MEDO DE VIVER

 A música composta por Gainsbourg pode ser uma redentora desmistificação do suicídio e da loucura, marcas fortes do nosso desespero. Ambas ideias vizinhas, suicídio e loucura, por serem muito temidas. O suicida é um desconhecido, um totalmente outro; quem tenta se suicidar não é suicida, só o é aquele que já está morto, logo não pode mais ser, portanto, um desconhecido. O louco, também; o outro da nossa racionalidade, a racionalidade normalizada. Também o louco nos aflige, pois se o conhecemos já não é mais tão louco assim, ou nós o somos e já não podemos mais traduzi-lo à razão “normal”. No show de Ana Carolina e Seu Jorge, parece ser uma catarse, uma confissão coletiva do que nos apavora. E nada alivia mais o peso de um medo que falar sobre e com o deboche, desmistificá-lo. Veja:

Chatterton

(Serge Gainsbourg)

Chatterton, suicidou

Kurt Cobain, suicidou

Vargas, suicidou

Nietzsche, enloqueceu

E eu, não vou nada bem

Chatterton, suicidou

Cléopatra, suicidou

Isocrátes, suicidou

Goya, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

Chatterton, suicidou

Marc-Antoine, suicidou

Van Gogh, suicidou

Schumann, enloqueceu

E eu, não vou nada nada bem

O suicídio parece ser o mais radical ato humano. Afinal, implica em um encerramento definitivo dado pelo próprio indivíduo a sua vida. Até o suicídio, a vida é inevitável e a morte, um destino ineludível. Com o suicídio, somos obrigados a assumir a vida e administrar o evento da morte. Mas a palavra vem carregada de moralismo. Seja o religioso, seja o moralismo triunfalista do nosso tempo. E todo moralismo é fuga de uma angústia.

Repelimos o suicídio talvez porque seja o gesto do outro que enfraquece o nosso. Alguém desistiu da vida, a ponto de abreviá-la ou antecipar a morte. E isso enfraquece nossa valorização da vida. A religião moraliza o discurso com o dogma do pecado e tenta frear o medo de viver com o medo de morrer. Já que a morte do pecador é a porta de entrada para um eterno inferno. Nenhum moralismo é eficiente sem uma promessa de céu e uma ameaça de inferno.

André Comte-Sponville, em seu Bom dia, angústia, nos ajuda a desmistificar o suicídio e aponta alguns caminhos de reflexão para o enfrentamento do medo e da angústia. Para o filósofo francês, o suicídio não pode ser visto como uma morte voluntária, afinal, todos estamos obrigados a morrer. Veja o que diz:

A expressão “morte voluntária” é equívoca. O suicida não escolher morrer (é uma escolha que não se faz: cumprirá morrer de qualquer maneira), mas morrer agora. Quantos fariam essa escolha, se pudessem escapar ao nada? Quantos adiantariam a hora de sua morte, se pudessem jamais morrer? Lucrécio já havia percebido – antes, talvez, de suicidar-se ele mesmo – que é a assustadora certeza do falecimento que deixa a vida odiosa a muitos, a tal ponto, às vezes, que eles se matam para escapar afinal à angústia que ela lhes inspira… [1]

            Mas antes de percorrer o caminho do suicídio em busca dos dramas escondidos sob a cortina da melancolia, dos acontecimentos e suas condições de possibilidade da escolha por antecipar a morte, também é Sponville que nos ajuda a olhar para o suicídio sem a roupagem moralista. Para Sponville, usando o pensamento de Epicuro, o suicídio é necessário para que a vida seja boa, para que a vida valha a pena. Afinal, eu não posso escolher não nascer nem não morrer, mas posso escolher continuar vivo, não adiantando a própria morte.

Se o suicídio é uma possibilidade, a minha vida passa a ser minha responsabilidade. A possibilidade do suicídio é a potencialização da minha liberdade. Não escolhi nascer nem os pais e a carga genética que deles recebi. Não optei pelas condições sócio-políticas nem pela língua com a qual cheguei ao mundo. Não fui educado segundo minha vontade. E tudo isso que não escolhi se combinou aleatoriamente para forjar muito de quem eu sou, desejos, medos, cosmovisão, cultura, gostos. Faço, sinto, reajo, desejo, temo um monte de coisas de um modo que contraria o que eu chamo de minha vontade. Sobra-me muito pouco para decidir, liames, réstias, fiapos de vontade. Por que me considerar responsável pela vida? Por que concluir que a vida que eu tenho é a minha vida? O suicídio é uma das razões, enquanto possibilidade. Nunca como realização.

Se não me suicido, vivo. Se vivo é porque poderia me suicidar, mas escolhi continuar vivo. O suicídio é uma possibilidade que intensifica a minha vida. Uma porta aberta que me faz responsável por continuar dentro da casa. Mas para o filósofo francês, uma possibilidade que não é sábio acessar, porque acessar é o remédio errado para a angústia.

Para Epicuro, nada justifica o suicídio, senão a decisão corajosa de antecipar a morte. Para ele, a vida oferece possibilidades de prazer maiores que as de infortúnio e bastantes para que a angústia a torne insuportável. Mas sabemos que existem outros acontecimentos em torno da depressão e do suicídio que precisamos conceber com cuidado.

Há na depressão e na angústia um nível de gravidade possível, que a intervenção profissional de medicamentos é necessária. Mas há também camadas e camadas de ignorância e distorção que precisam ser cavadas com reflexão para chegarmos à melhor compreensão do que aflige nossa existência, de nossas angústias.

Para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, “a angústia é vertigem da liberdade”. Somos expostos tão radicalmente às diversas possibilidades de viver, sem qualquer garantia de qualquer delas, sob o risco do infortúnio ou do desperdício, sob a pressão de escolher a melhor delas, que a angústia é o seu sintoma mais evidente.

Sartre repete o conceito kierkegaardiano em seu O existencialismo é também um humanismo. Para o filósofo existencialista francês, nada determina completamente quem nos tornamos, fazemos escolhas necessariamente. Estamos “condenados à liberdade”. Se nos distraímos, escolhemos. Se não optamos, também escolhemos. Se exercemos o poder de escolha ou se nos omitimos, escolheremos sempre. A angústia é assim um índice dessa condição existencial; para Heiddeger, estamos jogados no mundo, portanto, expostos e vulneráveis, eis o que nos aflige.

Nascer é uma angústia e morrer também, afirma André Comte-Sponville. A angústia de nascer é a do estranhamento do mundo e já a percepção do que nos ameaça, a morte. Imediatamente após nascermos enfrentamos a morte. A cada perda, conflito, doença, fome, cansaço, saudade, insegurança, desencontro são experiências com a morte, com a finitude. A morte pontua nossa insuperável finitude e isso nos apavora. Viver é ter medo. Ter medo, logo, não é o nosso problemas, talvez até a nossa solução, à medida que indica o quão a sério levamos a vida. Nossa crise é quando temos medo do medo, angústia pela angústias que viveremos.

É Lenine quem canta bem a nossa angústia, ou se preferir, o nosso medo de medos. “Medo que dá medo do medo que dá”. Certamente está aqui o nosso adoecimento, ou a nossa crise, medo do medo. Angústia pela angústia.

Miedo

Lenine

Tenho medo de gente e de solidão

Tenho medo da vida e medo de morrer

Tenho medo de ficar e medo de escapulir

Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar

Tenho medo de esperar e medo de partir

Tenho medo de correr e medo de cair

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo

O medo é uma casa aonde ninguém vai

O medo é como um laço que se aperta em nós

O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar

Tenho medo de amarrar e medo de quebrar

Tenho medo de exigir e medo de deixar

Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia

O medo é uma armadilha que pegou o amor

O medo é uma chave, que apagou a vida

O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo

Medo de dobrar a esquina

Medo de ficar no escuro

De passar em branco, de cruzar a linha

Medo de se achar sozinho

De perder a rédea, a pose e o prumo

Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão

O medo circulando nas veias

Ou em rota de colisão

O medo é do Deus ou do demo

É ordem ou é confusão

O medo é medonho, o medo domina

O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara

Medo de encarar

Medo de calar a boca

Medo de escutar

Medo de passar a perna

Medo de cair

Medo de fazer de conta

Medo de dormir

Medo de se arrepender

Medo de deixar por fazer

Medo de se amargurar pelo que não se fez

Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H

Medo de morrer na praia depois de beber o mar

Medo… que dá medo do medo que dá

Medo… que dá medo do medo que dá

            A entrevista de Pascal Bruckner[2] à Folha de São Paulo, em outubro de 2014, por ocasião de uma palestra sua no Fronteiras do saber, o filósofo francês fala sobre a sociedade da felicidade que vira também a do desespero e da angústia. Separei dois trechos da boa conversa que teve o filósofo em solo brasileiro:

Em Fracassou O Casamento por Amor?, o senhor diz que a expectativa atual do amor perfeito mina as relações conjugais tanto quanto, no passado, matrimônios arranjados solapavam sentimentos. Ainda se idealiza tanto o amor?

Pascal Bruckner: Vivemos uma mistura de romantismo agudo e consumismo sexual exacerbado, uma era em que amamos a ideia do amor acima de tudo. Cobra-se que a mulher seja uma amante ensandecida mas também exemplar mãe de família, profissional bem-sucedida, culta, sadia. E o homem deve ser igualmente um virtuose do sexo, bom no trabalho, pai amoroso, sujeito engraçado. É óbvio que isso conduz a um esgotamento, porque o amor é submetido ao regime da performance.

