Meu amigo filho Thales,

Escrevo do espanto.

Gestei você em minhas paixões bem antes que sua chegada fosse certa.

Tudo era tão antes. Aprendi a amar a fé que a Filosofia iluminava e resolvi: meu filho teria o nome de quem a tradição grega chamou de o primeiro filósofo. Thales de Mileto foi o filho do espanto, da dúvida libertadora, a que não acreditou que tudo fosse só paisagem; mas viu sinais, indicações, janelas de sentido e possibilidades espalhados pelo mundo. Na água, o espantoso ponto de reconciliação do cosmos. Tudo é água.

Um filho meu teria o nome do espanto que me salvou, a porta de saída do tédio e suas certezas; a claridade que me ajudou a ter fé além do templo: Thales.

Não só.

Descobri-me amando o Flamengo no Rio de Janeiro encantado com Zico, Leandro, Junior, Adílio, Andrade, Rondinelli, Mozer, Nunes e todos os outros. Não tive chance de sequer notar outras cores, o Rio em que nasci se encontrava no Maracanã para sonhar a cada gol do Galinho. O Brasil que me encantou nunca foi verde e amarelo, o Mengão coloriu de vermelho e preto minhas raízes e devaneios.

Você também não conheceu a liberdade tola de não se encantar com o mais querido; transmiti a você o gene da teimosia de sonhar com a vitória; alimentei você com o gosto da inventividade que desmonta resistências invencíveis; vesti você do inesperado a driblar mesmices, do canto sofrido da torcida que vira os jogos mais perdidos: Oh, meu Mengão, eu gosto de você. Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser Rubro-Negro. Conte comigo, Mengão, acima de tudo Rubro-Negro!

Veja como a vida baila entre redentores acasos. Tal qual o filósofo, você também é filho do espanto. Chegou quando a gente achava que tudo já bastava; que tudo já tinha nome; chegou e o que já era pleno se fez insuficiente. Chegou feito a filosofia, pôs em dúvidas as certezas e reimaginou sentidos; reinventou-nos. A família se descobriu grávida do inusitado. A médica disse ‘é menino’. Chorei, duvidei de tão maravilhado, a médica se impacientou com meu susto. É menino. Será o Thales!

Quem seríamos sem o Tatá da Cacá da Bibi da Bete do Elienai?

Você não sabe, acho, mas fico te olhando do ponto cego do amor. Aquele que nos faz ver tudo e por ninguém ser visto; aquele que nos projeta para fora do instante e nos permite admirar reverente o que acontece. Vejo o menino que se faz homem e não disfarço o espanto. Ele não inventa mais histórias e diálogos e ruídos intermináveis com os seus brinquedos; agora cria músicas, amores e futuros; toca o violão, canta e faz ressoar o timbre mais bonito da casa; compõe canções que reúne parcerias e embala possibilidades; empresta ouvidos e companhia e carinho a cada um nós, que orgulhosos agradecemos por te ter irmão e filho e amigo.

Por isso, o Thales, o de Mileto e o de São Paulo, não pode ver com bom olhos algo que tem o nome de formatura; que indica chegada, fim, conclusão. Sugiro que siga suspeitando que nada chega, que tudo é insuficiente, que viver é aprender, não formar. Prefira as inconformações às formaturas; a dúvida aos dogmas; a fé à crença; o amor à indiferença; a conversa ao grito; o espanto à apatia.

O inconformado não teme fracassar, sua fraqueza é a flexibilidade para reinventar-se; seu cansaço é a chance de dar as mãos e não seguir só; seu medo é o índice do quanto se importa em viver bem e de verdade; sua tristeza é o silêncio que antecede a alegria, que nem será rasa nem tola.

Parabéns, filho, por não ter medo de sonhar e contrariar molduras e formas.

Como sou grato por você existir e ser quem vem se tornando!

Te amo, Thales!

Seu pai

A gente se descobriu em um jardim,

ele passeava como quem ora e orava como quem passeia. Entre oliveiras e figueiras,

vi nele o semblante de quem reza mais com os olhos que com os lábios,

seus passos eram de um jardineiro reverenciando a vida.

Parecia procurar o coração entre as folhagens e a própria fé, como um fruto selvagem escondido em arbustos.

Seu olhar flutuava imaginando um mundo ainda por florescer.

Assim como eu, aqui, debaixo dessa figueira.

Aqui, fujo dos olhares que, se não me ignoram, me condenam;

aqui, estou mais perto de mim; a fuga cessa e a culpa silencia.

Aqui, a vida insurge contra a morte.

Os olhos daquele homem encontraram os meus, tive medo e desviei o olhar, eles me viram como ninguém jamais me olhou. Medo do encontro? Do reconhecimento? Da verdade? Do mistério? Do amor?

Dias depois, o convite deslumbrado de um companheiro de buscas, Felipe, fez tudo ter sentido, o jardineiro misterioso era um novo mestre a procura de discípulos. Fui levado até ele, queria muito ir e queria muito fugir; seu olhar misterioso ainda queimava nos meus olhos.

Ao chegarmos, ele não precisou de muitas palavras: “Natanael, eu te vi debaixo da figueira”.

Só eu sabia o que ele quis dizer, mesmo sem falar; disse como nossos silêncios conversaram no jardim.

Disse que precisamos cuidar de nossos desejos como um jardineiro cuida dos seus amores.

Disse como o jardim nos fez irmãos.

Disse o que apenas os seus olhos me falaram: eu acredito em você!

Ousei imaginar: se Deus aparecesse nesse momento, ele deveria ser aquele homem, Jesus, meu companheiro de Jardim! Estar perto dele era divino. Por isso, prostrei-me e declarei para o susto de todos: esse homem é o “Filho de Deus, o Rei de Israel!”

Seguindo após ele, vendo-o curar doentes, comer e beber com gente que a religião desprezou, escutando-o contar histórias para iluminar um novo Reino, ouvi os tantos nomes que lhe deram: De Mestre a filho de Belzebu; de Filho do Homem a blasfemador; de Filho de Davi a comilão e beberrão; de Messias a embusteiro; de Filho de José e Maria a Filho do Deus Vivo. Eu o chamava secretamente de Jardineiro.

Vê-lo como um jardineiro ajudou a resolver o impasse da minha fé:

De Deus sempre pensei no assustador Senhor dos Exércitos, ou no Terrível Soberano que a todos julga. Sempre que falei no Temível Senhor dos Céus e da Terra, tive medo, ou senti-me devedor, incapaz e sujo.

Quando ia ao templo, voltava de cabeça baixa, desprezando a mim mesmo. Esse Deus estranhamente parecia meu pior inimigo.

Mas estar perto de Jesus não proibia minha humanidade e ela não era má; era promissora e bonita. Ouvi-lo enchia meu peito de dignidade, fazia-me olhar a vida de cabeça erguida, cheio de coragem. Cada vez que ele me olhava, seus olhos diziam: eu amo você. E isso era tão próximo, tão humano, tão libertador e, contraditoriamente, era o que de mais divino me acontecia.

Comer, beber, rir, abraçar, chorar, dar as mãos, lamentar as perdas, sobreviver às traições, tropeçar, recomeçar, acolher os diferentes, amar em vez de odiar, perdoar em vez de se ressentir, era voltar e cultivar o jardim para o qual Adão e Eva deram as costas.

Andamos juntos e em outros jardins o vi cuidar da vida como o próprio Deus plantou o jardim no começo de tudo.

Digo baixo, porque parece uma blasfêmia. Jesus é Deus entre nós. O mais humano. O mais divino.

No Jardim do Getsêmani, as oliveiras testemunharam o divino amor de um homem que se deu por todas e todos. Vi Jesus chorar e sofrer e só não desistir por muito amar suas irmãs e irmãos; cercado por traidores, poderosos cheios de ganância e soldados furiosos, ele recusou tomar a espada nas mãos e escolheu semear a si mesmo nos nossos corações, como um jardineiro da vida lança sementes de gentileza e bondade no mundo.

Prenderam meu jardineiro. Torturaram o próprio Deus. Assassinaram mais uma vítima da injustiça no mundo. Mas eles não sabiam o que eu sei. A vida de Jesus foi a semente de uma nova humanidade. Um jardim para reviver.

