A incredulidade de São Tomé, Caravaggio.

Foi a angústia que nos aproximou, segui a dúvida quando aceitei o convite para me juntar aos discípulos de Jesus. Eu sou um homem feito de perguntas e muita aflição.

Não lembro de mim sem o sofrimento de quem sufoca o que grita na alma. Carregava a vergonha de ser um estranho, alguém sem o fervor dos crentes; o que todos tratavam como óbvio, a mim parecia vago.

Sentia-me uma farsa nos jejuns sabáticos e suas purificações; a autocomiseração dos devotos não me descia pela garganta. O que em todos provocava culpa e arrependimento, em mim era revolta e ódio. Não aceitava que as legiões romanas pudessem ser instrumentos da justiça divina, não conseguia acreditar que éramos tão transgressores que a opressão tornara-se o nosso castigo. Se os tiranos que nos afligem são uma providência de Deus, o que fazer com a ira que sinto por tanta destruição e ruindade?

Um Deus que usa maldosos para realizar a sua vontade não é ainda mais perverso? Quem é esse Todo-Poderoso que eu preciso convencer de ser justo e bom? Sou melhor que ele? Preciso mostrar-me indigno para que ele de mim sinta dó? É o meu sofrimento que o torna favorável? Então ele é pior que o meus inimigos? Esse Deus não nos ama. Ele nos odeia. E eu a ele. Sentia. Mas nada podia dizer. Havia uma ruptura dentro de mim.

Eu existia do lado de fora, mas ninguém podia saber. O corpo dentro, o sentimento fora. Cada vez que entrava na sinagoga, a sinagoga saia de mim. Enquanto liam os Profetas, não dava para não ver as testas piedosamente franzidas dos mesmos que há pouco ignoraram o faminto à porta. Não queria acreditar que esse mundo precisasse ser sem Deus para ser bom, e isso me atormentava; mas me incomodava muito mais que pessoas tivessem tanto de Deus e fossem tão más.

Sentia-me exilado de mim mesmo. Não conseguia hospedar o estranho que me tornei.

Pelo meu nome ninguém nunca me chamou, Judas. Chamam-me pelo nome do meu triste silêncio, Gêmeo. Os judeus não satisfeitos com o Tomé da língua do povo, acrescentam a língua dos gregos, Dídimo. Para que ninguém esqueça que sou gêmeo. Da minha perda. De uma ausência.

Lísia era a minha irmã, nascemos na mesma gravidez. Dividimos o corpo da nossa mãe, sugamos os mesmos peitos, disputamos a atenção do mesmo pai e espalhamos brincadeiras pelas ruas da Galiléia. Repartimos a mesma alegria de viver.

Ainda criança, acompanhei nosso pai para aprender o ofício da sobrevivência, no entanto, pescar era ficar longe dela e das brincadeiras e das estripulias e dos segredos de nossa gêmea infância. Mas ao voltar, nossos encontros eram cheios de histórias para contar; a luz dos seus olhos admirados ainda brilha na minha saudade.

Um dia, voltamos e a aldeia estava revirada. Enquanto pescávamos, os soldados do império invadiram nossas casas, violentaram as mulheres e sequestraram a minha alma. Paralisei à porta, diante do corpo morto de minha mãe, minhas palavras e lágrimas foram sugadas pelo horror; imaginava o que os sobreviventes contavam, os gritos desesperados por socorro, o clamor delas para que Deus tivesse misericórdia e as ajudasse. Lísia foi levada para servir na casa de algum centurião. Nunca mais soube dela.

Foi nesse dia que me desencontrei de Deus.

A cada oração comunitária, minha tristeza tornava-se mais profunda e calada. O que dizer a um Deus que domina sobre tudo e nada acontece sem que ele queira, até mesmo a violência dos que nos humilham? Onde estava o livramento prometido aos justos quando os romanos esmagaram nossa dignidade e nos proibiram de viver?

As feridas da nossa gente eram as pegadas de um Deus que tinha me dado as costas. Se existe, pensava, ele é meu inimigo.

Não podia dizer não creio sem que isso parecesse um ruído. Então fazia inoportunas perguntas, estragava os prazeres da piedade irrefletida. Alguém dizia, Deus me chamou, eu perguntava, quem mais ouviu? Outro tentava consolar, Deus sabe o que faz, então foi ele que matou? Mas Deus é bom, é mundo é mau por quê? Deus curou, então por que deixou adoecer? E um dia, um velho saduceu delirou, se eu morrer, Deus vai me ressuscitar; com ou sem rugas? Amargo, também conseguia rir.

Já eram várias noites de frustração. Precisávamos que a pesca tivesse sido boa. Mas só juntamos rasgos e sujeiras nas redes. Na manhã do grande dia, as esperanças anoiteceram mais uma vez. A boca salgada pela maresia, as costas surradas pelas tempestades, nossos sonhos esfarelados na areia da praia. Eu evitava levantar a cabeça e ter que olhar para tantos rostos vazios. Pedro ainda tentou animar, amanhã o Senhor dará os peixes. E o que mata a fome hoje? Importunei, sem tirar os olhos do chão.

As manhãs costumam ser muito frias à beira do lago. O sol ainda tímido sequer aquece a pele, os ossos gelam e doem. A gente se movimenta com exagero e bate as mãos nas redes para que caiam as algas e esquentem um pouco o corpo.

Não faltava muito para terminar os consertos, quando uma gente aflita se juntou e empurrou o novo rabi contra a praia, os barcos e o nosso desânimo. Ele nos observou breve, mas com interesse. Percebeu nosso cansaço e o vazio dos barcos. Viu nossa vergonha. Eu desviei o olhar. Em seguida, pediu emprestado o barco de Pedro. Afastou-o um pouco da praia, flutuando solene nas águas mortas do lago. E muito à vontade, falou às pessoas que permaneciam atentas. Contou histórias do mar e do campo, narrou medos e coragens. Sem pedir licença, entrou na nossa imaginação e sugeriu outra vida. Uma em que somos bem-aventurados e nossas lágrimas sinalizam o consolo por vir; em que nossa fome de pão é de justiça e será saciada; em que a perseguição dos nossos algozes confirma que a mudança desejada é digna; e, para o meu susto, que Deus tem lado, o dos empobrecidos e sofre e chora e clama com eles por outro reino.

Jesus entrou na minha vida através das minhas feridas.

O que era o lugar do nosso sofrimento se tornou por instantes o do anúncio de uma nova humanidade. De uma cara nunca vista no divino. Falou de dentro da nossa angústia. Não deixou com o fracasso a última palavra. E uma inusitada fé flutuava no lago e dançava na sua voz.

De dentro de um reencantado barco, pescou-nos de nossos vazios. Mandou-nos jogar as redes mais uma vez, um pouco além do costume. Pedro não queria, mas foi. Eu nem queria nem fui. Fiquei de longe, da praia, de soslaio com o inaudito. Alguém o provocou em voz baixa, só eu ouvi, você quer ensinar pescadores a pescar? Ele respondeu, mais que isso, quero pescar neles outra fé, a simples coragem de não desistirem.

De repente, o grito esganiçado de Pedro, de quem parecia não saber o que fazer com o que precisava ser dito. Pedia ajuda. Tinha mais peixes nas redes que palavras em sua boca. Outros barcos precisaram socorrer. O amor é quando o espanto é pesado demais para um homem só.

Pensei sem deslumbre, os peixes estavam à distância de mais uma tentativa. Fixei os olhos em Jesus querendo flagrá-lo aproveitando a sorte para inventar-se divino. A frustração do meu melindre, ele gargalhava feito os demais, divertindo-se e mostrando-se desavergonhadamente também surpreso. Olhou para quem o provocara e emendou um aliviado “por que não?”

De volta à areia, ninguém sabia o que fazer com a vida quando ela é boa. Pedro se encolheu prostrado e todos reagimos com a vergonha de sempre. Ele nos olhou com a fé que eu só vi devotada pelos crentes a um Deus. Acreditou em nós. Pescou dignidade no farrapo, o belo no desumanizado, a vida boa no que era só sobrevivência. Pediu-nos para nos reinventar, propôs fazer conosco o que ele se tornou para nós, pescadores de humanidade.

Segui-lo devolveu-me ao lado de dentro; a cada ensinamento, a fé bailava com as minhas perguntas. As palavras cirandavam promissoras; sua fé era dançarina e nossas dúvidas davam o ritmo do próximo passo.

Ele não acreditava a despeito dos que sofriam, mas a partir deles. Nunca falou do divino de costas para os pobres. Ele deslocou Deus do céu às encruzilhadas, do templo aos guetos, da letra fria da lei à pele dos esquecidos. Um Deus à flor da terra.

Minha dúvida também se deslocou. O milagre foi tornar o leproso saudável, ou dar à pele maldita o toque de quem se importa? O cego que o chamara de Filho de Davi via mais que os observadores escandalizados? O prodígio era uma multidão saciada com inexplicáveis pães ou a multiplicação de gestos generosos? A hemorragia da mulher foi estancada para mostrar poder, ou deixar-se tocar por uma maldita é perder poder para estancar o desamor?

Minhas dúvidas abriram lugar para um mundo que valia a pena. Pavimentaram o caminho onde Deus passou a andar ao meu lado. Observando Jesus, vi que Deus está naquele que desperta meus afetos, que acorda minha sensibilidade, que ressuscita minha compaixão e me coloca no mundo como a pergunta que dá voz aos emudecidos.

Descobri que transcender é ter misericórdia. Sair de seu desesperado egoísmo, expandir a consciência e ver-se melhor nos olhos do outro. Estar com Jesus revirou a minha incredulidade, o que era descrença jogou-me na exuberante presença de um Deus feito gente. Reencontrei a fé no cuidado com os feridos do mundo.

A compaixão tornou-se a minha fé.

Os dias foram ficando cada vez mais nervosos. Os poderosos passaram a olhar para Jesus com incômodo. Não gostavam de quem fazia o povo crer sem sacrifícios. Temiam quem preferia os que o Templo desprezou. Tinham nojo de quem festejava a vida com os transgressores. Aquele que levava esperança às margens também fazia o povo dar as costas ao Palácio.

Já se falava em conspiração para matá-lo; as conversas foram se tornando emboscadas; temíamos um apedrejamento a cada multidão; em Jerusalém e nos arredores, dizia-se que o nosso mestre era uma ameaça à família e à nação, um blasfemo subversivo.

A notícia da morte de seu amigo Lázaro chegou feito um furacão. Desacomodou o mestre como eu nunca tinha visto. E o fez fechar os olhos para o risco de ir a Betânia, casa de seus amores, vizinha da perigosa Jerusalém. Sabíamos que era um lugar hostil e uma séria ameaça a sua vida. Mas ele fez trocadilhos, disse que o amigo dormia e iria acordá-lo, provocou a nossa lealdade e insinuou a absurda ressurreição. Alguém comentou que ele não suportava a ideia de Maria estar desesperada e longe dos seus braços.

Avisamos que seria morto se pusesse os pés no vilarejo. Mas ele manteve a decisão intacta. A promessa de uma ressurreição entendi como mais uma parábola, outro provocativo enigma para uma vida tão precária quanto carente de recomeços. Alguns o viram alucinar ao prometer o impossível e discutiram a doutrina e os antigos debates dos saduceus. Não. Ali não vi um delirante nem um herege nem um teimoso, vi um amor mais forte que a morte. Ali a fé transbordou em mim depois de uma inundação de sentidos. Coloquei-me em pé e fiz o que seria a declaração do que creio: Vamos juntos para morrer com ele! A minha crença roubou o fôlego de todos. Eu não acreditava em ressurreição. Eu acreditava no amor.

Em Betânia, as cenas se sucederam velozes, quase impossível não se perder. Marta o recebeu com instruções e prognósticos. Maria perdeu-se em seu colo, chorou e o culpou por não estar lá e impedir a morte do irmão. E o mestre, até então cheio de certeza, se desmanchou vulnerável como nunca antes. Chorou. Depois disso outras cenas vieram, mas eu fiquei imerso em suas lágrimas. Mergulhei no coração de Deus através de suas dores.

