Acordei meio século depois de tudo, com a festa de sempre. A Bete com a bandeja do café da manhã, as crianças cantando os parabéns e o cachorro latindo e pulando na cama. Divertido ver que o cachorro já sabe e entra na festa sempre. É assim que a gente faz aqui em casa a cada comemoração. Adoro.


Assim que todos seguiram sua rotina, o silêncio trouxe a imagem e a voz da minha mãe, ela gostava de contar que no dia que fez 50 anos, entrou debaixo do chuveiro e tomou um longo e ritual banho, enquanto as mulheres da igreja aguardavam na copa para as homenagens. Ela dizia devagar e suave, tomei um banho demorado, não deixei ninguém interromper a despedida. Fiz o mesmo.

Deixei a água escorrer generosa no meu corpo de 50, despedindo-me de quem não consegui ser e seus tolos ressentimentos; deixei ir pelo ralo o luto narcíseo que teimava desde os 40, a pressa de ser que me atropelou nos 30, o deslumbre juvenil de recomeçar do zero todos os malfeitos da humanidade nos 20, os medos que ainda me assombram desde os 10, o desespero de me afirmar desde que sei de mim.

Enquanto me enxugava da despedida, olhei-me nu refletido no espelho. Fiz isso por longos e contemplativos minutos. Admirei a obra do tempo. Achei-me bonito. Por favor, nem precisaria dizer que falo de uma beleza que nada tem a ver com a estética da moda, de um corpo malhado na academia, barriga tanquinho e bíceps torneados. Óbvio que não. Reverenciei o que foi feito de mim. Vi a força da genética que reproduziu bastante do meu velho, ombros estreitos, braços finos, a formação do peito não muito peludo; a despeito de ter 15 centímetros a mais de altura e uma barriga que a prática da corrida não deixa crescer muito; pernas pouco musculosas, os cerzidos da pele pelos tombos de menino, as caneladas do futebol; pés proporcionais ao tamanho, o calo de sangue que denuncia a pisada desequilibrada nas passadas dascorridas de rua. O corpo da minha história, o divino acontecimento de existir.

No corpo nu, vi o que venho fazendo com o que fizeram de mim. O corpo que sou. Ele é o que venho improvisando, ora para sobreviver, ora para existir com mais graça; nele minha vida foi desenhada, feita em linhas oblíquas e surpreendentes, dobras da resiliência, marcas do que encontrei e perdi e amei, os termos do mundo em mim.

A pele enruga de tanto que resistiu, que tensionou na dor e no medo, mas distendeu nos prazeres e felicidades; rompeu nas quedas e pancadas, cicatrizou, escamoteou, arrepiou-se, suou, ressecou-se, inundou-se em tantos mares e rios; acolheu amores, tateou mistérios, afligiu-se, ressentiu-se, cedeu, descansou; depois de chuvas, sóis, ventanias e brisas, beijos, apertos, abraços, frios e calores, trabalhos e conquistas, saudades. Mundos chegaram a mim pela pele, essa que vi ali, mal refletida.

A cicatriz debaixo do braço, na altura do sovaco esquerdo, cresceu comigo desde o evento dos 6 anos de idade, na estripulia de subir nos muros proibidos da vizinhança, escorreguei de um e fiquei pendurado na lança de ferro da cerca; nas mãos, as costas dos dedos guardam pequenas cicatrizes, do velocípede que empurrava ladeira acima e virou sobre mim, aos 4 ou 5 anos. A catapora também espalhou seu rastro nos meus 13.  Queimaduras e cortes da cozinha que amo, mas segue desajeitada. O tempo cerziu as marcas dos acontecimentos e narra as desventuras e os imprescindíveis erros para chegar até aqui; somos feitos de feridas, tombos, esbarrões, acidentes que não nos deixam esquecer que a vida é pra valer e o destino,incerto, acidental, mas sempre inédito e desafiador.

Entretanto, a pele guarda também íntimas e invisíveis verdades; gostos, cheiros, toques do que aprendi a fruir na vida; abraços que encerraram mágoas e desencontros, prazeres que celebraram amores; os arrepios e alegrias e choros de uma maratona concluída; o colo e o carinho que me ninou menino e me acalmou adulto e não mais terei; minha mãe, que deu o seu último fôlego de vida há quase 3 anos, respira ainda em mim e anima em segredo minha vida, sobrevivo das memórias que trago da Arézia; um corpo é feito de despedidas e saudades, sou também a presença de ausências.

Ainda à frente do espelho, contemplo o sacramento da vida, a minha eucaristia; não me pertenço, sou muitos e outros e tantos a perder de vista, mas que sovaram meu corpo feito um pão e encharcaram minha vida feito vinho. Não sou para mim, condenado ao amor, à imagem do Deus de Jesus, este é o meu corpo e eu o dou a vocês.