João estava do meu lado, quando o prenderam, e apertava a minha mão para me consolar. Perguntei a ele por quê. Aquele que recostava a cabeça no colo de Jesus sussurrou nos meus ouvidos: “porque Deus o mundo amou tanto, que mandou o seu único filho para que todo o que crê não morra, mas tenha a vida eterna.”

Você não precisa ler o que escrevo a seguir.

Nem tenho nada a dizer que lhe seja imprescindível.

Até porque venho percebendo que as coisas diante dos olhos são as mais difíceis de serem vistas e as coisas mais significativas, quase impronunciáveis.

O que mais importa e é mais difícil de abraçar dispensa as palavras: o óbvio, o comum, o que todos sentem e, às vezes, nem sabem que sabem.

Também não acredito nos conhecimentos pretensamente imprescindíveis. Com frequência, discursos que se revestem de urgência e relevância são assim feitos à medida de sua fragilidade. Quanto menos são, mais retóricos e impositivos.

Se você chegou até aqui, temos um encontro. Na insignificância. Na irrelevância. No que pode nos salvar do inferno dos poderes que concorrem por nossa atenção, por nosso compromisso, por nossa fé.

Não quero sua adesão. Por favor, não curta a postagem. Deixe-a escorrer desimportante entre algoritmos. Quero a liberdade da ignorância. Não temos que saber um do outro, nem seguirmos o perfil um do outro, nem aprovar o que pensamos.

Se ainda não perdi sua leitura, estamos lado a lado, sorrindo com o olhar, fruindo a leveza de ombros com menos expectativas e mãos com mais ternura.

O escritor do Eclesiastes na Bíblia é um desiludido. Assim como nós dois. Também ele passou a duvidar das grandes realizações da vida, da busca por riquezas, da ufania de uma vida excepcional, da panaceia de um mundo controlado por um Deus ou determinado por uma lei; ele a tudo considerou “vapor de nada”. E apenas a partir daqui se sentiu livre o bastante para amar, sob o conselho: “coma o teu pão com prazer, beba o teu vinho com satisfação e alegra-te com a tua mulher.”

Se ainda estamos juntos, reunimos as condições de Jesus e seus amigos. Leio a narrativa dos Evangelhos e sinto um líder se desmanchando em decepções. Quanto mais desencantado, mais Jesus se torna e mais amigos os poucos seguidores se revelam.

Descobriu-se mais à vontade entre os renegados da sua religião; para ser feliz, come e bebe com quem não tem reputação a zelar. Sente-se mais inteiro longe da massa; quanto mais seguidores, mais donos do seu destino, vontade e voz ele tem; escorrega para a solitude como uma lagarta deixa o casulo.

Percebo-o se desligando dos grandes projetos, das salvações cósmicas, das reformas pretensiosas da velha religião e seus antigos costumes. Aos poucos, abandona os grandes discursos pelas pequenas histórias, os rasbiscos no chão, as crianças no colo, as conversas mastigadas com pães e molhos, os valores regados a vinho, os afetos com menos palavras e mais cheiros e sabores e toques e olhares.

João também se perdeu das grandes expectativas e filosofias e se encontrou recostado no peito do amigo. Ao relatar o último dos encontros, descreveu o mestre como um anfitrião à beira mar. Foi servindo peixe e pão preparados na brasa que conversou com o que vem antes das palavras, o idioma das origens, a linguagem do amor. Alguém disse que ninguém ali ousava cobrar explicações. Ao falastrão deu a chance de suas almas conversarem. Perguntado sobre amor por três vezes, finalmente Pedro disse menos e bastante, com os olhos nos olhos do amigo, suspirou: você sabe de tudo, sabe que te amo.

Se resistimos juntos depois de desfiar o que poderia ser um texto, revelo a você os gostos que renovo no novo ano: cercar-me de gente com quem consiga dizer e mostrar o que sinto e sou; orar instantes silenciosos; abraçar e rir com meus amores; ler na companhia de um bom vinho; cultivar o amor por ser quem sou; correr sem pressa pensando em nada; encontrar amigas e amigos entre cheiros, sabores, olhares e ouvidos fáceis; escutar sem juízos e conselhos; conduzir reflexões cheias de poesia e delicadezas em minha comunidade de fé; encantar-me com belezas feito quem vê o próprio Deus; encontrar-me com o divino ao estender a mão ao que me pede ajuda; chorar minhas faltas sem rancor e gritar bem alto: Fora, Bolsonaro!

O poder do Natal é o de um bebê
O poder de não ter poder algum
É uma fraqueza que misteriosamente nos mobiliza
Uma ausência que graciosamente nos faz presentes
Nós, que andávamos dispersos de tão aflitos;
distantes, de tão cansados;
apagados, de tão tristes;
alheios, doentes, oprimidos,
de tão sombrios
Agora a delicadeza de um menino nos desperta,
“Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz” é como nomeamos uma criança

Jesus nina sereno e quente e delicado
Ele fez da manjedoura um berço; do estábulo, um lar
A beleza é insurgente
Entre os pobres está o libertador,
é na periferia que a verdade reluz,
é entre os sem-lugar o espaço da revolução
Se a paz não nasce entre as vítimas não é paz
A salvação é embalada no colo exausto dos refugiados

O corpinho débil e silente acorda-nos do cansaço
Faz ouvidos de gente sem voz escutar canções:
“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor”
Faz pastores nas sombras da noite verem clarões.
Ouvem anjos, corais e o sinal é ver o belo onde tudo parece estranho:
“Encontrarão o bebê envolto em panos deitado numa manjedoura”

O poder do bebê está nos olhos de quem ousa amar
e ver e acreditar e desejar
O poder da fé está nos olhos que veem promessas;
que enxergam a sútil beleza do futuro
teimosamente aberto,
vertiginosamente livre
A violência não é dona do destino;
Deus é a criança em flagrante ternura,
ela faz os desprezados esquecerem vinganças,
os ressentidos abandonarem ódios
e correrem estradas para tão somente amar

O bebê está no colo de Maria, ele mama faminto,
suga o peito da mãe e esta é a revelação
Os pastores chegam falantes, cheios de histórias,
os olhos se voltam para a cena delicada
e o silêncio inevitável acende a imagem
Eles não veem só a óbvia pobreza,
não se rendem à triste injustiça
A cena é suave e gentilmente insinuante
Os ressentimentos podem não virar ódios
O cansaço pode não ter a última palavra
Um dos pastores relembra as vozes da madrugada:
“Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor”

Os Magos se aproximam como meteoritos que rasgam o céu,
têm a urgência de quem sabe aonde querem chegar,
O bebê espreguiça e boceja suave e sem pressa
Baltazar é o nome do que se antecipa e pede para ninar a criança
Com o nenê no colo, mal consegue respirar
Sente uma desconhecida reverência, de quem não sabe mais para onde ir
O bebê nos braços fortes de um adulto pede gestos sutis,
muda o tom da voz,
converte os movimentos descuidados em uma dança carinhosa
O corpinho frágil refina o corpo embrutecido
e o mago que vivia com os olhos nos rastros luminosos,
Agora não tira os olhos do rosto gentil
Melchior, com os pensamentos nadando na esperança, puxa da memória as palavras ouvidas no palácio:
“E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades, porque de você sairá um líder, que vai apascentar meu povo”

O casal se entreolha, suspira e José diz aliviado:
“Deus está conosco”
Maria faz que sim com a cabeça, toma o Jesusinho no colo e cantarola uma canção de ninar:
“E será seu nome Emanuel”

A incredulidade de São Tomé, Caravaggio.

Foi a angústia que nos aproximou, segui a dúvida quando aceitei o convite para me juntar aos discípulos de Jesus. Eu sou um homem feito de perguntas e muita aflição.

Não lembro de mim sem o sofrimento de quem sufoca o que grita na alma. Carregava a vergonha de ser um estranho, alguém sem o fervor dos crentes; o que todos tratavam como óbvio, a mim parecia vago.