Esse amor do amor faz com que abandonemos uns aos outros assim que advém qualquer decepção. Esquece-se que amar é aceitar as fraquezas do outro e as nossas próprias, construir algo ao longo do tempo, à base de falhas, oscilações, mudanças de intensidade do sentimento. Pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exigência passional. Submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto, um deus implacável. Isso é desumano.

Em A Euforia Perpétua, o senhor afirma que a promessa de felicidade terrena inaugurada pelo Iluminismo foi deturpada nos anos 1960. Por quê?

Pascal Bruckner: A felicidade virou não mais um direito, mas um dever. Os anos 1960 e sua revolução individualista estenderam as regras de mercado a setores até então impermeáveis a elas: a intimidade, a sexualidade, a espiritualidade, o bem-estar. Essa incitação à felicidade nos fez seres extremamente ansiosos. Temos medo de não estar à altura dos ideais que fixamos para nós. A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia.

Deveríamos então nos contentar com pequenos prazeres e alegrias efêmeras, como o senhor diz no livro?

Pascal Bruckner: É preciso fazer com que as pessoas se sintam menos culpadas por não serem felizes o tempo todo. Para substituir essa obrigação, proponho o reinado da paixão. Felicidade, como dizia Charles Fourier [filósofo francês, 1772-1837], é ter várias paixões e diversos meios para saciá-las. A felicidade é da ordem da graça, e não da do trabalho. Essa incompreensão é a base da neurose americana. Nesse sentido, se há uma sabedoria europeia, ela reside justamente no ceticismo, no entendimento dos limites do homem, o que não impede que se viva uma cultura de prazeres.

Vivemos em uma cultura em que a felicidade deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação moral. O novo moralismo, e todo moralismo é desastroso. O moralismo hedonista, nele, parecer feliz é uma imposição social. Não temos o direito da infelicidade. O infeliz é um fraco. O moralismo da felicidade.

Dentro desse novo moralismo, Elisabeth Roudinesco[3] fala sobre o paradigma da depressão e a cultura dos antidepressivos. Tudo é depressão e é tratado com antidepressivo. Obesidade. TPM. Irritabilidade. Insônia. Medo. Agitação. Problemas de aprendizagem. Numa cultura assim, não estamos preparados para lidar com as incontáveis fraquezas.

No moralismo da felicidade, ser (parecer) forte é uma obrigação. Por isso somos medidos o tempo todo pela produtividade, desempenho, posse, consumo, prestígio, poder e prazer. Gente que não produz é imoral. Gente fraca é indigna.

Mas qual a crise? É que somos medo e fraqueza. E qualquer movimento e negação dessas condições é uma usina de deprimidos e suicidas, seja a religião, ou a cultura dos antiansiolíticos e antidepressivos, ou a cultura do sexo e do álcool.

Gosto de pensar o amor não como virtude. Se é virtude, perde-se na oposição ao poder ou ao egoísmo. Penso o amor como uma condição existencial. Somos amor, à medida que o amor é esta abertura nervosa ao outro, somos suscetíveis, permeáveis, carentes. O que acontece no mundo nos afeta sempre. Quem o outro é me toca. O olhar do outro importa no olhar que tenho de mim. O amor é uma fraqueza, pois não sou sozinho; porque o outro me perturba; porque sofro no mundo.

A sociedade do moralismo da felicidade se torna um fardo cruel. Sob a idealização de uma pessoa, de um amor, de uma carreira que nunca alcanço, desenvolvo a angústia desnecessária e fatal, a angústia pela angústia. O medo do medo. Afinal, o moralismo da felicidade faz do prestígio e da independência o ideal de humanidade, mas eu me sinto com frequência solitário e desamparado. Fantasia que o homem forte sabe que é, mas me sinto vazio e despreparado algumas vezes. Sugere que pessoas felizes tem relações e conquistas duradouras, mas sinto que tudo é impermanente e muitas vez perco e fracasso.

A resposta mais sábia sempre será o enfrentamento da realidade. E o ponto de partida é o reconhecimento da ilusão. O próximo passo será o acolhimento das possibilidades. E aqui reside o perigo. De subestimarmos as possibilidades com uma preguiça entreguista, com um covardia passiva e negativa. A alternativa é o acolhimento criativo. Ou o acolhimento gracioso. A partir da aceitação realista de que sou fraco, que possibilidades posso inventar para viver?

A fraqueza pode ser prodigiosa e criativa. E essa é uma concepção da Graça mais que do trabalho. O trabalho pode sugerir a fantasia de que tudo é feito pela força. A graça, ao contrário, sabe que nada é feito por força, mas a partir da fraqueza. Para o cristianismo, “quando estou fraco é que sou forte, e quando sou forte, fraco”.

É possível pensar na fraqueza não como um ponto final, mas uma vírgula. Não como um substantivo, mas uma conjunção adversativa, um porém, um entretanto, todavia. A fraqueza pode ser abertura para a novidade. A fraqueza pode ser flexibilidade.

A fraqueza também pode ser um niilismo positivo. É de Nietzsche a ideia do niilismo, tantas vezes mal interpretada. Do latim nihil, nada. O niilismo é um processo de descoberta do vazio, da precariedade, da fraqueza. Mas um vazio que potencializa, um vazio para a potência da vontade. Desistir das expectativas, desarmando a infelicidade. Diria Nietzsche, esperar menos, amar mais.

A fraqueza inventiva e graciosa é a chance de não termos medo do medo, porque o reconhecemos como um princípio de validação da própria vida. A vida é pra valer, por isso tememos. A chance de não termos angústia pela angústia, porque desistimos de uma existência sem dor, sem decepção, sem fraqueza, sem perda. Desistimos da invulnerabilidade e descobrimos que as perdas podem ser ganhos, “entretantos” que ampliam as possibilidades.

Assumir a fraqueza é não se angustiar por ter angústias, não ter medo de ter medo. Não sofrer por sofrer. A fraqueza dá ocasião ao improviso corajoso. Talvez aqui, uma chance maior de não sucumbir às frustrações com a vida que podemos viver.

(Palestra proferida para a turma de Direito e Filosofia, na FANOR Devry, em 17/06/2016)

[1] COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia, angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Pág. 79.

[2] Pascal Bruckner: “A sociedade da felicidade vira também a do desespero e da angústia”

por Folha de S.Paulo/Lucas Neves – 12.10.2014 | Pascal Bruckner | #Filosofia , #Sociedade

 

[3] ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Pág. 17.

A cara da poesia

A poesia não é uma arte nem um ofício, é um olhar. Aliás, um outro olhar para o que sempre foi visto, mas pouco percebido. Primeiro você vê como quem ama, só depois, poesia.

Os poetas gregos sempre mexeram comigo. Poucas vezes ouvi seus poemas, mas suas odisseias cheias de heróis, suas frases repletas de lógica provocavam em mim um estranho desejo, ainda que fossem quase que incompreensíveis para um pescador. O som das palavras combinavam como as danças das mulheres. O modo como eram ditas fazia parecer uma canção, descrevendo amores e tragédias, guerras e bravuras, mulheres muito amadas, homens de que nada pareciam sentir medo. Mas tanta beleza dava-me sempre a sensação de distância. Sentia-me indigno, um estranho.

Até que a palavra chegou perto. Uma aparição. Quando a palavra acontece, todas as demais parecem sumir, como as águas encolhem na maré anunciando a inundação. O silêncio é o recuo de quem se espanta e não consegue capturar tanta graça.

Ele era um mestre. Há muito se falava dele e de suas doutrinas ensinadas em prosa. Aproximou-se como um poeta que procura novos versos, com o olhar de quem busca outras versões. Meu irmão explicou, o rabino está atrás de discípulos. A hora era feia, estávamos exaustos e frustrados. Pescamos à toa toda a noite e nas redes só algas e liquens, as mortalhas do velho Galileia. O sol que nascia morria nossas esperanças. Olhou-nos como quem tem a notícia mais aguardada e não viu nosso cansaço nem nosso pavor de trabalhar em vão. Não viu a fronteira de nossas incredulidades, mas o início da surpresa. No fim, viu nosso começo.

Disse a Pedro com o tom de quem sabe para onde vai. Lancem as redes para o outro lado. E apontou sem sequer conferir nosso desprezo pela ideia. Pedro, casmurro, resmungou amarguras. Lanço porque obedeço. Pensei que era um desafio, desses exercícios de obediência incondicional dos escribas do deserto. Puxei a rede com desdém e quase sou puxado para o mar. Fizemos força juntos, um esforço que há muito não fazíamos, tão pesada e promissora ficou a rede, foi quando deu pra ver os peixes cintilando à luz do sol. Meus olhos embaçaram e tudo brilhava como em uma visão. Nada era, tudo dizia. Ouvia longe as vozes de todos. Não via mais o velho lago, nem os peixes, nem os barcos e seus pescadores. Eu via um sonho. Eu imaginava uma vocação. Eu desejava um mundo.

Voltamos à praia e Pedro se largou prostrado aos seus pés. Ele o ergueu com ternura e compreensão. Desdisse nosso tédio, rearranjou as palavras da nossa sina, falou que nos queria como pescadores, mas de gente. As palavras podem dizer tudo do mesmo modo, ou insinuar novos e incontroláveis sentidos.

