Jerusalém.

Na estrada, voltavam para casa. Mas os afetos, na contramão, regressavam teimosos para a Jerusalém que não mais existia. Desde a grande humilhação. Desde seu último fôlego na maldita cruz romana. Lá onde a substantiva esperança definhou em um verbo conjugado no passado.

Um homem se aproximou e logo se viram seus desavisos. Estranhou a conversa aflita entre Cleopas e o amigo, pareceu ignorar o desacontecimentos do Calvário. Mostrou-se inconformado com os ditos. Descreu na sombria versão da cruz. Recusou o ponto final e retomou o assunto. E o que era um descaminho entre a nostalgia e a revolta tornou-se uma estrada para o ainda não compreendido. O companheiro inusitado pavimentou aquela trilha com as palavras do texto sagrado. Lutou com as crenças. Cavoucou as memórias. Pastoreou as palavras.

Cleopas não teve coragem de dizer, mas o estranho, de repente, lhe pareceu íntimo. Aqueceu seu coração enquanto discursava. Suas palavras eram como brasas nas entranhas. Por um instante, elas pareciam ressuscitar Jesus.

Anoitecia quando a despedida se impôs. À entrada da casa, o estranho encerrou o texto, mas insistiu nas entrelinhas. Insinuou partir feito um sedutor atiçando desejos, queria que o quisessem. E assim foi. Convidado, aceitou ligeiro anoitecer ali e seguir o caminho no dia seguinte.

O misterioso já era um de casa, ainda que anônimo. Ganhou a honra de agradecer e repartir o pão. De sua oração ninguém se lembra, mas a imagem do homem erguendo o pão e depois o repartindo atravessou almas e memórias como uma flecha. E o que era um estranho íntimo desvelou-se o próprio Jesus. A palavra de carne e sangue. Taquicardia. Mãos suadas. Os sonhos no arrepio da pele mais uma vez. A vida de novo. Jerusalém em Emaús.

A vista vertiginosa do Cristo foi embaçando nas lágrimas dos amigos. E antes que acabassem de esfregar os olhos para melhor verem, ele não estava mais. Mas nunca esteve tão ali. As palavras que borboleteiam na alma era o Cristo que neles agora vivia. A palavra se fez corpo em Jesus. E agora, seu corpo se fez palavra nos discípulos. Cristo nunca foi tão vivo quanto depois de morto.

O Deus que viveu entre nós pastoreou as palavras para salvar a vida, comentou Cléopas, enquanto arrumava as coisas para voltar aos outros discípulos e anunciar que um pastor das palavras nunca abandona suas ovelhas.

 


(Ao meu pai, meu amigo e homem admirável, em seus 50 anos de ministério deixou de ser apenas o pregador do Evangelho e se fez a própria mensagem entre nós.
Obrigado, meu pastor das palavras!)

Quem me segue que também eu não o siga?

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