Sentia-me uma farsa nos jejuns sabáticos e suas purificações; a autocomiseração dos devotos não me descia pela garganta. O que em todos provocava culpa e arrependimento, em mim era revolta e ódio. Não aceitava que as legiões romanas pudessem ser instrumentos da justiça divina, não conseguia acreditar que éramos tão transgressores que a opressão tornara-se o nosso castigo. Se os tiranos que nos afligem são uma providência de Deus, o que fazer com a ira que sinto por tanta destruição e ruindade?

Um Deus que usa maldosos para realizar a sua vontade não é ainda mais perverso? Quem é esse Todo-Poderoso que eu preciso convencer de ser justo e bom? Sou melhor que ele? Preciso mostrar-me indigno para que ele de mim sinta dó? É o meu sofrimento que o torna favorável? Então ele é pior que o meus inimigos? Esse Deus não nos ama. Ele nos odeia. E eu a ele. Sentia. Mas nada podia dizer. Havia uma ruptura dentro de mim.

Eu existia do lado de fora, mas ninguém podia saber. O corpo dentro, o sentimento fora. Cada vez que entrava na sinagoga, a sinagoga saia de mim. Enquanto liam os Profetas, não dava para não ver as testas piedosamente franzidas dos mesmos que há pouco ignoraram o faminto à porta. Não queria acreditar que esse mundo precisasse ser sem Deus para ser bom, e isso me atormentava; mas me incomodava muito mais que pessoas tivessem tanto de Deus e fossem tão más.

Sentia-me exilado de mim mesmo. Não conseguia hospedar o estranho que me tornei.

Pelo meu nome ninguém nunca me chamou, Judas. Chamam-me pelo nome do meu triste silêncio, Gêmeo. Os judeus não satisfeitos com o Tomé da língua do povo, acrescentam a língua dos gregos, Dídimo. Para que ninguém esqueça que sou gêmeo. Da minha perda. De uma ausência.

Lísia era a minha irmã, nascemos na mesma gravidez. Dividimos o corpo da nossa mãe, sugamos os mesmos peitos, disputamos a atenção do mesmo pai e espalhamos brincadeiras pelas ruas da Galiléia. Repartimos a mesma alegria de viver.

Ainda criança, acompanhei nosso pai para aprender o ofício da sobrevivência, no entanto, pescar era ficar longe dela e das brincadeiras e das estripulias e dos segredos de nossa gêmea infância. Mas ao voltar, nossos encontros eram cheios de histórias para contar; a luz dos seus olhos admirados ainda brilha na minha saudade.

Um dia, voltamos e a aldeia estava revirada. Enquanto pescávamos, os soldados do império invadiram nossas casas, violentaram as mulheres e sequestraram a minha alma. Paralisei à porta, diante do corpo morto de minha mãe, minhas palavras e lágrimas foram sugadas pelo horror; imaginava o que os sobreviventes contavam, os gritos desesperados por socorro, o clamor delas para que Deus tivesse misericórdia e as ajudasse. Lísia foi levada para servir na casa de algum centurião. Nunca mais soube dela.

Foi nesse dia que me desencontrei de Deus.

A cada oração comunitária, minha tristeza tornava-se mais profunda e calada. O que dizer a um Deus que domina sobre tudo e nada acontece sem que ele queira, até mesmo a violência dos que nos humilham? Onde estava o livramento prometido aos justos quando os romanos esmagaram nossa dignidade e nos proibiram de viver?

As feridas da nossa gente eram as pegadas de um Deus que tinha me dado as costas. Se existe, pensava, ele é meu inimigo.

Não podia dizer não creio sem que isso parecesse um ruído. Então fazia inoportunas perguntas, estragava os prazeres da piedade irrefletida. Alguém dizia, Deus me chamou, eu perguntava, quem mais ouviu? Outro tentava consolar, Deus sabe o que faz, então foi ele que matou? Mas Deus é bom, é mundo é mau por quê? Deus curou, então por que deixou adoecer? E um dia, um velho saduceu delirou, se eu morrer, Deus vai me ressuscitar; com ou sem rugas? Amargo, também conseguia rir.

Já eram várias noites de frustração. Precisávamos que a pesca tivesse sido boa. Mas só juntamos rasgos e sujeiras nas redes. Na manhã do grande dia, as esperanças anoiteceram mais uma vez. A boca salgada pela maresia, as costas surradas pelas tempestades, nossos sonhos esfarelados na areia da praia. Eu evitava levantar a cabeça e ter que olhar para tantos rostos vazios. Pedro ainda tentou animar, amanhã o Senhor dará os peixes. E o que mata a fome hoje? Importunei, sem tirar os olhos do chão.

As manhãs costumam ser muito frias à beira do lago. O sol ainda tímido sequer aquece a pele, os ossos gelam e doem. A gente se movimenta com exagero e bate as mãos nas redes para que caiam as algas e esquentem um pouco o corpo.

Não faltava muito para terminar os consertos, quando uma gente aflita se juntou e empurrou o novo rabi contra a praia, os barcos e o nosso desânimo. Ele nos observou breve, mas com interesse. Percebeu nosso cansaço e o vazio dos barcos. Viu nossa vergonha. Eu desviei o olhar. Em seguida, pediu emprestado o barco de Pedro. Afastou-o um pouco da praia, flutuando solene nas águas mortas do lago. E muito à vontade, falou às pessoas que permaneciam atentas. Contou histórias do mar e do campo, narrou medos e coragens. Sem pedir licença, entrou na nossa imaginação e sugeriu outra vida. Uma em que somos bem-aventurados e nossas lágrimas sinalizam o consolo por vir; em que nossa fome de pão é de justiça e será saciada; em que a perseguição dos nossos algozes confirma que a mudança desejada é digna; e, para o meu susto, que Deus tem lado, o dos empobrecidos e sofre e chora e clama com eles por outro reino.

Jesus entrou na minha vida através das minhas feridas.

O que era o lugar do nosso sofrimento se tornou por instantes o do anúncio de uma nova humanidade. De uma cara nunca vista no divino. Falou de dentro da nossa angústia. Não deixou com o fracasso a última palavra. E uma inusitada fé flutuava no lago e dançava na sua voz.

De dentro de um reencantado barco, pescou-nos de nossos vazios. Mandou-nos jogar as redes mais uma vez, um pouco além do costume. Pedro não queria, mas foi. Eu nem queria nem fui. Fiquei de longe, da praia, de soslaio com o inaudito. Alguém o provocou em voz baixa, só eu ouvi, você quer ensinar pescadores a pescar? Ele respondeu, mais que isso, quero pescar neles outra fé, a simples coragem de não desistirem.

De repente, o grito esganiçado de Pedro, de quem parecia não saber o que fazer com o que precisava ser dito. Pedia ajuda. Tinha mais peixes nas redes que palavras em sua boca. Outros barcos precisaram socorrer. O amor é quando o espanto é pesado demais para um homem só.

Pensei sem deslumbre, os peixes estavam à distância de mais uma tentativa. Fixei os olhos em Jesus querendo flagrá-lo aproveitando a sorte para inventar-se divino. A frustração do meu melindre, ele gargalhava feito os demais, divertindo-se e mostrando-se desavergonhadamente também surpreso. Olhou para quem o provocara e emendou um aliviado “por que não?”

De volta à areia, ninguém sabia o que fazer com a vida quando ela é boa. Pedro se encolheu prostrado e todos reagimos com a vergonha de sempre. Ele nos olhou com a fé que eu só vi devotada pelos crentes a um Deus. Acreditou em nós. Pescou dignidade no farrapo, o belo no desumanizado, a vida boa no que era só sobrevivência. Pediu-nos para nos reinventar, propôs fazer conosco o que ele se tornou para nós, pescadores de humanidade.

Segui-lo devolveu-me ao lado de dentro; a cada ensinamento, a fé bailava com as minhas perguntas. As palavras cirandavam promissoras; sua fé era dançarina e nossas dúvidas davam o ritmo do próximo passo.

Ele não acreditava a despeito dos que sofriam, mas a partir deles. Nunca falou do divino de costas para os pobres. Ele deslocou Deus do céu às encruzilhadas, do templo aos guetos, da letra fria da lei à pele dos esquecidos. Um Deus à flor da terra.