Desde ali não desperdiçava mais suas conversas. Sabia que a cada vez que ele abria sua boca, eu poderia estar diante de novos acontecimentos. Ele não perdia tempo com explicações sem fim, preferia deixar-nos com perguntas a acalmar-nos com sentenças. Se o cercávamos com problemas, espalhava nossa imaginação com histórias e enigmas de tirar o sono.

Ainda hoje preciso me empenhar para lembrar o que aconteceu mesmo e o que foi só uma história contada pelo Mestre. Ele contava as histórias que vivíamos, nossos casamentos, pescas e semeaduras, dívidas e perdões, temperos e ceias; cada experiência nossa, opaca e insignificante, muda e rotineira, ganhava palavras, voz, cor; a cozinha da boleira anunciava a revolução do Reino, e no bolo, o amor é o fermento que transforma invisível a vida, de dentro para fora; a semente descuidada no chão duro da estrada, desperdiçada no mato, mas jogada no solo adubado, desenhava o retrato de uma graça que de ninguém desiste, para um dia florescer.

Foi proseando nossas vidas que ele rompeu as fortalezas desumanas da religião, se a história é de amor, o detestado samaritano é seu protagonista inusitado e para desnudar a mentira da fé, flagrava religiosos ocupados demais com o templo para ao aflito perceber no chão áspero da estrada.

Ainda sinto vergonha dos fariseus quando ele descreveu a oração que encontra o divino; lado a lado, o pomposo fariseu e o culpado publicano já seguiam com suas sentenças, todos pareciam já saber o fim da prosa, mas para o poeta o que é não é para a maioria das pessoas e o que todos negam pode ser a mais tocante afirmação. Do piedoso fariseu desnudou sua mentira na oração que para sentir-se no céu ao publicano jogou no inferno. E o coletor de impostos, listado entre bandidos, vergonha da nação, desmantelou-se humilhado, mas seu desespero mostrou-se humildade e coragem e quem foi a Deus carregando o inferno, desceu do templo com o céu sob os pés.

Seus gestos palavreavam sangrando mentes e corações. Se os mestres da Lei traziam a dura escrita e com ela esmagavam a mulher esfarrapada em seus erros, ele se agachava preguiçoso e rabiscava desimportâncias no chão. A vida não cabe em escrita alguma. Ela é o texto, frágil traçado; não o escrito, mas o ainda por escrever, indômitas letras do porvir. Se reclamam uma sentença, ele sugere uma dúvida, a mais atordoante: quem nunca errou que tenha a inclemência da primeira pedra. Como é fácil juntar pedras nas mãos quando se tem a lei no lugar de uma alma. Como é fácil caírem as pedras das mãos quando se tem uma alma no lugar da lei. Deu para ouvir a vergonha das pedras despencando suadas das mãos de todos. Eu ouvi o mestre perguntar à mulher pelos acusadores como quem convida quem fora cego a olhar o mundo pela primeira vez. A mulher engasgou com tantas palavras que poderia dizer, mas que nada explicavam. Como é bela a poesia de quem se cala porque as palavras se tornam impotentes.

Foi tocando a pele esquecida do leproso que o poeta contou a versão mais inesperada da vida. Aquele homem esquecido do lado de fora do mundo, para que a ninguém lembrasse que a vida também fede, que existir também é fadiga e doença, o Mestre fez mais que ouvi-lo, muito antes de curar seu corpo das purulentas feridas, ele o curou do esquecimento de todos, ele o tocou. Seu toque foi a inversão da letra. Desde aquele dia, impuros não são os que não podem ser tocados, mas as mãos de quem desiste de amar.

Em Jerusalém, descobrimos que a poesia não mora na opulência nem nos espaços privilegiados; que o realmente belo está nas ruas, do lado de fora dos palácios e do templo. Mal entrávamos na cidade santa e o cheiro azedo do sangue já embrulhava o estômago, eram milhares de bois, bodes, ovelhas e aves que eram mortos e sacrificados no grande Templo de Herodes; e o generoso Rei construíra um prédio, dizem, quatro vezes maior que o de Salomão. O Templo parecia uma cidade dentro da cidade. O exército de levitas bem armados protegia as portas para que ali não entrassem desvalidos, defeituosos, nem crianças, nem velhos, nem mulheres, letras mortas para o texto da lei. Todos os homens de bem corriam para lá, menos o poeta.

Achávamos estranho, mas ele se inspirava na periferia de Jerusalém, os arredores do templo tinham mais graça e com aqueles de quem os poderosos tinha desistido, ele compunha a mais surpreendente canção. Chegamos ao Betesda, o nome já era feio de cara, Casa de Miseráveis. Era um dos tanques de água que alimentava um sofisticado sistema hídrico. Ao redor se juntavam todos os malditos que ao Templo não podiam ir. Suas águas se moviam a cada ciclo de tempo, quando eram impulsionadas para o tanque seguinte. As águas passavam por ali em direção ao lugar onde nenhum daqueles homens e mulheres poderiam por os pés. Mas seu desespero criou uma crença, e toda crença filha de um pavor produz perversidade ainda maior. Acreditavam as aflitas almas que as águas se moviam porque um anjo as mexia. E quem dos miseráveis fosse o menos miserável, o miserável mais rápido, o miserável mais sortudo e se jogasse primeiro nas águas, era curado, criam. Adivinha. Ninguém sabia nunca quem primeiro chegava e nunca ninguém saía dali, esperando que o milagre um dia lhes encontrasse. Ele se misturou àquela gente. Descobriu um que já nem se lembrava há quanto tempo estava ali. Um paralítico. Perguntou se ele queria ficar bom. Mas o homem também estava paralisado pela crença, repetiu a ladainha do anjo e reafirmou sua má sorte de nunca chegar a tempo nas águas. E nem percebeu que um novo tempo estava sendo anunciado. O mestre o levantou do chão como quem junta palavras gastas para contar uma história nunca contada. E o texto da esperança saltou para a vida até perder de vista quem escreveu o primeiro verso.

Todavia, ninguém desdiz a versão de sempre sem pagar um alto preço. Sua vida foi Deus dito de outro modo. Seus passos foram a gramática de outra humanidade possível. Ele não interpretou a lei, ele a transcendeu, foi além das letras de sempre, experimentou suas entrelinhas e virou a fé ao avesso. Ele encarnou o que nunca ninguém teve coragem de dizer. Julgaram-no porque é mais fácil chamar de blasfêmia que seguir as palavras que sopram ávidas pela novidade. Surraram-no porque não suportaram a violência de quem inverte mundos com a força da beleza. Prenderam-no porque sua liberdade ameaçava revelar a prisão de alma dos que se acovardaram diante da vida. Mataram-no porque esqueceram que as palavras são sementes, como o grão de trigo, que uma vez mortas viram tantas outras palavras, e possibilidades, e versões, e vidas, muitas vidas.

Agora ele está aí, o mais infame dos homens, erguido na maldita cruz dos romanos. E eu aqui lembrando de tudo isso, numa mistura de dor inconsolável e estranha gratidão. Ao meu lado, essas mulheres a quem tanto amou gritam, gemem e choram, não sabem o que fazer com a perda. E eu estou escandalizado comigo mesmo. Porque o que vejo é mais que um corpo que morre, mas um texto que sangra, de quem viveu como a mais vertiginosa poesia escrita entre humanos. E tenho a mesma sensação que ele me deu em outros tempos estranhos, de que há muito mais por dizer, de que o não dito está por acontecer. Será isso então o Reino de Deus? O ainda por contar? O belo é o inaudito? O inédito é graça?

 

Eu vejo o Filho de Deus. Eu vejo a palavra que sangra. Eu vejo a vida que verte.

“Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra. A Palavra era Deus, desde o princípio à disposição de Deus. A Palavra tornou-se carne e sangue, e veio viver perto de nós. Nós vimos a glória com nossos olhos, uma glória única: o Filho é como o Pai, Sempre generoso, autêntico do início ao fim.” (Jo 1.1-3,14)

 

nebula

O mundo não é uma casa nem uma celebração de solidariedade. Nele, somos afligidos com frequência.

Incerteza.

Acidente.

Hostilidade.

Insegurança.

Deve vir de fora o sentido que nos salva, me explica o mago a quem revelo a tragédia até aqui oculta, tornei-me incrédulo em pleno ofício da magia. Dos astros do céu, do distante e misterioso brilho orquestrado pelo firmamento vêm nossas razões, ele completa. Ando desconfiado de tudo. Desde o fracasso das últimas previsões, o céu deixou de ser o mapa que me guia, as estrelas não me confortam mais.

Buscamos explicação no céu, porque entre nós tudo parou de dizer, toda esperança se esgotou, as coisas do nosso mundo se tornaram inconciliáveis e as pessoas, opacas e vazias. Essas aparentes desordens daqui devem ter razões celestes. Alguma coisa que aconteça lá deve dizer o que ocorre aqui, emendou outro mago; aquele que suspirava entre as frases, tamanha era a fé nos astros. Ele insistiu na explicação, quanto mais apagado de esperança nos parece o mundo, mais brilho no longínquo céu procuramos. E isso me soou mais vício que virtude. Chorei sem lágrimas.