Tudo o mais pareceu um detalhe. Jesus mandar remover a pedra que encerrava o Lázaro tido como morto e gritar pelo seu nome feito quem acorda o doente de um sono profundo. Não me comoveu Lázaro aos olhos de todos. Permaneci submerso na fragilidade de Jesus como no dia que fui batizado no Jordão. Na minha mente, o choro de Jesus foi o que de mais divino aconteceu em Betânia. Mas a multidão e os demais pareciam se desviar do homem que ali se revelava, afirmar uma milagrosa ressurreição era meio-caminho para o trono. Sentiam-se ao lado do Todo-poderoso. E eu só via o Todo-amante.

Aqui se formou a encruzilhada que o levou à cruz e os discípulos à grande decepção. Para os poderosos, livrar-se de alguém com a fama de ressuscitar pessoas era urgente. Para os discípulos, tomar o poder dos romanos era um delírio religioso. Para mim, ninguém tinha entendido nada.

Quando o mal caiu sobre nós, o meu sofrimento não foi o mesmo dos demais. O nosso mundo desmoronou em cascata. A traição pelo íntimo e confiável Judas Iscariotes. A Captura do imbatível e promissor rei igual a um colibri indefeso. A humilhação e tortura aplaudidas pela multidão que passou a ver nele um demônio. A absurda preferência do povo pela violência de Barrabás à ternura de Jesus. Os inescrupulosos chefes do Templo mentindo para salvar suas verdades. A indiferença de Pilatos que ignorava tanto o réu quanto os acusadores.

Pedro não sabia o que fazer com a fraqueza de Jesus; menos ainda com a fanfarrice de uma fé que fecha os olhos para o fracasso. João e Tiago não puderam mais trovejar planos de conquista. Judas descobriu tarde demais que seguiu o homem certo pelo motivo errado.

Meu sofrimento por sua prisão e morte nada teve de decepção. A cruz sempre esteve no horizonte que ninguém quis ver, mas ele nunca deixou de apontar. Olhando-o crucificado, tinha em mente o gesto escandaloso de se inclinar aos nossos pés para os cuidados que cabiam aos escravos. Na cruz, tanto quanto na bacia com água, para encontrar Deus também precisaríamos nos baixar até o ponto em que nossa humanidade não dependesse mais de prepotências.

Vi Deus ferido pela mesma dor que atravessou a minha história e a da minha gente. E acreditei.

Ver o divino Jesus crucificado foi tão triste quanto reconciliador. Eu me vi nele. Como um dia ele se viu em mim. Fui salvo por essa estranha beleza.

Há mais de uma semana falam de sua ressurreição. O que em todos causa euforia, em mim reivindica um pouco mais de escuta. Ouço de Maria que o confundiu com o jardineiro, mas o reconheceu pelo jeito de chamar seu nome. Não lhe diz nada que ao tentar segurá-lo em seus braços, ele tenha se negado e sumido diante de seus olhos? Tê-lo nas mãos como um troféu não seria perdê-lo? Não foi a saudade de quem não deixou de amar que o reviveu?

De Cléopas ouvi que ele e seu amigo viram Jesus em Emaús. Depois de caminharem lado a lado como estranhos, o convidaram para pernoitar, assim que ele deu graças e partiu o pão, viram que era Jesus, ainda que ao tempo de uma piscadela. Também disseram que o coração queimava enquanto o estranho lhes falava no caminho. Não percebem que a fugidia presença é um encontro no coração? Não foi a imagem e o cheiro do pão partido que o fez reviver?

Pedro, João e os demais insistem que Jesus está vivo e que agora nada e ninguém irá impedir o Reino. Contaram que entrou, mas não lembram de lhe abrir a porta; que tinham muito medo quando o viram no meio da sala; o escutaram acalmá-los do mesmo jeito que no barco açoitado pela tempestade e, depois de soprar neles como quem suaviza uma ferida, disse que o mesmo ânimo que o inspirou estava vivo neles. Do jeito que apareceu, não foi mais visto. Ninguém entendeu que não se trata da reanimação de um defunto para uma vingança triunfal? Não será a vida arejada por seu testemunho que sempre o ressuscitará entre nós?

Não quis ficar na casa onde os outros discípulos se escondem. Na verdade, lamento a confusão de ideias e sentimentos. Não sou melhor que eles, mas lamento não terem entendido a estranha beleza das lágrimas e feridas de Jesus. Elas foram aberturas na recalcada humanidade para o coração. É sofrimento, mas é por ele que nossas almas se conectam. As feridas e as lágrimas de qualquer um são as feridas e o choro de Deus. Toca no divino quem cuida das dores de alguém.

Oito dias depois do alvoroço de quem disse ter visto Jesus vivo, cedo e estou aqui com os demais nesse casa de gente assustada. As janelas estão tão trancadas quanto as portas. O calor só não é maior que a pressão deles para eu deixar de duvidar. Pedem para eu crer na ressurreição. Não sei o que lhes dizer. Pedro insiste, você precisa ter fé. Tocar nas feridas de Jesus é a única chance de senti-lo vivo novamente, meu amigo, respondo.

A casa está fechada há dias, se tornou uma masmorra húmida e cheia de gente que só reconheço pela voz e o cochicho amedrontado desde a Páscoa. O azedume de hálitos aflitos tomou conta do ambiente. Sinto-me enjoado como num barco em mar agitado. Estou tonto, mas sair e arejar nem pensar. Não deixariam. Precisam que eu creia no que eles creem.

Quem é este? Parece o mendigo pelo qual passei ainda na rua.

Talvez alguém tenha esquecido a porta mal fechada. E essas mãos estendidas? Ah, quer me convencer a ajudá-lo por causa das feridas.

Por que me olha assim? Este olhar. Esta fragilidade. Aqui estou eu chorando de novo, não bastasse o suor escorrendo no rosto.

Por um instante, pareceu minha irmã pedindo-me um abraço. Deus Amado! Meus olhos estão embaçados e ardem. Não sei o que pensar. Só tenho vontade de chorar e abraçar esse estranho.

Toque aqui, homem, não tenha medo.

Agora é Jesus que vejo? Estou quase desmaiando, vou me ajoelhar. Choro mais que suo.

Deus está aqui. Jesus está aqui. Meu Senhor e meu Deus!

Se não é Jesus, o amor que sinto agora é o mesmo que tenho pelo Mestre.

Ele parece querer dizer algo.

Tem muita gente que não me vê para ser feliz. Você parece aflito, mas só você aqui dentro conseguiu me enxergar.

Seja quem for, é Jesus! Meu Deus e meu Senhor!

Elienai Cabral Junior


Dos olhos ao olhar foi a travessia da qual desisti. Perigosa e frustrante como o caminho que se percorre entre Jericó e Jerusalém. Neste, parei à beira da correria, e nunca mais fui a uma, nem voltei a outra. Uns diziam que eu vivia à saída de Jericó; outros, à entrada. Restei ali, nem partindo nem chegando, no ponto cego do mundo, na invisibilidade do desprezo, no sem-lugar de um homem.

Já tive olhos arregalados, gulosos de compreensão e valor. Olhava para me ver no mundo, para saber de mim nos olhos de toda a gente. Olhar bem é cruzar olhares.

Não nasci cego, fui desistindo de ver e não ser visto; sendo convencido da minha transparência, a de quem está ali, mas não importa.

Desconfio porquê. Meu pai tinha o nome do nosso infortúnio, Timeu, o Contaminado*; vivia sob a desgraça que fez dele um matável. Tinha a doença da pele, a lepra. Ele era um impuro de cuja vida se deve abrir mão para a paz de todos.

Perdi meu pai de vista, nunca mais soube dele, degredado de Jericó; a maldição da pele o transformou em um intocável, alguém que se deve manter longe. Morreu em vida. Expurgado, tornou-se indigno do luto. Que importância terá a morte de quem já é um nada?

Fui descobrindo que Bartimeu, o Filho do Contaminado, foi o nome que deram a minha desimportância. A pobreza da nossa família confirmava a contaminação do meu pai, sem trabalho, sem oportunidade, sem dinheiro, sem comida; com a família endividada, vi meus irmãos e, finalmente, minha mãe, um a um, sendo tomados como escravos em pagamento das promissórias. Sobrei com a estranha doença nos olhos que me livrou do trabalho escravo.

Quanto menos me via nos olhos de todos, mais fechavam os meus e a minha fé e as minhas queixas e o meu mundo; meus olhos ardiam e coçavam e uma lágrima viscosa e com cheiro de morte escorria, se insistisse em mantê-los abertos; mas sossegavam quando os fechava cansados e sujos. Não lembro quando, mas uma crosta foi definitiva, fechou minhas vistas e me convenceu de que não valia mais a pena abri-las.

No ponto cego, resta a sobrevivência, uma vida nua, despida de desejos; a vida mendicante de quem sequer tem a força da angústia para se matar. Alguém assim aceita comer o que resta dos que vivem de verdade, cobrir-se dos trapos que não vestem mais uma vida boa e abençoar esmolas para que os demais sigam em frente.

No ponto cego, no entanto, quanto mais se é ignorado, mais se sabe de tudo; ouço o barulho que a todos ensurdece, os ruídos da vida apressada demais para prestar atenção, os cheiros desenham o cenário de vidas esgotadas, as vozes entonam pavores e ambições, desgostos e ânsias.

As pessoas me contam histórias porque não vejo e eu imagino nas mesmas histórias o que elas deixaram de ver.

Às vezes acho que enxergo mais e melhor. Às vezes acho que vejo o que ninguém consegue ver. Às vezes acho que só o cego, do ponto cego, pode ver o que realmente está acontecendo.

Das histórias que ouvi, as do Nazareno eram as que mais ocupavam minha mente. Nunca disse a ninguém, mas sempre que pensava em um Messias, um filho de Davi, ungido para salvar a nossa pele, pensava em alguém que faz o que ninguém faz, que discorda do que todos pensam; um filho de Deus não poderia ser a confirmação do que essa gente convicta de tão ressentida acredita. Teria que ser um susto. Se não, eu permaneceria ali, condenado à inexistência.

Contavam da multidão que ele alimentou no deserto; do amigo em Betânia que tirou de dentro do sepulcro; do vinho de melhor qualidade que serviu na festa, quando todos achavam que só restara água. Mas para a patética decepção da maioria, ele era flagrado em más companhias. Publicanos, samaritanos e prostitutas, gente de quem um cidadão de bem não chegaria perto, ele se divertia em suas casas, comendo e bebendo com eles. Certo dia, um fariseu insinuou com voz maldosa, você divide a mesa com quem sente prazer, ninguém ficaria tão à vontade perto dessa gente se não se parecesse com eles.

Não bastasse ganhar a fama de fanfarrão, contaram que um fariseu testemunhou uma cena escandalosa com uma mulher mal falada. Ela teria se despedido de Jesus com favores que uma prostituta só oferece a clientes muito especiais, derramando um perfume valioso sobre ele, dançando e acariciando sua pele com os cabelos. Há quem afirme que ela é o grande amor da sua vida.

O escriba disse outro dia que o tal do novo rabi também era um contaminado, que tocava e se deixava tocar por leprosos e por mulheres que nunca param de sangrar. E as mulheres dessa terra nunca param de sangrar. Disse também que seus discípulos eram estimulados a comer no dia do jejum e, esfomeados, ignoravam a purificação antes dos alimentos. E o pior, ele teria ensinado que a reunião alegre de amigos é mais santa que o sábado dos piedosos e a santificação é feita pelo prazer, não por sua renúncia.

Contavam essas histórias e eu me arrepiava. Eu amava o que eles odiavam. Alguém assim seria a pessoa mais divina que eu poderia conhecer. Vendo os que ninguém vê, ouvindo aos que ninguém ouve, tocando os desprezados como eu. Alguém que veio trazer um reino onde o que contamina a vida não é uma pessoa e seus fracassos, mas o olhar que aprisiona o outro no nojo. No reino do meu rei, do Filho de Davi conforme imagino, impuro é tratar a desigualdade entre pessoas com piedosa normalidade.

