Gadamer, em seu Verdade e Método, deu-nos uma daquelas frases coringas da filosofia com a qual se pode dizer muitas e distintas coisas, sem, no entanto, contradizer nem esgotar sua idéia. “Tudo o que existe é linguagem”. As coisas existem em nosso mundo de sentidos à medida que as temos nas palavras. As coisas existem, mas são as palavras que as colocam na vida. Uma coisa é existir, outra é se relacionar.

Uma criança, ávida por viver, põe-se no mundo enquanto descobre os signos da vida. Logo descobre que falar é mais intenso que apontar com o dedo. Palavras indicam movimentos no mundo. Dedos, apenas as coisas do mundo.

As palavras movimentam. Nas palavras, o Gênesis do mundo e da vida.

Deus cria tudo dizendo, menos o homem e a mulher. Para as coisas, Deus disse “haja”, para a humanidade, desdisse as coisas: proibiu o fruto. Um incontornável convite a fazer com uma coisa algo mais. Um movimento, uma idéia, um significado. Palavra é a transgressão da coisa e Deus transgrediu o fruto quando fez dele outra coisa além de fruto. Fruto proibido é bem mais que fruto. É uma discussão.

Um homem só deixa de ser um boneco de barro vivente quando também transgride, quando as coisas a sua volta tornam-se outras coisas. Interpretação.

A humanidade só começa a existir quando, à imagem de Deus, se inicia no jogo da linguagem. Dialética. Quando aceita o convite imagético da serpente para levar a sério o exemplo divino de fazer outras coisas com as coisas. Comer o fruto não era apenas comer o fruto. Era transgredir, à semelhança de Deus, o fruto. Era, finalmente, ser à imagem de Deus. Ser que transgride as coisas criando mundos pela palavra.

Não mais apenas Deus diz e movimenta o mundo, também o fazem homem e mulher. “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal.” Agora está criada a humanidade. Deus desdisse o vazio e colocou em movimento o mundo, criação. A humanidade desdisse a mesmice e colocou em movimento a consciência, história.

Com a palavra nada mais é uma coisa, tudo pode ser sempre outra. E por isso sofremos, porque com a palavra tudo é instável. O imprevisível cria e se diverte: tudo havia ficado muito bom, mas o incerto também aflige e dói. E para deixar clara a opção criativa de Deus pelo movimento, a humanidade é expulsa da pior de todas as tentações: por medo do aleatório movimento da vida, da dor de parir, do suor de trabalhar, da incerteza dos frutos que nunca mais serão apenas frutos, o homem e a mulher tentem coisificar as palavras no Reino previsível das eternas certezas. Regressão.

Expulsão é exposição à dinâmica da vida.

Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o SENHOR Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.

Eis o que é a certeza, a vaga lembrança de uma tentação.

Lá em casa, a gente comemora aniversários e dias especiais acordando o homenageado com música e café da manhã. Damos os presentes e tomamos o café aninhados na cama ainda quente e amarrotada da noite de sono. Amor pra mim tem cheiro de café, a cara inchada de quem acordou cedo para amar e o barulho feliz das crianças curiosas com os presentes a serem abertos. Foi assim na comemoração dos meus 45. Entre desenhos e presentes da Gabriela, Clara e Bete, o Thales toca o violão e canta a música que fez para mim, do jeito dele, singularmente maravilhoso. No primeiro verso, a genialidade que parece ingenuamente ignorar: “Pai, você é bem mais que Elienai, você é meu companheiro”.

Sequer ouso explicar seu poema de amor e nem preciso dizer da emoção. Mas é encantador que a poesia lhe dê a chance de abrir uma janela de possibilidades, um acontecimento estético. Ninguém ouve que é mais que o seu nome costuma significar e permanece distraído ou o mesmo. O menino nem imagina o quanto fragilizou o homem a quem ama.

Seu carinho poético me fez cafuné nas ideias o dia todo, dormi atravessado por tudo o que ser mais que Elienai pode representar. Para ele, talvez, mais que as atividades da minha profissão, as responsabilidades de ser pai ou os compromissos vários e repetitivos a que assiste diariamente, sou seu “companheiro”, alguém que gosta de estar ao seu lado, escuta seus medos e compartilha seus interesses. E isso sozinho já é muito.

Mas quem faz poesia nunca alcança todo o repertório de sentimentos, imagens e possibilidades que principia, filho querido. O poeta é o meio do caminho, o entroncamento incalculável de vias, um ser atravessado por mundos, os vividos e os por viver. E assim, amarga nunca ser o ponto original de suas próprias palavras, apenas alguém, à beira do rio, que se curvou com sensibilidade e desprendimento para juntar um pouco da fugidia água, que desliza multiforme rio a baixo. E em seguida, consciente do dilúvio em suas mãos, deixa-a escoar pulverizada pela brisa e prismando os raios de sol. Ignora o poeta as fronteiras do evento que lhe atravessou com palavras e sons. Toca o intangível e deixa ir e tocando mundos e almas.