Minha dúvida também se deslocou. O milagre foi tornar o leproso saudável, ou dar à pele maldita o toque de quem se importa? O cego que o chamara de Filho de Davi via mais que os observadores escandalizados? O prodígio era uma multidão saciada com inexplicáveis pães ou a multiplicação de gestos generosos? A hemorragia da mulher foi estancada para mostrar poder, ou deixar-se tocar por uma maldita é perder poder para estancar o desamor?

Minhas dúvidas abriram lugar para um mundo que valia a pena. Pavimentaram o caminho onde Deus passou a andar ao meu lado. Observando Jesus, vi que Deus está naquele que desperta meus afetos, que acorda minha sensibilidade, que ressuscita minha compaixão e me coloca no mundo como a pergunta que dá voz aos emudecidos.

Descobri que transcender é ter misericórdia. Sair de seu desesperado egoísmo, expandir a consciência e ver-se melhor nos olhos do outro. Estar com Jesus revirou a minha incredulidade, o que era descrença jogou-me na exuberante presença de um Deus feito gente. Reencontrei a fé no cuidado com os feridos do mundo.

A compaixão tornou-se a minha fé.

Os dias foram ficando cada vez mais nervosos. Os poderosos passaram a olhar para Jesus com incômodo. Não gostavam de quem fazia o povo crer sem sacrifícios. Temiam quem preferia os que o Templo desprezou. Tinham nojo de quem festejava a vida com os transgressores. Aquele que levava esperança às margens também fazia o povo dar as costas ao Palácio.

Já se falava em conspiração para matá-lo; as conversas foram se tornando emboscadas; temíamos um apedrejamento a cada multidão; em Jerusalém e nos arredores, dizia-se que o nosso mestre era uma ameaça à família e à nação, um blasfemo subversivo.

A notícia da morte de seu amigo Lázaro chegou feito um furacão. Desacomodou o mestre como eu nunca tinha visto. E o fez fechar os olhos para o risco de ir a Betânia, casa de seus amores, vizinha da perigosa Jerusalém. Sabíamos que era um lugar hostil e uma séria ameaça a sua vida. Mas ele fez trocadilhos, disse que o amigo dormia e iria acordá-lo, provocou a nossa lealdade e insinuou a absurda ressurreição. Alguém comentou que ele não suportava a ideia de Maria estar desesperada e longe dos seus braços.

Avisamos que seria morto se pusesse os pés no vilarejo. Mas ele manteve a decisão intacta. A promessa de uma ressurreição entendi como mais uma parábola, outro provocativo enigma para uma vida tão precária quanto carente de recomeços. Alguns o viram alucinar ao prometer o impossível e discutiram a doutrina e os antigos debates dos saduceus. Não. Ali não vi um delirante nem um herege nem um teimoso, vi um amor mais forte que a morte. Ali a fé transbordou em mim depois de uma inundação de sentidos. Coloquei-me em pé e fiz o que seria a declaração do que creio: Vamos juntos para morrer com ele! A minha crença roubou o fôlego de todos. Eu não acreditava em ressurreição. Eu acreditava no amor.

Em Betânia, as cenas se sucederam velozes, quase impossível não se perder. Marta o recebeu com instruções e prognósticos. Maria perdeu-se em seu colo, chorou e o culpou por não estar lá e impedir a morte do irmão. E o mestre, até então cheio de certeza, se desmanchou vulnerável como nunca antes. Chorou. Depois disso outras cenas vieram, mas eu fiquei imerso em suas lágrimas. Mergulhei no coração de Deus através de suas dores.

Tudo o mais pareceu um detalhe. Jesus mandar remover a pedra que encerrava o Lázaro tido como morto e gritar pelo seu nome feito quem acorda o doente de um sono profundo. Não me comoveu Lázaro aos olhos de todos. Permaneci submerso na fragilidade de Jesus como no dia que fui batizado no Jordão. Na minha mente, o choro de Jesus foi o que de mais divino aconteceu em Betânia. Mas a multidão e os demais pareciam se desviar do homem que ali se revelava, afirmar uma milagrosa ressurreição era meio-caminho para o trono. Sentiam-se ao lado do Todo-poderoso. E eu só via o Todo-amante.

Aqui se formou a encruzilhada que o levou à cruz e os discípulos à grande decepção. Para os poderosos, livrar-se de alguém com a fama de ressuscitar pessoas era urgente. Para os discípulos, tomar o poder dos romanos era um delírio religioso. Para mim, ninguém tinha entendido nada.

Quando o mal caiu sobre nós, o meu sofrimento não foi o mesmo dos demais. O nosso mundo desmoronou em cascata. A traição pelo íntimo e confiável Judas Iscariotes. A Captura do imbatível e promissor rei igual a um colibri indefeso. A humilhação e tortura aplaudidas pela multidão que passou a ver nele um demônio. A absurda preferência do povo pela violência de Barrabás à ternura de Jesus. Os inescrupulosos chefes do Templo mentindo para salvar suas verdades. A indiferença de Pilatos que ignorava tanto o réu quanto os acusadores.

Pedro não sabia o que fazer com a fraqueza de Jesus; menos ainda com a fanfarrice de uma fé que fecha os olhos para o fracasso. João e Tiago não puderam mais trovejar planos de conquista. Judas descobriu tarde demais que seguiu o homem certo pelo motivo errado.

Meu sofrimento por sua prisão e morte nada teve de decepção. A cruz sempre esteve no horizonte que ninguém quis ver, mas ele nunca deixou de apontar. Olhando-o crucificado, tinha em mente o gesto escandaloso de se inclinar aos nossos pés para os cuidados que cabiam aos escravos. Na cruz, tanto quanto na bacia com água, para encontrar Deus também precisaríamos nos baixar até o ponto em que nossa humanidade não dependesse mais de prepotências.

Vi Deus ferido pela mesma dor que atravessou a minha história e a da minha gente. E acreditei.

Ver o divino Jesus crucificado foi tão triste quanto reconciliador. Eu me vi nele. Como um dia ele se viu em mim. Fui salvo por essa estranha beleza.

Há mais de uma semana falam de sua ressurreição. O que em todos causa euforia, em mim reivindica um pouco mais de escuta. Ouço de Maria que o confundiu com o jardineiro, mas o reconheceu pelo jeito de chamar seu nome. Não lhe diz nada que ao tentar segurá-lo em seus braços, ele tenha se negado e sumido diante de seus olhos? Tê-lo nas mãos como um troféu não seria perdê-lo? Não foi a saudade de quem não deixou de amar que o reviveu?

De Cléopas ouvi que ele e seu amigo viram Jesus em Emaús. Depois de caminharem lado a lado como estranhos, o convidaram para pernoitar, assim que ele deu graças e partiu o pão, viram que era Jesus, ainda que ao tempo de uma piscadela. Também disseram que o coração queimava enquanto o estranho lhes falava no caminho. Não percebem que a fugidia presença é um encontro no coração? Não foi a imagem e o cheiro do pão partido que o fez reviver?

Pedro, João e os demais insistem que Jesus está vivo e que agora nada e ninguém irá impedir o Reino. Contaram que entrou, mas não lembram de lhe abrir a porta; que tinham muito medo quando o viram no meio da sala; o escutaram acalmá-los do mesmo jeito que no barco açoitado pela tempestade e, depois de soprar neles como quem suaviza uma ferida, disse que o mesmo ânimo que o inspirou estava vivo neles. Do jeito que apareceu, não foi mais visto. Ninguém entendeu que não se trata da reanimação de um defunto para uma vingança triunfal? Não será a vida arejada por seu testemunho que sempre o ressuscitará entre nós?

Não quis ficar na casa onde os outros discípulos se escondem. Na verdade, lamento a confusão de ideias e sentimentos. Não sou melhor que eles, mas lamento não terem entendido a estranha beleza das lágrimas e feridas de Jesus. Elas foram aberturas na recalcada humanidade para o coração. É sofrimento, mas é por ele que nossas almas se conectam. As feridas e as lágrimas de qualquer um são as feridas e o choro de Deus. Toca no divino quem cuida das dores de alguém.