Eles descreviam um escândalo, eu imaginava uma salvação; eles descriam dos milagres por causa das suas subversões, eu tinha esperança porque para mim o único milagre que pode mudar o mundo é importar-se com os esquecidos; eles o viam cercado pelo inferno, eu, o cego, o imaginava com o céu debaixo dos pés.

Com suspeitas, eles só viam um nazareno, mas eu iludia a passagem dos dias sonhando que ele era o Filho de Davi e que a qualquer dia desses eu o encontraria e lhe diria tudo o que um cego consegue perceber.

Minha pele estava quente do sol de um dia inteiro, na boca um gosto de sangue de quem tem que gritar para se fazer ver; quem tinha que chegar ou partir não passava mais, os poucos atrasados apressavam os passos e no lugar das esmolas deixavam um bocado de poeira.

Uma pessoinha se aproximou e ficou em silêncio. Com voz de mãe, uma mulher apavorada pedia que a filha não me tocasse. A menininha colocou na minha mão uma cuia com o leite mais doce que já tomei na vida. Agradeci, enquanto pude, pois já a arrastavam irritados com a criancice. Mas ainda a ouvi dizer, ele está com fome. Pensei que ela se parecia comigo, via o que todos desaprenderam a enxergar. Suspirei contente.

O chão começou a trepidar e o barulho de tropel das multidões avisou o inesperado. Alguém especial estava se aproximando. Em poucos minutos muita gente de Jericó voltou à estrada e outros tantos pareciam vir de Jerusalém e se misturaram ali. Agarrei as pernas de um dos apressados e implorei para saber quem era esse que passava. Para se livrar de mim, menosprezou, o Nazareno. O nome desdenhoso que davam a quem eu imaginava feito um Deus. A quem, em segredo, eu chamava de Ungido, de Filho de Davi.

Não dava para saber onde ele estava, se longe ou perto, à esquerda ou à direita. Eu só precisei gritar uma vez para que aqueles que nunca me ouviam prestassem atenção. Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Não lembro a última vez que me tocaram, mas dessa, foi tentando tapar a minha boca. E me advertiram que não dissesse uma coisa insana daquelas. Alguém xingou, você é cego, não louco. Outro resmungou e riu pela contradição, não vê que é só o Nazareno? Sacudi a cabeça e me livrei das mãos que pediam o meu silêncio.

Eu dizia o que eles não queriam ver.

A cada vez que teimava em gritar, pensava aleatoriedades.

Filho de Davi!

É difícil enxergar o que aprendemos a não ver para seguir em paz.

Filho de Davi!

Algumas coisas ficam invisíveis, de tão visíveis.

Filho de Davi!

Como ver o divino em alguém demasiado humano?

Gritei pela última vez e antes que me chamasse e eu fosse levado até ele, concluí, eu sou a ironia, o cego que enxerga o que todos aprenderam a não ver.

O tempo parou e os espaços se rearrumaram. Eu gritei e fiz aparecer quem ele nunca deixou de ser. Ele me viu e eu voltei à existência. Ele pediu e fui levado até ele.

Do ponto cego ao ponto da questão.

Tão perto, meu corpo todo o imaginava. Senti seu hálito e o cheiro era de sangue, como o meu, também ele tinha que falar muito e mesmo assim não ser visto. Também ele estava no ponto cego, entre o messias milagroso e o homem de dores. Entre o rei poderoso e o servo sofredor.

Sua pergunta foi tão retórica quanto irônico foi o nosso encontro. O que você quer que eu te faça?

A menininha reapareceu. Outra cuia com leite nas mãos. Ele a tomou no colo e ela insistiu docemente para mim, não vai responder?

Minha resposta foi o clamor que estava nos olhos de todos ali.

Voltar a ver.

(*Bartimeu, filho de Timeu, como O Evangelho Segundo Marcos informa. O nome pode ter origem no aramaico timai, “contaminado” – André Chouraqui, A Bíblia, Marcos).

Acordei meio século depois de tudo, com a festa de sempre. A Bete com a bandeja do café da manhã, as crianças cantando os parabéns e o cachorro latindo e pulando na cama. Divertido ver que o cachorro já sabe e entra na festa sempre. É assim que a gente faz aqui em casa a cada comemoração. Adoro.


Assim que todos seguiram sua rotina, o silêncio trouxe a imagem e a voz da minha mãe, ela gostava de contar que no dia que fez 50 anos, entrou debaixo do chuveiro e tomou um longo e ritual banho, enquanto as mulheres da igreja aguardavam na copa para as homenagens. Ela dizia devagar e suave, tomei um banho demorado, não deixei ninguém interromper a despedida. Fiz o mesmo.

Deixei a água escorrer generosa no meu corpo de 50, despedindo-me de quem não consegui ser e seus tolos ressentimentos; deixei ir pelo ralo o luto narcíseo que teimava desde os 40, a pressa de ser que me atropelou nos 30, o deslumbre juvenil de recomeçar do zero todos os malfeitos da humanidade nos 20, os medos que ainda me assombram desde os 10, o desespero de me afirmar desde que sei de mim.

Enquanto me enxugava da despedida, olhei-me nu refletido no espelho. Fiz isso por longos e contemplativos minutos. Admirei a obra do tempo. Achei-me bonito. Por favor, nem precisaria dizer que falo de uma beleza que nada tem a ver com a estética da moda, de um corpo malhado na academia, barriga tanquinho e bíceps torneados. Óbvio que não. Reverenciei o que foi feito de mim. Vi a força da genética que reproduziu bastante do meu velho, ombros estreitos, braços finos, a formação do peito não muito peludo; a despeito de ter 15 centímetros a mais de altura e uma barriga que a prática da corrida não deixa crescer muito; pernas pouco musculosas, os cerzidos da pele pelos tombos de menino, as caneladas do futebol; pés proporcionais ao tamanho, o calo de sangue que denuncia a pisada desequilibrada nas passadas dascorridas de rua. O corpo da minha história, o divino acontecimento de existir.

No corpo nu, vi o que venho fazendo com o que fizeram de mim. O corpo que sou. Ele é o que venho improvisando, ora para sobreviver, ora para existir com mais graça; nele minha vida foi desenhada, feita em linhas oblíquas e surpreendentes, dobras da resiliência, marcas do que encontrei e perdi e amei, os termos do mundo em mim.

A pele enruga de tanto que resistiu, que tensionou na dor e no medo, mas distendeu nos prazeres e felicidades; rompeu nas quedas e pancadas, cicatrizou, escamoteou, arrepiou-se, suou, ressecou-se, inundou-se em tantos mares e rios; acolheu amores, tateou mistérios, afligiu-se, ressentiu-se, cedeu, descansou; depois de chuvas, sóis, ventanias e brisas, beijos, apertos, abraços, frios e calores, trabalhos e conquistas, saudades. Mundos chegaram a mim pela pele, essa que vi ali, mal refletida.

A cicatriz debaixo do braço, na altura do sovaco esquerdo, cresceu comigo desde o evento dos 6 anos de idade, na estripulia de subir nos muros proibidos da vizinhança, escorreguei de um e fiquei pendurado na lança de ferro da cerca; nas mãos, as costas dos dedos guardam pequenas cicatrizes, do velocípede que empurrava ladeira acima e virou sobre mim, aos 4 ou 5 anos. A catapora também espalhou seu rastro nos meus 13.  Queimaduras e cortes da cozinha que amo, mas segue desajeitada. O tempo cerziu as marcas dos acontecimentos e narra as desventuras e os imprescindíveis erros para chegar até aqui; somos feitos de feridas, tombos, esbarrões, acidentes que não nos deixam esquecer que a vida é pra valer e o destino,incerto, acidental, mas sempre inédito e desafiador.

Entretanto, a pele guarda também íntimas e invisíveis verdades; gostos, cheiros, toques do que aprendi a fruir na vida; abraços que encerraram mágoas e desencontros, prazeres que celebraram amores; os arrepios e alegrias e choros de uma maratona concluída; o colo e o carinho que me ninou menino e me acalmou adulto e não mais terei; minha mãe, que deu o seu último fôlego de vida há quase 3 anos, respira ainda em mim e anima em segredo minha vida, sobrevivo das memórias que trago da Arézia; um corpo é feito de despedidas e saudades, sou também a presença de ausências.

Ainda à frente do espelho, contemplo o sacramento da vida, a minha eucaristia; não me pertenço, sou muitos e outros e tantos a perder de vista, mas que sovaram meu corpo feito um pão e encharcaram minha vida feito vinho. Não sou para mim, condenado ao amor, à imagem do Deus de Jesus, este é o meu corpo e eu o dou a vocês.

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O amor não (se) aprende.

Não é coisa para ser medido.

Nem ideia para abstrair platonices.

Amor é o que deixei de ser,

de saber de mim,

dos bons planos,

dos antigos desejos,

depois que te vi.

Nada conclui, tudo muda.

Vendia livros, pinceis, lápis e folhas

e contava os dias para a Pin-da-mo-nhan-ga-ba,

destino com nome grande,

do tamanho da certeza.

Tudo entre as margens, 

o rumo certo para o que viria,

seminário, estudos, vocação.

Meu mundo arranjado,

a véspera e o dia seguinte.

Então você chegou com uma força delicada,

a voz despretensiosa e tão suave e tão menina e tão outra,

passos lentos de quem tem pressa de não tropeçar,

olhos amendoados e cheios 

de caminhos que nunca vi

e sempre quis.

Eu te olhei para não mais saber de mim,

você veio como a onda do mar,

que derrete suave e irresistível o castelo do menino,

e nem adianta se queixar.

Desaprendizagem é o nome do amor.

nem substantivo faz, 

adverbia o inesperado.

Adjunta o provisório, 

um nervoso entretanto.

Não cabe sequer na frase,

entredito, 

desconcertante, 

tumultua.

Você era o que eu não vinha dizendo,

mas queria tanto.

Sobre o que falamos ali? 

Nem lembro nem nunca importou.

Sentados no banquinho do Conjunto Nacional,

o dito estava nos olhos, 

não nas palavras.

Conhecê-la condenou-me a seguir obstante,

de juízos suspensos.

Indomável adversativo é o amor.

Porém, 

não sentença.

Amar nada responde, 

é a próxima pergunta.

Uma dúvida cada vez maior.

A convicção é desacompanhada, 

solitária calmaria,

tédio absoluto e sereno,

de tão segura.

Que pena de quem por ela se deixa persuadir!

Porque se solidão é fechamento 

tranquilo,

a abertura que a tudo perturba é casamento.

Na noite quente de Sobradinho,

quase quatros anos depois daquele dia,

nos vinte e cinco dias do mês de julho do ano de mil e novecentos e noventa e dois.

Um segundo antes da eternidade,

os meus olhos se desencontraram

de tudo,

de todos,

se perderam nos seus,

você ainda desfilava,

toda noiva,

o tempo e os rostos congelaram

no incontável tempo do amor,

Casamos ali, 

entre quânticos parêntesis, 

entre o desejo e o aceite,

entre a imagem e a palavra.

Casaram-se os olhares antes de tudo.

O acontecimento antes do evento.

O gozo antes do gozo.

Perdoem-me as núpcias.

Por que você sabia que nos seus olhos eu me perdia?

Chorava sem saber o que fazer com tanta boniteza.

Por que eu sabia o que diziam os seus olhos?

Seus passos se descompassaram,

sôfregos,

pareciam com pressa de te deitarem em mim.

Tudo seria calma, paz além da conta,

Conversa com espelhos, 

lúgubre límpida loucura.

Sanidade é outra coisa,

é a angústia de falar

 e você ouvir meus olhos.

De apontar o caminho 

e você ver o dedo que treme.

De você dizer vamos

e eu saber que quer ficar.

