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As melhores memórias são sempre afetivas. Têm cor. Tem cheiro. Tem sentimento. Quinze anos de Ana Clara é uma experiência sagrada. Sinto o cheiro doce do corpinho ainda lambuzado do útero. Depois de (des)esperar no corredor pelo nascimento e primeiro encontro com a minha Clarinha, ainda vejo o seu rostinho vermelhíssimo de vida e de choro. Trazido pela enfermeira, uma desproporção. O enorme colo da “Frida” e o corpinho tão frágil da Clarinha. Seu choro cessou tão logo me ouviu dizer: Oi, filhinha, é o papai! Já quieta, nos meus braços, abriu os olhos. Sei que só via vultos. Mas seu coração, tenho certeza, enxergava o papai com quem conversou durante toda a gravidez. Sua serenidade e delicadeza não foram suficientes para acalmar meu coração em taquicardia. Tive que devolvê-la para a enorme “Frida” para tê-la comigo depois e quase pra sempre.

Enquanto escrevo deve ter um cisco no meu olho. Ele insiste em lacrimejar! As cenas passam rápido na minha lembrança. Mas quero parar bem aqui. Nas tardes frescas da Praia do Futuro. Depois de um longo dia de uma agenda maluca, cumprida pela Clarinha fielmente ao lado do papai e da mamãe. Corria em casa, arrumava-nos rápido e íamos para um fim de tarde na praia. Já com dois anos, as perninhas roliças corriam pela areia, com um bracinho flexionado junto ao peito e o outro se movendo como que empurrando o vento para trás, coisa de quem tem pressa de viver. De longe, como que contemplando o melhor da vida, assistia à dança do nosso bebê sobre a areia da praia, iluminada pelos fracos e amarelados raios de sol. Lembro disso como quem degusta um bom vinho. Inebriado pelo gosto da vida. Sinto saudade do meu bebê.

Gostava de cantarolar seu nome, flexionando-o em diversas formas: “Clarinha, Clarita, Clariteira”. Seu riso fazia de mim um compositor incontrolável. Mas a melhor das farras era a de balançá-la segurando pelos tornozelos. Pra lá e pra cá para o desespero da vovó e o êxtase da Clarinha.

Tenho outra memória inconfundível, com gosto de camarão e o som do “Eu só quero chocolate” na voz de Tim Maia. Em Curitiba, no início das noites de todas a sextas-feiras, tínhamos um encontro marcado. Era a noite do papai fazer o melhor espaguete com camarão da cidade. Mas o melhor do prato era o preparo. Enquanto cozinhava, a Clarinha, já com os seus oito anos, colocava no som o Tim Maia cantando a nossa música. Cantávamos aos berros e dançávamos freneticamente na espaçosa cozinha do sobrado no Jardim das Américas. Seus olhos amendoados quase saltavam para fora.

Sinto saudade dessa Clarinha que mudou. Mas, confesso, estou deslumbrado pela mulher que vejo surgir. Não me atrevo mais às cócegas, nem aos beijos na barriga para arrancar suas mais gostosas gargalhadas. Seus lindos contornos de mulher agora se tornaram limites que antes não existiam. Agora só posso reverenciar o que vejo e torcer para que de vez em quando ela ainda queira um pouco de colo. Olho pra ela e mal consigo disfarçar minha admiração. Seus olhos graúdos são irresistíveis. Sua perspicácia em discernir as coisas a sua volta me enche de orgulho. Sua recente adesão ao meu flamengo, cujos jogos agora insiste em ver ao meu lado, é o melhor da festa. Sua alegria em estar com os amigos da Betesda e as várias programações da igreja acalma meu coração medroso.

Ela se tornou a Cacá da Gabriela e do Thales e a Ana Clara que desponta nos quinze anos cheia de beleza e personalidade. Hoje, sei o quanto gostava, apesar de me queixar, da pegação de pé da Clarinha. Mal conseguia ficar sozinho com a Bete. Agora cheia de amigos e gostos diversos, prefere a autonomia. É preciso partir. Deve ir. Fazer suas escolhas. Administrar suas mágoas. Descobrir outras alegrias. Construir seu destino. E voltar sempre que quiser.