Seu poema permanecerá difuso conversando e multiplicando acontecimentos. Em mim, libertou-me, por um instante que seja, de ser eu mesmo, o Elienai. Meu nome não é quem sou, mas a fresta do caleidoscópio; por ela assisto à dança de formas, linhas, cores, conjuntos e desordens que me desenham.
Uma pessoa é o imponderável, uma multiplicidade de ideias, ruidosa polifonia, mosaico aleatório de gostos e amores. Qualquer nome é um aleph, a letra pela qual se vê mundos incalculáveis. O entrecruzamento de afetos, amigos, rivais, companheiros desavisados, parceiros oportunistas, anônimos imprescindíveis, o filho rebelde, a esposa infeliz, a filha acolhedora, o pai narcisista, a vó tolerante, a mãe exigente, o patrão sádico, a professora sensível, o sacerdote culposo. Somos cifras e enigmas. Poema.

Sartre avisou-nos que somos condenados à liberdade, expostos que estamos às contingências e às incontornáveis escolhas; talvez pela mesma razão afirmo que somos condenados ao amor. Suscetíveis a todos que passaram e passarão por nossas vidas, nada em nós é puro ou original; nada nos pertence por natureza ou essência, somos sucessivos encontros, históricos e casuais, provisórios e promissores. Bem mais que podemos nomear. Mais que Elienai, Thales, Gabriela, José, Maria, Jesus, Deus.

Nos meus 45, meu filho desvelou minha promissora liberdade, minha escandalosa amorosidade. Restam-me a modéstia de sugerir belezas e sabedorias ao mesmo mundo com quem já lutei por mesquinharias; a leveza de não precisar ser tudo o que tantos idealizam do macho brasileiro religioso; a pretensiosa imaginação de quantos futuros forem necessários para não desistir de viver; a arriscada e por isso mesmo agridoce aventura de me cercar de amigas e amigos; a liberdade de não estar obrigado a deixar uma marca original na vida e a memória sonora do verso infante e gentil que me avisa que sou “mais que Elienai”.

As vozes ressentidas não lembravam a imponência e sublimidade de outras reuniões do Conselho. A certeza de sempre não combinava com o tom tíbio dos sacerdotes e escribas que agora se revezavam no empenho de salvar os preceitos da fé. Impossível manter em pé uma crença quando se esparrama no chão duro de uma tragédia.

As Legiões Romanas impingiam dor e vergonha ao povo. Cada dia se contavam menos homens, dizimados em combates desiguais. E mais mulheres, desfilando vergonha e dor pelas ruas, tantas delas estupradas por soldados invasores, em sinal de posse e dominação.

A tradição não abria mão de que apenas crianças nascidas de um pai judeu podiam ser consideradas legítimas herdeiras de Abraão. O que já fora um preceito cheio de viço e orgulho tornou-se uma vexaminosa marca sobre meninas e meninos, nascidos da violência. A lei que se arrogava divina e afirmadora de uma nação, agora repetia a violência e confirmava bastardos.

Deus, assim, tornou-se um diabo. E a vida piedosa, um inferno.

Já eram uma multidão os sombrios despertencidos.

Um jovem sacerdote, amigo próximo de Elazar, rabino que ensinava no deserto, rompeu a vergonha e gaguejou o que todos precisavam que fosse proposto, mas sem a coragem de dizer sequer as primeiras palavras da outrora infâmia. Não se deveria mais impor a esmagadora carga de considerar bastardos os filhos de mães judias sem pais judeus, com o risco de sequestrar o futuro dos filhos de Abraão. Alguém confirmou com a voz embargada, não bastasse serem estupradas as nossas mulheres, nossos filhos são abandonados por aqueles que lhes deveriam acolher.

As vozes engasgadas não disfarçavam a palidez do rosto e o olhar disperso. Ninguém nunca soube ao certo quem pronunciou a frágil sentença, que uma vez dita, contou com o silencioso assento de todos, também do Sumo Sacerdote. Se a mãe judia se ressente de um pai judeu para o filho que cresce em seu ventre, Deus, o misericordioso, é o pai que ao filho falta.[1]

E a fraqueza da regra pode ter sido a fresta para a vida ressurgir.

A notícia da reunião foi ouvida como uma boa nova, um alívio, uma esperança. Um sopro de inesperada dignidade correu vielas e arejou almas angustiadas.

Maria nunca se livrou do pesadelo. O cheiro azedo do homem que invadiu seu corpo e violou sua alma ainda era uma lembrança que lhe assaltava inclemente. Mais ainda agora, que um fruto amargo era gestado em seu ventre. Chegou a pensar que nem fosse verdade. De tanto que queria que tudo fosse diferente. Desde então evitou o noivo, José. Sua bondosa companhia e a insistência em fazer planos para o futuro eram uma tortura para quem já se sentia assim indigna.

Maria, tão calada, preocupava a todos. Era vista pelos cantos. Estaria infeliz pelo casamento? Não, sonhava acordada para acalmar os pensamentos Divagava na doce fantasia de que o bebê não era filho do asqueroso inimigo. Não, no seu sonho, tudo era outramente belo. Porque bebês eram feitos divinos e o seu chegara ao ventre soprado por Deus, consolava-se. Chegou a ver um anjo, como aquele que visitou Ló e o levou embora do caos. No seu desejo encantado, quase dormindo, mas o bastante acordada para guiar a imaginação, o ser luminoso lhe dizia que não estranhasse a gravidez. Deus era o pai da criança. E dormia para não acordar amarguras.