Casar também não é caminho, 

é todavia,

o caminho dos descaminhos.

Família nada tem a ver com o amor,

mas com os amores,

a perder a conta,

a cabeça

e o que restou de bobeira e paz.

Vários, 

atravessados, 

misturados.

E tudo fica tanto que nada mais importa.

O amor não soma, 

multiplica e esparrama.

Cinco? Em uma casa? Uma multidão.

A Bete, o Elienai, a Clara, a Gabriela e o Thales.

E antes que esqueça do peludo, o Hug.

Nunca fomos pontos alinhados e estimáveis,

mas linhas 

entrecruzadas no imponderável 

tecido da vida.

Cada um do seu viés conecta-se ao outro,

e cada dupla aos demais,

e cada trio aos que restam,

o quádruplo ou o quíntuplo

se fia ao que ficou só,

indo e voltando,

infinito emaranhado,

de fios,

de fiança,

a rede em que deitamos medos

e alegrias,

em que descansamos desejos

 e perdas,

onde embalamos desesperos,

até que cochilem as dores.

Família boa é feita de nós.

O amor nunca chega, 

é sempre partida,

despedida sem fim.

O amor é por onde se peregrina,

incurável aprendiz.

E aqui, agora, vinte e cinco anos depois,

tantos lapsos após,

a um instante de tanto,

prometo continuar

despedindo-me

do que teimoso achar que sei.

Aceito seguir

desaprendendo

o que por distração concluir.

E te convido a assumir o compromisso mais solene desse amor,

de ouvir

 os meus olhos,

não o que eu digo

e perder-se

das sentenças e seus ressentimentos.

De nunca deixar de nos reinventar

nas ardentes entrelinhas,

onde as palavras pouco dizem,

mas afetam o tom, 

o timbre

e a imaginação.

E o olhar arrepia a pele antes de ser tocada,

e amada 

dilata os poros e a pupila,

 o senso e o sexo.

Ali nas entrelinhas é que tecemos nossos amores,

onde a incerteza abre os braços 

outrora tímidos 

ou fadigados

e acolhe fraquezas,

abriga anseios

e não para de insinuar,

de fazer sonhar

e de fermentar gostos e gozos

e todos os outros amores que ainda chegarão

e graciosamente perdidos, 

se fizerem nós.

O poder não é grande nem imperial nem público. É mínimo. Limitado pelo alcance dos olhos. Íntimo. Sua fronteira é onde o soco pode ser desferido. Irrisório. Sua importância é do tamanho de uma conversa despretensiosa.

Os grandes não sabiam quem era o nazareno maldito. O Imperador sequer entra nessa história. Pilatos o ignorava. Herodes se divertiu por ter nas mãos o mosquito que fez os inconvenientes sacerdotes engasgarem. A multidão conhecia a violência de Barrabás, mas da blasfêmia do anônimo nada sabiam que fizesse valer a pena.

Aqui está o poder, ínfimo, quase desprezível. Mas é aqui onde o mundo começa. Aqui o poder usina, faz dobras na realidade, produz pessoas, domina os corpos. Aqui, onde tudo é tão pouco e tão visível que se torna transparente.

Invisível, de tão visível, o poder a tudo e todos envolve.

Eis a onipotência, tão pouco, o poder espalha-se fluido e irresistível nas relações. Costura pactos. Feito fios que tecem as tramas da rede de um pescador. Um detalhe. Um afeto. Um medo. Uma ameaça. Um desejo. O outro que tem o que tanto quero. As disputas na Sinagoga. A segurança de ter o pão sobre a mesa. O prestígio do escravo com seu senhor.

Jesus de Nazaré não saía da cabeça provinciana dos chefes dos sacerdotes. Ele era uma ameaça. Gente antes dócil e servil, agora tinha esperança. Viviam recontando as histórias e lições do mestre galileu. E pessoas assim, que acreditam em outras versões para a vida, resistem aos que a querem sempre do mesmo jeito. A ameaça? Gente que imagina faz vibrar a mais resistente rede de controle.

Encontraram entre os seus discípulos, amedrontados e fragilizados com as ameaças vindas do Templo, a fenda pela qual ferir Jesus. Há sempre trincas em um muro feito de gente, nossos assustados amores. Não precisaram de mais que um punhado de dinheiro para desmoronar a fortaleza idealizada dos amigos. A princípio, apostaram que seria o assustado falastrão, Pedro, ou os Filhos do Trovão, tão desejosos de expressão. Mas foi o impaciente Iscariotes, de tal forma confiado às facas, prontificou-se a precipitar a guerra, a empurrar o líder para a luta.

Sem traição, o poder nada realiza. Nele, precisam ficar pelo caminho tantos quantos custarem a autoperpetuação. Não se trai por Roma nem por Jerusalém. Trai-se para ter razão. Para não sentir-se um fracasso. Pelo gosto infantil de superar um concorrente. Para fugir do próprio pecado. Para calar o medo mais íntimo. Para quebrar o espelho à frente.

Nenhum dos amigos queria o mestre lá, preso e humilhado. Pedro não suportou olhar nos seus olhos, quando por azar se cruzaram. Tudo parecia dizer que também não era o plano de Judas, a guerra que queria não começou, mesmo com o Mestre encurralado pelo exército de Caifás. Jesus decepcionou a lógica do embate, resistiu ao poder negando-se as mesmas armas dos opressores. Preteriu a violência e Judas não suportou continuar vivo.

O corpo de quem faz os pobres sonharem com a dignidade tem que ser humilhado e macerado até o último fôlego. Nada é mais odioso que tentar tirar debaixo dos pés a gente pobre e maldita que pavimenta o caminho dos homens ricos. A violência que sofre Jesus é do tamanho do insulto que ele foi aos donos do tesouro do templo. A ViaCrucisé a epifania do poder. O espetáculo da tragédia humana.

Jesus é arrastado violentamente até o templo, de lá ao Palácio de Herodes, para enfim curvá-lo a Pilatos em seu Pretório. A engrenagem que mói a carne de quem ousa lutar pelos pobres e esquecidos é quase sempre a mesma, do sacerdote ao rei, do rei ao juiz, do tribunal à morte.

Não precisaram andar muito, de Herodes até Pilatos, o Pretório ficava no mesmo palácio. Ambos os governantes estavam em Jerusalém por causa da festa, por isso enchiam a cidade de soldados e deixavam a imagem de força bem polida.

O cortejo atravessou pátios, percorreu luxuosos corredores. E tudo era pétreo e frio como uma mentira mal contada. Jesus, vestido de rei, era o bobo da corte. O rosto deformado pelas bofetadas, os cabelos ensanguentados e colados na cabeça, ele tinha o cheiro azedo das longas torturas. O nazareno arrastou-se feio e indigno pelos lustrosos pisos palacianos. A porta orgulhosa se abriu e ele caminhou claudicante até Pilatos. Ficaram sós. E o inusitado aconteceu, nenhum dos dois parecia estar ali. Um encontro de ausências.

À parte dos sacerdotes e seus soldados, que permaneceram do lado de fora do Pretório, porque se pisassem ali, ficariam impuros para os ritos da Páscoa, Pilatos e Jesus respiram outros ares. A pureza dos religiosos é a ficção que fica para trás.

O romano não tem a quem mostrar-se poderoso, e o judeu fica livre para não responder às perguntas que já traziam sentenças. Pilatos desdenhava as razões e o mundo dos judeus e via diante de si a carne barata de um inocente desafortunado. E Jesus, ele não encenava a ficção que começara na casa de Caifás.

Pilatos olha longa e profundamente para o prisioneiro. Ali, longe da pureza dos piedosos e dos interesses inconfessos dos poderosos, ele não consegue ver o criminoso, enxerga o corpo frágil e carente. E aparece o homem.

Jesus não vê o Governador, vê se desmanchar o gigantismo de que a tolice humana é capaz. E aparece alguém com dúvidas.

A verdade surge.

Pilatos conversa com Jesus. E se eles se escutam é porque se ausentam das brigas, das acusações virulentas dos sacerdotes, dos gritos ensandecidos da multidão. Conversam em um intervalo de tempo, na narrativa suspensa. Quando as engrenagens da máquina descansam, os encontros se tornam possíveis.

Você é um rei, pergunta o duvidoso Governador. As palavras são suas, desliza Jesus. Mas depois de ofertar a Herodes um silêncio subversivo, as escorregadias palavras eram ali o mais credível ponto de contato. Nada é tão verdadeiro quanto a dúvida e a suspeita.

Toca-se a verdade quando se resiste aos insólitos jogos de poder.

Não faço parte desse mundo, meu reino é outro; não falo a língua dos inquéritos, não me distraio com retóricas, já morri para o grande simulacro que reúne essa multidão. Sou rei de um reino em que dominar pessoas e usar seus corpos é a pior mentira. Meu testemunho é da verdade, a que experimentam aqueles que não temem perder a própria vida, que não fazem de uma imagem de sucesso o seu maior amor, que não se importam em serem confundidos com os impuros e malditos, que aceitam a rejeição como prêmio e o ódio dos poderosos como sinal de confirmação. Eis a verdade de quem ama, encerrou Jesus.

Nesse instante, os seus olhos se perderam nos vãos das enormes janelas que circundavam o salão, por onde entrava o grito por crucificação, para em seguida encontrarem com clemência os de Pilatos, que mergulhara inerte em um longo silêncio.

O que é a verdade, Pilatos perguntou sem esperar resposta. Seu rosto caíra desalentado. O que é a verdade para uma multidão que vive de se empanturrar com imagens de força? O que é a verdade para esses sacerdotes que nada temem mais que as ameaças à arrecadação do templo? O que é a verdade para aqueles que preferem expiar suas culpas inventando vilões? O que é a verdade para quem faz do medo uma arma de dominação dos corpos? O que é a verdade para alguém como eu, o que é a verdade para um covarde, o que é a verdade para quem não consegue saber quem é sem essa patética farsa?

Pilatos deu as costas a Jesus, olhou com nojo as próprias mãos. E antes de voltar ao pátio e à multidão, pediu uma bacia com água e berrou impotente, o que é a verdade?


Depois de mais um importante dia,destes que a testa franzida não endireita mais,
que os olhos ardem mas não se fecham,

que o sol se põe, 

mas as palavras insistem acesas,

e de que a vida dói nem se esquecem

nem se calam.
Depois de tanta queixa, tanto medo, tanta dúvida,

em que os doentes se vão,

os moços acenam,

os velhos dizem adeus,

as mulheres dão as costas,

toda gente séria se vai,

mas ficam suas sombras,

pesadas,

duras,

tristes.
Depois de toda demanda,

toda palavra,

todo gesto,

todavia

ele suspira só.

 Em casa, mas sem pátria;

no chão, mas fora do mundo.

Sentado numa pedra, voa,

voam os pensamentos.

E por um instante duvida,

ignora as razões,

esquece o sentido,

não sabe ao certo o que o trouxe até ali.
Ouve-se o grito estridente da garotada.

Pelo som aflito, correm.

Afoitas e soltas,

intensas, lépidas.

Com os olhos esbugalhados, engolem mundos;

não respiram, ofegam.

Aproximam-se entre descuidos e cansaços,

os lapsos da tarefa,

destes que nos livram 

das certezas e seus zelos,

do empenho pétreo do trabalho sem fim.
Feito uma coluna militar,

adulta, austera, briosa,

os discípulos protegem o Mestre

da distração,

do destrambelho,

da molecagem,

da inutilidade dos brincantes.

Garantem que a vida siga 

produtiva

e onerosa 

e séria

e só.
E como quem se sente roubado,

aflito e revoltoso,

Cristo repreende a ordem,

suspende o juízo,

desorganiza a salvação

e entra na ciranda.

Perde o fôlego e o equilíbrio,

roda e gargalha feliz.

Não deixa que não o deixem rir.

E antes que termine de dizer que “não impeçam as criancinhas”,

é com cócegas que a menininha o devolve ao Reino.
Entre toques e canções,

afagos e risos

e um menino no colo.