Tornei-me um mago sem magia e o que antes era pretensiosa sabedoria, agora se tornou um ácido desencanto. Suspeito que o deslumbre com o céu não seja mais que fuga, uma sangria de almas aflitas. Porque tudo aqui é impermanente e sombrio, erguemos os olhos de desespero. Mas insisto em seguir com os magos. Eu que perdi a fé sobrevivo do ardor dos que podem crer.

Naquela noite, o céu era um luzeiro piscante. Sob a sinfonia de grilos e outros bichos, sem o cobertor das nuvens, o frio queimava a pele e os rostos pareciam apagar de tão obscuros e acendiam o espaço infinito tal qual um palco iluminado. O céu fez-se a ribalta onde tudo parecia encenar o destino do mundo. Mas eu duvidava.

Os olhos dos magos estavam vidrados nas estrelas e seus brilhos. Apressada, uma delas interessou a todos, movia-se como quem se rebela, abandonando o céu em sofreguidão. Rasgou o espaço infinito e mergulhou num inóspito chão. Apontava o inesperado caminho para a terra dos judeus. Uma estrela não deixa o céu se não for para iluminar caminhos, um deus não chega entre nós se não for destinado ao trono e para governar com luz na terra das sombras. Incrédulo, a estrela rebelde adoçou meu amargo coração.

Os demais videntes fizeram planos de seguir o rastro luminoso. Decidi rápido que acompanharia o grupo. Reuniram dinheiro, comida e roupas para a peregrinação e os presentes para aquele que deveria ser um rei entre os judeus. Jerusalém é para onde se vai, se é por um poderoso judeu que se procura.

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão[1]”, tantos foram os dias viajados, não se podia desperdiçar fôlego e tempo. Em Jerusalém, procuramos pela casa mais honrada, pelo endereço do poder, a residência de Herodes. Batemos à porta do palácio e anunciamos o motivo da peregrinação, um bebê recém nascido e herdeiro do trono. Ele não estava lá. Mas um poderoso é a pessoa mais desesperada, vive da impossível certeza de que nada e ninguém importam mais que ela, concluí.

Ao ouvir de um bebê eleito pelos astros para reinar, a face escondida do poder apareceu em seu rosto, mas disfarçou-se nas palavras polidas e interessadas do estranho governador. O incrédulo é alguém que desistiu do que aparece, porque aprendeu que é na vida secreta das palavras, que as gentes dissimulam seus medos e paixões. Por isso, também duvidei de Herodes e seu piedoso tom de voz. Uma onda amarga inundou minhas entranhas novamente. Senti-me jogado no mundo, incrédulo com o céu e com os palácios.

Herodes reuniu seus sábios, consultou seus livros e falou-nos da profecia que indicava uma aldeia, Belém. Nosso destino.

Os magos mal disfarçavam a decepção. Esperavam por um palácio. Agora seguiam para Belém. A noite chegou e se escurece o chão, brilham mais uma vez o céu e suas esperanças. Todos tão arregalados e atentos aos astros, enquanto fecho os olhos de tristeza. Entreguei-me as minhas trevas e dormi resignado. Despertei com os comentários e agitação. Todos gritaram ao ver aquela que seria a rebelde e promissora estrela mais uma vez. Acordei tarde demais para querer mais que o testemunho dos meus crentes amigos. O rastro da rebeldia era o nosso caminho.

O amanhecer devolveu-nos à trilha. As estradas se cruzavam e os caminhos de outros se juntavam em direção à aldeia, ganhamos a companhia de gente ferida e sem fôlego, fugiam para sobreviver. Perderam casas, amigos e familiares. Deixaram para trás as ruínas de uma vida esmagada pela guerra. Poderosos conquistaram suas cidades e sequestraram sua memória. O que pode assaltar mais o futuro que a perda das lembranças de quem somos? Como lembrar de quem podemos ser, se quem éramos foi feito em farelos? Nas faces, o tom cinzento de quem não tem para onde ir, a não ser para longe da morte. Para nós, Belém deveria ser o berço de uma nova época, para eles, apenas um entreposto entre o caos e a incerteza. Os magos, acostumados à leitura do céu, pareciam nada entender dos dizeres da terra.

Assim chegamos ao destino, com a sensação de que ali não se podia viver, menos ainda nascer. Não havia lugar para belezas, Belém era para se abandonar, não para se chegar. A aldeia tinha cheiro de miséria, pelas ruelas corriam o esgoto e as crianças; resvalavam os que chegavam e os que partiam. E nós éramos um desencanto só. Os magos se olharam e só viram o vazio nos olhos uns dos outros. Reticentes, pararam no meio do nada. Mas eu segui em frente, porque essa é a hora de quem em nada crê. Assim faço a tanto tempo, sigo porque não tenho o que esperar. Os magos vieram comigo.

Passei a fazer aquela que parecia ser a mais tola das perguntas, por um bebê recém nascido. Eu nada dizia das estrelas, mas os magos não se continham, talvez de vergonha, e completavam avisando que uma estrela os guiara até ali, onde um bebê que seria rei havia nascido. Alguns riam. Outros ignoravam e continuavam o seu caminho. Procurando o que seria um grão no areal, minha cabeça se encheu de pensamentos mais uma vez. Imaginei que se há um Deus entre nós, não podia ser nos palácios o seu lugar, ali os mesquinhos forjam aparências e vivem a despeito do mundo. Mas ele deveria viver entre as vítimas dos palácios, na periferia do poder mora a verdade, é lá que pulsa o mundo que sofre e apela aos afetos e nos reivindica. Pensei de novo e tive medo da loucura, se há um Deus, ele tem que ser uma criança, porque é de recomeço que precisa quem assistiu ao fim de tudo a vida toda.

Uma mulher parou e fez cara de que tinha algo a dizer sobre o que perguntávamos. Contou-nos de um casal que aceitara passar a noite no estábulo, já que na sua casa não havia qualquer quarto vago. Um dos magos cochichou sua suspeita, enquanto seguíamos com ela, achava que a moça debochava de nós. Eu me perdi de novo entre os pensamentos, imaginei que em um mundo tão estranho, não poderia haver lugar para um Deus e que a sua casa entre nós só poderia ser o mais inadequado dos lugares. E na contramão dos crentes, acreditei.

Alguma coisa realmente diferente está para acontecer quando os crentes duvidam e o cético crê. Mas uma revolução nos espera, quando quem lidera os magos duvidou do céu e suas mágicas estrelas e confiou na terra e seus débeis bebês.

Fomos levados até o improvisado abrigo da família de refugiados. Um homem maduro nos recebeu, chamava-se José; com a pele envelhecida de quem há muito trabalha, mas nos olhos, o brilho das estrelas de quem desdenha a dor, de tanto que sonha. Vi os magos olhando para o seu rosto com a mesma atenção que liam os astros. Ele era o pai e deixou-nos chegar perto da mãe e do bebê. Era uma jovem assustada e insegura, a criança sugava-lhe os peitos faminta. Todos emudecemos reverentes. A imagem era tão singela e tão bastante, tão simples e tão promissora; tivemos vergonha dos presentes; a mirra, o ouro e os perfumes pareceram dispensáveis. Diante de nós, o flagrante do berço da vida. E estava por aí o tempo todo. Longe do céu, no colo da jovem. Deus é um bebê. Deus é o recomeço inesperado. No fim, o começo. Deus.

No mesmo dia voltamos para casa, mas nunca mais voltamos para quem éramos. A criança esvaziara o céu. Deixamos de procurar pelos astros, não conseguíamos mais tirar os olhos dos rostos. Os mais comuns, os mais sofridos, os mais humanos, o convite ao ofício de seguir em frente. Teimosamente. Neles, o mapa que nos devolve ao caminho, a magia da insignificância.

[1] Nos bailes da vida, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento.

imageSó existe palavra porque há amor,

abertura nervosa para o mundo.

Se falamos é porque o outro nos afeta,

a vida nos fere,

o mundo nos reivindica.
A palavra é incontornável.
Viver é dizer.

Falamos tanto que o silêncio palavreia,

os gestos dizem,

os olhares brigam,

o toque sussurra poesia na pele.

Se sonhamos,

é porque antes de soltar-se na vida,

a palavra é imaginação.
Antes de nos tirar o fôlego e dizer que Deus é amor, João nos surpreende,

afirma que desde sempre Deus é palavra,

logos,

revelação,

manifestação,

testemunho,

sua glória é dizer-se entre nós.
Foi assim. Cleopas e seu amigo tiveram sonhos nunca sonhados. Largaram a aldeia, onde os dias se repetiam tão monótonos que hoje parecia ontem e o amanhã era a mais estéril das expectativas. Ele chegou contando histórias e acendendo dúvidas. As mais libertadoras dúvidas. Então, o que sempre foi poderia não ser mais o que sempre seria.

Outras versões para o mundo são possíveis quando a palavra acorda. Acorda-nos.

Um rosto comum, uma origem boba, um nazareno. Até que começou a falar. Despertou desejos outrora adormecidos. Suscitou imaginações. Anoiteceu medos. Amanheceu gostos. Os acanhados gargalharam. Os esquecidos apareceram. Os tímidos se aventuraram. Perfumes perderam frascos. Tocadas e amadas, as mulheres o batizaram com lágrimas.

Deus.

Palavra.

Amor.

O céu à flor da pele.