Filha, divirto-me vendo-a tentando escolher uma profissão, um curso, tantos caminhos. Isso é uma delícia. Você deve desfrutar sem pressa e escolher sem perder o bom humor. A vida é complicada demais para ser levada muito a sério. É preciso se divertir um pouco com tudo. Como Jesus, comendo e bebendo com os amigos.

Clara, o amor é essa condição surpreendente de viver. Consigo listar sem dificuldades muitos erros cometidos por mim. Exigi mais que devia tantas vezes. Irritei-me outras além da conta. Cobrei o que você ainda não estava pronta para oferecer. Desperdicei momentos singelos e preciosos da vida com a minha ansiedade e expectativas. Coisas de um pai que ainda era um pouco menino quando se viu com uma Clarinha no colo. Mas minha alegria é garantida por uma verdade que nada pode tirar de nossa família: você é muito amada. E sei que o amor ultrapassa e encobre todas as nossas fragilidades. E todos os erros desaparecem entre tanta coisa linda que a gente vem vivendo junto. Que bom que você existe, Cacá.

Gostaria de protegê-la de tudo o que vejo ameaçá-la pela vida a fora, mas faria um mal maior. Roubaria de você o que é mais intenso na vida: a possibilidade vertiginosa de escolher e construir o destino. Foi assim que Deus nos criou. Isso gera algumas dores, mas faz de nós gente de verdade.

Mais solta e distante do que eu gostaria, mas muito mais intensa e mulher que já mais imaginei, sei que carrega na alma a certeza do nosso amor, os valores da nossa família e o Deus de seus pais. Tudo bastante para fazer de você uma mulher de alma doce, grave e sensível para Deus e todos ao seu redor. Aposto que você surpreenderá a todos com suas conquistas. Aposto que ainda experimentaremos alegrias não imaginadas. Aposto que você superará os piores obstáculos. Aposto na linda mulher, minha filha, minha amiga, meu amor. Aposto que você sempre voltará para o colo do papai (pelo menos de vez em quando, vai!).

Descubro aos 39 que uma história são muitas e que a narrativa reivindica ser recontada sempre e nunca em definitivo. Como se o modo com o qual vínhamos contando quem somos, no que cremos ou não mais, o que esperamos e do que desistimos, porque chegamos aqui, não conseguisse mais nos narrar. Entediados com os contos de nossa história, angustiados pela desconfiança de que um outro era uma vez precise ser arriscado, redescrevemo-nos.

Não consigo contar a minha história como vinha contando. Minha filha me perguntou em um dia desses: por que você é assim, diferente? Engasguei nas primeiras sílabas da história que sempre narrei para dizer quem sou. Não era mais. Não contava mais. Instantes novos, pessoas distintas, perguntas outrora adiadas, respostas blasfemas, fantasmas desvelados mudaram quem venho sendo desde o era uma vez. Não falo de capítulos novos de uma novela antiga. Mas de fatos novos que recontam a história toda. Uma narrativa é uma verdade que nunca chega, uma identidade sempre a caminho.

Talvez por isso Jesus nada tenha escrito. A palavra escrita finge que disse o que nunca deixará de ser. Talvez por isso, a única vez em que escreveu o fez na areia. Para que a brisa, essa velha contingência, tratasse de desescrever. Foi a escrita fugidia na areia que obrigou os contadores de uma história só, a que junta pedras nas mãos, a recontarem-se. Quem não tiver pecado que conte uma única história. À mulher, que repetia pela última vez a história de sempre, impôs a tarefa de olhar-se de novo e narrar-se de novo e tentar ser de novo: onde estão as pedras, memórias mortas de quem é você? Restou o vácuo criativo das versões que se foram. Eu também não sei mais quem é você. Vá e conte de novo. Era uma vez uma mulher que queria amar.

Engasgado nas primeiras sílabas da história que sempre contei, mas que não me conta mais, perguntei, curioso, como se quisesse saber como de fato foi: o que você acha? Seu olhar irônico de filha que estranha o pai, sobrancelhas franzidas, maneando a cabeça, era Jesus sugerindo-me redescrever. Esse que vou deixando de ser.