Oito dias depois do alvoroço de quem disse ter visto Jesus vivo, cedo e estou aqui com os demais nesse casa de gente assustada. As janelas estão tão trancadas quanto as portas. O calor só não é maior que a pressão deles para eu deixar de duvidar. Pedem para eu crer na ressurreição. Não sei o que lhes dizer. Pedro insiste, você precisa ter fé. Tocar nas feridas de Jesus é a única chance de senti-lo vivo novamente, meu amigo, respondo.

A casa está fechada há dias, se tornou uma masmorra húmida e cheia de gente que só reconheço pela voz e o cochicho amedrontado desde a Páscoa. O azedume de hálitos aflitos tomou conta do ambiente. Sinto-me enjoado como num barco em mar agitado. Estou tonto, mas sair e arejar nem pensar. Não deixariam. Precisam que eu creia no que eles creem.

Quem é este? Parece o mendigo pelo qual passei ainda na rua.

Talvez alguém tenha esquecido a porta mal fechada. E essas mãos estendidas? Ah, quer me convencer a ajudá-lo por causa das feridas.

Por que me olha assim? Este olhar. Esta fragilidade. Aqui estou eu chorando de novo, não bastasse o suor escorrendo no rosto.

Por um instante, pareceu minha irmã pedindo-me um abraço. Deus Amado! Meus olhos estão embaçados e ardem. Não sei o que pensar. Só tenho vontade de chorar e abraçar esse estranho.

Toque aqui, homem, não tenha medo.

Agora é Jesus que vejo? Estou quase desmaiando, vou me ajoelhar. Choro mais que suo.

Deus está aqui. Jesus está aqui. Meu Senhor e meu Deus!

Se não é Jesus, o amor que sinto agora é o mesmo que tenho pelo Mestre.

Ele parece querer dizer algo.

Tem muita gente que não me vê para ser feliz. Você parece aflito, mas só você aqui dentro conseguiu me enxergar.

Seja quem for, é Jesus! Meu Deus e meu Senhor!

Elienai Cabral Junior


Dos olhos ao olhar foi a travessia da qual desisti. Perigosa e frustrante como o caminho que se percorre entre Jericó e Jerusalém. Neste, parei à beira da correria, e nunca mais fui a uma, nem voltei a outra. Uns diziam que eu vivia à saída de Jericó; outros, à entrada. Restei ali, nem partindo nem chegando, no ponto cego do mundo, na invisibilidade do desprezo, no sem-lugar de um homem.

Já tive olhos arregalados, gulosos de compreensão e valor. Olhava para me ver no mundo, para saber de mim nos olhos de toda a gente. Olhar bem é cruzar olhares.

Não nasci cego, fui desistindo de ver e não ser visto; sendo convencido da minha transparência, a de quem está ali, mas não importa.

Desconfio porquê. Meu pai tinha o nome do nosso infortúnio, Timeu, o Contaminado*; vivia sob a desgraça que fez dele um matável. Tinha a doença da pele, a lepra. Ele era um impuro de cuja vida se deve abrir mão para a paz de todos.

Perdi meu pai de vista, nunca mais soube dele, degredado de Jericó; a maldição da pele o transformou em um intocável, alguém que se deve manter longe. Morreu em vida. Expurgado, tornou-se indigno do luto. Que importância terá a morte de quem já é um nada?

Fui descobrindo que Bartimeu, o Filho do Contaminado, foi o nome que deram a minha desimportância. A pobreza da nossa família confirmava a contaminação do meu pai, sem trabalho, sem oportunidade, sem dinheiro, sem comida; com a família endividada, vi meus irmãos e, finalmente, minha mãe, um a um, sendo tomados como escravos em pagamento das promissórias. Sobrei com a estranha doença nos olhos que me livrou do trabalho escravo.

Quanto menos me via nos olhos de todos, mais fechavam os meus e a minha fé e as minhas queixas e o meu mundo; meus olhos ardiam e coçavam e uma lágrima viscosa e com cheiro de morte escorria, se insistisse em mantê-los abertos; mas sossegavam quando os fechava cansados e sujos. Não lembro quando, mas uma crosta foi definitiva, fechou minhas vistas e me convenceu de que não valia mais a pena abri-las.

No ponto cego, resta a sobrevivência, uma vida nua, despida de desejos; a vida mendicante de quem sequer tem a força da angústia para se matar. Alguém assim aceita comer o que resta dos que vivem de verdade, cobrir-se dos trapos que não vestem mais uma vida boa e abençoar esmolas para que os demais sigam em frente.

No ponto cego, no entanto, quanto mais se é ignorado, mais se sabe de tudo; ouço o barulho que a todos ensurdece, os ruídos da vida apressada demais para prestar atenção, os cheiros desenham o cenário de vidas esgotadas, as vozes entonam pavores e ambições, desgostos e ânsias.

As pessoas me contam histórias porque não vejo e eu imagino nas mesmas histórias o que elas deixaram de ver.

Às vezes acho que enxergo mais e melhor. Às vezes acho que vejo o que ninguém consegue ver. Às vezes acho que só o cego, do ponto cego, pode ver o que realmente está acontecendo.

Das histórias que ouvi, as do Nazareno eram as que mais ocupavam minha mente. Nunca disse a ninguém, mas sempre que pensava em um Messias, um filho de Davi, ungido para salvar a nossa pele, pensava em alguém que faz o que ninguém faz, que discorda do que todos pensam; um filho de Deus não poderia ser a confirmação do que essa gente convicta de tão ressentida acredita. Teria que ser um susto. Se não, eu permaneceria ali, condenado à inexistência.

Contavam da multidão que ele alimentou no deserto; do amigo em Betânia que tirou de dentro do sepulcro; do vinho de melhor qualidade que serviu na festa, quando todos achavam que só restara água. Mas para a patética decepção da maioria, ele era flagrado em más companhias. Publicanos, samaritanos e prostitutas, gente de quem um cidadão de bem não chegaria perto, ele se divertia em suas casas, comendo e bebendo com eles. Certo dia, um fariseu insinuou com voz maldosa, você divide a mesa com quem sente prazer, ninguém ficaria tão à vontade perto dessa gente se não se parecesse com eles.

Não bastasse ganhar a fama de fanfarrão, contaram que um fariseu testemunhou uma cena escandalosa com uma mulher mal falada. Ela teria se despedido de Jesus com favores que uma prostituta só oferece a clientes muito especiais, derramando um perfume valioso sobre ele, dançando e acariciando sua pele com os cabelos. Há quem afirme que ela é o grande amor da sua vida.

O escriba disse outro dia que o tal do novo rabi também era um contaminado, que tocava e se deixava tocar por leprosos e por mulheres que nunca param de sangrar. E as mulheres dessa terra nunca param de sangrar. Disse também que seus discípulos eram estimulados a comer no dia do jejum e, esfomeados, ignoravam a purificação antes dos alimentos. E o pior, ele teria ensinado que a reunião alegre de amigos é mais santa que o sábado dos piedosos e a santificação é feita pelo prazer, não por sua renúncia.

Contavam essas histórias e eu me arrepiava. Eu amava o que eles odiavam. Alguém assim seria a pessoa mais divina que eu poderia conhecer. Vendo os que ninguém vê, ouvindo aos que ninguém ouve, tocando os desprezados como eu. Alguém que veio trazer um reino onde o que contamina a vida não é uma pessoa e seus fracassos, mas o olhar que aprisiona o outro no nojo. No reino do meu rei, do Filho de Davi conforme imagino, impuro é tratar a desigualdade entre pessoas com piedosa normalidade.

Eles descreviam um escândalo, eu imaginava uma salvação; eles descriam dos milagres por causa das suas subversões, eu tinha esperança porque para mim o único milagre que pode mudar o mundo é importar-se com os esquecidos; eles o viam cercado pelo inferno, eu, o cego, o imaginava com o céu debaixo dos pés.

Com suspeitas, eles só viam um nazareno, mas eu iludia a passagem dos dias sonhando que ele era o Filho de Davi e que a qualquer dia desses eu o encontraria e lhe diria tudo o que um cego consegue perceber.

Minha pele estava quente do sol de um dia inteiro, na boca um gosto de sangue de quem tem que gritar para se fazer ver; quem tinha que chegar ou partir não passava mais, os poucos atrasados apressavam os passos e no lugar das esmolas deixavam um bocado de poeira.