A palavra é o milagre. Cegos viram? Paralíticos andaram? Leprosos foram purificados? Mortos revividos? Surdos ouviram? Pobres tiveram pão? Não, muito mais que isso. Cegos foram enxergados. Surdos foram ouvidos. Os leprosos descobriram que impuras são as mãos que não os tocavam. E mortos eram aqueles que abandonaram a imaginação. Mas o Reino… Vocês não vão acreditar! O Reino não é dos que mandam. É dos pobres.

Ele falava e me virava do avesso. Pôs de cabeça para baixo o que da vida eu sabia. O que era primeiro fez-se último. E eu, que me sentia o derradeiro, vi-me principiando mundos. Disse o amigo a Cleopas, enquanto lembravam o que os tirou de Emaús e os levou a Jerusalém.

Na estrada, voltavam para casa. Mas os afetos, na contramão, regressavam teimosos para a Jerusalém que não mais existia. Desde a grande humilhação. Desde seu último fôlego na maldita cruz romana. Lá onde a substantiva esperança definhou em um verbo conjugado no passado.

Um homem se aproximou e logo se viram seus desavisos. Estranhou a conversa aflita entre Cleopas e o amigo, pareceu ignorar o desacontecimentos do Calvário. Mostrou-se inconformado com os ditos. Descreu na sombria versão da cruz. Recusou o ponto final e retomou o assunto. E o que era um descaminho entre a nostalgia e a revolta tornou-se uma estrada para o ainda não compreendido. O companheiro inusitado pavimentou aquela trilha com as palavras do texto sagrado. Lutou com as crenças. Cavoucou as memórias. Pastoreou as palavras.

Cleopas não teve coragem de dizer, mas o estranho, de repente, lhe pareceu íntimo. Aqueceu seu coração enquanto discursava. Suas palavras eram como brasas nas entranhas. Por um instante, elas pareciam ressuscitar Jesus.

Anoitecia quando a despedida se impôs. À entrada da casa, o estranho encerrou o texto, mas insistiu nas entrelinhas. Insinuou partir feito um sedutor atiçando desejos, queria que o quisessem. E assim foi. Convidado, aceitou ligeiro anoitecer ali e seguir o caminho no dia seguinte.

O misterioso já era um de casa, ainda que anônimo. Ganhou a honra de agradecer e repartir o pão. De sua oração ninguém se lembra, mas a imagem do homem erguendo o pão e depois o repartindo atravessou almas e memórias como uma flecha. E o que era um estranho íntimo desvelou-se o próprio Jesus. A palavra de carne e sangue. Taquicardia. Mãos suadas. Os sonhos no arrepio da pele mais uma vez. A vida de novo. Jerusalém em Emaús.

A vista vertiginosa do Cristo foi embaçando nas lágrimas dos amigos. E antes que acabassem de esfregar os olhos para melhor verem, ele não estava mais. Mas nunca esteve tão ali. As palavras que borboleteiam na alma era o Cristo que neles agora vivia. A palavra se fez corpo em Jesus. E agora, seu corpo se fez palavra nos discípulos. Cristo nunca foi tão vivo quanto depois de morto.

O Deus que viveu entre nós pastoreou as palavras para salvar a vida, comentou Cléopas, enquanto arrumava as coisas para voltar aos outros discípulos e anunciar que um pastor das palavras nunca abandona suas ovelhas.

 


(Ao meu pai, meu amigo e homem admirável, em seus 50 anos de ministério deixou de ser apenas o pregador do Evangelho e se fez a própria mensagem entre nós.
Obrigado, meu pastor das palavras!)

(Palestra proferida na Semana do Direito da FANOR/DEVRY, 21/10/2015)

Pensar o ódio religioso exige buscar entender o fenômeno do ódio em si, ou da violência, ou ainda, da intolerância como anterior e mais abrangente que a religião. O ódio, tão escandaloso no espaço da religião, não é privilégio dela. Sabemos do ódio e da violência, atrelada inclusive ao sagrado, desde sempre e em todas as culturas de que se tem notícia.

A política brasileira recente e sua polarização é um exemplo de que o ódio não é uma característica nem exclusiva nem predominante da religião, mas das relações sociais e seus movimentos utópicos, místicos e idealistas.

René Girard[1]e sua antropologia da violência oferece uma interpretação da história humana, tanto quanto da história das religiões, como uma história da violência. A formação, mudança e desaparecimento de comunidades são catalisadas pelos processos de violência e no espaço sagrado. Somos violentos desde que se tem notícia das relações humanas. E assim o pensador nega a utopia da modernidade e sua concepção de que somos naturalmente bons e inocentes, sendo as relações sociais que nos pervertem. (Girard destoa do pensamento de Freud, Lévi-Strauss e Marx, o que faz dele uma figura controversa no circuito intelectual.)

Girard pode nos ajudar com o tema, à medida que desvela a violência e desmistifica o ódio social. Tratar o ódio religioso como um fenômeno outro é se livrar da complexidade e amplitude do problema.

Para compreender o pensamento de Girard, precisamos de sua teoria do Bode Expiatório e o desejo rivalístico, ou a rivalidade mimética. Não somos maus porque nascemos em pecado, como pretende o pessimismo antropológico de origem agostiniana, na doutrina do Pecado Original. O mau que nos constitui é perpassado por nossa condição contingencial e faz de nós “naturalmente”(biologicamente?) egoístas; suscetíveis, precários, finitos, carecemos da afirmação diante do outro.

Para esta constatação, Girard desenvolve a teoria do desejo rivalístico, ou do desejo mimético. Não desejamos as coisas ou os atributos, desejamos os desejos dos outros, daqueles a quem admiramos. Desejamos ser felizes, ou tão bem sucedidos quanto parecem aqueles a quem admiramos e facilmente concluímos que aquilo que os torna assim, admiráveis, são as coisas que buscam, os seus desejos. É o desejo mimético.

Imitamos desejos. E a violência, o ódio e a intolerância são o seu resultado incontornável. Há muito mais pessoas desejando as mesmas coisas, as mesmas vidas admiráveis, as conquistas dos mesmos prestígios e sucessos do que é possível ser. Logo, poucos conseguem ter e se tornar o que muitos desejam. Esta desproporção gera frustração e um forte sentido de inadequação. A partir dela, inveja, intriga, pequenas rupturas comprometem a comunidade, ou a unidade social.

O desejo mimético é a origem do sentimento de inadequação que cumulará a todos de uma crescente violência. O que fazer com essa violência que nos habita e compromete a integridade de nossas comunidades? Precisaremos encontrar um bode expiatório, alguém ou algo cuja maldade ou maldição ou ameaça simbólica ou mística explique porque sofremos e desprenda, ao ser castigada, a violência represada. Socialmente, acreditamos que a culpa pelo nosso sofrimento está naquela pessoa. O bode expiatório só desempenhará com eficiência o seu papel se todos, inclusive ele, acreditarem em sua culpa.

O bode expiatório é todo processo de desprendimento destas pequenas e grandes violências e rupturas represadas nas relações. A vítima é o remendo no tecido social.

Girard estuda diversos casos da história, que vão da caça às bruxas, a perseguição dos ciganos até o antissemitismo. Cada bruxa que queimava nas fogueiras, cada cristão que era devorado nas arenas, cada limpeza étnica, além dos lucros políticos e econômicos eventuais, servia para atenuar revoltas, reconciliar as comunidades, acalmar inquietações.

Mas a verdade é que o ódio e a violência e os bodes expiatórios se reproduzem em pequenos recortes da vida social. No bullying entre crianças e adolescentes. Nas intrigas entre vizinhos de um condomínio. Na vilanização da ovelha negra da família.

Vilanizar pessoas e grupos resolve os problemas com menos custos. É útil, fácil e producente para os mecanismos de poder encontrar um inimigo em comum, alguém sobre quem despender ódio e a violência que as frustrações de viver represam em nós.

Na religião, não é diferente.

Mia Couto, em seu romance O outro pé da sereia, põe na boca do clérigo em crise de fé, a bordo de uma embarcação missionária para a África, no séc. XVI, a percepção de quão perversa pode se tornar a religião, quando a serviço do poder:

“O padre Antunes sentia medo em regressar ao velho assunto. Agora, a meio caminho entre a Índia e África, ele perdia certezas como um corpo perde o pé nas fundas águas. O sacerdote espreitou por entre as colunas do chapitéu, perscrutou o horizonte e perguntou:

– Sabe, D.Gonçalo, o que levamos no porão das naus?

– Sei, são mercadorias.

– Nada disso, D. Gonçalo. Nós carregamos é o Diabo.

– Cruz credo, padre Antunes. Tenha tento nas palavras.

– É isso mesmo. É assim que fazemos nas conquistas: primeiro, segue o Diabo; só mais tarde é que enviamos Deus.

– As suas palavras são pecaminosas, meu filho.

– Desça lá baixo e veja com seus olhos,”

A gente pode concluir que no cerne do ódio e da violência está o projeto do poder. E dizer, a princípio, que os nossos melhores projetos tropeçam nas próprias pernas. Somos condenados a dar um tiro no pé. Inclusive na religião. Por que?

Porque o passo seguinte de um projeto é a busca de perpetuação. Organizamos, ritualizamos, hierarquizamos, regramos para que ideias e experiências que estimamos não se percam no esquecimento, para que não morram. O nome destas ações de perpetuação é poder. E no projeto de poder é que o bode expiatório se torna incontornável.