A notícia entrou pela porta e despertou Maria, que cochilava suas tristezas. Sua prima, Isabel, aos berros, ora segurava sua barriga, que ainda disfarçava o feto, ora agarrava seu rosto e, atrapalhada, misturava as falas com gritos quase insanos. Salvas. O Salvador. Ele é o Filho de Deus! Jeová é pai. E antes que Maria deixasse claro que nada entendia, Isabel contou as novidades do Sinédrio. Maria se agarrou à Isabel e chorou. Até dormir novamente.

Ao acordar, as lembranças do dia anterior estavam incertas. Havia o rosto excitado de Isabel, a história da nova doutrina e a doce e inconfessa fantasia de um filho digno em vez do bastardo.

Não precisou de um delírio para imaginar que sua tragédia bem podia ser o sinal de um grande evento. Uma salvação. E quando pensou assim, sentou-se na cama e o olhar se perdeu pelo quarto que já estava iluminado pela manhã. O coração bateu forte e descompassado. É isso. Tanta tristeza podia ser como a dor de parto que em breve sentiria, a gestação de um santo, o nascimento de um homem distinto. Um profeta, talvez. Um guerreiro. Quem sabe?

Afinal, se a salvação de Deus tem que virar do avesso o mundo e sua injustiça, nenhum começo seria mais apropriado que o mais maldito e sofrido dos mortais.

É do ponto cego, dos esquecidos, das desgraçadas invisibilidades, que o mundo se desvela em suas verdades. Ali, de onde ninguém é visto, que tudo se evidencia.

Passou pela cabeça o gileadita Jefté, filho de uma prostituta, que depois de expulso e envergonhado, foi trazido para liderar sua gente à vitória sobre os opressores. Lembrou do Profeta Isaías e o prometido que nasceria inglório. Com meio sorriso, até sussurrou as Escrituras, “uma muda mirrada, uma planta ressecada.” Impossível não associar. Desprezado por todos, sem beleza. E o que era profunda angústia explodiu feito revelação. Cheio de dores, seria a cura para o mais terrível sofrimento; banhado de vergonha, o fim da culpa; açoitado por doenças, o remédio para as enfermidades. Chorou de novo, mas desta vez, era a esperança que molhava seu rosto. Como as águas correntes do rio dissolvem as manchas das roupas.

Alguém lhe avisou que seu noivo a aguardava na entrada da casa. Estranhou a hora do dia para a visita. Teve medo e por um momento desistiu de tudo o que vinha pensando. Suspirou triste e lacrimejou. A sombra da tragédia acenava mais uma vez para a sua realidade. Arrastou os passos até a porta e encontrou José, que a olhava como quem já tivesse sido avisado da desgraça e de mais alguma coisa.

O silêncio que se seguiu pareceu um recuo do tempo, um intervalo nas horas. O mundo parou. Estava um diante do outro e tudo o mais inexistia. Nenhum dos dois conseguia dizer nada. Os olhares se curvaram, para se erguerem em seguida e se reencontrarem reticentes.

Os olhos conversam para salvar-nos do cansaço das palavras.

Tanto a dizer e o silêncio engoliu as frases ensaiadas do homem e desdenhou o pedido inaudito de clemência da moça. José emitiu alguns sons, tentativas indecifráveis de iniciar qualquer palavra e, despedindo-se dos discursos, se aproximou de Maria, bem quando ela tentava inútil desengasgar. E a abraçou com tanta força que entre os corpos não restou lugar para qualquer conversa.

[1] BONDER, Nilton. A alma immoral. Editora Rocco. São Paulo, 2007. O Rabino Bonder, entre tantas histórias que conta para ilustrar como a alma transgride, ou trai a tradição para salvar a vida, sugere que Jesus bem poderia ter sido fruto do estupro de Maria por um soldado romano, prática comum à época. Conta da tradição revista pelas autoridades para determinar a ascendência judaica, em que apenas filhos de pais judeus poderiam ser condiserados judeus. Passou-se a considerar bastante que a criança tivesse a mãe judia para que fosse considerada judia. Bonder completa dizendo que se a criança não tinha um pai judeu, Deus seria seu pai.

Tomei aqui a idéia do Rabino para construir uma ficção, mas que seria uma linda verdade, se verdade fosse.

Uma reunião de seguidores nunca é incólume nem vítima, ainda que digna de compaixão.

Uma vez que se preste a legitimar um líder, impõe-se sobre ele. As múltiplas e difusas expectativas obrigam o herói à invisibilidade, a estranha solidão de cercar-se de tantos ao custo de quase não existir; ele que tem que ser tudo, acaba sendo um nada.

A multidão de tantos não se reúne sem a solidão de alguns.

Dias sem nem comer direito, ocupados com as seguidas tarefas, o Mestre e os discípulos viajam para longe de todos e seus problemas e suas demandas e suas expectativas sem fim. Procuram a distância e o descanso. Mas do lado de lá do grande lago, a imagem ainda imprecisa já tumultua o barco e amarga a viagem. Mais uma multidão. De gente sem graça, sem destino, sem pastor, sussurra Jesus com os olhos marejados de afeto. Mas um dia saberá que é também uma multidão sem alma.

