Se já compreendemos a espiritualidade cristã como uma vivência no Espírito Santo, precisamos, sucintamente, discernir o trabalho da pessoa do Espírito Santo em nossas vidas. O Espírito Santo é o dom de doação de Deus. Ele é Deus presente em nós. É por si só tudo o que Deus tem a nos oferecer. Toda a compreensão, todo o sentimento, toda a realidade, todo o gênesis da vida em comunhão com Deus é o Espírito de Deus.

O Espírito Santo faz encontrarem-se nossas paixões, gostos, individualidades, valores, habilidades e a proposta divina de fazer de nós pessoas melhores, a medida em que nos parecemos com o seu Filho, plenitude de Deus e plenitude de gente. O nome desse encontro poderíamos chamar de igreja. O nome desse trabalho de fazer encontrarem-se nossas verdades e as verdades do céu poderíamos chamar de dons espirituais.

           Yves Congar refere-se ao Espírito Santo como a pessoa sem rosto. Nas palavras de Jesus, o Espírito é aquele que vem para falar do Cristo e não de si mesmo (Jo 16) Isto significa que o papel do Espírito é imprimir em nós o rosto de Cristo e não o seu mesmo. Cristo o chama de parákleto, traduzido por Consolador ou Conselheiro, mas que literalmente significa o que está ao lado, como um advogado de defesa, ou um médico. O trabalho do Espírito Santo é conduzir-nos a viver à imagem de Jesus, ou ainda, contribuir para o nosso crescimento na direção da pessoa de Cristo. Paulo explica aos Efésios a função dos dons na igreja (Ef 4.12-13): com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.”

           O Espírito anuncia as palavras de Cristo, lembra as verdades do evangelho de Cristo, convence do pecado, da justiça e do juízo(Jo 14.26; 16.5-16). Paulo, aos Corintios, afirma que ninguém diz que Jesus é Senhor se não for pelo Espírito(1Co 12.3). Aos Romanos, ensina que o Espírito confirma a paternidade de Deus(Rm 8.1-17) Iesus Kyrios e Abba são revelações do Espírito Santo. O Espírito revela-nos o senhorio de Cristo e a paternidade de Deus. O Espírito Santo é a pessoa da trindade que nos conduz para o relacionamento pessoal com o Pai e o Filho. O Espírito Santo é o dom de Deus que nos apresenta à intimidade do Deus trino.Isto significa que a espiritualidade cristã é um exercício de submissão ao trabalho do Espírito Santo em nós. Espiritualidade é o resultado de uma vida que, guiada pelo Espírito, encontra-se com a pessoa do Pai e do Filho. Encontro que nos imprime a identidade do Filho, que nos transforma à imagem de Jesus. E esta é uma experiência mística e racional. É o milagre da Graça que nos faz filhos de Deus; são os milagres dos dons, com os quais nos edificamos mutuamente. É o esforço de compreender os propósitos de Deus revelados em Jesus.O misticismo e o racionalismo são na prática humana de viver no Espírito desvios do olhar. Ambos impedem-nos de desenvolver o relacionamento pessoal com o Pai e com o Filho. Sobre isso, o Dr. James Houston afirma:

“A erudição a respeito de Deus, ou a religiosidade no nome de Deus, podem, sutilmente, tornar-se substitutos de uma relação pessoal com Deus.”[2]