Olha em seus olhos

e se espelha encantado;

se vê criança,

aquela que dormia esquecida,

o filho de um novo dia, 

que se deu como um bebê se dá;

inteiro, de tão frágil,

intenso, de tão faminto,

pleno de tanto futuro,

ao colo de tantos dramas.
O menino tem o hálito de tâmaras maduras,

o cheiro de doces memórias,

 da voz de Maria contando histórias pra dormir.

A dos visionários pastores,

dos presentes dos magos,

do colo inquieto de Simeão, 

das danças de Isabel 

e do falante silêncio de Zacarias.

Histórias de quem partiu de grandes sinais,

mas chegou a um mínimo bebê.

E chegou aonde tudo começa.

Que sem luz irradiou graça.

Que sua fraqueza suscitou reverência.

Que sem nada dizer, liderou sonhos.

Nada fez, mas tudo significou.
E antes que a brincadeira acabasse,

a poucos instantes da meninada partir,

afirmou aos discípulos o que nunca disse,

feito um escândalo,

uma heresia,

uma reviravolta,

a lição que nunca poderia ter esquecido,

quem quisesse por os pés no Reino dos Céus

teria que seguir os passos da criança,

a que brinca e sorri,

que por nada troca os afetos,

incalculável,

imprevisível,

inoportuna,

extemporânea,

livremente inútil,

a criança que Deus é.

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Sinto saudade de ter saudade.

Não sei ao certo quando meu corpo desistiu de me manter de pé. Mas sei que fui deixando de lado lentamente a capacidade de acreditar no trabalho, no dia, nas pessoas, nos amores, nos caminhos a seguir.

Foi devagar que a dor dos pensamentos migrou para os ossos, para os joelhos, tornozelos, cotovelos, para tudo que faz mexer uma vida. Fui parando porque tudo doía.

Escutar o barulho das crianças doía. Assistir às leituras da Lei e dos Profetas doía. O sabor da comida, o vento na pele, a pergunta dos curiosos, o conselho dos sábios, as receitas dos médicos, as broncas dos amigos, as pálidas soluções de sempre doíam.

O tom de voz piedoso doía. Os olhares, cenhos franzidos, gestos, lamentos; a misericórdia doía. A oração, a sinagoga, o fariseu, o mestre, a fé doía.

A dor empedrou meus desejos.

Deitei porque nunca mais dormi em paz.

Parei.

Nasci em Cafarnaum. Meus pais não. Chegaram aqui trazendo esperanças. O grande lago prometia ser um mar de prosperidade. O Galileia tinha cheiro de vida nova, de peixe, de saciedade. Foi a sua margem que erguemos as primeiras casas, pavimentamos as primeiras ruas. A sinagoga não demorou muito para ser construída. Era lá que garantíamos nossa salvação, a lei conhecida deveria encharcar as mentes dos meninos e pastorear gostos, decisões, os hábitos dos adultos. Lá recebi a fé que emoldurou meu mundo, que Deus dá a cada um o que merece.

Os primeiros anos contaram com o apoio dos romanos, ganhamos um Centurião, homem sério, mas generoso. O pão não faltava, o vinho era trazido de longe, material para fabricar os barcos e as redes era uma cortesia do Império. Ocupar a terra interessava aos poderosos.

Não demorou para chegarem mais estrangeiros, negociantes, mestres de novas disciplinas, gente de fé. Com eles vieram a alfândega e os coletores de impostos. Falava-se de muito dinheiro. E os que chegaram ricos, mais ricos ficaram. E os que trouxeram sua pobreza, foram desistindo da prosperidade que nunca acontecia. Vi meus pais murcharem aos poucos, feito tâmaras maduras. Cansaram aos 30, morreram não muito depois.

Acho que ganhei do meu pai o jeito luminoso de acreditar em coisas boas. Mas sinto em mim também a sombra que angustiava a alma da minha mãe. Eu oscilava entre o deslumbre de construir uma vida boa e a desconfiança lúgubre de que não era digno. Acostumei-me aos picos de entusiasmo seguidos por vales de desânimo, cada vez mais profundos e demorados.

Tornei-me um pescador, de dia, ofício do meu pai. E um sombrio notívago a desfiar melancolias noite a dentro, ofício secreto da minha mãe.

Entrava no lago com o barco cheio de fé, desembarcava repleto de peixe, mas chegava em casa com um punhado de dinheiro, que mal dava para o trigo e o leite. Cansado desde o começo, sempre duvidei do meu valor. Mas nada tentava deixar parecer à mulher com quem casei e às duas meninas sorridentes e carinhosas, filhas do meu amor. Depois que elas dormiam, chorava lágrimas ardidas. Sentia-me um fraco. Repetia a tragédia dos meus pais. Parece não haver lugar para gente como nós.

Cafarnaum era acelerada. Inclemente. Lugar para o sucesso inesperado e o fracasso imediato. Não havia tempo para a brisa fresca que vinha no fim do dia. Nada de conversas descontraídas, rodas de música, anedotas, risos. Todos tinham mais trabalho que tempo. Parar era pecado.

A sinagoga demarcava o espaço dos que triunfavam e o dos que fracassavam. O que pode tornar razoável a má sorte? Como explicar o fracasso? Era lá que as questões da vida infeliz ganhavam respostas que emudeciam vozes aflitas.

A impureza.

O demérito.

A transgressão.

Na casa da Lei chegava inquieto e partia culpado.

Não há benção para os que fraquejam na Torá, pecadores sob a ira de Deus. A pobreza em uma terra de ricos vira fácil nome de maldição, sinal de danação, fracasso na fé. Foi quando leram a história de Acã que aceitei minha desgraça. Nele se escondeu o pecado que a todos amaldiçoou. E calava um pouco. E morria um tanto.

Os muitos pecados que cometi desfilam na minha memória o tempo todo; tanto, que pecado é o que pareço ser. E na companhia das transgressões, choro amargo a culpa de não ser bom o bastante.

O êxito dos outros me acusa. Os olhares dos que assistem a minha pobreza confirmam a condição. Na Sinagoga, restam-me os últimos lugares. Tenho vergonha das meninas e de Marta, a quem já amei com uma força que há muito foi embora.

As noites tristes invadiram os dias. A culpa de existir sem êxito sequestrou qualquer energia. E o que era o cansaço ao fim do dia, de pescar, de não conseguir tanto peixe quanto se precisava; o cansaço de fazer mais do que podia e menos do que precisava virou um cansaço de viver. E de tanto parar enfraquecido sem poder carregar minha dor, foi a cama que me arrastou para o tombo do qual nunca mais me levantei.

Os médicos se revezaram tentando expulsar meus demônios. Os amigos se esforçaram nas explicações. Leram Jó. Recitaram os salmos. Eu só lembrava de Acã.

Foi quando falaram da febre da sogra do Pedro, pescador com quem sangrei o mar em busca de peixe. Contaram do escravo do Centurião. Ambos curados pelo ilustre galileu. Disseram que estava na cidade, em casa, e que todos correram para lá. Queriam me levar também. E o que fiz? Nada. Nem pensei nem me opus nem sorri nem murmurei. Permaneci jogado na cama que me restou.

Carregaram-me como a um defunto, de tão amortecido. Mas do cemitério para as ruas. Do fim para o começo. Foi o cortejo do desenterro. A bondade dos amigos queria virar do avesso minha tragédia. Chegando à casa, não havia janela pela qual olhar, menos ainda porta por onde entrar, tudo estava cheio com todos. O filho ilustre da Galileia é uma centelha de esperança na palha seca de miséria do povo. Gente demais. Você está com pena de mim? Sabe o que passou pela minha cabeça? Nada. Não havia mais tristeza possível.

Mas a generosidade dos amigos abre passagens surpreendentes. Ergueram-me até o teto. Destelharam a casa e impuseram-me a Jesus, descendo-me diante do mestre que nada mais dizia, boquiaberto. Olhei para ele e sabe o que eu vi em seus olhos? Nada. Ouvi o murmúrio inquieto de todos.

O cheiro azedo de tantas bocas respirando o mesmo e ansioso ar se multiplicou. Dava para escutar nas discussões e sentenças, a palavra que se repetia monótona e paralisante: pecador. Acho que ele também ouviu e ali entendeu o que me paralisava. Sabe o que disse o médico da sogra de Pedro? Nada. Muitos falavam, ele se calava. O silêncio dele usinava novidades; o meu silêncio seguia desistindo de tudo.

Alguns poucos minutos se passaram, mas parecem uma vida. E eu permaneço aqui, alheio, esvaziado, inerte. Um estorvo no meio da sala. O silêncio se mantém além do suportável. Inquietante. Mesmo eu, vazio e paralisado, fico incomodado. Não digo, mas tenho vontade. Fale qualquer coisa, penso. Ele me olha diferente agora. Parece ter algo a dizer. Todos percebem e silenciam.

Você está perdoado dos seus pecados.

Meus olhos lacrimejam e meus pés formigam. Senti na pele a palavra dita. Ainda não dei conta do que falou, mas sinto que meu corpo ouviu tudo o que precisava para acordar. Uma onda de calor percorre minhas pernas e braços. Suas palavras parecem mãos que me tocam.

Não me conformo com o labirinto de crenças em que todos entraram. Alguém lembra que só Deus perdoa pecados. Acusam-no de blasfemo e tenho medo. Porque sinto vontade de me levantar. Mas é melhor esperar um pouco.

Talvez apenas uma blasfêmia fosse capaz de contrariar a culpa que me paralisou. Parece que seu remédio é tirar de mim a fé que me exauriu. Será que só um blasfemo pode resistir ao poder culposo que controla e paralisa gente como eu?

Passa pela minha cabeça que parei de andar porque não há mais para onde ir, se Deus é do jeito que me disseram, aquele que me explica culpando. Só um blasfemo para apontar outra andança.

Estranho os que o condenam por me perdoar. Não se incomodavam com um homem paralítico e carregado de culpa. Mas têm escrúpulos com um homem sem culpa que pode carregar o próprio destino.

Olho para Jesus e sabe o que vejo? Nada. Nada do que esperava. Ele ri. Não vou dizer, mas penso ver o próprio Deus e ele gargalha. Como uma criança que ri de felicidade porque pregou uma peça nas demais. Muitos reclamam e eu continuo deitado, receio me levantar e causar ainda mais problemas.

Levanta, pega a sua cama e anda. Não seria o mesmo que dizer ‘você não tem culpa’? Ele diz essas coisas com a boca torta de quem acha graça.

Ai, ai. Chega. É o que vou fazer, é pelo que clama meu devolvido corpo, antes que a confusão me impeça. Estou com vontade de rir também. Olha a cara dos meus amigos. Mal conseguem esconder o riso.

A casa está dividida.

Há os que riem e os que preferem chamar a salvação de blasfêmia.

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Ele era incontornável. Seus olhos faiscavam desejosos. Sabia-se da obstinação em brigar pela liberdade. Admiravam-no ao mesmo tempo que o temiam. Judas tinha uma presença agridoce, fazia gravitar expectativas em torno de si, mas era conhecido como Iscariotes, porque já fora visto com os rebeldes empunhando facas.

Aproximou-se faminto de sonhos. Grudou seus olhos em mim com tanto apetite que não pude não retribuir-lhe com um sorriso acolhedor. Estávamos ali pela mesma razão, tínhamos uma só alma e ela era inquieta e esperançosa. Chamei-o pelo nome e ele arregalou os olhos surpreso por eu já saber quem ele era. Gastei dias entre os amigos colhendo nomes de gente que tivesse algo melhor que boa reputação; em busca de discípulos, queria cercar-me de perguntas, de atrevimentos, de desejos, de incômodos; fissuras em um mundo enfadonho, réstias em um reino de trevas. Desde que me contaram de Judas, esperei por ele como um agricultor aguarda as trovoadas de um tempo chuvoso.

Encontrá-lo fez bem a minha esperança. O moço era um acontecimento. Vocação nervosa. Ávido como a ideia que pulsava em mim.