Jesus desembarca entusiasmado, cheio de vontade de ajudar e cuidar de todos. Os discípulos? Anestesiados de tão exaustos.

Ele não se dá desprotegido à turba, nem se oferta ingênuo aos famigerados. Não responde às questões, suscita outras dúvidas; não acalma angústias, desperta sensibilidades; não indica caminhos, suscita revoltas; cada história que conta é uma atordoante distração. Jesus dispersa convicções para suscitar novos cenários.

A multidão quer se alimentar de quem espera que ele signifique, mas sua saciedade não é o que quer o Nazareno. Jesus a quer faminta. Bem-aventurada a fome que a todos libertará.

Um menino brinca entre os cenhos franzidos. Flutua desconexo de todos os interesses e medos. Além dos comentários de incerteza diante de tudo o que o novo profeta dizia, ouve os primeiros murmúrios sobre a tarde que chegara ligeira e o problema novo da comida que todos precisariam, mas ninguém parecia ter. Longe de tudo. Gente demais. Nenhuma organização. Todos tensos, menos a criança. Ela se distrai com as pedrinhas, cantarola histórias. Vez ou outra, ergue a cabeça e percebe a agitação dos adultos.

O menino desliza lépido pelos corredores de gente. Um labirinto de angústias para os famintos, um jogo curioso para a criança. Sua leveza o deixa um pouco de fora, alheio e estranhamente feliz.

Enquanto toca as pessoas aflitas e trata suas dores, Jesus conta histórias e encadeia perguntas intermináveis; para os austeros homens da lei, um labirinto escandaloso; para o Nazareno, pensam alguns, parece um jogo.

Todos se afligem e ele parece se divertir e brincar com comparações e poemas, lamenta um dos discípulos mais próximos. Razão para acordá-lo do sonho e fazê-lo enxergar a enrascada em que a todos colocou. Hora de mandar embora a multidão para que encontre o que comer pelo caminho. Fome não é brincadeira.

De onde virá a comida? Inquire o porta voz dos incomodados discípulos.

A pergunta ressoa entre todos. A incerteza enfraquece a obstinação que a todos reuniu ruidosos. E o que antes juntou como que encantados, agora os fragmenta silentes e desprotegidos. Gente demais, solução alguma.

A solução está entre vocês. É tudo o que Jesus diz, antes de voltar à parábola que deixara inconclusa. A ordem também ecoa no meio do povo. Metálica e aflita.

O silêncio.

Os olhares.

O vazio.

O menino que encontrara outras crianças longe dos pais ouviu a pergunta e a resposta. Estranhou o silêncio e não gostou da sensação dos adultos inseguros. Maneou a cabeça, rindo de que ninguém soubesse responder. Apenas sua voz era ouvida. Corria e berrava para todos que tinha a comida. Chegou rápido aos pais, como se fizesse aquele caminho todos os dias. Agarrou a cesta do jantar trazida pela família, então escondida entre panos. E antes que os pais pudessem impedir, saltou à frente dos discípulos e apresentou sorridente a solução.

O que era silêncio se tornou estridentes risos. Os discípulos boquiabertos sequer tiveram força para receber a oferta. Até que um deles, constrangido, tomou a cesta e conferiu o óbvio. Cinco pães e dois peixes é bastante para o menino e sua família, mas impossível para saciar a multidão.

Ninguém mais ria. Exceto o menino e Jesus, que em um movimento surpreendente e coreográfico, repetiu o gesto infante. Colocando os discípulos em roda, devolveu-lhes a comida. Estes, meio sem graça, enquanto pediam a todos que fizessem o mesmo, reunindo grupos em roda, repetiram o gesto de Jesus. E antes que se pudesse fazer contas, outros pequenos e escondidos cestos, com poucos e inesperados pães e peixes, deslizaram em festa no meio do povo. O menino. Jesus. Os discípulos. As rodas de amigas e amigos.

O pão sobra quando o gesto é farto.

Jesus e o menino sumiram no meio da algazarra, de tanto que se sentiram em casa. E as fraternas rodas substituíram os labirintos de solitários e insaciáveis crentes.

Depois de muito tempo, contou-se uma história um pouco diferente. De um milagre assombroso e heroico de multiplicação de pães. Mas entre os discípulos, sempre se soube que antes do pão, o gesto se multiplicou. E que o milagre veio da mão de uma criança.