Uma pessoinha se aproximou e ficou em silêncio. Com voz de mãe, uma mulher apavorada pedia que a filha não me tocasse. A menininha colocou na minha mão uma cuia com o leite mais doce que já tomei na vida. Agradeci, enquanto pude, pois já a arrastavam irritados com a criancice. Mas ainda a ouvi dizer, ele está com fome. Pensei que ela se parecia comigo, via o que todos desaprenderam a enxergar. Suspirei contente.

O chão começou a trepidar e o barulho de tropel das multidões avisou o inesperado. Alguém especial estava se aproximando. Em poucos minutos muita gente de Jericó voltou à estrada e outros tantos pareciam vir de Jerusalém e se misturaram ali. Agarrei as pernas de um dos apressados e implorei para saber quem era esse que passava. Para se livrar de mim, menosprezou, o Nazareno. O nome desdenhoso que davam a quem eu imaginava feito um Deus. A quem, em segredo, eu chamava de Ungido, de Filho de Davi.

Não dava para saber onde ele estava, se longe ou perto, à esquerda ou à direita. Eu só precisei gritar uma vez para que aqueles que nunca me ouviam prestassem atenção. Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Não lembro a última vez que me tocaram, mas dessa, foi tentando tapar a minha boca. E me advertiram que não dissesse uma coisa insana daquelas. Alguém xingou, você é cego, não louco. Outro resmungou e riu pela contradição, não vê que é só o Nazareno? Sacudi a cabeça e me livrei das mãos que pediam o meu silêncio.

Eu dizia o que eles não queriam ver.

A cada vez que teimava em gritar, pensava aleatoriedades.

Filho de Davi!

É difícil enxergar o que aprendemos a não ver para seguir em paz.

Filho de Davi!

Algumas coisas ficam invisíveis, de tão visíveis.

Filho de Davi!

Como ver o divino em alguém demasiado humano?

Gritei pela última vez e antes que me chamasse e eu fosse levado até ele, concluí, eu sou a ironia, o cego que enxerga o que todos aprenderam a não ver.

O tempo parou e os espaços se rearrumaram. Eu gritei e fiz aparecer quem ele nunca deixou de ser. Ele me viu e eu voltei à existência. Ele pediu e fui levado até ele.

Do ponto cego ao ponto da questão.

Tão perto, meu corpo todo o imaginava. Senti seu hálito e o cheiro era de sangue, como o meu, também ele tinha que falar muito e mesmo assim não ser visto. Também ele estava no ponto cego, entre o messias milagroso e o homem de dores. Entre o rei poderoso e o servo sofredor.

Sua pergunta foi tão retórica quanto irônico foi o nosso encontro. O que você quer que eu te faça?

A menininha reapareceu. Outra cuia com leite nas mãos. Ele a tomou no colo e ela insistiu docemente para mim, não vai responder?

Minha resposta foi o clamor que estava nos olhos de todos ali.

Voltar a ver.

(*Bartimeu, filho de Timeu, como O Evangelho Segundo Marcos informa. O nome pode ter origem no aramaico timai, “contaminado” – André Chouraqui, A Bíblia, Marcos).

Acordei meio século depois de tudo, com a festa de sempre. A Bete com a bandeja do café da manhã, as crianças cantando os parabéns e o cachorro latindo e pulando na cama. Divertido ver que o cachorro já sabe e entra na festa sempre. É assim que a gente faz aqui em casa a cada comemoração. Adoro.


Assim que todos seguiram sua rotina, o silêncio trouxe a imagem e a voz da minha mãe, ela gostava de contar que no dia que fez 50 anos, entrou debaixo do chuveiro e tomou um longo e ritual banho, enquanto as mulheres da igreja aguardavam na copa para as homenagens. Ela dizia devagar e suave, tomei um banho demorado, não deixei ninguém interromper a despedida. Fiz o mesmo.

Deixei a água escorrer generosa no meu corpo de 50, despedindo-me de quem não consegui ser e seus tolos ressentimentos; deixei ir pelo ralo o luto narcíseo que teimava desde os 40, a pressa de ser que me atropelou nos 30, o deslumbre juvenil de recomeçar do zero todos os malfeitos da humanidade nos 20, os medos que ainda me assombram desde os 10, o desespero de me afirmar desde que sei de mim.

Enquanto me enxugava da despedida, olhei-me nu refletido no espelho. Fiz isso por longos e contemplativos minutos. Admirei a obra do tempo. Achei-me bonito. Por favor, nem precisaria dizer que falo de uma beleza que nada tem a ver com a estética da moda, de um corpo malhado na academia, barriga tanquinho e bíceps torneados. Óbvio que não. Reverenciei o que foi feito de mim. Vi a força da genética que reproduziu bastante do meu velho, ombros estreitos, braços finos, a formação do peito não muito peludo; a despeito de ter 15 centímetros a mais de altura e uma barriga que a prática da corrida não deixa crescer muito; pernas pouco musculosas, os cerzidos da pele pelos tombos de menino, as caneladas do futebol; pés proporcionais ao tamanho, o calo de sangue que denuncia a pisada desequilibrada nas passadas dascorridas de rua. O corpo da minha história, o divino acontecimento de existir.

No corpo nu, vi o que venho fazendo com o que fizeram de mim. O corpo que sou. Ele é o que venho improvisando, ora para sobreviver, ora para existir com mais graça; nele minha vida foi desenhada, feita em linhas oblíquas e surpreendentes, dobras da resiliência, marcas do que encontrei e perdi e amei, os termos do mundo em mim.

A pele enruga de tanto que resistiu, que tensionou na dor e no medo, mas distendeu nos prazeres e felicidades; rompeu nas quedas e pancadas, cicatrizou, escamoteou, arrepiou-se, suou, ressecou-se, inundou-se em tantos mares e rios; acolheu amores, tateou mistérios, afligiu-se, ressentiu-se, cedeu, descansou; depois de chuvas, sóis, ventanias e brisas, beijos, apertos, abraços, frios e calores, trabalhos e conquistas, saudades. Mundos chegaram a mim pela pele, essa que vi ali, mal refletida.

A cicatriz debaixo do braço, na altura do sovaco esquerdo, cresceu comigo desde o evento dos 6 anos de idade, na estripulia de subir nos muros proibidos da vizinhança, escorreguei de um e fiquei pendurado na lança de ferro da cerca; nas mãos, as costas dos dedos guardam pequenas cicatrizes, do velocípede que empurrava ladeira acima e virou sobre mim, aos 4 ou 5 anos. A catapora também espalhou seu rastro nos meus 13.  Queimaduras e cortes da cozinha que amo, mas segue desajeitada. O tempo cerziu as marcas dos acontecimentos e narra as desventuras e os imprescindíveis erros para chegar até aqui; somos feitos de feridas, tombos, esbarrões, acidentes que não nos deixam esquecer que a vida é pra valer e o destino,incerto, acidental, mas sempre inédito e desafiador.

Entretanto, a pele guarda também íntimas e invisíveis verdades; gostos, cheiros, toques do que aprendi a fruir na vida; abraços que encerraram mágoas e desencontros, prazeres que celebraram amores; os arrepios e alegrias e choros de uma maratona concluída; o colo e o carinho que me ninou menino e me acalmou adulto e não mais terei; minha mãe, que deu o seu último fôlego de vida há quase 3 anos, respira ainda em mim e anima em segredo minha vida, sobrevivo das memórias que trago da Arézia; um corpo é feito de despedidas e saudades, sou também a presença de ausências.

Ainda à frente do espelho, contemplo o sacramento da vida, a minha eucaristia; não me pertenço, sou muitos e outros e tantos a perder de vista, mas que sovaram meu corpo feito um pão e encharcaram minha vida feito vinho. Não sou para mim, condenado ao amor, à imagem do Deus de Jesus, este é o meu corpo e eu o dou a vocês.

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O amor não (se) aprende.

Não é coisa para ser medido.

Nem ideia para abstrair platonices.

Amor é o que deixei de ser,

de saber de mim,

dos bons planos,

dos antigos desejos,

depois que te vi.

Nada conclui, tudo muda.