É útil, fácil e produtivo para qualquer projeto de poder utilizar os ingredientes do bode expiatório: vilanização, culpabilização, sacrifício. E aqui também tropeça a religião. Marli Cunha, em seu artigo em O Globo, de 01/10/2015, trata do ódio religioso e nos oferta alguns exemplos de comentários a uma postagem em que enaltece exemplos cristãos que pregam a tolerância às diferenças e a convivência plural com religiões, grupos políticos e outras sexualidades[2]:

“Marxistas (ateus) disfarçados de evangélicos… Se não respeitam a família tradicional, terão seu lugar reservado no inferno quando Jesus voltar… Não são evangélicos, só um bando querendo aparecer… Tenho certeza absoluta de que não são evangélicos… São idiotas querendo fazer média para agradar gregos e troianos… Lobos em pele de ovelha. Devem estar ganhando alguma grana para isso… São uma vergonha para os cristãos… Bando de esquerdistas que rezam mais para Che Guevara do que para Jesus… Na verdade são pessoas com distúrbios usando o nome da religião e dos cristãos… Esses caras nunca leram a Bíblia… É o fim do mundo! Volta logo, Jesus! Este é o lixo da Missão Integral… São verdadeiros demônios em busca de dinheiro e poder! Que p… de crente é esse? Eles pregam o inferno gospel? Essa corja de f… não são cristãos nem aqui nem no inferno. Não tenho dúvidas de que não passam de chupadores de PT, comunismo, Paulo Freire e Leonardo Boff, são, portanto, inimigos!”

Vale dizer que a religião cristã parece ser particularmente apropriada para o fenômeno do bode expiatório. A sua linguagem e lógica do sacrifício vitimador, ou da morte redentora, que perpetua a lógica primitiva da religião, presente no Antigo Testamento. Com um Deus cuja justiça apenas é satisfeita com a morte de alguém, cuja justiça só propicia redenção se alguém derramar sangue, em um ambiente religioso com essa cultura de vitimização salvadora, o ódio e a violência se tornam profícuos e legítimos.

Mas para René Girard, a grandeza do cristianismo está em negar a lógica do sacrifício na morte de Jesus. Sua morte não foi expiatória, para o antropólogo. Sua morte foi a negação do bode expiatório. James Allison, teólogo e clérigo católico, gay e ativista assumido, além de um comentarista de René Girard, pode nos ajudar na entrevista concedida à revista eletrônica do Instituto Humanitas[3]:

Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

O cristianismo é a religião cuja fundação é um grito de protesto contra a lógica do sacrifício, Jesus não foi o bode expiatório porque nunca reconheceu-se culpado e cujos seguidores denunciaram seu assassinato político. O seu sacrifício não foi para a perpetuação do poder, mas foi para o desmantelamento do poder. Jesus não foi um sacrifício que remendou o velho tecido social, remendado desde sempre pelos processos de violência sagrada, mas que rasgou o tecido com o convite anárquico e anti-poder do amor.

Na pretensão do poder é que a religião, cristã ou não, se desvirtua em ódio e intolerância. E a lógica do sacrifício se reafirma. O fundamentalismo e a intolerância religiosa são ingredientes do poder. De uma religião que pretende se afirmar em detrimento de outras. Fundamentalismo é jogo de poder. Não há fundamentalismo sem pluralismo religioso.

Outro pensador imprescindível para iluminar o ódio religioso é Gianni Vattimo[4]. O filósofo italiano, membro da Igreja Evangélica Valdense, na política foi o primeiro parlamentar italiano a assumir a homossexualidade; comentador da obra de Nietzsche e Heidegger, desconstrucionistas e anti-metafísicos, Vattimo nos brinda com uma interpretação inusitada de suas obras. Para o pensador italiano, ambos os filósofos, tidos por opositores do cristianismo, são, na verdade, aliados importantes.

Para Vattimo, a morte de Deus de Nietzsche e o enfraquecimento do ser de Heidegger são a nova kenosis, palavra grega que significa esvaziamento, usada no texto do Apóstolo Paulo, na Bíblia, para afirmar que a humanidade radical de Jesus foi a encarnação de um Deus esvaziado. Em Jesus, Deus não se afirmou em poder e glória. Para o cristianismo paulino, Deus abriu mão de força, se enfraqueceu para amar. Tornando-se um de nós. Mais que um de nós. O mais frágil e humilhado e mortal de nós. O mais radical humano de que temos notícia.

Para Vattimo, o cristianismo tem na secularização, e por que não dizer no pluralismo religioso e secular, a chance de renovar a kenosis. Sua contribuição é se tornar irrelevante. Modesto. Portador de um pensamento débil. A fragilidade do seu discurso é a salvação da humanidade, porque é a ocasião para o amor e a negação do poder.

Estamos em uma bifurcação. Diante do pluralismo e sua sanha por relevância e força mercadológica, podemos ou optar pela via do poder e sua intolerância e ódio incontornáveis, ou escolher o caminho do Calvário e se enfraquecer para amar.

O ódio religioso e o ódio à religião são crias de um cristianismo que se perdeu de si mesmo. Para Richard Rorty, filósofo americano e neopragmático, no debate com Gianni Vattimo, publicado no livro O futuro da religião, a religião precisa abrir mão do projeto público e voltar ao privado; apenas assim retornará a sua vocação primeira para a charitas, para o amor. Precisa abandonar a arena e voltar aos afetos.

Dostoiéviski, no seu romance O idiota, em um discurso febril do Príncipe Michkin, afirma que o ateísmo é filho do cristianismo e suas pretensões de dominação humana. Portanto, cabe aos cristãos e é sugestivo a todos os religiosos seguir os passos do Cristo e esvaziarem-se novamente, abandonando quaisquer arenas, negando a lógica do sacrifício, dissolvendo pretensões de força, seja no discurso ou na representação política, e “voltando ao primeiro amor”, já preconizado pelo Apóstolo João no Apocalipse.

[1] (Avinhão, 25 de dezembro de 1923) é um filósofo, historiador e filólogo francês.

Atualmente, Girard é professor de literatura comparada na Universidade de Palo Alto, Califórnia, EUA.

[2] http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/sinal-dos-tempos-17657071#ixzz3pCuByNBA

[3]http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4444&secao=393 (O grifo é meu)

[4] Gianteresio (Gianni) Vattimo (Turim, 4 de janeiro de 1936) é um filósofo e político italiano, um dos expoentes do pós-modernismo europeu.

Gadamer, em seu Verdade e Método, deu-nos uma daquelas frases coringas da filosofia com a qual se pode dizer muitas e distintas coisas, sem, no entanto, contradizer nem esgotar sua idéia. “Tudo o que existe é linguagem”. As coisas existem em nosso mundo de sentidos à medida que as temos nas palavras. As coisas existem, mas são as palavras que as colocam na vida. Uma coisa é existir, outra é se relacionar.

Uma criança, ávida por viver, põe-se no mundo enquanto descobre os signos da vida. Logo descobre que falar é mais intenso que apontar com o dedo. Palavras indicam movimentos no mundo. Dedos, apenas as coisas do mundo.

As palavras movimentam. Nas palavras, o Gênesis do mundo e da vida.

Deus cria tudo dizendo, menos o homem e a mulher. Para as coisas, Deus disse “haja”, para a humanidade, desdisse as coisas: proibiu o fruto. Um incontornável convite a fazer com uma coisa algo mais. Um movimento, uma idéia, um significado. Palavra é a transgressão da coisa e Deus transgrediu o fruto quando fez dele outra coisa além de fruto. Fruto proibido é bem mais que fruto. É uma discussão.

Um homem só deixa de ser um boneco de barro vivente quando também transgride, quando as coisas a sua volta tornam-se outras coisas. Interpretação.

A humanidade só começa a existir quando, à imagem de Deus, se inicia no jogo da linguagem. Dialética. Quando aceita o convite imagético da serpente para levar a sério o exemplo divino de fazer outras coisas com as coisas. Comer o fruto não era apenas comer o fruto. Era transgredir, à semelhança de Deus, o fruto. Era, finalmente, ser à imagem de Deus. Ser que transgride as coisas criando mundos pela palavra.

Não mais apenas Deus diz e movimenta o mundo, também o fazem homem e mulher. “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal.” Agora está criada a humanidade. Deus desdisse o vazio e colocou em movimento o mundo, criação. A humanidade desdisse a mesmice e colocou em movimento a consciência, história.

Com a palavra nada mais é uma coisa, tudo pode ser sempre outra. E por isso sofremos, porque com a palavra tudo é instável. O imprevisível cria e se diverte: tudo havia ficado muito bom, mas o incerto também aflige e dói. E para deixar clara a opção criativa de Deus pelo movimento, a humanidade é expulsa da pior de todas as tentações: por medo do aleatório movimento da vida, da dor de parir, do suor de trabalhar, da incerteza dos frutos que nunca mais serão apenas frutos, o homem e a mulher tentem coisificar as palavras no Reino previsível das eternas certezas. Regressão.

Expulsão é exposição à dinâmica da vida.

Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o SENHOR Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.

Eis o que é a certeza, a vaga lembrança de uma tentação.