Chegamos a um mundo pronto.
Carregamos forças que nos ultrapassam, genéticas e culturais, que nem de longe escolhemos (ou escolheríamos).
Tudo já significa, vale e condiciona.
E se quisermos o mínimo de contentamento, aprenderemos a indócil arte de nos adaptar ao que está aí.
E alguém ainda diz que somos livres?
Sim. Livres.
Porque o futuro está vertiginosamente aberto.
Escancarado.
Por mais forças alheias a nós que se combinem para escrevê-lo; ele mantém-se tão inédito quanto as páginas do livro que ainda escreverei.
Livres, sim. Porque o menor descuido, ou o desejo mais insistente.
A resposta mais demorada, ou precipitada.
O assombro que nos convenceu de impotência, ou o arroubo que nos fez ir a despeito de nossa covardia.
O rompante criativo de um argumento, ou a anuência passiva com o que sempre se disse sobre qualquer coisa.
A convicção desesperada ou a dúvida angustiante.
Uma réstia incerta de esperança.
Qualquer cisco nos olhos pode iniciar a revolução.
Como o fez aquele teimoso e incerto espermatozóide, alcançando o irresistível óvulo e o infinito corpo de possibilidades se jogou na existência.
Livres, sim, e maravilhosa e violenta e irresistivelmente.
Livres sim, sartreanamente condenados!
Insisto. Livres.
De tanta verdade que pulsa e lateja e arde,
desejante,
apaixonada.
Faminta de sentido e graça e amor.
E o atordoante Galileu bem que disse:
um conhecimento assim não nos permite ignorar o quão verdadeiramente somos livres.
Livres assim,
ai dos que resistirem aos abraços,
às mãos que se dão,
aos afetos,
aos amores!
Livres assim,
Deus é a amizade(não me deixa esquecer um amigo, mesmo que de longe, Paulo Brabo).

 

O Natal não é uma história fácil de ser contada, a despeito de ser a mais linda narração de todos os tempos.

Se parecer fácil, não é o Natal dos Evangelhos e nem tão bela. É difícil, porque é feita de estranhas contradições. De irônicos e graciosos espetáculos, de um lado. E de discretíssimos e opacos acontecimentos, do outro.

De um lado, luzes, corais de anjos, estrela guia, arrebatadoras revelações. Do outro, na multidão dos sem-rostos, no labirinto sombrio de vias infindas, no alvoroço ruidoso daqueles que quanto menos voz têm, mais barulho fazem, assiste-se a um delicado e quieto sinal.

Da banda de lá, a promessa eloquente e luminosa do Filho de Deus, Messias esperado, nascido entre nós. Da banda de cá, o silêncio feminino, de uma ressabiada mãe, guardando despretensiosa as altaneiras palavras, os inquietos semblantes, os curiosos olhares, os ansiosos tons de voz, sinais e arrepios de um Deus inesperadamente presente.

Do lado de lá, pastores ouvem um coro celeste e a voz do imponente Gabriel, a promessa gigante do Messias, tudo junto em um menino-deus. Do lado de cá, na incômoda estrebaria, no improvisado berço de uma manjedoura, apenas um bebê, embrulhado nos pobres panos que a todos os infantes plebeus envolve.

Entre a promessa cintilante e alvissareira e o seu pretenso cumprimento, uma viagem, uma despedida, um abandono e a salvação.

Sejam os sábios magos, ou os discriminados pastores, é preciso desnudar a esperança de trajes vultuosos, de expectativas de majestosos eventos. Importa esquecer o desejo crédulo de um potente Deus, ou de um irresistível Titan. O bebê é apenas mais um bruguelo. Chora estridente. Sorri gracioso. Suja fraldas. Esbaforido, suga os peitos maternos. Tão frágil, ao colo, suscita cuidado e reverência com a delicada vida.

Indispensável que seja apenas um bebê. Um nenê sem adjetivos, de tão imprescindível.

Deus de fraldas é de tirar o fôlego.

Quem quiser ver o prometido Filho de Deus, terá que desembaçar os olhos, superar o nervoso pigarro na garganta, respirar fundo e olhar de novo. Falar bem pouco, ou quem sabe se calar. E se converter aos pobres, aos esquecidos, aos sem-lugar, aos simples, àquele que não é mais do que o que menos é entre nós. Ele é um de nós. E esta é a sua glória. E esta é a nossa salvação.

Nunca mais o divino se confundirá com uma ficção. Não mais será um Deus refém de nossas abstrações e seus tédios e suas lonjuras e suas estéreis doutrinas; que quanto mais falam, menos dizem. Tanto descrevem, tanto escondem.

Um Deus nascido entre nós é um novo Deus.

Um Deus inesperado.

Maravilhosamente próximo.

Generosamente semelhante.

Graciosamente comum.

Ponderável.

Presumível.

Imitável.

Tão aqui.

Tão nosso.

Tão íntimo.

A criança é a mensagem.

Um Deus que entra em nossa vida desde a meninice é o mais crente de nós.

Acredita em recomeços.

Tem fé nos reinícios.

Adere aos nossos renascimentos.

O bebê é Deus dizendo: Faça como eu, recomece sempre que um novo início for a salvação.

Ele não é o outro que vem a nós.

É o menino que vimos crescer.

Não chega. Nasce.

Não se impõe. Entrega-se.

Não reivindica. Serve.

Não esmaga. Mistura-se.

Conta histórias para contar-se entre nós.

Não intima. Seduz.

E se assusta. É porque não contávamos que a salvação, a graça, o amor, a esperança estivessem logo ali, no berço pobre, na louca e hostil cidade, na outra esquina, ao alcance dos olhos, dos ouvidos, do colo.

Em um de nós.