Vendia livros, pinceis, lápis e folhas

e contava os dias para a Pin-da-mo-nhan-ga-ba,

destino com nome grande,

do tamanho da certeza.

Tudo entre as margens, 

o rumo certo para o que viria,

seminário, estudos, vocação.

Meu mundo arranjado,

a véspera e o dia seguinte.

Então você chegou com uma força delicada,

a voz despretensiosa e tão suave e tão menina e tão outra,

passos lentos de quem tem pressa de não tropeçar,

olhos amendoados e cheios 

de caminhos que nunca vi

e sempre quis.

Eu te olhei para não mais saber de mim,

você veio como a onda do mar,

que derrete suave e irresistível o castelo do menino,

e nem adianta se queixar.

Desaprendizagem é o nome do amor.

nem substantivo faz, 

adverbia o inesperado.

Adjunta o provisório, 

um nervoso entretanto.

Não cabe sequer na frase,

entredito, 

desconcertante, 

tumultua.

Você era o que eu não vinha dizendo,

mas queria tanto.

Sobre o que falamos ali? 

Nem lembro nem nunca importou.

Sentados no banquinho do Conjunto Nacional,

o dito estava nos olhos, 

não nas palavras.

Conhecê-la condenou-me a seguir obstante,

de juízos suspensos.

Indomável adversativo é o amor.

Porém, 

não sentença.

Amar nada responde, 

é a próxima pergunta.

Uma dúvida cada vez maior.

A convicção é desacompanhada, 

solitária calmaria,

tédio absoluto e sereno,

de tão segura.

Que pena de quem por ela se deixa persuadir!

Porque se solidão é fechamento 

tranquilo,

a abertura que a tudo perturba é casamento.

Na noite quente de Sobradinho,

quase quatros anos depois daquele dia,

nos vinte e cinco dias do mês de julho do ano de mil e novecentos e noventa e dois.

Um segundo antes da eternidade,

os meus olhos se desencontraram

de tudo,

de todos,

se perderam nos seus,

você ainda desfilava,

toda noiva,

o tempo e os rostos congelaram

no incontável tempo do amor,

Casamos ali, 

entre quânticos parêntesis, 

entre o desejo e o aceite,

entre a imagem e a palavra.

Casaram-se os olhares antes de tudo.

O acontecimento antes do evento.

O gozo antes do gozo.

Perdoem-me as núpcias.

Por que você sabia que nos seus olhos eu me perdia?

Chorava sem saber o que fazer com tanta boniteza.

Por que eu sabia o que diziam os seus olhos?

Seus passos se descompassaram,

sôfregos,

pareciam com pressa de te deitarem em mim.

Tudo seria calma, paz além da conta,

Conversa com espelhos, 

lúgubre límpida loucura.

Sanidade é outra coisa,

é a angústia de falar

 e você ouvir meus olhos.

De apontar o caminho 

e você ver o dedo que treme.

De você dizer vamos

e eu saber que quer ficar.

Casar também não é caminho, 

é todavia,

o caminho dos descaminhos.

Família nada tem a ver com o amor,

mas com os amores,

a perder a conta,

a cabeça

e o que restou de bobeira e paz.

Vários, 

atravessados, 

misturados.

E tudo fica tanto que nada mais importa.

O amor não soma, 

multiplica e esparrama.

Cinco? Em uma casa? Uma multidão.

A Bete, o Elienai, a Clara, a Gabriela e o Thales.

E antes que esqueça do peludo, o Hug.

Nunca fomos pontos alinhados e estimáveis,

mas linhas 

entrecruzadas no imponderável 

tecido da vida.

Cada um do seu viés conecta-se ao outro,

e cada dupla aos demais,

e cada trio aos que restam,

o quádruplo ou o quíntuplo

se fia ao que ficou só,

indo e voltando,

infinito emaranhado,

de fios,

de fiança,

a rede em que deitamos medos

e alegrias,

em que descansamos desejos

 e perdas,

onde embalamos desesperos,

até que cochilem as dores.

Família boa é feita de nós.

O amor nunca chega, 

é sempre partida,

despedida sem fim.

O amor é por onde se peregrina,

incurável aprendiz.

E aqui, agora, vinte e cinco anos depois,

tantos lapsos após,

a um instante de tanto,

prometo continuar

despedindo-me

do que teimoso achar que sei.

Aceito seguir

desaprendendo

o que por distração concluir.

E te convido a assumir o compromisso mais solene desse amor,

de ouvir

 os meus olhos,

não o que eu digo

e perder-se

das sentenças e seus ressentimentos.

De nunca deixar de nos reinventar

nas ardentes entrelinhas,

onde as palavras pouco dizem,

mas afetam o tom, 

o timbre

e a imaginação.

E o olhar arrepia a pele antes de ser tocada,

e amada 

dilata os poros e a pupila,

 o senso e o sexo.

Ali nas entrelinhas é que tecemos nossos amores,

onde a incerteza abre os braços 

outrora tímidos 

ou fadigados

e acolhe fraquezas,

abriga anseios

e não para de insinuar,

de fazer sonhar

e de fermentar gostos e gozos

e todos os outros amores que ainda chegarão

e graciosamente perdidos, 

se fizerem nós.

O poder não é grande nem imperial nem público. É mínimo. Limitado pelo alcance dos olhos. Íntimo. Sua fronteira é onde o soco pode ser desferido. Irrisório. Sua importância é do tamanho de uma conversa despretensiosa.

Os grandes não sabiam quem era o nazareno maldito. O Imperador sequer entra nessa história. Pilatos o ignorava. Herodes se divertiu por ter nas mãos o mosquito que fez os inconvenientes sacerdotes engasgarem. A multidão conhecia a violência de Barrabás, mas da blasfêmia do anônimo nada sabiam que fizesse valer a pena.

Aqui está o poder, ínfimo, quase desprezível. Mas é aqui onde o mundo começa. Aqui o poder usina, faz dobras na realidade, produz pessoas, domina os corpos. Aqui, onde tudo é tão pouco e tão visível que se torna transparente.

Invisível, de tão visível, o poder a tudo e todos envolve.

Eis a onipotência, tão pouco, o poder espalha-se fluido e irresistível nas relações. Costura pactos. Feito fios que tecem as tramas da rede de um pescador. Um detalhe. Um afeto. Um medo. Uma ameaça. Um desejo. O outro que tem o que tanto quero. As disputas na Sinagoga. A segurança de ter o pão sobre a mesa. O prestígio do escravo com seu senhor.

Jesus de Nazaré não saía da cabeça provinciana dos chefes dos sacerdotes. Ele era uma ameaça. Gente antes dócil e servil, agora tinha esperança. Viviam recontando as histórias e lições do mestre galileu. E pessoas assim, que acreditam em outras versões para a vida, resistem aos que a querem sempre do mesmo jeito. A ameaça? Gente que imagina faz vibrar a mais resistente rede de controle.

Encontraram entre os seus discípulos, amedrontados e fragilizados com as ameaças vindas do Templo, a fenda pela qual ferir Jesus. Há sempre trincas em um muro feito de gente, nossos assustados amores. Não precisaram de mais que um punhado de dinheiro para desmoronar a fortaleza idealizada dos amigos. A princípio, apostaram que seria o assustado falastrão, Pedro, ou os Filhos do Trovão, tão desejosos de expressão. Mas foi o impaciente Iscariotes, de tal forma confiado às facas, prontificou-se a precipitar a guerra, a empurrar o líder para a luta.

Sem traição, o poder nada realiza. Nele, precisam ficar pelo caminho tantos quantos custarem a autoperpetuação. Não se trai por Roma nem por Jerusalém. Trai-se para ter razão. Para não sentir-se um fracasso. Pelo gosto infantil de superar um concorrente. Para fugir do próprio pecado. Para calar o medo mais íntimo. Para quebrar o espelho à frente.

Nenhum dos amigos queria o mestre lá, preso e humilhado. Pedro não suportou olhar nos seus olhos, quando por azar se cruzaram. Tudo parecia dizer que também não era o plano de Judas, a guerra que queria não começou, mesmo com o Mestre encurralado pelo exército de Caifás. Jesus decepcionou a lógica do embate, resistiu ao poder negando-se as mesmas armas dos opressores. Preteriu a violência e Judas não suportou continuar vivo.