Sem formalidades, perguntou-me pelo que se tornaria em seguida minha pregação mais pretensiosa, você acredita em um novo Reino? E que ele está entre nós. Mas todos têm medo e escolhem se esconder dos confrontos. Não vim trazer paz, mas espada e guerra. Sonhos sem conflitos adormecem. Chego como o ladrão no meio da noite, não quero acalentar dormências, quero acordar coragens. Toda coragem é incidental. O novo reino chegou, mas não para os covardes. Toda covardia é previsível. Seu olhar divagou, do jeito que acontece quando arregalamos os olhos para dentro da imaginação.

Depois dos ensinamentos, avisaram-me que faltavam ouvidos a Judas, disperso e apressado, parecia mais disposto a agir que a escutar. Desdenhei. Quem ouve o barulho da revolução por vir ensurdece um pouco para outros acontecimentos. Difícil ouvir ponderações quando se tem o grito da urgência ecoando na alma.

Enquanto todos dormiam, eu e Judas acordávamos sonhos em conversas intermináveis. Fez-me entender seu afastamento dos Sicários. Sentia que careciam da habilidade de reunir e inflamar o povo. Na última revolta, foi o que lhes faltou para o êxito, explicou. Depois de todo o sangue derramado, olharam para trás e estavam sozinhos. Não há revolta que perdure sem o envolvimento da multidão. Fez-me acreditar que eu reunia todas as possibilidades. Juntava as multidões e incendiava as mentes. Era amado pelo povo e temido pelos poderosos. Ouvido pela turba, meu evangelho assombrava o sinédrio e as sinagogas. Curava as gentes todas e adoecia de inveja os saudáveis piedosos e suas vidas cheias de exclusividades. Abraçar àqueles a quem ninguém tocava era um murro na pureza dos fariseus e sacerdotes. Seguido pelo povo, poderia esvaziar o templo e deslocar poderes. Acreditamos na reviravolta, quando a alvorada introduziu suas pálidas luzes no quarto. Judas apontou a estrela D’alva que piscava na janela, sorriu, apertou minha mão e sussurrou, é você.

O primeiro a chegar, o último a sair. Pragmático, calculava os gastos de cada jornada. Íntimos, molhávamos os bocados de pão no mesmo prato. Ao precisarmos escolher quem cuidasse do dinheiro, ninguém duvidou de que fosse ele o mais indicado. Nenhum de nós parecia tão comprometido com o custo da missão e a não desperdiçar cada oportunidade de juntar adeptos. Nenhum dos discípulos demorou tanto a entender porque preferi estar só e dispersei a multidão depois de alimentá-la no deserto. Sua paixão tornava urgente e guloso cada encontro com o povo.

Minha alma se afastou de Judas bem antes que ele desistisse de mim. Não demorou muito para descobrir-me outro. Para desencantar-me com aquele que viam em mim. Entediado, não queria mais ser o homem com quem todos vinham se empolgando, poderoso, multiplicador do pão e senhor dos milagres. Reli o Êxodo e os profetas e percebi que prodígios e entusiasmo não fizeram amigos para Deus e desconfiei do Messias da multidão. Passei a cultivar o prazer do anonimato e dos encontros discretos. Se outrora acreditei na revolução pelo poder político, se fiz da popularidade o sinal da salvação, agora duvidava de que outro reino pudesse ser realmente novo usando as mesmas armas dos que dominam as almas. Cada vez mais crente em uma nova humanidade, senti-me incrédulo com seus poderes, prédios e ajuntamentos. Mudei. E abandonei o homem a quem todos insistiam em seguir, o líder com quem Judas contava para tomar o poder com a força de quem ressuscita mortos e ajunta multidões. Os adeptos e o poder que os reúne são algemas e quem pensa ter a força de movê-los é escravizado sob o encanto de que lhe chamam de senhor.

Eu fui meu primeiro traidor.

Todos se escandalizaram, mas ninguém sofreu mais que Judas quando dispensei novos seguidores. Quando despedi para suas casas aqueles que socorri, ele não entendeu que queria para eles a liberdade que as multidões tiravam de mim. Vi seus olhos outrora intensos tornarem-se opacos e fugidios. E quem sentava-se ao meu lado passou a se esgueirar pelos cantos mais sombrios. Foi a Pedro que chamei de pedra de tropeço quando tentei explicar quem eu não queria ser e também a ele que chamei de diabo e pedi que se afastasse de mim, mas foi Judas quem baixou a cabeça. Sua presença tornou-se uma ausência.

Em um dia de exótica beleza assisti a sua vulgaridade. Quando o amor de Maria desnudou a frieza de todos. Eu precisava falar sobre a trama urdida para a minha morte e todos preferiam tergiversar sobre banalidades. Ela invadiu a sobriedade cosmética dos homens, parecia dançar, quebrou o caríssimo vaso doado pelas mulheres ricas de Betânia e derramou todo o perfume sobre minha cabeça. E eu deixei e os homens se constrangeram e Judas perdeu-me de vista. Suas palavras, tão sensatas e piedosas soavam secas e desalmadas. Lamentou sem sentir tristeza pelos pobres que poderíamos socorrer com o dinheiro do perfume, mas foi a mim que barateou com sua indiferença. Eu não estava mais ali. Olhou-me, mas nossos olhos não se encontraram mais. Eu já havia morrido para Judas. Então compreendi que Maria embalsamava-me porque me via morto naquela sala.

É preferível matar no coração aquele que se recusa a ser o esperado.

É preciso matar no coração aquele a quem se pretende dar as costas.

Judas foi visto na casa de Caifás. Contaram-me que tramara com os chefes religiosos me entregar aos soldados do Templo. Eis a mais amarga experiência, tornar-se repulsivo para quem um dia se foi amável. Judas culpou-me por ser outro. Demonizou-me para desistir em paz. Era como se fizesse a coisa certa; se não uma vingança, a justiça. O Diabo esconde-se em justas medidas.

Porque traí suas expectativas, ele traiu minha liberdade. Porque traí o seu sonho de poder, Judas traiu o que restou de nós, o amor.

Reuni os amigos para sobreviver à angústia. As horas pareceram dias até que nos juntamos todos à mesa. Judas sentou-se ao meu lado sem perceber que repetia o hábito de um amor que não mais havia, mostrou-se deslocado. Mas com olhos convictos de tão diabólicos. João e Tiago discutiam seus poderes em um Reino que jamais existiria e pareciam resistir ao único no qual poderiam me encontrar, o das desimportâncias, o dos que desistem das aparências para escolher os afetos. Tentei inútil tirar-lhes o peso das exigências, avisei que nenhum de nós estava pronto para a dor da derrota, que se perderiam de tão frágeis, para se encontrarem depois, quem sabe, mais inteiros. Pedro preferiu esconder-se em promessas e falsas esperanças, dizia ser o único a não me trair. Segurei suas mãos, olhei em seus olhos e avisei-lhe que o amor também cansa e se confunde, que suas promessas de fidelidade não acordariam junto com o galo.

Não me espantei ao descobrir que havia ali mais diabos que um Judas pudesse dar conta. Ao denunciar que estava entre eles aquele que me traíra e por quem seria entregue nas mãos dos poderosos, todos se entreolharam sinalizando culpas, pareciam tentar verificar se já haviam sido descobertos.

O diabo mora na pessoa que tememos que todos descubram que somos.

Judas aparentava lutar com as próprias ideias. Pude ouvi-lo tentar consolar Tomé desmantelado com a proximidade dos soldados. Dizia acreditar que minha prisão poderia ser uma amarga solução, que o povo acordaria com tamanha injustiça e se rebelaria; neste instante, vi que me olhou rapidamente e sussurrou algo que só depois Tomé me contou, que eu também despertaria da minha covardia para assumir meu papel de Messias.

A traição torna-se perversa quando não desiste de uma fé que desistiu do amor.

Entre diabos, era preciso exorcizar a mesa. Avisei que aquele que me vendera aos chefes religiosos dividia sonhos comigo como quem divide o mesmo prato. Neste momento, Judas mergulhava um pedaço de pão no meu prato cheio de molho. Apressou o bocado à boca e desvelou sua trágica insaciedade. Abandonou a mesa e encheu-nos do vazio que jamais conseguiremos superar. O desespero de quem ama é nunca cicatrizar a ferida, o absurdo sempre sangra, sempre fere.

Saí de lá há algumas horas e o seu olhar não saiu de mim. Pai, sinto-me terrivelmente só. Parece não haver os amigos a quem confiei minha alma. Não ter sido quem queriam foi imperdoável. Não consigo condenar o obstinado Judas, nem a Pedro, João e Tiago que dormem para não despertar o ressentimento. Rogo-te por eles. Também nós traímos sua fé. Também eu traí o sonho de Judas. Traímos nossos traidores para que o amor fosse possível e sua atordoante e ingrata liberdade.

Pai, não me sinto menos confuso que Judas. Nem menos instável que Pedro. Resistirão a essa dor que nem eu consigo suportar? Quem sabe, se fosse possível, também eu fugiria desta aflição que queima dentro de mim? Já posso ouvir os passos dos que me levarão. Se a tua vontade é esta ardida liberdade, que seja feita e que venha o amor e todas as suas salvações.

Judas? Não esperava te ver mais uma vez. Com um beijo, amigo? Espere, aonde você vai? Não corra. Não desista. Eu não desisti.

Pedro, orei por você para que também não desista. Confirme meu amor por Judas. Alguém lhe diga antes que seja tarde, também eu o traí.

MEDO DE VIVER

 A música composta por Gainsbourg pode ser uma redentora desmistificação do suicídio e da loucura, marcas fortes do nosso desespero. Ambas ideias vizinhas, suicídio e loucura, por serem muito temidas. O suicida é um desconhecido, um totalmente outro; quem tenta se suicidar não é suicida, só o é aquele que já está morto, logo não pode mais ser, portanto, um desconhecido. O louco, também; o outro da nossa racionalidade, a racionalidade normalizada. Também o louco nos aflige, pois se o conhecemos já não é mais tão louco assim, ou nós o somos e já não podemos mais traduzi-lo à razão “normal”. No show de Ana Carolina e Seu Jorge, parece ser uma catarse, uma confissão coletiva do que nos apavora. E nada alivia mais o peso de um medo que falar sobre e com o deboche, desmistificá-lo. Veja:

Chatterton

(Serge Gainsbourg)

Chatterton, suicidou

Kurt Cobain, suicidou

Vargas, suicidou

Nietzsche, enloqueceu

E eu, não vou nada bem

Chatterton, suicidou

Cléopatra, suicidou

Isocrátes, suicidou

Goya, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

Chatterton, suicidou

Marc-Antoine, suicidou

Van Gogh, suicidou

Schumann, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

O suicídio parece ser o mais radical ato humano. Afinal, implica em um encerramento definitivo dado pelo próprio indivíduo a sua vida. Até o suicídio, a vida é inevitável e a morte, um destino ineludível. Com o suicídio, somos obrigados a assumir a vida e administrar o evento da morte. Mas a palavra vem carregada de moralismo. Seja o religioso, seja o moralismo triunfalista do nosso tempo. E todo moralismo é fuga de uma angústia.

Repelimos o suicídio talvez porque seja o gesto do outro que enfraquece o nosso. Alguém desistiu da vida, a ponto de abreviá-la ou antecipar a morte. E isso enfraquece nossa valorização da vida. A religião moraliza o discurso com o dogma do pecado e tenta frear o medo de viver com o medo de morrer. Já que a morte do pecador é a porta de entrada para um eterno inferno. Nenhum moralismo é eficiente sem uma promessa de céu e uma ameaça de inferno.