Elienai Jr.

Aproximar-se de alguém a quem se reputa grandeza e exceção é como poder tocar o inatingível. E para isso fazem-se perversas as pessoas, desprezam o humano porque para outra coisa não é bom que sirva, além de ídolo, de simulacro da vida que ninguém tem. Mas eu só queria tocar quem me devolvesse aos abraços e amores.

Quem me tocou? Intima.

Ele marchava com a urgência dos poderosos, o homem que manda na sinagoga tem uma filha que, de tão doente, e dizem que já morreu, faz do forte fraco demais para que alguém com o mínimo juízo não corra em socorro.

Ela, à beira da morte, tem de vida o que eu tenho de morte, à beira da vida. Doze anos, muito curtos para ela, intermináveis para mim.

São doze anos exilada do amor. Impedida do toque, confesso, aprendi a tocar sem ser percebida. Pelo mísero prazer de sentir de qualquer um, um trisco que seja de importância. Fico por horas saboreando o formigamento nas pontas dos dedos, ou na superfície dos braços, ou das pernas; a memória fugidia de que existo; fluida sensação sobre a pele, que me remete às mãos que já me tocaram como se jamais fossem me largar, ao prazer que já me fez arder em brasa, aos abraços e beijos que, de tanta querença, pareciam sugar-me a alma. E agora, resvalo anônima mendigando afeto.

Ser mulher é estar sob o ciclo da maldição, a cada época em que meu corpo avisa que não serviu para parir, também indica que não valho para existir. Impureza inclemente, danação insuperável. A menina de Jairo já deve saber o gosto amargo de ser, vez ou outra, estranhada por todos. Seu corpinho é tenro, mas a regra da religião é maldição antiga que lhe pesará implacável.

No entanto, minha maldição se sobrepôs à dela, sangro sem parar, esvaio-me de dignidade e sem fim. Hemorragia de esperança, sangria de futuro. Talvez, ela, que aos doze descobre a morte precoce, tenha a sorte de morrer abreviada; eu, que a descubro tardia, tenho a sina de viver adiada. Invejo os moribundos e sua angústia pela vida que se vai, porque eu que nunca morro, diviso a vida que nunca vem.

Vez ou outra, perseguem-me os pensamentos feito demônios indômitos. Fico achando estranho que o sangue do sexo, este que junta os corpos em uma só carne de amor e gozo, seja assim impuro. E a pureza sacramentada no templo seja apartamento de afetos, deportação de mulheres. Justo elas que emprestam seus corpos ao prazer pródigo dos que mandam na benção. Também estranho que a sanha por pureza seja assim tão mórbida, estéril e frígida. E se purificar é matar em vida, penso despudorada, talvez viver seja a experiência dos impuros que aos puros desprezam.

Quem me tocou? Pergunta aquele que pode ser meu próximo algoz. Certamente. Assim me expurgaram e maldisseram os últimos com os quais fracassei em meu desgraçado ofício de discrição. Fiz com ele o que com tantos tentei, roubar a virtude de um toque e nela, mesmo que tão breve, a sensação pobre de existir. Sendo ele o Cristo que todos suspeitam, apenas toquei-lhe os babados que a um bom religioso credenciam. Ousei sentir na pele sua fé, já que tão diferente, bem poderia ser ela o fim do meu sofrimento.

Sua insistência em querer me descobrir assusta. Mas o que é isso? Ele diz que dele saiu virtude, mas eu sinto que o que de mim saía estancou. Já conferi meu sexo. O sangue parece ter parado. Agora o que não para é o tremor do meu corpo. De tanto pavor, temo até ter conseguido o que me trouxe aqui.

Responde indignado aos que tentam convencê-lo que todos lhe tocam. Diz-lhes que dele saiu poder. E isso me acalma um pouco. Afinal, sempre que meu toque por alguém foi percebido, ganhou fôlego seu poder de me execrar. Tocar alguém sempre evidenciou sua força e confirmou minha fraqueza. Agora que me sinto mais forte, ele diz que perdeu poder. Quem sabe isto seja amor. Enfraquecer-se até sentir-se tocado. Talvez porque o poder que nunca se perde, anestesie a pele, e o amor que a pele inflama, doa mais, sofra mais, sinta mais. A salvação seria fazê-lo por mim sentir-se tocado?

As mãos fremem cada vez que seus olhos me procuram. Aprendi a temer o olhar dos que me descobrem. Nada me humilha mais que me ver nos olhos dos que me cercam, tão menos do que acho que valho. Levanto minha mão para confessar o blasfemo toque. Tremo tanto que todos já devem ter percebido minha culpa. Ele está pedindo para que eu me aproxime? Já disse que estou apavorada. Mulher, a tua fé é a tua salvação. E ele diz com olhos que me admiram. E neste instante, avisa a todos que me vejam diferente, e se viam com condenação meu destino cruel, agora veem com surpresa minha inusitada fé. Resta-me acolher silente suas palavras, ele chama de fé aquilo que há pouco me enchia de culpa. O que todos chamariam de transgressão, ele dá outro nome. Fé. Pasmo com a surpreendente graça, já consigo pensar na sangria que estancou. Sinto-me devolvida ao mundo dos que são vistos e tocados e amados.