O corpo de quem faz os pobres sonharem com a dignidade tem que ser humilhado e macerado até o último fôlego. Nada é mais odioso que tentar tirar debaixo dos pés a gente pobre e maldita que pavimenta o caminho dos homens ricos. A violência que sofre Jesus é do tamanho do insulto que ele foi aos donos do tesouro do templo. A Via Crucis é a epifania do poder. O espetáculo da tragédia humana.

Jesus é arrastado violentamente até o templo, de lá ao Palácio de Herodes, para enfim curvá-lo a Pilatos em seu Pretório. A engrenagem que mói a carne de quem ousa lutar pelos pobres e esquecidos é quase sempre a mesma, do sacerdote ao rei, do rei ao juiz, do tribunal à morte.

Não precisaram andar muito, de Herodes até Pilatos, o Pretório ficava no mesmo palácio. Ambos os governantes estavam em Jerusalém por causa da festa, por isso enchiam a cidade de soldados e deixavam a imagem de força bem polida.

O cortejo atravessou pátios, percorreu luxuosos corredores. E tudo era pétreo e frio como uma mentira mal contada. Jesus, vestido de rei, era o bobo da corte. O rosto deformado pelas bofetadas, os cabelos ensanguentados e colados na cabeça, ele tinha o cheiro azedo das longas torturas. O nazareno arrastou-se feio e indigno pelos lustrosos pisos palacianos. A porta orgulhosa se abriu e ele caminhou claudicante até Pilatos. Ficaram sós. E o inusitado aconteceu, nenhum dos dois parecia estar ali. Um encontro de ausências.

À parte dos sacerdotes e seus soldados, que permaneceram do lado de fora do Pretório, porque se pisassem ali, ficariam impuros para os ritos da Páscoa, Pilatos e Jesus respiram outros ares. A pureza dos religiosos é a ficção que fica para trás.

O romano não tem a quem mostrar-se poderoso, e o judeu fica livre para não responder às perguntas que já traziam sentenças. Pilatos desdenhava as razões e o mundo dos judeus e via diante de si a carne barata de um inocente desafortunado. E Jesus, ele não encenava a ficção que começara na casa de Caifás.

Pilatos olha longa e profundamente para o prisioneiro. Ali, longe da pureza dos piedosos e dos interesses inconfessos dos poderosos, ele não consegue ver o criminoso, enxerga o corpo frágil e carente. E aparece o homem.

Jesus não vê o Governador, vê se desmanchar o gigantismo de que a tolice humana é capaz. E aparece alguém com dúvidas.

Os homens se veem.

A verdade surge.

Pilatos conversa com Jesus. E se eles se escutam é porque se ausentam das brigas, das acusações virulentas dos sacerdotes, dos gritos ensandecidos da multidão. Conversam em um intervalo de tempo, na narrativa suspensa. Quando as engrenagens da máquina descansam, os encontros se tornam possíveis.

Você é um rei, pergunta o duvidoso Governador. As palavras são suas, desliza Jesus. Mas depois de ofertar a Herodes um silêncio subversivo, as escorregadias palavras eram ali o mais credível ponto de contato. Nada é tão verdadeiro quanto a dúvida e a suspeita.

Toca-se a verdade quando se resiste aos insólitos jogos de poder.

Não faço parte desse mundo, meu reino é outro; não falo a língua dos inquéritos, não me distraio com retóricas, já morri para o grande simulacro que reúne essa multidão. Sou rei de um reino em que dominar pessoas e usar seus corpos é a pior mentira. Meu testemunho é da verdade, a que experimentam aqueles que não temem perder a própria vida, que não fazem de uma imagem de sucesso o seu maior amor, que não se importam em serem confundidos com os impuros e malditos, que aceitam a rejeição como prêmio e o ódio dos poderosos como sinal de confirmação. Eis a verdade de quem ama, encerrou Jesus.

Nesse instante, os seus olhos se perderam nos vãos das enormes janelas que circundavam o salão, por onde entrava o grito por crucificação, para em seguida encontrarem com clemência os de Pilatos, que mergulhara inerte em um longo silêncio.

O que é a verdade, Pilatos perguntou sem esperar resposta. Seu rosto caíra desalentado. O que é a verdade para uma multidão que vive de se empanturrar com imagens de força? O que é a verdade para esses sacerdotes que nada temem mais que as ameaças à arrecadação do templo? O que é a verdade para aqueles que preferem expiar suas culpas inventando vilões? O que é a verdade para quem faz do medo uma arma de dominação dos corpos? O que é a verdade para alguém como eu, o que é a verdade para um covarde, o que é a verdade para quem não consegue saber quem é sem essa patética farsa?

Pilatos deu as costas a Jesus, olhou com nojo as próprias mãos. E antes de voltar ao pátio e à multidão, pediu uma bacia com água e berrou impotente, o que é a verdade?


Depois de mais um importante dia,destes que a testa franzida não endireita mais,
que os olhos ardem mas não se fecham,

que o sol se põe, 

mas as palavras insistem acesas,

e de que a vida dói nem se esquecem

nem se calam.
Depois de tanta queixa, tanto medo, tanta dúvida,

em que os doentes se vão,

os moços acenam,

os velhos dizem adeus,

as mulheres dão as costas,

toda gente séria se vai,

mas ficam suas sombras,

pesadas,

duras,

tristes.
Depois de toda demanda,

toda palavra,

todo gesto,

todavia

ele suspira só.

 Em casa, mas sem pátria;

no chão, mas fora do mundo.

Sentado numa pedra, voa,

voam os pensamentos.

E por um instante duvida,

ignora as razões,

esquece o sentido,

não sabe ao certo o que o trouxe até ali.
Ouve-se o grito estridente da garotada.

Pelo som aflito, correm.

Afoitas e soltas,

intensas, lépidas.

Com os olhos esbugalhados, engolem mundos;

não respiram, ofegam.

Aproximam-se entre descuidos e cansaços,

os lapsos da tarefa,

destes que nos livram 

das certezas e seus zelos,

do empenho pétreo do trabalho sem fim.
Feito uma coluna militar,

adulta, austera, briosa,

os discípulos protegem o Mestre

da distração,

do destrambelho,

da molecagem,

da inutilidade dos brincantes.

Garantem que a vida siga 

produtiva

e onerosa 

e séria

e só.
E como quem se sente roubado,

aflito e revoltoso,

Cristo repreende a ordem,

suspende o juízo,

desorganiza a salvação

e entra na ciranda.

Perde o fôlego e o equilíbrio,

roda e gargalha feliz.

Não deixa que não o deixem rir.

E antes que termine de dizer que “não impeçam as criancinhas”,

é com cócegas que a menininha o devolve ao Reino.
Entre toques e canções,

afagos e risos

e um menino no colo.

Olha em seus olhos

e se espelha encantado;

se vê criança,

aquela que dormia esquecida,

o filho de um novo dia, 

que se deu como um bebê se dá;

inteiro, de tão frágil,

intenso, de tão faminto,

pleno de tanto futuro,

ao colo de tantos dramas.
O menino tem o hálito de tâmaras maduras,

o cheiro de doces memórias,

 da voz de Maria contando histórias pra dormir.

A dos visionários pastores,

dos presentes dos magos,

do colo inquieto de Simeão, 

das danças de Isabel 

e do falante silêncio de Zacarias.

Histórias de quem partiu de grandes sinais,

mas chegou a um mínimo bebê.

E chegou aonde tudo começa.

Que sem luz irradiou graça.

Que sua fraqueza suscitou reverência.

Que sem nada dizer, liderou sonhos.

Nada fez, mas tudo significou.
E antes que a brincadeira acabasse,

a poucos instantes da meninada partir,

afirmou aos discípulos o que nunca disse,

feito um escândalo,

uma heresia,

uma reviravolta,

a lição que nunca poderia ter esquecido,

quem quisesse por os pés no Reino dos Céus

teria que seguir os passos da criança,

a que brinca e sorri,

que por nada troca os afetos,

incalculável,

imprevisível,

inoportuna,

extemporânea,

livremente inútil,

a criança que Deus é.

Quem me segue que também eu não o siga?

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