Lá em casa, a gente comemora aniversários e dias especiais acordando o homenageado com música e café da manhã. Damos os presentes e tomamos o café aninhados na cama ainda quente e amarrotada da noite de sono. Amor pra mim tem cheiro de café, a cara inchada de quem acordou cedo para amar e o barulho feliz das crianças curiosas com os presentes a serem abertos. Foi assim na comemoração dos meus 45. Entre desenhos e presentes da Gabriela, Clara e Bete, o Thales toca o violão e canta a música que fez para mim, do jeito dele, singularmente maravilhoso. No primeiro verso, a genialidade que parece ingenuamente ignorar: “Pai, você é bem mais que Elienai, você é meu companheiro”.

Sequer ouso explicar seu poema de amor e nem preciso dizer da emoção. Mas é encantador que a poesia lhe dê a chance de abrir uma janela de possibilidades, um acontecimento estético. Ninguém ouve que é mais que o seu nome costuma significar e permanece distraído ou o mesmo. O menino nem imagina o quanto fragilizou o homem a quem ama.

Seu carinho poético me fez cafuné nas ideias o dia todo, dormi atravessado por tudo o que ser mais que Elienai pode representar. Para ele, talvez, mais que as atividades da minha profissão, as responsabilidades de ser pai ou os compromissos vários e repetitivos a que assiste diariamente, sou seu “companheiro”, alguém que gosta de estar ao seu lado, escuta seus medos e compartilha seus interesses. E isso sozinho já é muito.

Mas quem faz poesia nunca alcança todo o repertório de sentimentos, imagens e possibilidades que principia, filho querido. O poeta é o meio do caminho, o entroncamento incalculável de vias, um ser atravessado por mundos, os vividos e os por viver. E assim, amarga nunca ser o ponto original de suas próprias palavras, apenas alguém, à beira do rio, que se curvou com sensibilidade e desprendimento para juntar um pouco da fugidia água, que desliza multiforme rio a baixo. E em seguida, consciente do dilúvio em suas mãos, deixa-a escoar pulverizada pela brisa e prismando os raios de sol. Ignora o poeta as fronteiras do evento que lhe atravessou com palavras e sons. Toca o intangível e deixa ir e tocando mundos e almas.

Seu poema permanecerá difuso conversando e multiplicando acontecimentos. Em mim, libertou-me, por um instante que seja, de ser eu mesmo, o Elienai. Meu nome não é quem sou, mas a fresta do caleidoscópio; por ela assisto à dança de formas, linhas, cores, conjuntos e desordens que me desenham.
Uma pessoa é o imponderável, uma multiplicidade de ideias, ruidosa polifonia, mosaico aleatório de gostos e amores. Qualquer nome é um aleph, a letra pela qual se vê mundos incalculáveis. O entrecruzamento de afetos, amigos, rivais, companheiros desavisados, parceiros oportunistas, anônimos imprescindíveis, o filho rebelde, a esposa infeliz, a filha acolhedora, o pai narcisista, a vó tolerante, a mãe exigente, o patrão sádico, a professora sensível, o sacerdote culposo. Somos cifras e enigmas. Poema.

Sartre avisou-nos que somos condenados à liberdade, expostos que estamos às contingências e às incontornáveis escolhas; talvez pela mesma razão afirmo que somos condenados ao amor. Suscetíveis a todos que passaram e passarão por nossas vidas, nada em nós é puro ou original; nada nos pertence por natureza ou essência, somos sucessivos encontros, históricos e casuais, provisórios e promissores. Bem mais que podemos nomear. Mais que Elienai, Thales, Gabriela, José, Maria, Jesus, Deus.

Nos meus 45, meu filho desvelou minha promissora liberdade, minha escandalosa amorosidade. Restam-me a modéstia de sugerir belezas e sabedorias ao mesmo mundo com quem já lutei por mesquinharias; a leveza de não precisar ser tudo o que tantos idealizam do macho brasileiro religioso; a pretensiosa imaginação de quantos futuros forem necessários para não desistir de viver; a arriscada e por isso mesmo agridoce aventura de me cercar de amigas e amigos; a liberdade de não estar obrigado a deixar uma marca original na vida e a memória sonora do verso infante e gentil que me avisa que sou “mais que Elienai”.

As vozes ressentidas não lembravam a imponência e sublimidade de outras reuniões do Conselho. A certeza de sempre não combinava com o tom tíbio dos sacerdotes e escribas que agora se revezavam no empenho de salvar os preceitos da fé. Impossível manter em pé uma crença quando se esparrama no chão duro de uma tragédia.

As Legiões Romanas impingiam dor e vergonha ao povo. Cada dia se contavam menos homens, dizimados em combates desiguais. E mais mulheres, desfilando vergonha e dor pelas ruas, tantas delas estupradas por soldados invasores, em sinal de posse e dominação.

A tradição não abria mão de que apenas crianças nascidas de um pai judeu podiam ser consideradas legítimas herdeiras de Abraão. O que já fora um preceito cheio de viço e orgulho tornou-se uma vexaminosa marca sobre meninas e meninos, nascidos da violência. A lei que se arrogava divina e afirmadora de uma nação, agora repetia a violência e confirmava bastardos.

Deus, assim, tornou-se um diabo. E a vida piedosa, um inferno.

Já eram uma multidão os sombrios despertencidos.

Um jovem sacerdote, amigo próximo de Elazar, rabino que ensinava no deserto, rompeu a vergonha e gaguejou o que todos precisavam que fosse proposto, mas sem a coragem de dizer sequer as primeiras palavras da outrora infâmia. Não se deveria mais impor a esmagadora carga de considerar bastardos os filhos de mães judias sem pais judeus, com o risco de sequestrar o futuro dos filhos de Abraão. Alguém confirmou com a voz embargada, não bastasse serem estupradas as nossas mulheres, nossos filhos são abandonados por aqueles que lhes deveriam acolher.

As vozes engasgadas não disfarçavam a palidez do rosto e o olhar disperso. Ninguém nunca soube ao certo quem pronunciou a frágil sentença, que uma vez dita, contou com o silencioso assento de todos, também do Sumo Sacerdote. Se a mãe judia se ressente de um pai judeu para o filho que cresce em seu ventre, Deus, o misericordioso, é o pai que ao filho falta.[1]

E a fraqueza da regra pode ter sido a fresta para a vida ressurgir.

A notícia da reunião foi ouvida como uma boa nova, um alívio, uma esperança. Um sopro de inesperada dignidade correu vielas e arejou almas angustiadas.

Maria nunca se livrou do pesadelo. O cheiro azedo do homem que invadiu seu corpo e violou sua alma ainda era uma lembrança que lhe assaltava inclemente. Mais ainda agora, que um fruto amargo era gestado em seu ventre. Chegou a pensar que nem fosse verdade. De tanto que queria que tudo fosse diferente. Desde então evitou o noivo, José. Sua bondosa companhia e a insistência em fazer planos para o futuro eram uma tortura para quem já se sentia assim indigna.

Maria, tão calada, preocupava a todos. Era vista pelos cantos. Estaria infeliz pelo casamento? Não, sonhava acordada para acalmar os pensamentos Divagava na doce fantasia de que o bebê não era filho do asqueroso inimigo. Não, no seu sonho, tudo era outramente belo. Porque bebês eram feitos divinos e o seu chegara ao ventre soprado por Deus, consolava-se. Chegou a ver um anjo, como aquele que visitou Ló e o levou embora do caos. No seu desejo encantado, quase dormindo, mas o bastante acordada para guiar a imaginação, o ser luminoso lhe dizia que não estranhasse a gravidez. Deus era o pai da criança. E dormia para não acordar amarguras.

A notícia entrou pela porta e despertou Maria, que cochilava suas tristezas. Sua prima, Isabel, aos berros, ora segurava sua barriga, que ainda disfarçava o feto, ora agarrava seu rosto e, atrapalhada, misturava as falas com gritos quase insanos. Salvas. O Salvador. Ele é o Filho de Deus! Jeová é pai. E antes que Maria deixasse claro que nada entendia, Isabel contou as novidades do Sinédrio. Maria se agarrou à Isabel e chorou. Até dormir novamente.

Ao acordar, as lembranças do dia anterior estavam incertas. Havia o rosto excitado de Isabel, a história da nova doutrina e a doce e inconfessa fantasia de um filho digno em vez do bastardo.

Não precisou de um delírio para imaginar que sua tragédia bem podia ser o sinal de um grande evento. Uma salvação. E quando pensou assim, sentou-se na cama e o olhar se perdeu pelo quarto que já estava iluminado pela manhã. O coração bateu forte e descompassado. É isso. Tanta tristeza podia ser como a dor de parto que em breve sentiria, a gestação de um santo, o nascimento de um homem distinto. Um profeta, talvez. Um guerreiro. Quem sabe?

Afinal, se a salvação de Deus tem que virar do avesso o mundo e sua injustiça, nenhum começo seria mais apropriado que o mais maldito e sofrido dos mortais.

É do ponto cego, dos esquecidos, das desgraçadas invisibilidades, que o mundo se desvela em suas verdades. Ali, de onde ninguém é visto, que tudo se evidencia.

Passou pela cabeça o gileadita Jefté, filho de uma prostituta, que depois de expulso e envergonhado, foi trazido para liderar sua gente à vitória sobre os opressores. Lembrou do Profeta Isaías e o prometido que nasceria inglório. Com meio sorriso, até sussurrou as Escrituras, “uma muda mirrada, uma planta ressecada.” Impossível não associar. Desprezado por todos, sem beleza. E o que era profunda angústia explodiu feito revelação. Cheio de dores, seria a cura para o mais terrível sofrimento; banhado de vergonha, o fim da culpa; açoitado por doenças, o remédio para as enfermidades. Chorou de novo, mas desta vez, era a esperança que molhava seu rosto. Como as águas correntes do rio dissolvem as manchas das roupas.