Agora ele seguirá com Jairo. Tomara que consiga ajudar à menina. Esqueci de lhe dizer meu nome. Mas se minha transgressão para ele foi fé, meu atrevimento em entrar na história que não tinha meu nome bem que poderia se chamar pureza.

ImagemPelas ruas nunca se cantou tanto os versos triunfais do salmista: Bendito o que vem em nome do Senhor! Fácil. O Nazareno pôs em pé um morto sepultado há dias, porá em pé a cadavérica nação de Israel.

Dia desses, perambulou por aqui. Escorregou pelos becos, foi visto tenso e irrequieto no templo. Não tinha boa aparência. Discutiu com cambistas. Interrogou mulheres e perguntou pelas crianças. Juram que balbuciou palavras e parecia maquinar algo. Talvez uma revolução. Depois de Lázaro, parece não haver muito mais o que esperar. Um milagre assim não pode esfriar suas utilidades. Argumento forte é discurso oportuno.

Não há outro assunto entre o povo. Jesus fala de um reino que virá, faz verem os cegos, multiplica pães e sacia os famintos, limpa os imundos leprosos e agora reanima defuntos. O Reino deve estar por um triz.

Alguns dos discípulos avisam eufóricos o Mestre, que anda fraquejando no ânimo. Queixa-se de incompreensão. Duvida até dos mais próximos. Mestre, o povo acredita. As mulheres cantarolam bendizendo o Messias. Os velhos lembram as histórias dos profetas, contam às crianças sobre o poderoso redentor que chegará montado no jumentinho. Ele arqueia as sobrancelhas e insinua um sorriso. Suspira. Não acompanha o entusiasmo dos demais. Ouve. Mas todos sabem que sempre compreende outra coisa.

Ninguém pergunta mais nada. Todas as últimas questões suscitaram poesias, contos, comparações. Tanto mais estranho o Cristo, mais prosador. Sua poesia é a distância que a todos aflige.

Continua a falar do Reino vindouro, mas sempre contando histórias e propondo dispendiosos enigmas. Diz que só veremos se não enxergarmos; só ouviremos se não escutarmos; só saberemos se não compreendermos. O que precisamos saber que nosso entendimento impeça? Que visões temos que nos tapam os olhos? Que ruídos escutamos que nos ensurdecem? O que cremos que possa nos atrapalhar o pensamento?

Não provoque o poeta.

Faz poesia o que duvida da regra, consola os demais o pensativo Tomé. Conta histórias quem procura por ouvidos, emenda João, sapiencial. Pedro, meio sem entender, diz qualquer coisa: eu prefiro as espadas. Doem menos.

Sem gaguejar, interrompe as suspeitas de todos e pede para que busquem um jumentinho. Como nas prosas dos velhos com as crianças há pouco relatadas. Entrará em Jerusalém montado no profético bichinho, é o seu plano. Cumprirá as Escrituras tal qual o ator submete-se à dramaturgia. Por quê? Questiona alguém. Porque é preciso que imaginem mais o que veem.

O jumentinho, montado dramaticamente por Jesus, aproxima-se. A chegada é lenta, demora estratégica o bastante para que a notícia se espalhe entre o povo de Jerusalém. E antes de chegar ao templo e às casas dos poderosos, são incontornáveis os pobres, habitantes sempre dos limites da cidade. Risível, não fosse grave. Os últimos a serem ouvidos são os primeiros a deslumbrarem o Messias. Os excluídos do mundo recepcionam o divino. O fôlego da multidão, que encena a mais messiânica das histórias, é a angústia dos que padecem.

É lírico o Cristo de Deus montando imponente o humilde e pacífico jumento. Lirismo eloquente, ninguém duvida do Messias. Os mantos e os  ramos de árvores, arrancadas à beira do caminho, espalham-se pelo chão, como se a multidão e seus deuses há muito ensaiassem o encontro. As mulheres iniciam a cantoria: Hosanas ao que vem em nome do Senhor! Bendito o que vem em nome de Deus. As crianças saracoteiam pelo cortejo, ao reconhecerem o personagem de suas histórias prediletas. Ele também ri. Também festeja. Como é estética a esperança.

Os fariseus, religiosamente ausentes dos afetos, sabem da insanidade coletiva. Do risco que corre Jerusalém. Pedem para que Jesus os repreenda. Uma agitação assim pode indicar insurreições e suscitar toda a repressão das temidas Legiões romanas.

Pode-se até calar a cantoria, reprimir os gestos; mas a imaginação, este movimento de gente embrutecida em busca de graça; com afetos empedrados ansiando por ternas esperanças; ora, se uma boa imagem dá voz às pedras, o que não fará em corações sangrando fé e desejo? Se eles se calarem, as pedras falarão, responde o divino dramaturgo, arrependido dos anos gastos com as sinagogas e suas doutrinas.

O cortejo avança e o horizonte se abre desvelando Jerusalém. Descortinam-se mutuamente o estranho Messias e a patética cidade. Não demora, e os mesmos algozes crucificarão um e depredarão a outra.