André Comte-Sponville, em seu Bom dia, angústia, nos ajuda a desmistificar o suicídio e aponta alguns caminhos de reflexão para o enfrentamento do medo e da angústia. Para o filósofo francês, o suicídio não pode ser visto como uma morte voluntária, afinal, todos estamos obrigados a morrer. Veja o que diz:

A expressão “morte voluntária” é equívoca. O suicida não escolher morrer (é uma escolha que não se faz: cumprirá morrer de qualquer maneira), mas morrer agora. Quantos fariam essa escolha, se pudessem escapar ao nada? Quantos adiantariam a hora de sua morte, se pudessem jamais morrer? Lucrécio já havia percebido – antes, talvez, de suicidar-se ele mesmo – que é a assustadora certeza do falecimento que deixa a vida odiosa a muitos, a tal ponto, às vezes, que eles se matam para escapar afinal à angústia que ela lhes inspira… [1]

            Mas antes de percorrer o caminho do suicídio em busca dos dramas escondidos sob a cortina da melancolia, dos acontecimentos e suas condições de possibilidade da escolha por antecipar a morte, também é Sponville que nos ajuda a olhar para o suicídio sem a roupagem moralista. Para Sponville, usando o pensamento de Epicuro, o suicídio é necessário para que a vida seja boa, para que a vida valha a pena. Afinal, eu não posso escolher não nascer nem não morrer, mas posso escolher continuar vivo, não adiantando a própria morte.

Se o suicídio é uma possibilidade, a minha vida passa a ser minha responsabilidade. A possibilidade do suicídio é a potencialização da minha liberdade. Não escolhi nascer nem os pais e a carga genética que deles recebi. Não optei pelas condições sócio-políticas nem pela língua com a qual cheguei ao mundo. Não fui educado segundo minha vontade. E tudo isso que não escolhi se combinou aleatoriamente para forjar muito de quem eu sou, desejos, medos, cosmovisão, cultura, gostos. Faço, sinto, reajo, desejo, temo um monte de coisas de um modo que contraria o que eu chamo de minha vontade. Sobra-me muito pouco para decidir, liames, réstias, fiapos de vontade. Por que me considerar responsável pela vida? Por que concluir que a vida que eu tenho é a minha vida? O suicídio é uma das razões, enquanto possibilidade. Nunca como realização.

Se não me suicido, vivo. Se vivo é porque poderia me suicidar, mas escolhi continuar vivo. O suicídio é uma possibilidade que intensifica a minha vida. Uma porta aberta que me faz responsável por continuar dentro da casa. Mas para o filósofo francês, uma possibilidade que não é sábio acessar, porque acessar é o remédio errado para a angústia.

Para Epicuro, nada justifica o suicídio, senão a decisão corajosa de antecipar a morte. Para ele, a vida oferece possibilidades de prazer maiores que as de infortúnio e bastantes para que a angústia a torne insuportável. Mas sabemos que existem outros acontecimentos em torno da depressão e do suicídio que precisamos conceber com cuidado.

Há na depressão e na angústia um nível de gravidade possível, que a intervenção profissional de medicamentos é necessária. Mas há também camadas e camadas de ignorância e distorção que precisam ser cavadas com reflexão para chegarmos à melhor compreensão do que aflige nossa existência, de nossas angústias.

Para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, “a angústia é vertigem da liberdade”. Somos expostos tão radicalmente às diversas possibilidades de viver, sem qualquer garantia de qualquer delas, sob o risco do infortúnio ou do desperdício, sob a pressão de escolher a melhor delas, que a angústia é o seu sintoma mais evidente.

Sartre repete o conceito kierkegaardiano em seu O existencialismo é também um humanismo. Para o filósofo existencialista francês, nada determina completamente quem nos tornamos, fazemos escolhas necessariamente. Estamos “condenados à liberdade”. Se nos distraímos, escolhemos. Se não optamos, também escolhemos. Se exercemos o poder de escolha ou se nos omitimos, escolheremos sempre. A angústia é assim um índice dessa condição existencial; para Heiddeger, estamos jogados no mundo, portanto, expostos e vulneráveis, eis o que nos aflige.

Nascer é uma angústia e morrer também, afirma André Comte-Sponville. A angústia de nascer é a do estranhamento do mundo e já a percepção do que nos ameaça, a morte. Imediatamente após nascermos enfrentamos a morte. A cada perda, conflito, doença, fome, cansaço, saudade, insegurança, desencontro são experiências com a morte, com a finitude. A morte pontua nossa insuperável finitude e isso nos apavora. Viver é ter medo. Ter medo, logo, não é o nosso problemas, talvez até a nossa solução, à medida que indica o quão a sério levamos a vida. Nossa crise é quando temos medo do medo, angústia pela angústias que viveremos.

É Lenine quem canta bem a nossa angústia, ou se preferir, o nosso medo de medos. “Medo que dá medo do medo que dá”. Certamente está aqui o nosso adoecimento, ou a nossa crise, medo do medo. Angústia pela angústia.

Miedo

Lenine

Tenho medo de gente e de solidão

Tenho medo da vida e medo de morrer

Tenho medo de ficar e medo de escapulir

Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar

Tenho medo de esperar e medo de partir

Tenho medo de correr e medo de cair

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo

O medo é uma casa aonde ninguém vai

O medo é como um laço que se aperta em nós

O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar

Tenho medo de amarrar e medo de quebrar

Tenho medo de exigir e medo de deixar

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia

O medo é uma armadilha que pegou o amor

O medo é uma chave, que apagou a vida

O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo

Medo de dobrar a esquina

Medo de ficar no escuro

De passar em branco, de cruzar a linha

Medo de se achar sozinho

De perder a rédea, a pose e o prumo

Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão

O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo

É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina

O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara

Medo de encarar

Medo de calar a boca

Medo de escutar

Medo de passar a perna

Medo de cair

Medo de fazer de conta

Medo de dormir

Medo de se arrepender

Medo de deixar por fazer

Medo de se amargurar pelo que não se fez

Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H

Medo de morrer na praia depois de beber o mar

Medo… que dá medo do medo que dá

Medo… que dá medo do medo que dá

            A entrevista de Pascal Bruckner[2] à Folha de São Paulo, em outubro de 2014, por ocasião de uma palestra sua no Fronteiras do saber, o filósofo francês fala sobre a sociedade da felicidade que vira também a do desespero e da angústia. Separei dois trechos da boa conversa que teve o filósofo em solo brasileiro:

Em Fracassou O Casamento por Amor?, o senhor diz que a expectativa atual do amor perfeito mina as relações conjugais tanto quanto, no passado, matrimônios arranjados solapavam sentimentos. Ainda se idealiza tanto o amor?

Pascal Bruckner: Vivemos uma mistura de romantismo agudo e consumismo sexual exacerbado, uma era em que amamos a ideia do amor acima de tudo. Cobra-se que a mulher seja uma amante ensandecida mas também exemplar mãe de família, profissional bem-sucedida, culta, sadia. E o homem deve ser igualmente um virtuose do sexo, bom no trabalho, pai amoroso, sujeito engraçado. É óbvio que isso conduz a um esgotamento, porque o amor é submetido ao regime da performance.

Esse amor do amor faz com que abandonemos uns aos outros assim que advém qualquer decepção. Esquece-se que amar é aceitar as fraquezas do outro e as nossas próprias, construir algo ao longo do tempo, à base de falhas, oscilações, mudanças de intensidade do sentimento. Pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exigência passional. Submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto, um deus implacável. Isso é desumano.

Em A Euforia Perpétua, o senhor afirma que a promessa de felicidade terrena inaugurada pelo Iluminismo foi deturpada nos anos 1960. Por quê?

Pascal Bruckner: A felicidade virou não mais um direito, mas um dever. Os anos 1960 e sua revolução individualista estenderam as regras de mercado a setores até então impermeáveis a elas: a intimidade, a sexualidade, a espiritualidade, o bem-estar. Essa incitação à felicidade nos fez seres extremamente ansiosos. Temos medo de não estar à altura dos ideais que fixamos para nós. A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia.

Deveríamos então nos contentar com pequenos prazeres e alegrias efêmeras, como o senhor diz no livro?

Pascal Bruckner: É preciso fazer com que as pessoas se sintam menos culpadas por não serem felizes o tempo todo. Para substituir essa obrigação, proponho o reinado da paixão. Felicidade, como dizia Charles Fourier [filósofo francês, 1772-1837], é ter várias paixões e diversos meios para saciá-las. A felicidade é da ordem da graça, e não da do trabalho. Essa incompreensão é a base da neurose americana. Nesse sentido, se há uma sabedoria europeia, ela reside justamente no ceticismo, no entendimento dos limites do homem, o que não impede que se viva uma cultura de prazeres.

Vivemos em uma cultura em que a felicidade deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação moral. O novo moralismo, e todo moralismo é desastroso. O moralismo hedonista, nele, parecer feliz é uma imposição social. Não temos o direito da infelicidade. O infeliz é um fraco. O moralismo da felicidade.

Dentro desse novo moralismo, Elisabeth Roudinesco[3] fala sobre o paradigma da depressão e a cultura dos antidepressivos. Tudo é depressão e é tratado com antidepressivo. Obesidade. TPM. Irritabilidade. Insônia. Medo. Agitação. Problemas de aprendizagem. Numa cultura assim, não estamos preparados para lidar com as incontáveis fraquezas.

No moralismo da felicidade, ser (parecer) forte é uma obrigação. Por isso somos medidos o tempo todo pela produtividade, desempenho, posse, consumo, prestígio, poder e prazer. Gente que não produz é imoral. Gente fraca é indigna.

Mas qual a crise? É que somos medo e fraqueza. E qualquer movimento e negação dessas condições é uma usina de deprimidos e suicidas, seja a religião, ou a cultura dos antiansiolíticos e antidepressivos, ou a cultura do sexo e do álcool.

Gosto de pensar o amor não como virtude. Se é virtude, perde-se na oposição ao poder ou ao egoísmo. Penso o amor como uma condição existencial. Somos amor, à medida que o amor é esta abertura nervosa ao outro, somos suscetíveis, permeáveis, carentes. O que acontece no mundo nos afeta sempre. Quem o outro é me toca. O olhar do outro importa no olhar que tenho de mim. O amor é uma fraqueza, pois não sou sozinho; porque o outro me perturba; porque sofro no mundo.

A sociedade do moralismo da felicidade se torna um fardo cruel. Sob a idealização de uma pessoa, de um amor, de uma carreira que nunca alcanço, desenvolvo a angústia desnecessária e fatal, a angústia pela angústia. O medo do medo. Afinal, o moralismo da felicidade faz do prestígio e da independência o ideal de humanidade, mas eu me sinto com frequência solitário e desamparado. Fantasia que o homem forte sabe que é, mas me sinto vazio e despreparado algumas vezes. Sugere que pessoas felizes tem relações e conquistas duradouras, mas sinto que tudo é impermanente e muitas vez perco e fracasso.

A resposta mais sábia sempre será o enfrentamento da realidade. E o ponto de partida é o reconhecimento da ilusão. O próximo passo será o acolhimento das possibilidades. E aqui reside o perigo. De subestimarmos as possibilidades com uma preguiça entreguista, com um covardia passiva e negativa. A alternativa é o acolhimento criativo. Ou o acolhimento gracioso. A partir da aceitação realista de que sou fraco, que possibilidades posso inventar para viver?

A fraqueza pode ser prodigiosa e criativa. E essa é uma concepção da Graça mais que do trabalho. O trabalho pode sugerir a fantasia de que tudo é feito pela força. A graça, ao contrário, sabe que nada é feito por força, mas a partir da fraqueza. Para o cristianismo, “quando estou fraco é que sou forte, e quando sou forte, fraco”.

É possível pensar na fraqueza não como um ponto final, mas uma vírgula. Não como um substantivo, mas uma conjunção adversativa, um porém, um entretanto, todavia. A fraqueza pode ser abertura para a novidade. A fraqueza pode ser flexibilidade.

A fraqueza também pode ser um niilismo positivo. É de Nietzsche a ideia do niilismo, tantas vezes mal interpretada. Do latim nihil, nada. O niilismo é um processo de descoberta do vazio, da precariedade, da fraqueza. Mas um vazio que potencializa, um vazio para a potência da vontade. Desistir das expectativas, desarmando a infelicidade. Diria Nietzsche, esperar menos, amar mais.