Alguém lhe avisou que seu noivo a aguardava na entrada da casa. Estranhou a hora do dia para a visita. Teve medo e por um momento desistiu de tudo o que vinha pensando. Suspirou triste e lacrimejou. A sombra da tragédia acenava mais uma vez para a sua realidade. Arrastou os passos até a porta e encontrou José, que a olhava como quem já tivesse sido avisado da desgraça e de mais alguma coisa.

O silêncio que se seguiu pareceu um recuo do tempo, um intervalo nas horas. O mundo parou. Estava um diante do outro e tudo o mais inexistia. Nenhum dos dois conseguia dizer nada. Os olhares se curvaram, para se erguerem em seguida e se reencontrarem reticentes.

Os olhos conversam para salvar-nos do cansaço das palavras.

Tanto a dizer e o silêncio engoliu as frases ensaiadas do homem e desdenhou o pedido inaudito de clemência da moça. José emitiu alguns sons, tentativas indecifráveis de iniciar qualquer palavra e, despedindo-se dos discursos, se aproximou de Maria, bem quando ela tentava inútil desengasgar. E a abraçou com tanta força que entre os corpos não restou lugar para qualquer conversa.

[1] BONDER, Nilton. A alma immoral. Editora Rocco. São Paulo, 2007. O Rabino Bonder, entre tantas histórias que conta para ilustrar como a alma transgride, ou trai a tradição para salvar a vida, sugere que Jesus bem poderia ter sido fruto do estupro de Maria por um soldado romano, prática comum à época. Conta da tradição revista pelas autoridades para determinar a ascendência judaica, em que apenas filhos de pais judeus poderiam ser condiserados judeus. Passou-se a considerar bastante que a criança tivesse a mãe judia para que fosse considerada judia. Bonder completa dizendo que se a criança não tinha um pai judeu, Deus seria seu pai.

Tomei aqui a idéia do Rabino para construir uma ficção, mas que seria uma linda verdade, se verdade fosse.

Uma reunião de seguidores nunca é incólume nem vítima, ainda que digna de compaixão.

Uma vez que se preste a legitimar um líder, impõe-se sobre ele. As múltiplas e difusas expectativas obrigam o herói à invisibilidade, a estranha solidão de cercar-se de tantos ao custo de quase não existir; ele que tem que ser tudo, acaba sendo um nada.

A multidão de tantos não se reúne sem a solidão de alguns.

Dias sem nem comer direito, ocupados com as seguidas tarefas, o Mestre e os discípulos viajam para longe de todos e seus problemas e suas demandas e suas expectativas sem fim. Procuram a distância e o descanso. Mas do lado de lá do grande lago, a imagem ainda imprecisa já tumultua o barco e amarga a viagem. Mais uma multidão. De gente sem graça, sem destino, sem pastor, sussurra Jesus com os olhos marejados de afeto. Mas um dia saberá que é também uma multidão sem alma.

Jesus desembarca entusiasmado, cheio de vontade de ajudar e cuidar de todos. Os discípulos? Anestesiados de tão exaustos.

Ele não se dá desprotegido à turba, nem se oferta ingênuo aos famigerados. Não responde às questões, suscita outras dúvidas; não acalma angústias, desperta sensibilidades; não indica caminhos, suscita revoltas; cada história que conta é uma atordoante distração. Jesus dispersa convicções para suscitar novos cenários.

A multidão quer se alimentar de quem espera que ele signifique, mas sua saciedade não é o que quer o Nazareno. Jesus a quer faminta. Bem-aventurada a fome que a todos libertará.

Um menino brinca entre os cenhos franzidos. Flutua desconexo de todos os interesses e medos. Além dos comentários de incerteza diante de tudo o que o novo profeta dizia, ouve os primeiros murmúrios sobre a tarde que chegara ligeira e o problema novo da comida que todos precisariam, mas ninguém parecia ter. Longe de tudo. Gente demais. Nenhuma organização. Todos tensos, menos a criança. Ela se distrai com as pedrinhas, cantarola histórias. Vez ou outra, ergue a cabeça e percebe a agitação dos adultos.

O menino desliza lépido pelos corredores de gente. Um labirinto de angústias para os famintos, um jogo curioso para a criança. Sua leveza o deixa um pouco de fora, alheio e estranhamente feliz.

Enquanto toca as pessoas aflitas e trata suas dores, Jesus conta histórias e encadeia perguntas intermináveis; para os austeros homens da lei, um labirinto escandaloso; para o Nazareno, pensam alguns, parece um jogo.

Todos se afligem e ele parece se divertir e brincar com comparações e poemas, lamenta um dos discípulos mais próximos. Razão para acordá-lo do sonho e fazê-lo enxergar a enrascada em que a todos colocou. Hora de mandar embora a multidão para que encontre o que comer pelo caminho. Fome não é brincadeira.

De onde virá a comida? Inquire o porta voz dos incomodados discípulos.

A pergunta ressoa entre todos. A incerteza enfraquece a obstinação que a todos reuniu ruidosos. E o que antes juntou como que encantados, agora os fragmenta silentes e desprotegidos. Gente demais, solução alguma.

A solução está entre vocês. É tudo o que Jesus diz, antes de voltar à parábola que deixara inconclusa. A ordem também ecoa no meio do povo. Metálica e aflita.

O silêncio.

Os olhares.

O vazio.

O menino que encontrara outras crianças longe dos pais ouviu a pergunta e a resposta. Estranhou o silêncio e não gostou da sensação dos adultos inseguros. Maneou a cabeça, rindo de que ninguém soubesse responder. Apenas sua voz era ouvida. Corria e berrava para todos que tinha a comida. Chegou rápido aos pais, como se fizesse aquele caminho todos os dias. Agarrou a cesta do jantar trazida pela família, então escondida entre panos. E antes que os pais pudessem impedir, saltou à frente dos discípulos e apresentou sorridente a solução.

O que era silêncio se tornou estridentes risos. Os discípulos boquiabertos sequer tiveram força para receber a oferta. Até que um deles, constrangido, tomou a cesta e conferiu o óbvio. Cinco pães e dois peixes é bastante para o menino e sua família, mas impossível para saciar a multidão.

Ninguém mais ria. Exceto o menino e Jesus, que em um movimento surpreendente e coreográfico, repetiu o gesto infante. Colocando os discípulos em roda, devolveu-lhes a comida. Estes, meio sem graça, enquanto pediam a todos que fizessem o mesmo, reunindo grupos em roda, repetiram o gesto de Jesus. E antes que se pudesse fazer contas, outros pequenos e escondidos cestos, com poucos e inesperados pães e peixes, deslizaram em festa no meio do povo. O menino. Jesus. Os discípulos. As rodas de amigas e amigos.

O pão sobra quando o gesto é farto.

Jesus e o menino sumiram no meio da algazarra, de tanto que se sentiram em casa. E as fraternas rodas substituíram os labirintos de solitários e insaciáveis crentes.

Depois de muito tempo, contou-se uma história um pouco diferente. De um milagre assombroso e heroico de multiplicação de pães. Mas entre os discípulos, sempre se soube que antes do pão, o gesto se multiplicou. E que o milagre veio da mão de uma criança.

Chegamos a um mundo pronto.
Carregamos forças que nos ultrapassam, genéticas e culturais, que nem de longe escolhemos (ou escolheríamos).
Tudo já significa, vale e condiciona.
E se quisermos o mínimo de contentamento, aprenderemos a indócil arte de nos adaptar ao que está aí.
E alguém ainda diz que somos livres?
Sim. Livres.
Porque o futuro está vertiginosamente aberto.
Escancarado.
Por mais forças alheias a nós que se combinem para escrevê-lo; ele mantém-se tão inédito quanto as páginas do livro que ainda escreverei.
Livres, sim. Porque o menor descuido, ou o desejo mais insistente.
A resposta mais demorada, ou precipitada.
O assombro que nos convenceu de impotência, ou o arroubo que nos fez ir a despeito de nossa covardia.
O rompante criativo de um argumento, ou a anuência passiva com o que sempre se disse sobre qualquer coisa.
A convicção desesperada ou a dúvida angustiante.
Uma réstia incerta de esperança.
Qualquer cisco nos olhos pode iniciar a revolução.
Como o fez aquele teimoso e incerto espermatozóide, alcançando o irresistível óvulo e o infinito corpo de possibilidades se jogou na existência.
Livres, sim, e maravilhosa e violenta e irresistivelmente.
Livres sim, sartreanamente condenados!
Insisto. Livres.
De tanta verdade que pulsa e lateja e arde,
desejante,
apaixonada.
Faminta de sentido e graça e amor.
E o atordoante Galileu bem que disse:
um conhecimento assim não nos permite ignorar o quão verdadeiramente somos livres.
Livres assim,
ai dos que resistirem aos abraços,
às mãos que se dão,
aos afetos,
aos amores!
Livres assim,
Deus é a amizade(não me deixa esquecer um amigo, mesmo que de longe, Paulo Brabo).

Quem me segue que também eu não o siga?

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