E a metáfora cumpre seu papel. Reúne os díspares mundos na mesma imagem. Faz conversar falas tão distintas na mesma cena. Concilia opostos. Justapõe adversos. Dá ao poeta a fugidia sensação de acolhimento, sendo ele o maldito extravagante. O Messias de outra esperança. O Rei de vário governo. O Deus-homem do homem-Deus.

Ausentando-se da grita, os olhos do herói lacrimejam. Nada traduz mais sua agonizante alma que a refração implacável da imagem, caleidoscópio de sentidos e compreensões. O que acende melhor os sentidos que a lúdica encenação? O poeta faz-se vidente, vê mais e além. E quanta dor sente este que habita as fronteiras dos saberes?

Deus mora na metáfora, liame dos mundos. E chora.

Ninguém viu a lágrima nem ouviu o lamento do divino, exceto uma mulher que confidenciou seu segredo ao amigo de Teófilo; de onde estava, jura ter visto o que à multidão ficou incôndito e ouvido o despercebido pela surdez ruidosa do povo. O Cristo lamentou ser a mensagem que ninguém entendeu, a metáfora de um mundo que poderia ser.

Lançamento do livro em Fortaleza

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            Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista. Ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é. Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais, lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida, e uma abertura despojada e generosa ao outro e à sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, eu pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor: assistir pessoas em cerimônias fúnebres, sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. Atendendo a um pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali, então, um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações a partir da leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da jovem falecida, disparou cruelmente:  “Eu disse a ela: se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!” Sua mãe, um ano antes, pelo motivo, também falecera. Deixaram ambas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz da mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandado as dores da despedida. Alguém me pediu que cedesse um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, eis as palavras que se congelaram em minha mente:  “Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima”. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, atentou às desajeitadas palavras do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se ao pai, em prantos ainda mais sofridos. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência inconsolável do pai, amigo e provedor. Um Deus injusto? Narcisista? Impassível? Assassino? Revoltei-me em meu coração.

Cenas como essas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas sem reflexão, pelas razões que forem: comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos adoecerão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia assim, tão existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa, a mistificação da vida, a alienação e malignização da humanidade; herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos. Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar. Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo. Veio em carne, insiste o apóstolo.

Assim concebi este livro, com desejos pretensiosos, mas modestas proposições. Reuni insights, réstias que pudessem iluminar um pouco a nossa fé e libertá-la dos fungos da irreflexão que, protegidos da luz, espalham mofo e focos de infecção em sua conexão com a vida. A imagem é boa, porque é assim que acontece aos crentes quando fogem do enfrentamento de sua realidade. Adiam a reflexão e enfermam suas relações.

Dividi a exposição dos ensaios em três movimentos, que apesar disso não deixam de estar entrelaçados em conceitos que se repetirão teimosa, mas didaticamente. Na primeira parte, reuni ensaios que pretendem se livrar de práticas que considero vícios nocivos a uma espiritualidade lúcida, como a sublimação da realidade, o medo e a preguiça de enfrentar questões difíceis, a fobia à dúvida, a fantasia de relações e conceitos absolutos e organizados por propósitos divinos, as gigantes expectativas sobre as igrejas e suas organizações e programas doutrinários, mas também o estranho menosprezo pela poesia e outras expressões de beleza.

O segundo movimento deseja abrir janelas de compreensão sobre a Bíblia, o texto que funda a fé cristã e organiza seu culto, moralidade e expectativas sobre a vida. Nestes ensaios, convidei filósofos e teólogos para breves e promissoras conversas sobre o que podemos esperar do texto bíblico: Gadamer, Nietzsche , Rorty e Vattimo sugerem ideias ao lado de Segundo, Queiruga, Ricardo Gondim e Rubem Alves. Acredito que desmistificar a Bíblia é potencializar sua capacidade de abençoar a vida humana.

O terceiro momento deste trabalho quer ofertar algumas sugestões de compreensão da relação da fé com as nossas expectativas para a vida concreta, e algumas insinuações de caminhos a seguir em nossa espiritualidade. Deixei para esse instante um ensaio muito precioso para a minha trajetória, Meu pentecostalismo revisitado, texto autobiográfico, sem deixar de ser ensaístico. Publiquei-o pela primeira vez em 2002, e retomá-lo foi terapêutico e enriquecedor; o meu leitor, que já o conhecia, perceberá as novidades que felizmente pude lhe acrescentar. Acredito sim em uma pentecostalidade como ingrediente afetivo e catalisador da espiritualidade cristã.

Já me confessei pretensioso com o livro e a reunião de filósofos e teólogos que vêm iluminando meu caminho, mas quero incentivá-lo na leitura, antecipando que também participaram desta aventura alguns poetas e romancistas imprenscindíveis para a construção da minha fé. Entraram na roda Dostoievski, Muriel Barbery, Pascal Mercier, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Lenine, Gilberto Gil e Jorge Luis Borges. Ninguém melhor que o poeta para insinuar versões possíveis para a vida, e não apenas, mas também provocar a imaginação, esta modalidade espiritual tão esquecida entre religiosos, no entanto tão importante para uma vida luminosa e aquecida por esperança.

Boa leitura!

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