A fraqueza inventiva e graciosa é a chance de não termos medo do medo, porque o reconhecemos como um princípio de validação da própria vida. A vida é pra valer, por isso tememos. A chance de não termos angústia pela angústia, porque desistimos de uma existência sem dor, sem decepção, sem fraqueza, sem perda. Desistimos da invulnerabilidade e descobrimos que as perdas podem ser ganhos, “entretantos” que ampliam as possibilidades.

Assumir a fraqueza é não se angustiar por ter angústias, não ter medo de ter medo. Não sofrer por sofrer. A fraqueza dá ocasião ao improviso corajoso. Talvez aqui, uma chance maior de não sucumbir às frustrações com a vida que podemos viver.

(Palestra proferida para a turma de Direito e Filosofia, na FANOR Devry, em 17/06/2016)

[1] COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Pág. 79.

[2] Pascal Bruckner: “A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia”

por Folha de S.Paulo/Lucas Neves – 12.10.2014 | Pascal Bruckner | #Filosofia , #Sociedade

 

[3] ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Pág. 17.

A cara da poesia

A poesia não é uma arte nem um ofício, é um olhar. Aliás, um outro olhar para o que sempre foi visto, mas pouco percebido. Primeiro você vê como quem ama, só depois, poesia.

Os poetas gregos sempre mexeram comigo. Poucas vezes ouvi seus poemas, mas suas odisseias cheias de heróis, suas frases repletas de lógica provocavam em mim um estranho desejo, ainda que fossem quase que incompreensíveis para um pescador. O som das palavras combinavam como as danças das mulheres. O modo como eram ditas fazia parecer uma canção, descrevendo amores e tragédias, guerras e bravuras, mulheres muito amadas, homens de que nada pareciam sentir medo. Mas tanta beleza dava-me sempre a sensação de distância. Sentia-me indigno, um estranho.

Até que a palavra chegou perto. Uma aparição. Quando a palavra acontece, todas as demais parecem sumir, como as águas encolhem na maré anunciando a inundação. O silêncio é o recuo de quem se espanta e não consegue capturar tanta graça.

Ele era um mestre. Há muito se falava dele e de suas doutrinas ensinadas em prosa. Aproximou-se como um poeta que procura novos versos, com o olhar de quem busca outras versões. Meu irmão explicou, o rabino está atrás de discípulos. A hora era feia, estávamos exaustos e frustrados. Pescamos à toa toda a noite e nas redes só algas e liquens, as mortalhas do velho Galileia. O sol que nascia morria nossas esperanças. Olhou-nos como quem tem a notícia mais aguardada e não viu nosso cansaço nem nosso pavor de trabalhar em vão. Não viu a fronteira de nossas incredulidades, mas o início da surpresa. No fim, viu nosso começo.

Disse a Pedro com o tom de quem sabe para onde vai. Lancem as redes para o outro lado. E apontou sem sequer conferir nosso desprezo pela ideia. Pedro, casmurro, resmungou amarguras. Lanço porque obedeço. Pensei que era um desafio, desses exercícios de obediência incondicional dos escribas do deserto. Puxei a rede com desdém e quase sou puxado para o mar. Fizemos força juntos, um esforço que há muito não fazíamos, tão pesada e promissora ficou a rede, foi quando deu pra ver os peixes cintilando à luz do sol. Meus olhos embaçaram e tudo brilhava como em uma visão. Nada era, tudo dizia. Ouvia longe as vozes de todos. Não via mais o velho lago, nem os peixes, nem os barcos e seus pescadores. Eu via um sonho. Eu imaginava uma vocação. Eu desejava um mundo.

Voltamos à praia e Pedro se largou prostrado aos seus pés. Ele o ergueu com ternura e compreensão. Desdisse nosso tédio, rearranjou as palavras da nossa sina, falou que nos queria como pescadores, mas de gente. As palavras podem dizer tudo do mesmo modo, ou insinuar novos e incontroláveis sentidos.

Desde ali não desperdiçava mais suas conversas. Sabia que a cada vez que ele abria sua boca, eu poderia estar diante de novos acontecimentos. Ele não perdia tempo com explicações sem fim, preferia deixar-nos com perguntas a acalmar-nos com sentenças. Se o cercávamos com problemas, espalhava nossa imaginação com histórias e enigmas de tirar o sono.

Ainda hoje preciso me empenhar para lembrar o que aconteceu mesmo e o que foi só uma história contada pelo Mestre. Ele contava as histórias que vivíamos, nossos casamentos, pescas e semeaduras, dívidas e perdões, temperos e ceias; cada experiência nossa, opaca e insignificante, muda e rotineira, ganhava palavras, voz, cor; a cozinha da boleira anunciava a revolução do Reino, e no bolo, o amor é o fermento que transforma invisível a vida, de dentro para fora; a semente descuidada no chão duro da estrada, desperdiçada no mato, mas jogada no solo adubado, desenhava o retrato de uma graça que de ninguém desiste, para um dia florescer.

Foi proseando nossas vidas que ele rompeu as fortalezas desumanas da religião, se a história é de amor, o detestado samaritano é seu protagonista inusitado e para desnudar a mentira da fé, flagrava religiosos ocupados demais com o templo para ao aflito perceber no chão áspero da estrada.

Ainda sinto vergonha dos fariseus quando ele descreveu a oração que encontra o divino; lado a lado, o pomposo fariseu e o culpado publicano já seguiam com suas sentenças, todos pareciam já saber o fim da prosa, mas para o poeta o que é não é para a maioria das pessoas e o que todos negam pode ser a mais tocante afirmação. Do piedoso fariseu desnudou sua mentira na oração que para sentir-se no céu ao publicano jogou no inferno. E o coletor de impostos, listado entre bandidos, vergonha da nação, desmantelou-se humilhado, mas seu desespero mostrou-se humildade e coragem e quem foi a Deus carregando o inferno, desceu do templo com o céu sob os pés.

Seus gestos palavreavam sangrando mentes e corações. Se os mestres da Lei traziam a dura escrita e com ela esmagavam a mulher esfarrapada em seus erros, ele se agachava preguiçoso e rabiscava desimportâncias no chão. A vida não cabe em escrita alguma. Ela é o texto, frágil traçado; não o escrito, mas o ainda por escrever, indômitas letras do porvir. Se reclamam uma sentença, ele sugere uma dúvida, a mais atordoante: quem nunca errou que tenha a inclemência da primeira pedra. Como é fácil juntar pedras nas mãos quando se tem a lei no lugar de uma alma. Como é fácil caírem as pedras das mãos quando se tem uma alma no lugar da lei. Deu para ouvir a vergonha das pedras despencando suadas das mãos de todos. Eu ouvi o mestre perguntar à mulher pelos acusadores como quem convida quem fora cego a olhar o mundo pela primeira vez. A mulher engasgou com tantas palavras que poderia dizer, mas que nada explicavam. Como é bela a poesia de quem se cala porque as palavras se tornam impotentes.

Foi tocando a pele esquecida do leproso que o poeta contou a versão mais inesperada da vida. Aquele homem esquecido do lado de fora do mundo, para que a ninguém lembrasse que a vida também fede, que existir também é fadiga e doença, o Mestre fez mais que ouvi-lo, muito antes de curar seu corpo das purulentas feridas, ele o curou do esquecimento de todos, ele o tocou. Seu toque foi a inversão da letra. Desde aquele dia, impuros não são os que não podem ser tocados, mas as mãos de quem desiste de amar.

Em Jerusalém, descobrimos que a poesia não mora na opulência nem nos espaços privilegiados; que o realmente belo está nas ruas, do lado de fora dos palácios e do templo. Mal entrávamos na cidade santa e o cheiro azedo do sangue já embrulhava o estômago, eram milhares de bois, bodes, ovelhas e aves que eram mortos e sacrificados no grande Templo de Herodes; e o generoso Rei construíra um prédio, dizem, quatro vezes maior que o de Salomão. O Templo parecia uma cidade dentro da cidade. O exército de levitas bem armados protegia as portas para que ali não entrassem desvalidos, defeituosos, nem crianças, nem velhos, nem mulheres, letras mortas para o texto da lei. Todos os homens de bem corriam para lá, menos o poeta.

Achávamos estranho, mas ele se inspirava na periferia de Jerusalém, os arredores do templo tinham mais graça e com aqueles de quem os poderosos tinha desistido, ele compunha a mais surpreendente canção. Chegamos ao Betesda, o nome já era feio de cara, Casa de Miseráveis. Era um dos tanques de água que alimentava um sofisticado sistema hídrico. Ao redor se juntavam todos os malditos que ao Templo não podiam ir. Suas águas se moviam a cada ciclo de tempo, quando eram impulsionadas para o tanque seguinte. As águas passavam por ali em direção ao lugar onde nenhum daqueles homens e mulheres poderiam por os pés. Mas seu desespero criou uma crença, e toda crença filha de um pavor produz perversidade ainda maior. Acreditavam as aflitas almas que as águas se moviam porque um anjo as mexia. E quem dos miseráveis fosse o menos miserável, o miserável mais rápido, o miserável mais sortudo e se jogasse primeiro nas águas, era curado, criam. Adivinha. Ninguém sabia nunca quem primeiro chegava e nunca ninguém saía dali, esperando que o milagre um dia lhes encontrasse. Ele se misturou àquela gente. Descobriu um que já nem se lembrava há quanto tempo estava ali. Um paralítico. Perguntou se ele queria ficar bom. Mas o homem também estava paralisado pela crença, repetiu a ladainha do anjo e reafirmou sua má sorte de nunca chegar a tempo nas águas. E nem percebeu que um novo tempo estava sendo anunciado. O mestre o levantou do chão como quem junta palavras gastas para contar uma história nunca contada. E o texto da esperança saltou para a vida até perder de vista quem escreveu o primeiro verso.

Todavia, ninguém desdiz a versão de sempre sem pagar um alto preço. Sua vida foi Deus dito de outro modo. Seus passos foram a gramática de outra humanidade possível. Ele não interpretou a lei, ele a transcendeu, foi além das letras de sempre, experimentou suas entrelinhas e virou a fé ao avesso. Ele encarnou o que nunca ninguém teve coragem de dizer. Julgaram-no porque é mais fácil chamar de blasfêmia que seguir as palavras que sopram ávidas pela novidade. Surraram-no porque não suportaram a violência de quem inverte mundos com a força da beleza. Prenderam-no porque sua liberdade ameaçava revelar a prisão de alma dos que se acovardaram diante da vida. Mataram-no porque esqueceram que as palavras são sementes, como o grão de trigo, que uma vez mortas viram tantas outras palavras, e possibilidades, e versões, e vidas, muitas vidas.

Agora ele está aí, o mais infame dos homens, erguido na maldita cruz dos romanos. E eu aqui lembrando de tudo isso, numa mistura de dor inconsolável e estranha gratidão. Ao meu lado, essas mulheres a quem tanto amou gritam, gemem e choram, não sabem o que fazer com a perda. E eu estou escandalizado comigo mesmo. Porque o que vejo é mais que um corpo que morre, mas um texto que sangra, de quem viveu como a mais vertiginosa poesia escrita entre humanos. E tenho a mesma sensação que ele me deu em outros tempos estranhos, de que há muito mais por dizer, de que o não dito está por acontecer. Será isso então o Reino de Deus? O ainda por contar? O belo é o inaudito? O inédito é graça?

 

Eu vejo o Filho de Deus. Eu vejo a palavra que sangra. Eu vejo a vida que verte.

“Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra. A Palavra era Deus, desde o princípio à disposição de Deus. A Palavra tornou-se carne e sangue, e veio viver perto de nós. Nós vimos a glória com nossos olhos, uma glória única: o Filho é como o Pai, Sempre generoso, autêntico do início ao fim.” (Jo 1.1-3,14)

 

Quem me segue que também eu não o siga?

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