Elienai Cabral Junior

 

Já se perguntou por que fracionamos o tempo? Por que o dividimos em pedaços de tempo? Milênio, década, ano, mês, semana ou dia? Veja. Não só contamos o tempo: quantos anos ou meses? Faltam quantos minutos para o novo ano? Além de contarmos o tempo, nós o dividimos em pedaços com nome. Pedaços que significam. Mas o tempo por si só é indiferente ao nosso calendário. O tempo passa sempre e irresistivelmente. Não interessa se mudou o mês, se acabou a semana, ou se inicia um novo ano. Por que, então, organizamos o nosso modo de lidar com o tempo dividindo-o em frações com nome?

Arrisco uma resposta. Porque somos carentes de sabedoria. O tempo passa com uma força que nada ou ninguém pode detê-lo. Minucioso e implacável. Aconteça o que acontecer. Mas nós não podemos aceitar que ele passe sem sentido, sem significar algo. Que ele venha sem que nós possamos esperar um futuro melhor. Que ele passe e nós não possamos nos despedir do que foi ruim. Que ele siga em frente e nós fiquemos com as mãos vazias, ou será com a alma vazia?

Há duas maneiras de dar significado ao tempo. Uma é iludi-lo. Tentar passar a perna no tempo. Tentamos trapacear o tempo quando fingimos que o passado não foi importante. Vejo isso acontecer quando alguém sugere renunciar o passado ou simplesmente esquecer tudo e seguir em frente. Quem tenta trapacear empurrando para debaixo do tapete o que passou, descobre tarde que o passado tem o poder de estar sempre e amargamente presente quando não é assumido. Outra forma de tentar trapacear o tempo é o otimismo ingênuo. No próximo ano tudo será bom, tudo dará certo! Basta ter fé. Basta orar com força. Basta acreditar e tudo será um céu de brigadeiro e um mar de almirante! Não demora muito e se descobre que o novo ano envelhece rápido e os problemas não tratados se repetem como em uma ladainha. Não adianta ter fé, orar com força ou ser otimista se as causas dos problemas e vícios não forem enfrentadas.

A outra maneira de lidar com tempo é a sabedoria. É disso que fala o poeta no Salmo 90: ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio. A sabedoria não chama de belo o que foi feio, nem finge que o mal não aconteceu. Também não se engana com o futuro. Sabe que a vida continua sendo uma mistura de aflição e prazer. Que há coisas que melhoram e coisas que pioram. Mas não se rende a um conformismo suicida. Olha para o que passou e aprende. Olha para o futuro como um tempo não definido e toma as decisões que importam.

Tenho compartilhado com alguns amigos uma impressão sobre o ano de 2007. Talvez o ano mais difícil e dolorido dos vinte e seis da história da Betesda. Acredito que o ano de 2007 ainda será o ano mais importante de nossas vidas. O ano em que nossas ilusões desmoronaram (e é sempre muito melhor viver sem ilusões). Em que o discurso prepotente de uma jovem igreja teve que dar lugar a uma confissão de fraqueza. Em que as pretensões de gigantismo, vaidosas e distantes do Reino proposto por Jesus Cristo, cederam lugar para projetos mais afetivos e modestos, que se parecem muito mais com o modo como Ele andou entre nós.

Zuenir Ventura escreveu uma obra que relata os acontecimentos terríveis da Ditadura Militar no ano de 1968, o tema escolhido é significativo: “1968, O Ano Que Não Terminou”. Não terminou porque repercutirá para sempre na história do povo brasileiro. Ouso dizer que 2007 é um ano que não pode acabar. Ele precisa continuar em nossas vidas. Não como um remorso, ou como uma ferida aberta. Nem como um demônio a ser exorcizado. Mas como uma presença redentora. Um ano crucificado. Um ano em que aprendemos a morrer para descobrir o que realmente é viver. Um ano debaixo do sangue do Cordeiro. Não um ano para tirar lições, chega de reduzir a vida à doutrina, mas para arejar nossa humanidade. O ano que nos terá inspirado a amar mais e esperar menos. A lamentar menos e cuidar mais. A abraçar mais e avaliar menos. A doutrinar menos e crer mais. A fazer menos e ser mais. A estender mais a mão e prometer menos. Mais vida e menos estratégias. Mais misericórdia e menos religião. Mais Betesda e menos denominação.

