Depois de mais um importante dia,destes que a testa franzida não endireita mais,
que os olhos ardem mas não se fecham,

que o sol se põe, 

mas as palavras insistem acesas,

e de que a vida dói nem se esquecem

nem se calam.
Depois de tanta queixa, tanto medo, tanta dúvida,

em que os doentes se vão,

os moços acenam,

os velhos dizem adeus,

as mulheres dão as costas,

toda gente séria se vai,

mas ficam suas sombras,

pesadas,

duras,

tristes.
Depois de toda demanda,

toda palavra,

todo gesto,

todavia

ele suspira só.

 Em casa, mas sem pátria;

no chão, mas fora do mundo.

Sentado numa pedra, voa,

voam os pensamentos.

E por um instante duvida,

ignora as razões,

esquece o sentido,

não sabe ao certo o que o trouxe até ali.
Ouve-se o grito estridente da garotada.

Pelo som aflito, correm.

Afoitas e soltas,

intensas, lépidas.

Com os olhos esbugalhados, engolem mundos;

não respiram, ofegam.

Aproximam-se entre descuidos e cansaços,

os lapsos da tarefa,

destes que nos livram 

das certezas e seus zelos,

do empenho pétreo do trabalho sem fim.
Feito uma coluna militar,

adulta, austera, briosa,

os discípulos protegem o Mestre

da distração,

do destrambelho,

da molecagem,

da inutilidade dos brincantes.

Garantem que a vida siga 

produtiva

e onerosa 

e séria

e só.
E como quem se sente roubado,

aflito e revoltoso,

Cristo repreende a ordem,

suspende o juízo,

desorganiza a salvação

e entra na ciranda.

Perde o fôlego e o equilíbrio,

roda e gargalha feliz.

Não deixa que não o deixem rir.

E antes que termine de dizer que “não impeçam as criancinhas”,

é com cócegas que a menininha o devolve ao Reino.
Entre toques e canções,

afagos e risos

e um menino no colo.

Olha em seus olhos

e se espelha encantado;

se vê criança,

aquela que dormia esquecida,

o filho de um novo dia, 

que se deu como um bebê se dá;

inteiro, de tão frágil,

intenso, de tão faminto,

pleno de tanto futuro,

ao colo de tantos dramas.
O menino tem o hálito de tâmaras maduras,

o cheiro de doces memórias,

 da voz de Maria contando histórias pra dormir.

A dos visionários pastores,

dos presentes dos magos,

do colo inquieto de Simeão, 

das danças de Isabel 

e do falante silêncio de Zacarias.

Histórias de quem partiu de grandes sinais,

mas chegou a um mínimo bebê.

E chegou aonde tudo começa.

Que sem luz irradiou graça.

Que sua fraqueza suscitou reverência.

Que sem nada dizer, liderou sonhos.

Nada fez, mas tudo significou.
E antes que a brincadeira acabasse,

a poucos instantes da meninada partir,

afirmou aos discípulos o que nunca disse,

feito um escândalo,

uma heresia,

uma reviravolta,

a lição que nunca poderia ter esquecido,

quem quisesse por os pés no Reino dos Céus

teria que seguir os passos da criança,

a que brinca e sorri,

que por nada troca os afetos,

incalculável,

imprevisível,

inoportuna,

extemporânea,

livremente inútil,

a criança que Deus é.

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