            O fato é que o relacionamento pessoal com Deus é uma experiência que, antes de ser aconchegante e agradável, é desgastante. Toda relação pessoal implica em descoberta de si mesmo. Tornar-se íntimo de alguém significa entrar em contato consigo mesmo, seus pecados e verdades mais profundos. Qualquer tentativa de se esquivar do encontro íntimo inviabiliza o verdadeiro relacionamento. Esta foi a dificuldade de Pedro quando avisado por Jesus, com os demais discípulos, de que todos se dispersariam ao ser ferido o “Pastor”. O impulso de Pedro de negar a realidade da vida íntima, de fingir não ser e agir como desnudado por Jesus, o levou a um desgaste ainda maior. Seu fracasso interior foi trazido à tona por Jesus com o sinal altissonante do canto do galo. Cristo volta, ressurreto, vai tratar com Pedro de sua intimidade doída. A tríplice repetição da pergunta: “Pedro, tu me amas?”, também implicou em desgaste, a ponto de Pedro entristecer-se pela insistência de Jesus. O resultado do desgaste do ufanismo, das manias de conveniência, do vício da superficialidade, da auto-confiança infantil foi um Pedro reafirmado, na intimidade, agora pelo seu Senhor, é Jesus que vai dizer que tem uma fidelidade que durará até à morte.

O desgaste que sofremos no relacionamento pessoal pode ser chamado de santificação, em que os traços do pecado são desgastados para que surjam em nós outros traços, vestígios da santidade de Deus. São as manias, apetites, o egoísmo do pecado que se desgastam na experiência da adoração, do olhar pessoal para o Pai e o Filho. Paulo ensina aos Efésios(4.22-25) e aos Colossenses(3.8-10):

 

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem http://, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. Portanto, cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de um mesmo corpo. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem http://com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador. 

            Outro exemplo deste desgaste no relacionamento pessoal com Deus está na Carta à igreja de Laodicéia, no Apocalipse. Jesus revela a esta igreja todo o seu descontentamento, é uma igreja que deixa Deus doente – com vontade de vomitá-la. Laodicéia se acha auto-suficiente, Jesus denuncia sua nudez, pobreza e cegueira, e aconselha que compre dele ouro refinado no fogo, roupas brancas e colírio, na ironia de Jesus, um convite à mudança. Mas este desgaste espiritual, que fará dela uma igreja verdadeiramente rica, vestida de santidade e com uma visão saudável, acontece em uma resposta de amor propondo na intimidade de uma refeição compartilhada (Ap 3.19-20): Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.”

            O relacionamento pessoal com Deus, promovido pelo Espírito Santo, desgasta em nós a força embrutecedora do pecado, o egoísmo. A tentação humana de resguardar o egoísmo cria fantasias, máscaras, escamas para fugir ao desgaste. Na Carta aos Romanos(1.18-32), Paulo denuncia as fantasias do egoísmo. Deus colocou a pessoa humana em um mundo repleto de vestígios de sua presença, “pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou”. O mundo da criação é um “mundo enigmático” (Karl Barth), um mundo com vestígios de um Criador. Um mundo que impõe um enigma, uma questão para a mente humana: quem está por trás de tudo isso que é tão maior do que eu? No entanto, mesmo conhecendo o enigma, negaram a pessoa do Criador através de artifícios, ou, fantasias do egoísmo. Paulo parece sugerir ao menos duas: o racionalismo (“mas os seus pensamentos se tornaram fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se”, 21b.) e a idolatria, ou misticismo (“trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador”, 25).

            O misticismo e o racionalismo substituem o relacionamento pessoal. O misticismo o faz no superaquecimento das emoções e forças do inconsciente. O racionalismo o faz no congelamento dos afetos e afastamento da experiência pessoal. Ambos realizam, por mecanismos distintos, o mesmo movimento do egoísmo, substituem o trabalho do Espírito Santo pelo trabalho do espírito humano. Terminam sendo fantasias com as quais escondemos nosso egoísmo, evitando o desgaste do relacionamento pessoal com Deus.

            Uma boa espiritualidade transcende às fantasias do egoísmo. Encara o outro e acolhe o desgaste.


[1] CONGAR, Yves. I Believe in the Holy Spirit. Citado por Tom Smail
em A Pessoa do Espírito Santo. Edições Loyola, São Paulo. Pág. 33.

[2] HOUSTON, James. Orar com Deus. Editora Abba Press. Pág. 16.

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