 

Um 2008 com menos expectativas e muito mais Graça para todos,

 

Elienai Cabral Junior

 

A visão de um menino é encantada, vê no pai um deus, diria Freud. Olhar para o pai aos 36 anos é perigoso, é enxergar um homem. Olhar para o pai sendo eu também pai é ainda mais arriscado, é enxergar-me idêntico. Olhar para o pastor sendo um pastor é entender o que demorei
em descobrir. A força de sua paixão por Deus contagiou-me com um único sonho possível, servir ao mesmo Deus no mesmo ofício.

Não foi no púlpito que descobri sua fé. Na verdade, quando ele subia ao púlpito, impressionavam-me muito mais os olhos arregalados do auditório. Da admiração de todos admirava-me.

Foi nos flagrantes de seus segredos que descobri sua fé. Menino inquieto que sempre fui, abri portas de repente. Pela fresta, quarto escuro, murmúrio de oração, línguas estranhas, um homem prostrado ao lado da cama. A voz rouca do pregador afinou em contrição. O rosto de outrora, brilhando do suor da tarefa, pregador afogueado em gotas, ali era um rosto com o brilho das lágrimas do quebrantamento, meu pai aos pés de Cristo.

Deus é mais real quando ninguém vê, exceto o menino da fresta da porta. Foi por aquela fresta que Deus entrou na minha vida. Deus tem a cara e a concretude desta cena. Deus, em minha vida, tornou-se tão real quanto a cena inesperada. No púlpito, deixei de me empolgar com a empolgação do auditório. Fascinou-me saber ali o que ninguém mais sabia. O segredo de sua eloqüência residia lá
em casa. Naquele auditório apenas eu sabia porque ele pregava assim. Eu vi o crente bem antes do púlpito.

Nas histórias de Monteiro Lobato, Visconde de Sabugosa era um boneco feito de uma espiga de milho que criou vida. Tornou-se sábio porque vivia na biblioteca da casa. Meus pais impuseram-nos esta cena familiar. Fomos, eu e Tamara, criados entre os livros. Os livros estavam por todos os cantos. Nos sofás, no banheiro, na mesa de jantar, nos corredores, nas estantes abarrotadas deles. Aprendi bem cedo a gostar de livros. Enquanto via meu pai estudá-los e escrevê-los, tornou-se natural a fé pensada. Surpreendi-me todas as vezes que alguém colocou a fé em oposição às letras. Novamente, eu vi um homem atrás da escrivaninha antes de se colocar atrás de um púlpito.

Não consigo lembrar-me dos meus pais em uma briga. Já busquei esta lembrança. Ela não existe. Sei que tiveram diferenças e crises. Mas as colocaram em lugar devido. Lembro deles, um dia, um, outro dia, o outro, passando em frente ao meu quarto bem cedo, de pijama ainda e xícara na mão, desfilando o cheiro do café que acordaria na cama do casal o que ainda estivesse dormindo. Gosto desta cena singela. Gostava de saber que se amavam. Eu vi o que ninguém viu. Privilégio de quem conheceu o pregador de pijama. Vi meu pai amar minha mãe antes de pregar amor atrás do púlpito.

O púlpito carregou meu pai para longe de casa muitas vezes. Suas voltas eram sempre aguardadas com festa. Gostávamos dos presentes, das fotos, das aventuras contadas. Mas o que eu gostava mesmo era de ouvir sua voz rouca pelos compartimentos da casa. Gostava de ver no rosto de minha mãe a sua felicidade, coisa de mulher amada. Também a vi chorar e reclamar sua presença. Coisas da ausência que suas voltas apagavam. Mas há uma lembrança dessas voltas que luto para que não se apague. Nela há mais sensações que palavras e imagens. Lembro do colo de meu pai. O seu casaco vinho e com zíper (devo ter inventado esta informação na cabeça de menino) tinha uma textura agradável e quente. Lembro de sentir-me acolhido e feliz enquanto me levava de algum lugar para qualquer outro, não importa, estava no seu colo. Prega, homem do púlpito, o menino já sabe que é amado. Ninguém mais ali ouviu de você o que eu ouvi. Ouvi seu coração no colo do seu amor, ouvi o som do afeto bem antes de ouvir sua pregação.

Quem me segue que também eu não o siga?

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